"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 28 de março de 2015

Informe Global Talent Competitiveness Index 2014

Insead: Global Talent Competitiveness Index 2014 Report

Onésimo Alvarez-Moro - El Blog Salmón
No início deste ano, a escola de negócios, Insead, trouxe o Global Talent Competitiveness Index 2014 (o índice de competitividade de talentos 2014 - PDF ), que nos diz que os países mais competitivos têm de atrair os melhores talentos em recursos humanos.
O crescimento e a produtividade
O informe 2014 GTCI  enfoca o papel do crescimento do talento e a melhoria da competitividade dos países. O índice é dominado por países europeus, com apenas seis países não europeus no top 20: Cingapura (2) Estados Unidos (4), Canadá (5), Austrália (9) Nova Zelândia (16) e Japão (20) .
Os vinte países com a maior pontuação em no GTCI 2014 são todos países de alta renda, o que não é surpreendente, uma vez que os países ricos tendem a ter melhores universidades e maior capacidade de atrair talentos estrangeiros através de uma maior qualidade de vida e de remuneração, tornando-os mais competitivos em talento.
Insead: modelo para o índice
Pontos chave
Os seis principais fatores que impactam a competitividade de talentos entre os países com diferentes níveis de PIB e desenvolvimento são:
  • A abertura é chave para a competitividade do talento: Suíça, Cingapura e Luxemburgo têm um elevado grau de abertura ao comércio, investimento, migração e novas ideias, aberto à globalização e a aproveitar seus recursos humanos.
  • Países fiscalmente estáveis ​​precisam de competitividade do talento para o desenvolvimento sustentável: países ricos em recursos naturais e em energia ou os que tenham vantagem competitiva devem promover a competitividade de talentos para garantir um bem-estar duradouro.
  • O crescimento do talento pode ser interno ou externo: Alguns países, como os EUA e a Europa se concentram com sucesso no desenvolvimento de talentos dentro de suas próprias fronteiras, enquanto outros, como a China atrai talentos estrangeiros ou envia suas elites ao exterior para ensino superior. Embora  não difa, a política de imigração também tem um papel importante.
  • Os países devem considerar a empregabilidade ou o risco de cair no desemprego: Ao desenvolver o talento necessário para atender as reais necessidades de uma economia nacional.Suíça, Cingapura e os países nórdicos personalizam seus sistemas de ensino para canalizá-los para as habilidades de trabalho necessárias.
  • Os sistemas de educação precisam repensar a educação tradicional: O desenvolvimento de talentos no século XXI deve ir além da educação formal tradicional e incluir o desenvolvimento de competências profissionais. É que o treinamento também conta.
  • A tecnologia está mudando o significado de habilidades de trabalho: As mudanças tecnológicas terão impacto em novos segmentos do mercado de trabalho, o que terá um impacto sobre os 250 milhões de trabalhadores do conhecimento em todo o mundo.
Insead: el top 20
A Espanha é a No. 30 e o Chile, o primeiro país latino-americano, algo melhor, 27 classificado.
Pistas para subir na lista
Os países que ocupam os mais altos postos são aqueles que atendem o seguinte :
  • investir mais na aprendizagem ao longo da vida, através de programas de formação escolar e profissional
  • oferecer maior flexibilidade e mobilidade no mercado de trabalho
  • desfrutar de uma reconhecida tradição de ser aberto à imigração
  • manter suas sociedades abertas
  • manutenção de estilos de vida sustentáveis
Anos atrás, embora não muitos, o Professor Gary Becker enfocou muitos de seus estudos sobre o capital humano e os elementos que afetam o capital humano.
Professor Gary Becker já disse
Professor Becker ganhou o Prêmio Nobel de Economia, como o Comitê Nobel disse, "por ter estendido o domínio da análise microeconômica para uma ampla gama de comportamentos e interação humana, incluindo o comportamento não-mercadológico".
Professor Becker ressaltou que é preciso levar em conta as características específicas, necessidades e limitações das diferentes categorias de trabalhadores, empregos e competências existentes . Acontece que estas questões são cruciais para impulsionar a produtividade.
Conclusão
Este índice nos ajuda a ver o que importa no mercado de trabalho e como melhorar esse mercado para garantir a criação de postos de trabalho, para ter trabalhadores devidamente qualificados para os empregos que estão sendo criados e para aumentar a produtividade.
Nada disso tem a ver com o que é o coração da suposta 'reforma trabalhista' (O autor s e refere à Espanha) tão celebrada por políticos, empregadores e sindicatos. A suposta solução que traz essa "reforma trabalhista" centra-se na redução infinito de salários dos trabalhadores, a eliminação de direitos trabalhistas e facilitando o despedimento.

PIB CRESCE 0,1% EM 2014 E ATINGE R$ 5,52 TRILHÕES

PIB2014n

No ano de 2014, o PIB variou 0,1% em relação a 2013. A estabilidade do PIB resultou da variação positiva de 0,2% do valor adicionado e do recuo nos impostos (-0,3%). Nessa comparação, a Agropecuária (0,4%) e os Serviços (0,7%) cresceram e a Indústria caiu (-1,2%). Em 2014, o PIB alcançou R$ 5,52 trilhões (valores correntes). O PIB per capita ficou em R$ 27.229, com queda (-0,7%), em volume, em relação a 2013.

Em relação ao terceiro trimestre, o PIB do quarto trimestre de 2014 cresceu 0,3%, levando-se em consideração a série com ajuste sazonal. A Agropecuária teve expansão de 1,8%, a Indústria manteve-se praticamente estável (-0,1%) e os Serviços cresceram 0,3%. Na comparação com o quarto trimestre de 2013, o PIB variou -0,2%, sendo que o valor adicionado a preços básicos variou -0,2%, e os impostos sobre produtos -0,6%. A Indústria recuou (-1,9%), enquanto os Serviços (0,4%) e a Agropecuária (1,2%) tiveram variação positiva.

Em relação ao 3º tri de 2014, PIB varia 0,3%

Na comparação com o 3º trimestre do ano, Agropecuária (1,8%) e Serviços (0,3%) cresceram, enquanto a Indústria ficou estável (-0,1%). 

Nos Serviços, o crescimento foi puxado por serviços de informação (1,4%), intermediação financeira e seguros (1,3%) e outros serviços (1,0%). Atividades imobiliárias (0,7%) e comércio (0,6%) também registraram expansão. Já as atividades de transporte, armazenagem e correio (0,0%) e administração, saúde e educação pública (-0,1%) mantiveram-se estáveis no período.

Dentre os subsetores que formam a Indústria, eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana (1,8%) e construção civil (0,9%) cresceram no período. A extrativa mineral (0,0%) manteve estabilidade em relação ao trimestre anterior. Já a indústria de transformação sofreu queda (-1,6%).

Pela ótica do gasto, a despesa de consumo das famílias cresceu 1,1% em relação ao trimestre anterior. Por outro lado, tanto a formação bruta de capital fixo (-0,4%) quanto a despesa de consumo do governo (-0,6%) recuaram. No setor externo, as exportações (-12,3%) e as importações (-5,5%) de bens e serviços caíram em relação ao terceiro trimestre.

PIB varia -0,2% em relação ao 4º trimestre de 2013

Quando comparado a igual período do ano anterior, o PIB apresentou variação de -0,2% no quarto trimestre de 2014. Dentre as atividades econômicas, a Agropecuária teve expansão de 1,2% e a Indústria apresentou queda (-1,9%). Nesse contexto, a indústria de transformação foi o destaque negativo (-5,4%).

A construção civil e a Eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana apresentaram redução no volume do valor adicionado (-2,3% e -5,9%, respectivamente). Já a extrativa mineral cresceu 9,7% em relação ao quarto trimestre de 2013.

O valor adicionado de Serviços cresceu 0,4% na comparação com o mesmo período do ano anterior, com destaque para atividades imobiliárias (3,0%) e serviços de informação (1,9%). Também apresentaram resultado positivo as atividades de intermediação financeira e seguros (1,3%), outros serviços (1,1%) e transporte, armazenagem e correio (0,8%). Já no comércio (atacadista e varejista), houve queda (-2,9%). A atividade de administração, saúde e educação pública manteve-se praticamente estável, com variação de -0,1%.

Dentre os componentes da demanda interna, a formação bruta de capital fixo recuou (-5,8%). A despesa de consumo das famílias cresceu 1,3%, enquanto que a despesa de consumo do governo variou em -0,2%. Já no setor externo, as exportações (-10,7%) e as importações (-4,4%) de bens e serviços apresentaram queda.

Em 2014, PIB varia 0,1% e PIB per capita recua 0,7%

O PIB em 2014 manteve-se praticamente estável em relação ao ano anterior, com variação positiva de 0,1%. Em 2013, o crescimento acumulado no ano foi de 2,7%. Já o PIB per capita alcançou R$ 27.229 (em valores correntes) em 2014, após ter recuado (-0,7%), em termos reais, em relação a 2013. Em 2013, o crescimento do PIB per capita foi de 1,8% em relação a 2012.

A estabilidade do PIB resultou da variação de 0,2% do valor adicionado a preços básicos e do recuo (-0,3%) nos impostos sobre produtos líquidos de subsídios. O resultado do valor adicionado neste tipo de comparação refletiu o desempenho das três atividades que o compõem: Agropecuária (0,4%), Indústria (-1,2%) e Serviços (0,7%). O recuo dos impostos reflete, principalmente, a redução, em volume, do Imposto de Importação (-4,7%) e do IPI (-1,7%) – decorrentes, em grande parte, do desempenho negativo da indústria de transformação no ano.

A variação em volume do valor adicionado da Agropecuária (0,4%) decorreu do desempenho de várias culturas importantes, que registraram crescimento de produção, como a soja (5,8%) e a mandioca (8,8%), mas apontaram perda de produtividade. Vale ressaltar também que algumas culturas tiveram variação negativa na estimativa de produção anual, como, por exemplo, cana-de-açúcar (-6,7%), milho (-2,2%), café (-7,3%) e laranja (-8,8%).

Na Indústria, destacou-se o crescimento da extrativa mineral, que avançou 8,7% no ano, influenciado tanto pelo aumento da extração de petróleo e gás natural quanto pelo crescimento da extração de minérios ferrosos. Já a construção civil e eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana caíram (-2,6%). O desempenho desta última foi influenciado pelo maior uso das termelétricas, sobretudo a partir do segundo trimestre do ano.

A indústria de transformaçãoteve queda (-3,8%), influenciada pela redução do valor adicionado da indústria automotiva (incluindo peças e acessórios) e da fabricação de máquinas e equipamentos, aparelhos elétricos e produtos de metal. Esse resultado foi parcialmente contrabalançado pelo crescimento de outras atividades, com destaque para a indústria farmacêutica, a fabricação de produtos de limpeza e perfumaria e a fabricação de bebidas.

Dentre as atividades que compõem os Serviços, o comércio sofreu queda (-1,8%). Os demais serviços acumularam crescimento no ano de 2014, com destaque para serviços de informação (4,6%), atividades imobiliárias (3,3%) e transporte, armazenagem e correio (2,0%). Administração, saúde e educação pública cresceu 0,5%, seguida por intermediação financeira e seguros (0,4%) e outros serviços (0,1%).

Na análise da despesa, o recuo da formação bruta de capital fixo (-4,4%) foi o destaque. A redução é justificada, principalmente, pela queda da produção interna e da importação de bens de capital, sendo influenciada ainda pelo desempenho negativo da construção civil neste período. Em 2013, a formação bruta de capital fixo havia crescido 6,1%.

A despesa de consumo das famílias desacelerou em relação ao ano anterior (quando havia crescido 2,9%) e cresceu 0,9%. Se, por um lado, a massa salarial dos trabalhadores cresceu, em termos reais, 4,1% entre 2013 e 2014, por outro o crédito com recursos livres para as pessoas físicas deixou de crescer em termos reais. A despesa do consumo do governo cresceu 1,3%, mas desacelerou em relação a 2013 (2,2%).

No setor externo, tanto as exportações (-1,1%) quanto as importações (-1,0%) de bens e serviços tiveram queda. Entre as exportações, os destaques negativos foram a indústria automotiva (incluindo caminhões e ônibus) e embarcações e estruturas flutuantes. Por outro lado, produtos siderúrgicos, celulose e produtos de madeira apresentaram crescimento. Já nas importações, a queda foi puxada por máquinas e equipamentos e indústria automotiva (incluindo peças e acessórios). Apresentaram crescimento óleo diesel, tecidos e bebidas.

A taxa de investimento no ano de 2014 foi de 19,7% do PIB, abaixo do observado em 2013 (20,5%). A taxa de poupança foi de 15,8% em 2014, ante 17,0% em 2013.



Fonte: IBGE

O precoce fim do bônus demográfico no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
população economicamente ativa

O debate sobre a relação bidirecional entre população e desenvolvimento (P&D) ficou centrado, durante muito tempo, nos efeitos do crescimento demográfico sobre as taxas de aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Porém, após o fenômeno da transição demográfica (redução das taxas de mortalidade e natalidade) a atenção se deslocou para os efeitos da estrutura etária da pirâmide populacional sobre o desenvolvimento econômico e social.
A redução das taxas de fecundidade (número médio de filhos por mulher) implica em um estreitamento imediato da base da distribuição de sexo e idade da população, um alargamento, no médio prazo, da parte central da pirâmide e um adensamento, no longo prazo, do topo da pirâmide etária.
Como resultado do primeiro movimento e no transcurso das primeiras décadas posteriores ao início da queda da fecundidade (quando a pirâmide fica mais parecida com um botijão de gás), a população em idade ativa (PIA) cresce em ritmo superior ao da população total. Este efeito puro, transitório pela própria natureza, decorrente da mudança da estrutura etária é conhecido como bônus demográfico.
Se a população economicamente ativa (PEA) acompanha o crescimento da PIA, a taxa de crescimento do PIB per capita tende a ser maior do que a taxa de crescimento da produtividade do trabalho. Quando isto acontece, o bônus demográfico está sendo colhido e dando frutos, o representa um estímulo ofertado pela demografia ao crescimento econômico, à redução da pobreza e à melhoria do bem-estar social.
O bônus demográfico (ou dividendo demográfico ou janela de oportunidade) acontece quando a razão de dependência demográfica se reduz (resultante do aumento da relação entre produtores e consumidores efetivos na população). Ou seja, o bônus cresce na medida em que há um grande contingente da população em idade produtiva concomitantemente a um menor percentual de crianças e idosos no total da população. Se o desempenho econômico e institucional do país for positivo haverá aproveitamento da janela de oportunidade demográfica.
O gráfico acima mostra que, em 1950, a população economicamente ativa (PEA) era de 17,1 milhões de pessoas para uma população total de 51,9 milhões de habitantes. Isto quer dizer que havia 33% de pessoas ocupadas e/ou procurando emprego no Brasil. Essa relação caiu nos vinte anos seguintes, atingindo o nível mais baixo (31,3%), em 1970. Ou seja, antes da transição da fecundidade havia uma pessoa na PEA para cada duas pessoas fora da PEA. Isto é, um produtor efetivo tinha que sustentar dois outros consumidores, além de si próprio. Pode-se dizer, grosso modo, que uma renda originária do trabalho era repartida por três pessoas.
Após a transição da fecundidade (que se generalizou pelo país depois de 1970) a PEA começou a crescer em ritmo mais rápido do que a população atingindo 35,6% em 1980, 39,8% em 1991, 45,7% em 2000 e quase 50% em 2010. Pode-se dizer, então, que uma renda passou a ser repartida somente entre duas pessoas em 2010. Neste processo, cresceu a capacidade de consumo, poupança e investimento dos cidadãos brasileiros. Somente pelo efeito da mudança da estrutura etária e do bônus demográfico, ceteris paribus, a renda cresceu cerca de 50% entre 1970 e 2010. A demografia atuou no sentido de facilitar o crescimento da renda per capita, garantindo avanços sociais e maiores direitos de cidadania.
Por definição, o crescimento econômico é igual ao incremento da força de trabalho multiplicado pelo aumento da produtividade das pessoas ocupadas (via aumento do estoque de capital, progresso técnico e aumento do capital humano). Segundo as séries históricas do IPEADATA, entre 1970 e 2010, o PIB brasileiro cresceu, em termos reais, 438%, a população cresceu 105% e o PIB per capita cresceu 163%. O crescimento populacional e a mudança da estrutura etária contribuíram para transformar o Brasil em uma das dez maiores economias do mundo.
Porém, como dito anteriormente, o bônus demográfico é um fenômeno temporário e tem prazo de validade. Adicionalmente, pouco contribui o fato de haver muitas pessoas em idade produtiva se a situação do mercado de trabalho não garante o pleno emprego e o trabalho decente. Também, pouco contribui a redução da razão de dependência demográfica se os jovens não conseguem se inserir adequadamente nas atividades produtivas e se há uma retirada precoce do mercado de trabalho.
Infelizmente, na conjuntura atual, o Brasil está deixando de colher os últimos frutos oferecidos por uma situação demográfica ainda favorável. As tendências observadas entre 1970 e 2010 poderiam ser estendidas facilmente até 2020 e, com esforço, até 2030. Todavia, parece que as políticas macroeconômicas do país estão contribuindo para o fim precoce do bônus demográfico brasileiro.
Os dados dos censos demográficos nos dão uma noção clara dos ganhos do bônus demográfico entre 1970 e 2010. Para o período mais recente precisamos acompanhar os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). No primeiro caso, a série da PNAD do século XXI mostra que a estrutura etária brasileira continua favorável. Entre 2001 e 2013 a População em Idade Ativa (PIA) passou de 65,2% para 68,8%, enquanto a razão de dependência demográfica (população de 0-14 anos + população de 65 anos e mais dividida pela população de 15-64 anos) caiu de 53,3% para 45,2%. Isto quer dizer que cresceu a população em idade ativa e diminuiu a população em idade considerada dependente. Mas para colher este bônus em potencial seria preciso que o mercado de trabalho oferecesse as vagas necessárias para incorporar a disponibilidade de mão de obra.
Contudo, a PNAD mostra que a relação da População Economicamente Ativa (PEA) com a PIA cresceu e acompanhou a relação da PIA com a população total (POP) somente até 2005, declinando ligeiramente até 2009 e caindo rapidamente no período 2011-2013. A relação entre a população ocupada (PO) e a PIA apresentou melhor desempenho, pois houve redução do desemprego no período. A relação PO/PIA passou de 54,8% em 2001 para 57,6% em 2009. Isto quer dizer que o bônus demográfico estava sendo “colhido” (mesmo que de forma parcial). Mas houve queda da PO/PIA entre 2011 e 2013.

po x pea

Ou seja, embora a razão de dependência demográfica ainda esteja em declínio e em nível muito baixo no Brasil, o ritmo de geração de emprego perdeu fôlego desde o final da década passada e, mesmo com baixas taxas de desemprego até 2013, os dados da PNAD mostram que o bônus demográfico não está sendo aproveitado em decorrência do fraco desempenho econômico. Havia esperança que o declínio da relação PO/PIA fosse temporário e que houvesse recuperação no restante da década. Porém, os dados da PME confirmam a piora das condições do mercado de trabalho e a crise econômica de 2015 indica um colapso dos níveis de emprego.
Vejamos então os dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE que fornecem informações atualizadas do mercado de trabalho para as seis maiores regiões metropolitanas do país (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre). O gráfico mostra que a taxa de atividade (PEA/PIA) ficou aproximadamente estável entre setembro de 2003 (58,2%) e novembro de 2012 (58,1%), mas declinou desde então e atingiu o nível de 55,8% em fevereiro de 2015.
A relação entre a população ocupada e a população em idade ativa (PIA) cresceu desde o início da nova série histórica, em março de 2002 (quando estava em 47,9%) e atingiu o pico de 55,3% em novembro de 2008. A população ocupada cresceu enquanto a PEA permanecia aproximadamente constante porque houve redução das taxas de desemprego (a taxa de desemprego da PME atingiu o valor máximo em agosto de 2003 com 13,1% das pessoas desocupadas). Embora as taxas de desemprego tenham se mantido baixas em 2013 e 2014, a relação entre a população ocupada e a população em idade ativa (PIA) decresceu desde novembro de 2012 (quando estava em 55,3%), atingindo o valor de 52,3% em fevereiro de 2015. O percentual de população ocupada em fevereiro de 2015 é equivalente ao mês de agosto de 2009 (quando estava em 52,2%).

po x pea

Ou seja, o mês de fevereiro de 2015 mostrou uma estabilidade na relação PEA/PIA, mas como houve aumento do desemprego de 5,3% em janeiro para 5,9% em fevereiro de 2015 a relação PO/PIA caiu para os níveis dos meados de 2009, quando a crise nacional e internacional estava no auge. Assim, os dados da PME também mostram que o bônus demográfico não está sendo aproveitado em decorrência do fraco desempenho econômico mesmo nas regiões metropolitanas mais dinâmicas do país. E o quadro deve piorar.
Tanto os dados da PNAD, quanto os dados da PME mostram que o ritmo de geração de emprego e de crescimento da população ocupada em relação à PIA perdeu fôlego principalmente após o final do ano de 2012. O tamanho da PEA e da População Ocupada (PO) é menor no início de 2015 do que era no início de 2010. Ou seja, considerando que o bônus demográfico acontece quando a população ocupada (PO) cresce em ritmo superior ao da população total, pode-se dizer que o bônus demográfico no Brasil terminou em 2012, pois o mercado de trabalho estagnou na segunda metade do primeiro governo da presidenta Dilma Rousseff e tende a entrar em desfalecimento em 2015.
A análise do comportamento do mercado de trabalho formal – a partir das bases estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – mostra que houve crescimento do emprego em todos os anos entre 1996 e 2014. Desde o início do século (2001) até 2013 houve a geração de quase 16 milhões de postos de trabalho, com uma média de 1,2 milhão de empregos formais por ano. Este tipo de emprego geralmente é mais produtivo e garante direitos trabalhistas para a população trabalhadora.
Porém, o CAGED aponta a geração de apenas 152 mil empregos em 2013, sendo que, em 2015, houve perda de 81.774 empregos em janeiro e perda de 2.415 empregos em fevereiro. A consultoria MB Associados estima uma perda de 645 mil empregos formais em 2015. Seria o primeiro ano, em duas décadas, a apresentar redução dos postos de trabalho. Este é mais um indicador do fim do bônus demográfico. Nota-se que o problema não está na dinâmica da razão de dependência demográfica, mas na falta de dinamismo do crescimento econômico e do emprego.

emprego formal

Considerando somente o lado demográfico, a janela de oportunidade continuaria aberta entre os anos de 2020 e 2030, fechando progressivamente nas décadas seguintes. Todavia, a razão de dependência só voltaria aos níveis do ano de 1970 no final do século XXI. Desta forma, haveria espaço para aproveitar as condições demográficas favoráveis pelo menos até 2030.
Mas para tanto, seria fundamental incorporar um maior número de brasileiros e brasileiras ao mercado de trabalho. Segundo dados da PNAD, enquanto a PEA em 2013 era de 103,4 milhões de cidadãos, havia 70 milhões de pessoas de 10 anos ou mais fora da PEA. Somente entre os jovens de 15 a 29 anos havia cerca de 10 milhões de indivíduos que não estavam nem trabalhando e nem estudando, a chamada “geração nem-nem”. No outro extremo do ciclo de vida, havia uma grande quantidade de pessoas fora da PEA entre a população acima de 50 anos, pois o Brasil é conhecido como um dos países onde a idade média de aposentadoria é uma das mais baixas do mundo.
Todavia, ao contrário do esperado, a falta de dinamismo da economia brasileira tem contribuído para a estagnação da população economicamente ativa. A deterioração das condições econômicas do Brasil é reconhecida até mesmo pelo Boletim Focus do Banco Central que prevê, para 2015, inflação acima da meta, altas taxas de juros e queda de pelo menos 0,6% do PIB. Nesse modelo em que prevalece baixas taxas de poupança e investimento, não é de se estranhar que a população ocupada se reduza e o desemprego aumente, sem perspectivas de grandes mudanças estruturais.
Na verdade, houve uma regressão produtiva nos últimos anos, pois o país passa por um claro processo de desindustrialização e de reprimarização da economia. Ao mesmo tempo, o Brasil tem um grande déficit em transações correntes, grande déficit público nominal (inclusive déficit primário em 2014), aumento das dívidas interna e externa, perda de competitividade, baixa produtividade do trabalho, reduzida qualidade da educação e grande déficit da previdência num processo de rápido envelhecimento populacional. O potencial produtivo da população em idade de trabalhar nunca foi totalmente aproveitado no Brasil, mas tem entrado em situação crítica após 2012, com reversão do bônus demográfico.
A relação entre população ocupada e PIA chegou ao pico entre 2008 e 2012 (fim do bônus) e agora vai se reduzir gradualmente. Ou seja, o ritmo de crescimento da população ocupada será menor do que o ritmo de crescimento da população. Haverá menor proporção de “produtores” e maior proporção de “consumidores”. Embora a demografia ainda pudesse servir de estímulo para a economia, os baixos níveis de poupança e investimento não ajudam na geração de emprego e a inserção produtiva. Talvez não seja coincidência que as manifestações de rua de junho de 2013 e março de 2015 tenham acontecido justamente quando o mercado de trabalho perdeu dinamismo, a despeito de haver taxas de desemprego aberto relativamente reduzidas.
Há quem diga que a situação da economia brasileira é conjuntural e que haverá, em breve, depois do ajuste fiscal, retomada do crescimento do PIB e do emprego. Porém, com a continuidade da Operação Lava-Jato de combate à corrupção, a crise na Petrobras e a desorganização da cadeia produtiva dos combustíveis fósseis será difícil voltar ao ciclo de crescimento do emprego e da renda das famílias. As crises hídrica e energética somente agravam a situação.
Na verdade, houve uma regressão produtiva no Brasil nos últimos anos, pois há um claro processo de desindustrialização e de reprimarização da economia. O Brasil tem passado por uma situação de grande déficit em transações correntes, grande déficit público nominal (inclusive déficit primário em 2014), aumento das dívidas interna e externa, aumento da inflação, aumento dos juros, perda de competitividade, baixa produtividade do trabalho, reduzida qualidade da educação e grande déficit da previdência num momento de rápido incremento dos benefícios da seguridade social. O potencial produtivo da população em idade de trabalhar nunca foi totalmente aproveitado, mas tem entrado em situação crítica após 2012, com reversão do bônus demográfico. O Brasil está em estágio de aceleração do processo de envelhecimento populacional (aumento da razão demográfica dos idosos) antes mesmo de ter conseguido resolver os problemas básicos de inclusão social.
Exatamente pelos motivos acima, há quem considere que a presente crise econômica é estrutural e que estamos diante de uma nova década perdida, sem perspectiva de uma forte retomada da economia, do emprego e da renda. A elevação dos juros nos Estados Unidos e uma possível perda do “grau de investimento” no Brasil podem gerar um choque cambial que impactará negativamente a economia brasileira e dificultará o aumento dos investimentos produtivos, necessários para o crescimento do emprego.
Na maioria das vezes, a população foi vilã no debate sobre P & D. Contudo, neste momento da história brasileira é a crise do modelo de desenvolvimento que está emperrando a abertura da janela de oportunidade demográfica. Se prevalecer o cenário mais dramático traçado acima, podemos assistir, com pouca chance de erro, a uma crise de longo prazo no mercado de trabalho. Além do retrocesso das conquistas sociais dos últimos 20 anos, seria o fim definitivo e precoce da colheita do bônus demográfico no Brasil.
Referências:
ALVES , J. E. D. O Bônus Demográfico e o crescimento econômico no Brasil. Rio de Janeiro, Aparte, Inclusão Social em Debate, IE-UFRJ, 06/12/2004. Disponível em:

ALVES, J. E. D., BRUNO, M. A. P. População e crescimento econômico de longo prazo no Brasil: como aproveitar a janela de oportunidade demográfica? In: XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 2006, Caxambu. Anais do XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Campinas: ABEP, 2006.http://www.abep.nepo.unicamp.br/encontro2006/docspdf/ABEP2006_302.pdf
ALVES , J. E. D. A transição demográfica e a janela de oportunidade. Braudel Papers. São Paulo, v.1, p.1 – 13, 2008.http://fernandonogueiracosta.files.wordpress.com/2010/08/transicao_demografica.pdf
ALVES, José Eustáquio Diniz. Como medir o tempo de duração do Bônus Demográfico?
Instituto Fernand Braudel de Economia Internacional, São Paulo, p.1-4, maio 2008.

ALVES, J. E. D., VASCONCELOS, D. CARVALHO, A.A., Estrutura etária, bônus demográfico e população economicamente ativa: cenários de longo prazo e suas implicações para o mercado de trabalho. Texto para Discussão, 10, Cepal/IPEA, Brasília, pp. 1-38, 2010. Disponível em:

ALVES, JED, A janela de oportunidade demográfica do Brasil, Recife, Revista Coletiva, FJN, No 14, mai/ago, 2014


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Publicado no Portal EcoDebate, 27/03/2015

sexta-feira, 27 de março de 2015

Dívida pública e políticas anticíclicas na América Latina

A sustentabilidade das políticas fiscais e a possibilidade da aplicação de políticas anticíclicas, que estimulem o crescimento e o desenvolvimento, estão relacionadas ao nível da dívida pública, sua composição e perfil de vencimentos.
Segundo estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, considerando um conjunto de 19 países, houve um largo período de aumento da proporção da dívida pública em relação ao PIB (1970 a 1989), como mostra o gráfico abaixo, seguido por fases de redução (1990 a 1997 e 2004 a 2008).
Entre 1998 e 2003 houve também um ligeiro aumento. Entre 2009 e 2014, os dados mostram uma estabilização da relação. É notável que após a crise financeira internacional de 2008-2009 a relação dívida púbica e PIB tenha se mantido praticamente estável para a média dos 19 países considerados da América Latina, situando-se em cerca de 34% do PIB em 2014.
Além da queda da dívida pública entre 2003 e 2008, houve uma modificação da sua composição: extensão dos prazos, maior participação da dívida a taxa fixa, aumento da proporção de residentes como credores e um crescente peso das dívidas em moeda local.
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Os dados por país mostram que, entre 2000 e 2014, a proporção da dívida pública quanto ao PIB caiu em 11 dos 19 países analisados, em 5 aumentou (Chile, El Salvador, México, República Dominicana e Uruguai) e em 3 se manteve praticamente constante (Costa Rica, Guatemala e República Bolivariana da Venezuela), como mostra o gráfico abaixo.
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O Brasil tem o percentual de dívida pública mais alto da América Latina (cerca de 62% do PIB), mas em termos de dívida líquida o valor é muito inferior.
O estudo da Cepal mostra que, em geral, dado o nível da dívida pública na América Latina, ainda existe espaço fiscal para aplicar políticas anticíclicas e potencializar o desenvolvimento produtivo na região.

Texto de http://brasildebate.com.br/

A oligarquia financeira e midiática e o furto da democracia

Luiz Gonzaga Belluzzo analisa a atual conjuntura brasileira e debate como o neoliberalismo se apropriou do Estado

Por: Ricardo Machado - Revista IHU On Line

De poucas mas contundentes palavras, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo é muito direto ao analisar a atual conjuntura econômica e política do Brasil. Tem um jeito calmo de falar, mas é firme nas análises. “O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo”, dispara, em entrevista por telefone à IHU On-Line. Para ele, a “exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, levantando problema para vícios como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica, a resistência daqueles que, na verdade, conseguem ter maior apropriação da riqueza e do poder”, avalia.

“O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, do despotismo daquilo que se imagina que seja a economia”, descreve Belluzzo. Na opinião do professor, a despeito da ausência de uma tradição democrática mais contundente no Brasil, há uma crise global mais ampla, “onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo”, frisa. Frente a este cenário, o pesquisador argumenta que há, para além de todas as complexidades, uma espécie de ódio de classe, cujos odiados são os pobres. “Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas", critica.

Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito pela Universidade de São Paulo - USP, mestre em Economia Industrial pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal e doutor em Economia pela Universidade de Campinas – Unicamp. Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, atualmente, é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. É autor, entre outros, de O capital e suas metamorfoses (São Paulo: Unesp, 2013), Os antecedentes da tormenta: origens da crise global (Campinas: Facamp, 2009) e de Temporalidade da Riqueza - Teoria da Dinâmica e Financeirização do Capitalismo (Campinas: Oficinas Gráficas da UNICAMP, 2000). Depois da Queda (BELLUZZO, Luiz Gonzaga e ALMEIDA, Júlio Gomes de. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002).
A entrevista foi publicada no sítio do IHU, dia 21-03-2015. 
Confira a entrevista.

IHU On-Line – Frente a atual crise econômica, há alternativas que derivam de uma perspectiva não alinhada ao modo capitalista dominante na atualidade?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Essa é uma questão que exige muita investigação porque se imaginarmos que houvesse uma alternativa ao capitalismo, devemos considerar autores como Wolfgang Streeck  — ele escreveu um livro chamado Tempo Comprado – A crise adiada do capitalismo democrático (Coimbra: Actual, 2013) — ou como István Mészáros . Quando o Marx  falou na superação do capitalismo, ele se referiu a uma transfiguração interna que propõe a superação como uma possibilidade, mas não como um desfecho inevitável. Socialismo ou barbárie, ele proclamou. O que está acontecendo hoje no mundo inteiro revela que a economia capitalista está atormentada cada vez mais por contradições internas que sugerem algumas soluções de ultrapassagem, que não encontram forças sociais e políticas capazes de levar adiante um processo de transformação. 
Em sua configuração atual, o capitalismo global parece incapaz de incluir a sociedade em seu movimento. O capitalismo colocou um espartilho na sociedade e empurrou muita gente para fora do jogo. A exclusão não é mais um fenômeno do capitalismo periférico, mas um fenômeno do capitalismo central, como o desemprego dos jovens, o desemprego estrutural causado pela transformação tecnológica que não encontram solução diante da resistência daqueles que se apropriam das engrenagens da riqueza e do poder. Isso tudo cria um clima muito grave e não pode ser tratado de maneira abstrata. É preciso que se aglutinem as forças sociais capazes de levar adiante esta transformação. Obviamente não se vai reinventar o socialismo soviético, uma experiência histórica desastrada e cruel, não seria desejável. Então é preciso encontrar um novo caminho, chamado por Marx de democratização radical da sociedade. Não consigo vislumbrar um encadeamento de forças capazes de fazer isso. 
Vamos tomar o exemplo da política econômica brasileira, a do ajuste fiscal. O que ela revela? 
As forças que elegeram a Dilma são as mais vulneradas pelo ajuste fiscal. A tentativa de se fazer um ajuste fiscal de cima para baixo não vai funcionar porque a presidente não tomou em conta aqueles que a elegeram. É o vezo tecnocrático. 
Voltamos ao capitalismo. “Salvar o capitalismo” é uma missão que já foi atribuída a Keynes , o que é uma impropriedade, porque ele não queria salvar nada, senão conduzir a sociedade à boa vida, como mostram os biógrafos dele. Estou escrevendo um livro sobre ele chamado “Keynes além da economia”, para mostrar que ele tinha uma visão muito mais profunda e ampla da sociedade do que os economistas tentam fazer crer com o propósito de transformá-lo no idiota dos déficits orçamentários e da política fiscal.

IHU On-Line – O que se pode esperar de uma política econômica sustentada na opinião de agências internacionais de riscos que, meses antes do Lehman Brothers  quebrar, avaliaram o banco com a melhor nota AAA?
Luiz Gonzaga Belluzzo - As ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Isso se transformou em um instrumento poderoso de persuasão e não somente as agências de risco, mas também as auditorias, estão sendo avaliadas negativamente, sobretudo as que têm a obrigação de dar transparência às empresas, aos balanços, aos negócios. Ao contrário, elas contribuem para ocultar. As agências de risco são estelionatárias, não têm nenhuma legitimidade, no entanto o que se observa é que os pigmeus ou gigantes do mercado ameaçam com essa redução da nota do Brasil, com a perda do grau de investimento. Isso é uma forma de constranger os países, assim como foi feito no passado de outra maneira, como na Crise de 1930, durante o final do século XIX início do século XX, feito pelos Money Doctors , agora é feito através das agências de risco que são essas auditorias que fazem as maiores falcatruas, mas são consideradas guardiãs da transparência e da moralidade. 
O que se tem hoje é uma supremacia exercida também por intermédio dos meios de comunicação, totalmente submetidos a este tipo de perspectiva e isso acaba, por exemplo, na difusão de boatos como os de que a Dilma faria um “sequestro da poupança”. Isso é terrorismo. Não tem pé nem cabeça, é uma coisa criminosa, mas isso é feito de dentro do mercado por um sujeito que se diz funcionário de um banco e as pessoas acreditam. Então vivemos em uma sociedade de massas tecnológica que se comunica através dos whats apps da vida, difundindo uma interpretação das coisas do mundo que revela “o medo da verdade”, como dizia o filósofo Theodor Adorno, medo de um certo grupo que envolve os mercados financeiros, a grande imprensa internacional.

IHU On-Line – Trata-se de um complexo sistema biopolítico?
Luiz Gonzaga Belluzzo – É o que o Foucault  explicou em O nascimento da biopolítica (Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2008). Isso não é uma questão da supremacia do mercado, mas da forma como se governa. O neoliberalismo não é a advocacia da supremacia do mercado, não é a postulação da supremacia do mercado, mas, ao contrário, é a ocupação do lugar do Estado para que se possa governar a partir das regras da concorrência. É a isso que estamos assistindo. Um sistema, na verdade, ultradiscricionário, com o poder concentrado em poucas instâncias, com uma massa de pessoas manipulada pela opinião dominante. Em um país com as carências culturais gravíssimas como o Brasil tem, essa carência de espírito crítico afeta muito menos os desfavorecidos e muito mais os que se consideram informados e qualificados. Não vou falar cultos porque eles não sabem direito o que isso significa.

IHU On-Line – Após a reunião do Ministro Joaquim Levy com a Standard and Poors , na primeira semana de março, ele prometeu “ajustes estruturais”. De que ordem devem ser tais ajustes? Como fica o papel do Estado neste contexto?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um exemplo claro de que ele (Joaquim Levy ) teve que ajoelhar no milho para a Standard and Poors. Isso é um clássico. Eu comentei dos Money Doctors, que eram, na verdade, emissários dos banqueiros ingleses que vinham aqui ensinar os nativos como eles deviam se comportar em relação às políticas econômicas. O Estado nacional está sendo devastado pelo despotismo da economia, ou melhor, pelo despotismo daquilo que se imagina que seja a economia. Eles operam as questões como se fosse um jogo de lego e não levam em conta a resistência das pessoas e entidades sociais, o que causa o desgaste muito grande do governo, porque o Estado se apequenou e não exerce o seu papel de mediador entre as visões e os interesses divergentes, que é sua função na democracia, e acaba servindo de instrumento para as ordens das agências de risco, que são os instrumentos que o mercado usa para “colocar ordem na casa”. 
Como defende Dani Rodrik , a experiência mostra que o movimento de entrada de capitais frequentemente prejudica os países e os coloca em dificuldades. É isso que acontece sempre no Brasil, nos períodos de bonança e crescimento há a entrada de capitais que depois se transforma em uma ameaça porque a política econômica fica à mercê dos humores deles. Criam-se problemas cambiais, problemas com as taxas de juros, e não há nenhuma liberdade para se fazer a política monetária e fiscal, sem contar as facilidades de sonegar e enviar dinheiro para a Suíça. A questão do Swissleaks  tem a ver com a globalização financeira, foi isso que abriu as comportas para que a sonegação e evasão de divisas se tornasse uma prática dos ricos. 
Keynes advertiu isso em seus trabalhos preparatórios à conferência de Bretton Woods.  Dizia que era preciso ter um controle muito rigoroso dos movimentos de capitais para inibir as instabilidades e as falcatruas fiscais. Por exemplo, há a ameaça de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, coisa que será feita com muito cuidado, porque se ela subir, os ativos dos países emergentes vão sofrer e isso significa a desvalorização do câmbio, a subida da taxa de juros para conter a saída. Mas, depois do chamado Quantitative Easing, a estrutura de ativos dos bancos americanos está povoada de títulos do governo muito valorizados e a subida imprudente dos juros vai jogar os preços para baixo. Pode ocorrer um crash e a economia americana também vai sofrer. 

IHU On-Line – De que forma esta lógica coloca em causa qual é o verdadeiro poder soberano, a democracia ou a economia de mercado?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu li o Yanis-Varoufakis , o ministro grego, e quando lhe perguntam sobre o déficit democrático ele solta uma gargalhada. Ele diz: “Déficit democrático? Não se tem democracia”. A democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais. Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiática que manda no mundo.

IHU On-Line – Do que se trata, exatamente, o princípio da “Santíssima Trindade” da “teologia” dos economistas?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A “Santíssima Trindade” é o tripé macroeconômico. A economia transformou-se, como disseram Adorno  e Horkheimer  na Dialética do esclarecimento (Rio de Janeiro: Zahar, 1985), no mito. A economia cria figuras como o tripé que eu comparei à Santíssima Trindade, na realidade a uma espécie de Santíssima Trindade, porque junto com o mistério há uma riqueza maior que essa banalidade do tripé. Depois de 1971, quando Friedman  advogou a taxa de câmbio flutuante nas economias centrais — ou seja, nas economias que têm moedas conversíveis — ele estava pensando nos interesses dos Estados Unidos. Aliás, o câmbio flutuante só é interessante para países que têm moeda conversível, para os demais as condições são muito menos favoráveis, porque a volatividade é desastrosa. 
As pessoas não sabem direito o que é o sistema monetário. A dificuldade de lidar com isso é muito grande. O problema é que fazem o Brasil lidar com isso como se fosse a Zona do Euro ou a China, que na verdade se precatou contra isso ao acumular 4 bilhões de dólares de reserva e impôs controles de capitais. Já os países ditos emergentes, toda vez que há qualquer incidente cambial, ficam mais vulneráveis e isso afeta as taxas de juros. É isso que eu falei, de que temos uma teologia do tripé, se é que se pode chamar isso de teologia. Eu como fui seminarista dos jesuítas penso que isso é um desrespeito com a teologia.

IHU On-Line – Uma argumentação recorrente, inclusive defendida pelo Ministro da Fazenda, é de que o país precisa cortar gastos e continuar elevando os juros. Mas como resolver esta contraditória equação se o principal gasto do Estado é, justamente, com os juros? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um ponto importante. Afinal, cortar gastos de quem, cara-pálida? Cortar gastos do seguro desemprego, de alguns incentivos que foram dados às empresas via concorrência externa de desoneração, corta-se o Fundo de Financiamento Estudantil - Fies, etc. Então se vai em cima dos mais frágeis. Esta amarração da política econômica faz com que haja uma transferência brutal de riqueza para os rentistas, que no Brasil são os bancos e os seus clientes ricos. É para eles que transferimos os recursos em dinheiro que são capturados de quem paga impostos, ou seja, dos assalariados, aqueles que compram alguma coisa e têm que pagar os impostos. É preciso ver o que está por trás disso, então se cortam os gatos dos setores mais frágeis, que têm menor resistência. Naturaliza-se isso, porque pagar juros tornou-se algo como a lei da gravidade, ninguém discute esse aspecto da estrutura tributária e da estrutura de gastos. Eles querem cortar o Bolsa Família, é o que gritam os paneleiros aí na rua, pois acham que isso não serve, não é bom, e que eles ganham dinheiro trabalhando, o que é mentira.

IHU On-Line – De que forma a dívida externa brasileira, desde sua aquisição com os militares, impacta na fragilização do setor industrial brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – A dívida externa do governo é baixíssima por causa da acumulação de reservas. Hoje quem está endividado é o setor privado, com R$ 208 bilhões de dívida de empresas, onde boa parte delas não está protegida. Então se tem uma desvalorização cambial que prejudica gravemente o balanço das empresas, pela desvalorização cambial. O impacto da dívida, do câmbio e dos juros nas empresas é muito grande e isso afeta o nível de atividade, porque em um primeiro momento as empresas vão tentar se proteger, evitar novos investimentos. Isso é uma consequência, comentada há tempo por estudiosos da questão, o chamado descasamento da moeda. Fatura-se em real, mas se deve em dólares. 

IHU On-Line – A balança comercial brasileira tem demonstrado, na média, desde 2003 um pequeno superávit das exportações em relação às importações (em 2014 foi negativa), mas a principal matriz exportadora é de commodities. Como o senhor avalia esses dados? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – O superávit que se tinha recentemente é o do agronegócio, da exportação de commodities e tem a ver com a subida de preços até 2010. O ciclo de commodities começou em 2003 e foi até 2009. Agora os preços estão caindo, por isso que se começou a apresentar déficit na balança comercial. O déficit da indústria é uma coisa pavorosa, já ultrapassou os R$ 100 bilhões.  

IHU On-Line - Quais os desafios para o país retomar a industrialização e deixar de ser um exportador primário?
Luiz Gonzaga Belluzzo – O Brasil teve uma reprimarização da pauta de exportação ao longo do tempo desde os anos 1990. Essa reprimarização significa que o estímulo à exportação de manufaturas do tempo dos militares foi desmontado ao longo das décadas e, ultimamente, se agravou. Fizemos isso no momento em que a China entrou no cenário competindo, principalmente, em preços. A indústria brasileira sofreu um golpe importante nesses anos todos e recentemente ela está muito enfraquecida. Uma das questões é não permitir mais a variação cambial, que é fundamental, mas não se pode restringir a isso apenas. O Brasil tem a possibilidade de desenvolver uma política industrial embutida nos investimentos do pré-sal e de infraestrutura, assim como a tentativa de criar um elo mais forte entre o desenvolvimento do agronegócio, uma atividade muito avançada tecnicamente e os setores industriais.

IHU On-Line – Tentando compreender a questão política em seu sentido mais amplo a partir da economia, de que maneira a democracia é permanentemente tensionada pelo capitalismo? Como isso se caracteriza no caso brasileiro?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Eu brinco que a ideia do Estado Democrático de Direito não “pegou” aqui. Há vários movimentos de esforço que acabaram malsucedidos ou não foram concluídos por conta da estrutura social que se tem aqui. Recentemente houve um processo econômico de inclusão, passando por inclusão de conhecimento — foi muita gente para dentro da escola, etc. —, mas isso ainda é uma coisa muito precária. Não temos, na verdade, uma tradição de contribuir à democracia para além de sua simples dimensão econômica. Ela não se sustenta só nisso, é preciso que se tenha a formação de uma cultura democrática. Temos ainda, dentro da sociedade, uma resistência muito grande aos valores democráticos. 
A democracia europeia foi fustigada muito tempo pelo capitalismo, mas aqui no Brasil não se consegue fazer avançar, não se consegue dar passagem na sociedade democrática que inclui a transformação do cidadão, que ele seja capaz de compreender melhor sua situação. Não se trata apenas de uma ascensão do cidadão, mas de sua capacidade de compreensão, daquilo que está sendo obnubilado pela mídia, por exemplo. Esse passo é muito complicado e precisamos de uma política deliberada para se fazer isso. Precisamos de um debate amplo para que o cidadão tenha a capacidade por si mesmo de saber qual a importância de sua liberdade e de sua autonomia.
Vou contar uma história. Um amigo, dono de uma empresa, foi cumprimentar o jardineiro que estava com as mãos sujas e o jardineiro não pôde dar as mãos e ele deu um abraço no jardineiro. O empregado ficou absolutamente surpreso porque disse que nunca havia sido tratado dessa maneira. Esse episódio revela muito mais do que um abraço, isso é o Brasil.

IHU On-Line – O senhor considera que há um ódio de classe no Brasil?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é uma dimensão do que acabei de relatar. Em geral, os mais bem postos, os ricos, não veem as pessoas. Eles começaram a ver. As pessoas começaram a aparecer nos aeroportos, nos supermercados e à medida que elas começaram a aparecer se tornaram repulsivas, “eles não são o que nós somos”, ou seja, não conseguem reconhecer o outro, a alteridade. Eles não são nossos semelhantes, aí está a origem dessa coisa toda, o resto é tudo conversa mole — da Dilma ao ajuste fiscal. Eles (os ricos) perderam a eleição e durante o pleito vimos como se portaram não reconhecendo o outro, que mora no mesmo espaço jurídico-político deles. No Brasil essa é que é a barreira fundamental. Eu sempre digo que não houve liberalismo político aqui. Marx reconheceu que isso era uma invenção fantástica da ascensão burguesa e por isso queria a democracia radical.

IHU On-Line - Como a crise da economia reflete a crise do humanismo evidenciada em nossas sociedades? 
Luiz Gonzaga Belluzzo – A crise da economia que estamos vivendo agora e os remédios que estamos tentando administrar para debelar a crise é expressão mais escancarada desta desumanização que estamos observando. É a desumanização dos diferentes. Alguém teve a ideia de fazer um “dia do orgulho hétero”, por que isso? Será que o cara não percebe? Eu tenho algumas reservas às políticas de gênero, raça, credo. Na minha opinião elas devem ser universais, dirigida a todos, independente de raça, credo, etc., mas por que alguém vai criar um “dia do orgulho hétero”? Afinal de contas, são os gays e as mulheres que são assassinados. O momento exige um status especial às mulheres para que não sejam agredidas, temos que caminhar na direção da universalidade, na tentativa de minorar as diferenças. Só que no Brasil as forças sociais que mandam no país tratam de acentuar as diferenças.

IHU On-Line – Que Brasil teremos nos próximos quatro anos?
Luiz Gonzaga Belluzzo – Temos dificuldade de saber o que vai acontecer na próxima semana. A única coisa que eu posso fazer é uma aposta, uma aposta na estabilidade institucional, seria um horror se nós tivéssemos um golpe. Aposto na luta democrática pelo Estado de Direito para avançar no debate democrático como sugeriu Keynes, um economista que eu admiro. Era um aristocrata, mas queria que o homem se livrasse das garras da economia.

Alerta de lucro

por Michael Roberts
A estimativa final do PIB dos EUA no quarto trimestre de 2014 saiu hoje. O crescimento real do PIB americano foi deixado sem revisão em 2,2% ano-a-ano nos últimos três meses do ano e a cifra para o conjunto de 2014 foi sem revisão de 2,4%. Os economistas convencionais estavam dispostos a sugerir que o atual trimestre em 2015 terminando esta semana poderia mostrar uma elevação.
Mas nenhum mencionou o desenvolvimento realmente importante - que os lucros das empresas caíram no quarto trimestre, aumentando o risco de uma nova queda do investimento em 2015-16. Os lucros caíram 30,4 bilhões de dólares no quarto trimestre, em contraste com um aumento de 64,5 bilhões de dólares no terceiro. Isso parece, principalmente devido a uma queda nos lucros do exterior como a força do dólar impulsionou as rendas recolhidas em outras moedas para baixo. Isto significava que os lucros das empresas eram mais baixos em 0,2% a um ano e são somente 0,8% em 2014 em comparação a 2013.
Em posts anteriores, eu argumentei que o investimento em lucros por unidade; e o investimento líder do crescimento real do PIB nas economias capitalistas - o oposto, por sinal, é a sequência causal alegado pelos keynesianos, que o vêem como despesas de consumo e investimento levando a renda e, portanto, os lucros (ver meus muitos posts sobre esta questão, https://thenextrecession.wordpress.com/2012/06/26/profits-call-the-tune/ 
e o excelente artigo de Tapia Granados 

Em 2014, havia sinais claros de que o crescimento do lucro das empresas nos EUA seria desacelerando, veja meu post 
Argumentei que, quando os lucros corporativos ficam lentos, cerca de seis meses ou um ano mais tarde, também fará com  o investimento empresarial. Bem no Q4 de 2014, os lucros foram negativos pela primeira vez desde o início da Grande Recessão em janeiro de 2008. O tempo antes que era no início da recessão branda de 2001. Agora, como o gráfico abaixo mostra, que gostaria de sugerir uma nova queda de investimento antes do fim do ano.

US lucro e investimento das empresas
E não é apenas os lucros corporativos americanos. Eu tenho seguido os lucros das empresas em algumas das principais economias capitalistas, ou seja, os EUA, Reino Unido, Japão, China e Alemanha. Combinados o crescimento dos lucros corporativos tem diminuído acentuadamente, passando de 11% face ao ano anterior para apenas 3,2% no final de 2014. Na verdade, o crescimento do lucro das empresas tem sido muito fraco desde o fim da Grande Recessão em comparação com antes e agora parece estar perdendo força.
Lucros das empresas globais
Este se reflete nos números de lucros industriais da China, também  hoje para os dois primeiros meses deste ano. Os lucros caíram 4,2% em relação ao mesmo período de 2014, a maior queda desde o início de 2012.
Os últimos dados atualizados para os EUA significa que também se pode fazer uma boa facada na evolução da taxa de lucro americana até 2014. Eu atualizei a estimativa usando as mesmas fontes, categorias e métodos adotados no meu papel para um taxa de 'conjunto da economia "de lucro (ver meu artigo, O ciclo de ganhos e recessão econômica).
Para aqueles de vocês que gostam de saber como recebo os meus resultados em detalhe (e há muitos de vocês!), Basta dizer, que eu usei o Bureau of Economic Analysis NIPA contas. Recebo a renda líquida americana interna bruta (PIB menos consumo de capital) e remuneração de empregados de NIPA Tabela 1.10 e o capital social a partir das tabelas de ativos fixos NIPA 6.1 (para medidas de custo atual) e 6.3 (para as medidas do custo histórico). Além disso, na minha taxa de medida de lucro, eu incluo capital variável (remuneração de empregados) no denominador - algo que quase todos os outros analistas não fazem. Eu não vou explicar por que diferem de outros neste momento (há papel inédito sobre isso por mim e G Carchedi); novamente basta dizer que, se a taxa de lucro é medida com ativos fixos apenas como o denominador, não faz uma diferença decisiva.
Taxa de US de lucro 2014
Meus resultados mostram que a taxa de  lucro americana caiu em 2014, se medido em um custo atual ou com base no custo histórico para o ativo imobilizado e depreciação, pela primeira vez desde o início da Grande Depressão.
No gráfico, os dados confirmam mais uma vez o que eu e muitos outros economistas marxistas argumentaram (ao contrário de Thomas Piketty, entre outros) que a taxa de lucro americana tem estado em declínio secular desde o fim da segunda guerra mundial. Houve uma época de ouro 1946-1965, quando a rentabilidade sustentada (pelo menos na medida do custo atual), mas, em seguida, houve um período de rentabilidade em queda acentuada (o período de crise) de 1965 a 1980-2. De 1982 a 1997 houve um renascimento significativo na rentabilidade (com base no custo atual) e uma pequena elevação, ou fim do declínio (em uma base do custo histórico) - o período neo-liberal, se você gosta. A partir de 1997, a taxa  de lucro americana entrou numa fase descendente. Desde o fim da Grande Recessão, a rentabilidade reviveu dos pontos baixos em 2009, mas ainda está abaixo do nível alcançado em 1997. E ela caiu em 2014.
A partir dos dados, podemos ver com mais detalhes como a rentabilidade mudou. Entre 1946 e 2014, a rentabilidade dos EUA no sector capitalista caiu 21% com base no custo atual e 29% em uma base do custo histórico. A maior parte da queda da taxa de lucro HC teve lugar entre 1946 e 1965, ao passo que com base no custo atual caiu bastante entre 1965 e 1982. Houve um renascimento entre 1982 e 1997, a era neoliberal, uma maior com base no custo atual. Desde 1997, a rentabilidade diminuiu.
mudanças em nós taxa de lucro
Como já expliquei antes, a medida mais próxima da taxa marxista de lucro requer o uso de medidas históricas de custos dos ativo imobilizados e da depreciação. Há uma queda exagerada e aumento da medida de custo atual em comparação com a medida do custo histórico, devido à inflação dos preços dos ativos fixos e depreciação do custo corrente. Mas a história de longo prazo é a mesma.
A lei da baixa tendencial da taxa de lucro de Marx é apenas isso. A taxa de lucro em uma economia capitalista tende a cair ao longo do tempo e vai fazer exatamente isso. Mas há períodos em que factores contraditórios entram em jogo, portanto, a tendência de queda não se materializa em uma queda real de um período de tempo. Assim, você pode obter um ciclo de lucro e de queda da rentabilidade seguido por um período de aumento da rentabilidade e, em seguida, uma nova queda, tudo dentro de um processo secular de declínio. A taxa de lucro americana nas exposições pós-guerra só que com um ciclo de 32-36 anos de cocho à calha (para saber mais sobre isso, ver meu livro, A Grande Recessão).
A lei de Marx diz que a taxa de lucro vai cair porque haverá uma composição orgânica crescente do capital (o valor do capital constante - máquinas, instalações e matérias-primas - vai subir mais rápido do que de capital variável - salários e benefícios pagos aos trabalhadores empregados). Os dados dos EUA confirmam isso. Há uma forte correlação inversa (-0,67) entre a composição orgânica do capital e da taxa de lucro. A composição orgânica do capital aumentou 20% entre 1946-2014 e a taxa de lucro caiu 20%. No período em que a rentabilidade aumentou, de 1982 a 1997, fatores contraditórios entraram em jogo, em particular, um aumento da taxa de exploração (mais-valia) e um barateamento do valor do capital constante que levou a uma queda na composição orgânica. Nesse período, a taxa de mais-valia cresceu 13% e a composição orgânica do capital caiu 16%. Eu calculo que o aumento da taxa de lucro 1980-2014 foi de dois terços, devido a um aumento da exploração do trabalho durante o período neo-liberal e apenas um terço devido à tecnologia mais barata. Novamente, isto apóia a lei de Marx.
Então, em suma, a taxa de lucro dos EUA caiu em 2014 pela primeira vez desde 2008 e a massa de lucros das empresas caíram em 2014 e foi negativo no último trimestre. O crescimento global do lucro das empresas também está a abrandar significativamente. Tudo isso sugere que os dias (anos?) Da recuperação econômica, tal como ela é, podem estar chegando ao fim. O ciclo econômico atual de crescimento e queda parece ser cerca de 8-9 anos. A calha da última queda foi de meados de 2009. Isso sugeriria que o próximo cocho seria de cerca de 2017-2018. E o pico antes da queda é geralmente 12-18 meses antes - por isso cerca de 2016-17.