"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 8 de agosto de 2015

Metamorfoses da dívida africana

Há décadas a dívida africana mobiliza a atenção das instituições financeiras internacionais e das associações que reclamam pura e simplesmente a sua anulação. Alguns países desendividaram-se graças ao aumento do preço das matérias-primas, porém, outros construíram novos passivos e são ameaçados por fundos abutres.

Artigo de Sanou Mbaye

As emissões de dívidas soberanas dos Estados subsaarianos devem atingir 6 mil milhões em 2015.
Na euforia das independências, conquistadas nos anos 1960, os países da África subsaariana quiseram romper com a divisão internacional do trabalho que lhes dava o papel de exportadores de matérias-primas e importadores de bens manufaturados. Esforçaram-se para diversificar as suas economias pela industrialização e ampliação das suas capacidades produtivas, mas chocaram imediatamente com uma dificuldade: com a notável exceção da África do Sul e da Rodésia (atual Zimbábue), na época governadas por uma minoria branca, nenhum desses países tinha acesso aos mercados internacionais de capitais por não possuírem a chave mágica entregue pelas agências de notação de risco. Foram então obrigados a limitar-se aos fundos privados garantidos pelos Estados, aos fundos bilaterais acordados pelo Clube de Paris (1) e aos fundos multilaterais emprestados pelas organizações internacionais: Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
Ao mesmo tempo, as receitas das exportações com as quais contavam para investir encolheram, principalmente em função da queda do preço mundial dos produtos agrícolas, cujo índice passou de 155 em 1977 para 94 em 2002. Os custos das importações, por sua vez, aumentaram sem parar. Em 1979, a alta das taxas de juros dos Estados Unidos, decidida unilateralmente para lutar contra a desvalorização do dólar, acabou por fazer explodir a dívida do continente.
Desse modo, para “higienizar” as suas contas, os países africanos voltaram novamente para as instituições financeiras internacionais. Estes ofereceram os “remédios que matam”: os programas de ajustamento estrutural (PAS) – os quais impõem a desregulação financeira, o livre-comércio, as privatizações, a redução dos salários, os cortes orçamentais etc. Estes programas multiplicaram-se, prescrevendo a todos a mesma poção liberal.
Juros das agências de notação
Através da iniciativa Países Pobres Muito Endividados (PPME), lançada em 1996, 36 países, dos quais trinta africanos, beneficiaram de uma diminuição total de 76 bilhões de dólares do valor das dívidas bilaterais e multilaterais. No entanto, segundo o Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM), estas medidas são um engano: o valor da dívida da África subsaariana passou de 2 bilhões de dólares em 1970 para 331 bilhões de dólares em 2012, apesar de os reembolsos efetuados no período chegarem a 435 mil milhões de dólares, o equivalente a quatro vezes o capital emprestado. (2)
Além disso, os países africanos enfrentam os fundos de investimento batizados de “abutres”. Estes compram a preço de banana, de “segunda mão”, dívidas de Estados em dificuldade. Aguardam o regresso destes países a uma situação normal (o fim dos problemas políticos, por exemplo) e convertem as dívidas perante jurisdições dos Estados Unidos e do Reino Unido para a cobrança das dívidas, dos atrasos de reembolsos e dos juros. Uma primeira onda atingiu a África entre 2000 e 2008, ano da crise financeira mundial. O número exato de ataques é difícil de avaliar, pois, para não afetarem sua imagem, os Estados preferem evitar a mediatização e negociam com os fundos abutres fora dos tribunais.
Segundo o FMI, dezassete processos foram iniciados contra PPME, dos quais quinze africanos. (3) Em abril de 2014, uma decisão do Tribunal de Recurso dos Estados Unidos deu razão à República Democrática do Congo (RDC) contra o fundo abutre FG Hemisphere Associates. Em primeira instância, este tinha obtido o direito de tomar bens da Sociedade Geral de Estradas e Minas (Gécamines) com a justificação de que esta deveria responder pelas dívidas do Estado ao qual pertence. O FG Hemisphere reclamava 104 milhões de dólares da RDC a título de um contrato de fornecimento de energia que não foi pago.
Obviamente, desde a crise financeira de 2008, os fundos abutres voltaram-se para os mercados europeus, mas nem por isso deixaram de lado a África. Em 2010, o BAD criou a Facilidade Africana de Apoio Jurídico (Faaj), a fim de sensibilizar os governos para a importância dos aspetos jurídicos da gestão da dívida soberana. A Faaj insiste na necessidade de serem acompanhados por conselheiros experientes.
Dois acontecimentos suscitam ao mesmo tempo uma esperança de desenvolvimento e um temor de reendividamento. Primeiro, a presença cada vez mais firme no panorama africano de países emergentes, como China, Índia, Coreia do Sul, Malásia, Turquia e Brasil. Desde o início dos anos 1990, as exportações de matérias-primas a preços melhores trouxeram um real benefício aos países da região. Isso aumentou as opções de crescimento econômico e deu-lhes uma hipótese de reduzir o saldo das suas dívidas graças ao crescimento das receitas externas.
Foi assim que a Nigéria, maior potência econômica do continente, pôde, em novembro de 2005, pagar dois terços dos 18 bilhões de dólares que devia aos credores do Clube de Paris. Em 2009, Angola tornou-se o principal parceiro comercial africano da China. Pequim anulou a dívida angolana, de 67,38 milhões de iuanes, e suprimiu as taxas de alfândega para as importações de 466 categorias de produtos em favor de Luanda. O mapa dos investimentos chineses recobre o dos recursos naturais preciosos: Sudão, Angola e Nigéria para petróleo; África do Sul para carvão e platina; RDC e Zâmbia para cobre e cobalto.
Se o envolvimento crescente de Pequim abre possibilidades, também traz riscos para o desenvolvimento africano. Os chineses tomaram o controlo de certas indústrias locais, adquirindo de uma só vez as cotas de exportação sobre os mercados ocidentais de produtos africanos como o têxtil. Pequim estuda o mercado da Etiópia, cujas exportações de têxteis cresceram 257% em dez anos. Da mesma forma, o modelo de cooperação adotado consiste num pacote que combina investimentos diretos, empréstimos concessionais (que compreendem uma parte em doações – em princípio, pelo menos 35%), comércio e ajudas públicas. Sem regras de repartição dos custos, nem sempre é possível determinar se os empréstimos concessionais são incluídos no valor da dívida ou são parte integrante da ajuda. Levando em conta o importante volume de empréstimos desse tipo, a preocupação quanto ao fardo futuro da dívida dos países africanos aumenta se, na ótica chinesa, os empréstimos concessionais forem assimiláveis à ajuda.
Segundo acontecimento: a abertura para a África dos mercados de capitais. Diversos países agora receberam a chave que constitui o grau de investimento atribuído pelas agências de notação de risco – Congo-Brazzaville, Costa do Marfim, Egito, Gana, Quênia, Moçambique, Uganda, Ruanda, Senegal e Zâmbia, principalmente. Essa nota revelou-se, na maioria dos casos, superior ou igual à de nações industrializadas como a Turquia, o Brasil ou a Argentina. O interesse dos investidores internacionais por estes mercados aumentou nos últimos anos. Consideram a maioria deles mercados intermediários a alto rendimento. Os investidores institucionais nacionais – tais como bancos, empresas de seguro ou fundos de pensões privados – e os investidores privados locais também são ativos.
Desde 2007, países como Senegal, Gabão e Gana levantaram centenas de milhões de dólares no mercado de capitais. A tendência é aumentar. O Quênia vai lançar um título de crédito de 25 bilhões de dólares para a construção de um segundo porto, de um gasoduto de 2 mil quilômetros e de uma estrada para o transporte do petróleo a partir do Sudão do Sul. (4) Na Etiópia, a barragem da Renascença foi financiada graças a títulos subscritos pelos próprios etíopes.
Entre os países africanos que souberam atrair os capitais privados pela emissão de títulos, figura o Ruanda, cujo Banco Central emitiu os seus primeiros empréstimos em dólares em abril de 2013. Segundo o index Bloomberg, os investidores obtiveram um nível de rentabilidade da ordem de 9,3%, o que é superior à taxa de 6,6% gerada pelos mercados dos países emergentes. Como explica Aboubacar Fall, presidente do Conselho de Gestão da Faaj, “esse sucesso financeiro deve-se essencialmente à boa qualidade das reformas estruturais empreendidas pelo Ruanda há diversos anos, assim como à diversificação das bases de sua economia”. (5)
Os medos de Christine Lagarde
Segundo a agência de notação de risco Fitch, as emissões de dívidas soberanas dos Estados subsaarianos devem atingir 6 mil milhões em 2015, depois do recorde de 6,25 mil milhões no ano passado. Quênia, Costa do Marfim, Gana e Senegal consideram levantar este ano entre 500 milhões e 1,5 bilhões no mercado de capitais.
Esse agravamento de empréstimos pode gerar o temor de uma nova crise da dívida. Em maio de 2014, durante um encontro em Maputo, Moçambique, a diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, revelou-se preocupada a banqueiros, ministros da Economia e bancos centrais da África subsaariana: “Os governos deveriam mostrar-se atentos e prudentes, a fim de não sobrecarregarem os seus países com dívidas públicas”, alertou, antes de precisar que, ainda que isso representasse “um financiamento suplementar”, era também “uma vulnerabilidade suplementar” (Les Échos, 30 maio 2014).
O risco de superendividamento, no entanto, permanece limitado. As finanças públicas melhoraram, cinco países da região (Benim, Togo, Guiné-Bissau, Burkina Faso e Costa do Marfim) estampam inclusive superavit, a inflação está controlada, as reservas de moeda estrangeira e as poupanças aumentaram, a dívida externa foi reduzida. Assim, para Tiémoko Meyliet Koné, governador do Banco Central dos Estados da África do Oeste (BCEAO), “as perspetivas de crescimento da União Econômica e Monetária do Oeste Africano (Uemoa) (6) são favoráveis. Mostram que a dívida deveria permanecer estável no conjunto dos Estados-membros”. (7) Os países da Uemoa preveem emitir 2,865 Trilhões de francos CFA em dívida em 2015. O BCEAO prevê um crescimento económico de 7,2% na sub-região, contra 6,6% em 2014, enquanto o FMI tabela em 5,8% para o conjunto da África subsaariana em 2015.
Para mobilizar os fundos necessários aos grandes investidores dos quais necessitam particularmente na agricultura, na energia e na infraestrutura, os governos africanos e as empresas públicas e privadas recorrem cada vez mais aos empréstimos nos mercados de capitais nacionais, regionais e internacionais. O investimento público, essencial para recuperar o atraso económico, agora ocupou o seu lugar nas políticas nacionais.
Quatro mecanismos
 Iniciativa Países Pobres Muito Endividados (PPME): programa de redução das dívidas gerado pelo Banco Mundial e pelo FMI. Lançado em 1996, organiza-se em torno de medidas de liberalização da economia que permitem a um país ser declarado elegível (ponto de decisão), depois ter diminuições provisórias da sua dívida até que ela se torne “suportável” (ponto de conclusão). Os credores acordam então uma redução estabelecida do valor da dívida. O impacto da iniciativa PPME pode ser medido principalmente pelos índices de serviço da dívida. Para os 36 países que tocaram o ponto de decisão, o serviço da dívida relacionado ao PIB passou, segundo o FMI, de 2,9% em média em 2001 para 0,9% em 2011.
Iniciativa para o Alívio da Dívida Multilateral (IADM): lançado em 2005 pelo G8 de Gleneagles, dirige-se aos países que atingiram o ponto de conclusão da iniciativa PPME. Estes beneficiam de uma anulação do conjunto das suas dívidas para com o FMI, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento.
 Acordos de Parceria Económica (APE): regem as relações comerciais entre a União Europeia e os países da África, das Caraíbas e do Pacífico (ACP). (1) Preveem medidas de livre-comércio.
Africa Growth Opportunity Act (Agoa): lei votada pelo Congresso dos Estados Unidos em 2000 e renovada em 2014. Graças a tarifas preferenciais, facilita a exportação para o mercado norte-americano de uma lista de produtos provenientes dos quarenta países africanos declarados elegíveis (http://trade.gov/agoa).
(1) Ler Jacques Berthelot, “Le baiser de la mort de l’Europe à l’Afrique” [O beijo da morte da Europa na África], Le Monde diplomatique, set. 2014.
Sanou Mbaye, economista e escritor senegalês, é autor de L’Afrique au secours de l’Afrique, L'Atelier, Ivry-sur-Seine, 2009.
Artigo publicado na edição de julho do Le Monde Diplomatique - Brasil.

1  Criado em 1955, o Clube de Paris reúne vinte Estados credores dos países do Sul.
2  “Les chiffres de la dette 2015”[Os números da dívida 2015], CADTM, Bruxelas. Disponível em: . Ler também Demba Moussa Dembélé, “Les masques africains de M. Anthony Blair” [As máscaras africanas de Tony Blair], Le Monde diplomatique, nov. 2005.
3  “Heavily Indebted Poor Countries Initiative and Multilateral Debt Relief Initiative – Statistical Update” [Iniciativa PPME e alívio multilateral da dívida – atualização estatística], FMI, Washington, 2 abr. 2013.
4  Sarah McGregor, “Kenya Spends 25 Billion on Bond-Backed Port for Oil: Freight” [Quênia gasta US$ 25 milhões em porto para petróleo: frete], Bloomberg.com, 4 set. 2012.
5  “Fonds vautours: comment l’Afrique évite le syndrome Argentine” [Fundos abutres: como África evita o síndrome argentino], 7 ago. 2014.
6  A Uemoa reúne Benin, Burkina Faso, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo.

Economia, migração e dinâmica demográfica em Portugal


por José Eustáquio Diniz Alves
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Portugal é uma nação em crise econômica, social e demográfica e está encolhendo nestas três dimensões. Embora o país tenha explorado muitas riquezas do Brasil, da África e da Ásia, Portugal é um país pequeno e em processo de definhamento.
Entretanto, Portugal não é um país pobre. A renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) subiu de US$ 6 mil em 1980 para US$ 27 mil em 2008. Ela era cerca de duas vezes a renda per capita brasileira (em ppp) de 2008. Mas desde a crise do Lehman Brothers, a renda per capita portuguesa (em ppp) está estagnada. Mas a falta de dinamismo de Portugal vem de antes, pois o país vem perdendo posição relativa na economia internacional desde 1991.
A participação do Produto Interno Bruto – PIB (em ppp) de Portugal no PIB mundial era de 0,45% em 1980 e atingiu o máximo de 0,48% em 1991, conforme mostra o gráfico acima. Depois disto, iniciou um processo de declínio e atingiu 0,26% em 2015 e deve ficar com 0,23% em 2020, metade do valor relativo de 40 anos antes. Em termos de dólares correntes, o PIB português caiu de US$ 263 bilhões em 2008 para US$ 201 bilhões em 2015, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). O FMI projeta uma renda per capita (em ppp) de cerca de US$ 30 mil em 2020. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) está praticamente estagnado desde 2010, encontrando-se em 0,822 em 2013, abaixo do IDH da Espanha de 0,869 e da Grécia de 0,853, ambos em 2013.
A crise econômica fez com que Portugal tivesse uma emigração líquida de perto de 200 mil habitantes nos últimos 4 anos, sendo que estimativas do Instituto Nacional de Estatística (INE) para 2014, apontam que o número de emigrantes ultrapassou os 85 mil indivíduos. O maior número dos últimos 40 anos.
A população de Portugal está decrescendo. Isto não é novidade, pois houve declínio populacional na década de 1960, durante a ditadura salazarista. Em 1960, a população de Portugal era de 8,9 milhões de habitantes e o saldo natural (natalidade-mortalidade) estava acima de 100 mil pessoas por ano. Porém a crise do Estado Novo (regime prevalecente de 1933 a 1974, autoritário conservador, nacionalista, corporativista de Estado de inspiração fascista, parcialmente católica e tradicionalista, de cariz antiliberal, antiparlamentarista, anticomunista, e colonialista, que vigorou em Portugal sob a Segunda República – Wikipedia) e o boom econômico da Europa Ocidental fez Portugal perder grande número de migrantes. Em 1970, a despeito do crescimento vegetativo dos anos 60, a população portuguesa caiu para 8,7 milhões de habitantes, chegando a 8,6 milhões em 1973.

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Porém, a Revolução dos Cravos, de 25 de Abril de 1974, mudou a história portuguesa e em 1975 houve a independência das colônias africanas: Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Com isto houve uma grande volta de patrícios e a imigração bateu todos os recordes históricos. Em 1980, a população de Portugal tinha subido para 9,8 milhões de habitantes. Porém, a emigração voltou a subir e, mesmo com crescimento vegetativo, a população portuguesa ficou estável na década de 1980. Somente depois da constituição da União Europeia foi que Portugal apresentou elevadas taxas de crescimento e teve saldo migratório positivo.
Mesmo com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição e com crescimento vegetativo se aproximando de zero, a população portuguesa atraiu migrantes e cresceu até atingir o pico de 10,573 milhões de habitantes em 2010. Mesmo assim é um volume menor do que o da cidade de São Paulo.
A partir desta data, a dinâmica demográfica de Portugal apresenta, pela primeira vez, saldos natural e migratório negativos. Em 2014, a população caiu para 10,401 milhões de habitantes. Portugal já é
menor que a cidade de São Paulo e pode ficar menor do que a cidade do Rio de Janeiro, se as taxas de fecundidade continuarem muito baixas e o saldo migratório permanecer negativo.


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As pirâmides populacionais de Portugal mostram que o país tinha uma estrutura etária jovem em 1950, passou para uma pirâmide com alta proporção de pessoas no meio da estrutura etária em 2015, vai ter uma pirâmide bem envelhecida em 2050 e se transformará em um retângulo em 2100. Ou seja, a pirâmide portuguesa vai emagrecer e esticar nos próximos 85 anos.
Com a prevalência de baixas taxas de fecundidade, o envelhecimento populacional e a crise econômica que está a expulsar os jovens portugueses em busca de melhores oportunidades alhures, a perspectiva é de um decrescimento contínuo da população portuguesa no século XXI. A projeção média da ONU (revisão 2015) indica uma população de 7,4 milhões de habitantes, no ano de 2100. Evidentemente Portugal não vai desaparecer, mas, desde as grandes conquistas épicas dos Lusíadas e das injustiças cometidas nos diversos continentes, o país tende a ficar cada vez mais desimportante no cenário internacional. Mas quem sabe, um Portugal de menores dimensões não possa ser mais saudável e mais feliz!
Pirâmides populacionais de Portugal: 1950-2100
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Referências:

UN Population Division. 2015 Revision of World Population Prospects, New York, 29/07/2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 07/08/2015

A grande desaceleração da produtividade

por Michael Roberts

A produtividade do trabalho é um ingrediente importante da taxa de crescimento real do PIB. O que acontece com a produtividade (produção por trabalhador ou produção por trabalhador por hora) é importante para as economias capitalistas maduras porque o crescimento real do PIB pode ser considerado como constituído por dois componentes: crescimento da produtividade e o crescimento do emprego. O primeiro mostra a mudança no novo valor por trabalhador empregado e segundo mostra o número de trabalhadores empregados extras.
Nas economias maduras, o crescimento do emprego tem diminuído ao longo de décadas. Assim, o crescimento da produtividade mais rápido é necessário para compensar. Em termos marxistas, o que significa desaceleração do crescimento em valor absoluto (e mais-valia) deve ser substituído por um crescimento mais rápido no novo valor relativo (ou mais-valia). Ver o meu post, 

No primeiro trimestre de 2015, a produtividade nos EUA caiu a uma taxa anual de 3,1%. Para todo2014, a produtividade cresceu uns modestos 0,7%, menos ainda que o ganho de produtividade de 0,9% em 2013. De 1995 a 2000, a produtividade nos EUA subiu a taxas médias anuais de 2,8%, refletindo, em parte, o impulso da economia recebido do boom da internet. Mas desde 2000, a produtividade desacelerou para taxas anuais de 2,1%.
O abrandamento da produtividade está sendo replicado em todas as principais economias. O Conference Board dos EUA, que segue de perto o crescimento da produtividade, descobriu que o crescimento da produtividade do trabalho global, medido como a variação média de saída (PIB) por pessoa empregada, manteve-se preso em 2.1% em 2014, enquanto não mostra nenhum sinal de reforço à sua média pré-crise de 2,6% (1999-2006).
O Conference Board avalia que a falta de melhora no crescimento global da produtividade em 2014 é devido a vários fatores, incluindo um enfraquecimento dramático do crescimento da produtividade nos EUA e no Japão, um abrandamento da produtividade a longo prazo na China, um colapso quase total da produtividade na América Latina, e o enfraquecimento substancial na Rússia.
A produtividade do trabalho nas economias capitalistas maduras cresceu apenas 0,6% em 2014, ligeiramente abaixo de 2013, quando era de 0,8%. O crescimento da produtividade nos EUA diminuiu de 1,2% em 2013 para 0,7% em 2014, acima citada, ao passo que a do Japão caiu ainda mais de um fraco 1% para território negativo de -0,6%. A zona euro viu uma pequena melhoria da produtividade - de 0,2% em 2013 para 0,3% em 2014.
Para 2015, um novo abrandamento da produtividade é projetado, para 2%, dando continuidade a uma tendência descendente de longo prazo, que começou por volta de 2005. Apesar de uma pequena melhora no desempenho do crescimento da produtividade nas economias maduras (até 0,8% em 2015, de 0,6% em 2014), as economias emergentes e em desenvolvimento são esperados para ver um bastante grande desaceleração do crescimento de 3,4% em 2014 para 2,9% em 2015. A redução é principalmente um reflexo da continuada queda do crescimento e da produtividade na China, mas também inclui a taxa de crescimento negativo da produtividade brasileira e russa
Nos EUA, a ECRI, uma agência de pesquisa econômica, argumenta que: "Com o crescimento da produtividade e o potencial de crescimento da força de trabalho, tanto de média ½% ao ano, a tendência de crescimento real do PIB está a convergir para 1% ao ano."
A ECRI continua: "As recuperações foram enfraquecendo devido a declínios no crescimento da produção por hora (ou seja, produtividade), o crescimento das horas trabalhadas, ou ambos. Juntos, eles somam para o crescimento real do PIB. É apenas matemática simples .... Então, a menos que haja boas razões para crer que o crescimento da produtividade irá reviver, a tendência de crescimento do PIB  pode muito bem ficar presa na faixa de 1% para os próximos anos. Se assim for, a lentidão de crescimento poderia muito mais facilmente empurrar o crescimento abaixo de zero, deixando pouco espaço para erro. E o Fed está pronto? "
O que os números do crescimento de produtividade mostram é que a capacidade do capitalismo (ou, pelo menos, as economias capitalistas avançadas) para gerar uma melhor produtividade está minguando. Assim, os capitalistas têm apertado a quota de novo valor de trabalho e levantado a participação nos lucros para compensar. Mas, acima de tudo, eles cortaram a taxa de acumulação de capital na "economia real", cada vez mais tentando encontrar lucro extra em especulação financeira e imobiliária. Olhe para o crescimento do estoque acumulado de capital nas economias capitalistas avançadas. Esta é uma medida do nível de investimento produtivo - é moer a um impasse.
Estoque de capital líquido
Pegue o Reino Unido. A verdadeira produção econômica britânica é apenas cerca de 3% maior do que no início de 2008. No entanto, o fator trabalho (horas trabalhadas corrigidas pela escolaridade e experiência) é de 11% e o valor real do estoque de capital líquido do Reino Unido cresceu apenas 6%. Então a produtividade subjacente mergulhou nos últimos sete anos.
Um artigo recente do Instituto Nacional de Pesquisa Econômica e Social (NIESR) sugere que a queda da produtividade do Reino Unido pode ser devido à fraqueza generalizada na TFP dentro das empresas. E isso parece ser porque as empresas britânicas preferem empregar mão de obra barata e temporária, em vez de investir na formação para aumentar habilidades e utilizar novas tecnologias. Isso remonta ao argumento de 'mão de lavagem de carro', onde o trabalho barato significa que as empresas não precisam investir em equipamentos. Em vez disso, as empresas novas e existentes apenas encontram maneiras de lucrar com o pronto fornecimento de mão de obra barata.
Composição produtividade Reino Unido
De fato, um recente documento do FMI concluiu que o mercado de trabalho "desregulamentado" (tempo parcial, contratos de zero horas, aluguel temporário fácil etc), introduzido como parte das políticas neoliberais ao longo das últimas décadas, pode ter aumentado os lucros, mas não fez nada para melhorar a produtividade e poderia até ter feito pior.
Um debate importante está ocorrendo dentro da Reserva Federal dos EUA sobre as razões para essa desaceleração. John Fernald, um economista do Federal Reserve Bank de San Francisco, tem argumentado que a desaceleração começou antes da crise financeira e foi associado com o fim do boom impulsionado pela tecnologia de informação da década de 1990. David Wilcox, diretor da divisão de pesquisa e estatísticas do Federal Reserve Board, argumentou com os colegas em um artigo de 2013 que o abrandamento foi associado em 2007-2009 com a recessão e uma queda na formação de novos negócios e dos investimentos que aumentam a produtividade das empresas.
A história de Wilcox é o mais esperançosa. Se o abrandamento da produtividade está associado com a recessão, então, presumivelmente, os seus efeitos acabará por se desgastar e o crescimento pode receber de volta em um caminho mais rápido sem causar inflação. A história de Fernald é preocupante. Se a produtividade estava realmente em uma tendência de baixa antes da crise, então os americanos poderiam ser presos com uma economia propensa a decepções de crescimento de série para o futuro previsível.
Agora ele tem sido combatido por alguns economistas de que o crescimento da produtividade não está a ser capturado adequadamente nos dados. O crescimento do investimento de capital não está realmente em declínio nas principais economias. Grande parte da aparente desaceleração reflete apenas os preços relativos mais baixos de bens de investimento, em comparação com produtos e serviços ao consumidor.
Nos EUA, ao longo das últimas duas décadas, os preços dos equipamentos aumentaram muito menos do que o deflator do PIB. Ao corrigir para este efeito o preço, a queda em  investimento americano não residencial em relação ao PIB é muito menos pronunciada. O fenômeno é ainda mais perceptível no investimento em TI. Se os preços de TI tinha subido na mesma proporção que os preços globais, o investimento agora seria quase 1,2% do PIB maior que o registrado, colocando investimento americano total mais perto de 20% do PIB, os níveis alcançados na última volta na década de 1990.
US investimento em TI oculto
Assim, o argumento vai; você só tem que olhar ao redor para ver que o avanço tecnológico está tornando a vida mais fácil e rápida; e no seio das empresas, a tecnologia inovadora que aumenta a produtividade está ocorrendo em um ritmo acelerado. A idade da inteligência artificial está rapidamente chegando. E é exatamente esse tipo de investimento que é de baixo custo e requer um baixo limiar para proporcionar maior produtividade.
Ao longo dos últimos 20 anos, o gasto e capital foi indo cada vez mais para a alta tecnologia, R&D e equipamentos de economia de custo e menos em "estruturas", investimento de longo prazo em instalações e escritórios. Em 1995, R&D foi de 23% do investimento das empresas dos Estados Unidos e estruturas eram 21%. Agora, a quota de I &D é de 31% e estruturas mantêm-se inalterados.
A economia neoclássica gosta de usar uma medida de produtividade chamada produtividade total dos fatores (PTF). Este supostamente mede a produtividade alcançada de inovações. Na verdade, é apenas um valor residual resultante da diferença entre o crescimento real do PIB e da produtividade do trabalho e insumos "capital". Portanto, é realmente uma figura bastante falso. Mas o argumento é válido; talvez o gasto de capital (investimento) pode ter vindo a crescer mais devagar, mas "a produtividade do capital" tem vindo a aumentar, porque esse componente enigmático, a produtividade total dos fatores, tem vindo a aumentar, mesmo se os dados sobre o crescimento do investimento mostram uma desaceleração.
O problema com este argumento é que os dados sobre TFP não mostram qualquer tipo de pick-up que seria esperado a partir da nova grande revolução de TI que está em curso. Os últimos dados do Conference Board mostram que a taxa de crescimento da PTF global continua a pairar em torno de zero pelo terceiro ano consecutivo, em comparação com uma taxa média de mais de 1% entre 1999-2006 e 0,5% 2007-2012. Na verdade, a maioria das economias maduras mostram perto de zero ou mesmo negativo crescimento da PTF. Na China, o crescimento da PTF se tornou negativo e na Índia é apenas acima de zero, enquanto no Brasil e no México o crescimento da PTF continua a ser negativo.
Por isso, é mais provável que o crescimento da produtividade tenha realmente diminuído porque o impacto das inovações ainda não é suficiente para compensar o fracasso dos capitalistas na maioria das economias para aumentar os investimentos. Na verdade, não é a pura tecnologia da Internet e das TIC´s por si só o que aumenta a produtividade e o crescimento econômico. Ganhador do Prêmio Nobel de Economia Robert Solow já foi observado em uma frase famosa em 1987, seis anos após o início da introdução em massa de computadores pessoais na economia, que a informática não era acelerar o crescimento da produtividade dos EUA: 'Você vê a idade de computador em todos os lugares, mas não nas estatísticas de produtividade."
Isto não foi alterado. Em 1980, o ano antes da introdução do computador pessoal moderno, crescimento nos EUA anual da PTF foi de 1,2% (5 anos de média móvel). Em 2014, US TFP ainda foi de apenas 1,2%. Portanto 34 anos de avanços tecnológicos revolucionários na Internet e das TIC´s não levou a nenhum aumento na produtividade dos EUA! Os dados mostram claramente que, portanto, o avanço tecnológico no setor de internet e as TIC por si só não levou a aumentos de produtividade.
Produtividade dos EUA e capex
Houve uma fase durante os 34 anos da internet e revolução das TIC quando a eficiência econômica americana aumentou acentuadamente. No período que antecedeu a 2003, crescimento anual nos EUA da produtividade atingiu o seu nível mais alto em meio século - de 3,6%. Isto foi explicado por um grande aumento de investimento fixo focado nas TIC. Investimento norte-americano subiu de 19,8% do PIB em 1991 para 23,1% do PIB em 2000, caiu um pouco após o colapso da bolha "pontocom" e, em seguida, chegou a 22,9% em 2005. A maior parte deste investimento foi na área das TIC. Depois disso, o investimento dos EUA caiu, levando a acentuada desaceleração da produtividade.
A maneira em que produtividade do trabalho nos EUA seguiu este aumento no investimento de capital é clara a partir do gráfico. A correlação entre o crescimento do investimento e o aumento da produtividade do trabalho, três anos depois foi de 0,86, e depois de quatro anos 0,89 - extraordinariamente altos. Quando o investimento de capital caiu, este foi seguido por um declínio da produtividade do trabalho - mostrando claramente que não era ideias ou pura tecnologia que tinha causado o aumento da produtividade.
Em outras palavras, o crescimento da produtividade ainda depende doinvestimento de capital ser grande o suficiente. E isso depende da rentabilidade do investimento. Como argumentado ad nauseam, neste blog: ainda é relativamente baixa a rentabilidade e uma saliência contínua da dívida, a dívida corporativa particularmente, não apenas nas grandes economias, mas também nas economias capitalistas emergentes (ver 

Sob o capitalismo, até que a rentabilidade seja restaurada suficiente e a dívida reduzida (e ambos trabalham juntos), os benefícios de produtividade das novas "tecnologias disruptivas" (como diz o jargão vai) de robôs, AI, a impressão 3D 'grandes dados' etc não vão entregar um revitalização sustentada do crescimento da produtividade e do PIB real, portanto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A América no caminho

A postura dos EUA sobre a parte mais disputada da conferência de Addis Abeba foi particularmente decepcionante. Como os países em desenvolvimento e os mercados emergentes se abrem para as multinacionais, torna-se cada vez mais importante que eles possam tributar estes gigantes sobre os lucros gerados pelos negócios que ocorre dentro de suas fronteiras. 
por Joseph Stiglitz 
A Terceira Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, recentemente convocada na capital da Etiópia, Addis Abeba veio num momento em que os países em desenvolvimento e mercados emergentes têm demonstrado a sua capacidade de absorver enormes quantidades de dinheiro de forma produtiva. Na verdade, as tarefas que estes países estão a realizar - que investem em infra-estrutura (estradas, eletricidade, portos, e muito mais), a construção de cidades que vão um dia ser o lar de milhares de milhões, e que se deslocam em direção a uma economia verde - são realmente enormes.
Joseph StiglitzAo mesmo tempo, não há falta de dinheiro esperando para ser colocado para uso produtivo. Apenas alguns anos atrás, Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve Board dos EUA, falou sobre um excesso de poupança global. E ainda projetos de investimento com alto retorno social estavam sendo privados de fundos. Isso continua sendo verdade hoje. O problema, então como agora, é que os mercados financeiros do mundo, destinado a intermediário de forma eficiente entre a poupança e oportunidades de investimento, em vez causa má afetação de capital e cria riscos.
Há uma outra ironia. A maioria dos projetos de investimento que as necessidades emergentes do mundo são de longo prazo, assim como grande parte das poupanças disponíveis - os trilhões em contas de aposentadoria, fundos de pensão e fundos soberanos. Mas os nossos mercados financeiros cada vez mais míopes ficam entre os dois.
Muita coisa mudou nos 13 anos desde a primeira  Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento  realizada em Monterrey, México, em 2002. Naquela época, o G-7 dominava a política econômica global; hoje, a China é a maior economia do mundo (em termos de poder de compra-paridade), com economia cerca de 50% maio do que a dos EUA. Em 2002, as instituições financeiras ocidentais eram pensadas ​​para ser assistentes no gerenciamento de riscos e alocação de capital; hoje, vemos que elas são assistentes de manipulação de mercado e outras práticas enganosas.
Longe vão os convites para os países desenvolvidos a cumprir seu compromisso de dar, pelo menos, 0,7% do seu PIB em ajuda ao desenvolvimento. Alguns países do norte da Europa - Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Suécia e, mais surpreendentemente, o Reino Unido - em meio a sua austeridade auto-infligida - cumpriram as suas promessas em 2014, mas os Estados Unidos (que deu 0,19% do PIB em 2014) está muito, muito longe.
Hoje, os países em desenvolvimento e mercados emergentes dizem aos EUA e outros: Se não vão à altura de suas promessas, pelo menos, saíam do caminho e deixe-nos criar uma arquitetura internacional para uma economia global que trabalhe  para os pobres, também. Não surpreendentemente, as hegemonias existentes, lideradas pelos EUA, estão fazendo o que podem para impedir tais esforços. Quando a China propôs a Infra-estrutura do Banco Asiático de Investimento para ajudar a reciclar algumas das excesso de poupança global para onde o financiamento é extremamente necessário, os EUA procuraram torpedear o esforço. A administração do presidente Barack Obama sofreu uma dolorosa derrota (e altamente embaraçosa).
Os EUA também está bloqueando o caminho do mundo em direção a um Estado de direito internacional para a dívida e finanças. Se os mercados de títulos, por exemplo, estão a funcionar bem, uma forma ordenada de  resolução de casos de insolvência soberana  deve ser encontrada. Mas hoje, não existe tal maneira. Ucrânia, Grécia e Argentina são exemplos do fracasso dos acordos internacionais existentes. A grande maioria dos países apelaram à criação de um quadro para a reestruturação da dívida soberana. Os EUA continuam sendo o maior obstáculo.
O investimento privado é importante, também. Mas as novas disposições de investimento embutidos nos acordos comerciais que a administração Obama está a negociar em ambos os oceanos implica que acompanhada de qualquer investimento direto estrangeiro vem uma redução acentuada na capacidade dos governos de regular o meio ambiente, saúde, condições de trabalho, e até mesmo a economia.
A postura dos EUA sobre a parte mais disputada da conferência de Addis Abeba foi particularmente decepcionanteComo os países em desenvolvimento e os mercados emergentes se abrem para as multinacionais, torna-se cada vez mais importante que eles possam tributar estes gigantes sobre os lucros gerados pelos negócios que ocorre dentro de suas fronteiras. Apple, Google e General Electric têm demonstrado um gênio para evitar impostos que excede o que eles empregadas na criação de produtos inovadores.
Todos os países - desenvolvidos e em desenvolvimento - têm vindo a perder bilhões de dólares em receitas fiscais. No ano passado, o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos  divulgou informações  sobre decisões fiscais do Luxemburgo que expuseram a escala da evasão e a fraude fiscais. Enquanto um país rico como os EUA, sem dúvida, pode pagar o comportamento descrito nos chamados vazamentos de Luxemburgo, os pobres não podem.
Eu era um membro de uma comissão internacional, a Comissão Independente para a Reforma da Tributação International, examinando maneiras de reformar o sistema fiscal atual. Em um  relatório  apresentado à Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que concordaram unanimemente que o sistema atual está quebrado, e que os pequenos ajustes não irão corrigi-lo. Propusemos uma alternativa - semelhante à forma como as empresas são tributadas  dentro  dos EUA, com os lucros destinados a cada estado com base na atividade econômica que ocorre dentro das fronteiras do Estado.
Os EUA e outros países avançados têm pressionado para mudanças muito menores, a ser recomendadas pela OCDE, o clube dos países avançados. Em outras palavras, os países de onde vêm os politicamente poderosos sonegadores de impostos e os evasores para desenhar um sistema para reduzir a evasão fiscal. Nossa Comissão explica por que as reformas da OCDE estavam em melhores ajustes em um sistema fundamentalmente falho e foram simplesmente inadequadas.
Países em desenvolvimento e mercados emergentes, liderados pela Índia, argumentaram que o fórum adequado para a discussão dessas questões globais era um grupo já estabelecido no âmbito das Nações Unidas, o  Comitê de Peritos sobre Cooperação Internacional em Matéria Fiscal, cujo estatuto e financiamento necessário para ser elevado. Os EUA fortemente contestaram: queria manter as coisas o mesmo que no passado, com a governação global por e para os países avançados.
Novas realidades geopolíticas exigem novas formas de governança global, com uma maior voz para países em desenvolvimento e emergentes. Os EUA prevaleceram em Addis, mas também mostrou-se no lado errado da história.

Naufrágio de matérias-primas e a desaceleração da China revive a crise de 2008

Por Marco Antonio Moreno


Commoditiescarnage

Embora se tenha tentado minimizar os efeitos da crise grega e o enfraquecimento da economia chinesa, um fato importante e que desta vez ameaça devastar os países emergentes é a queda acentuada no preço das commodities. O petróleo caiu de US $ 110 por barril um ano atrás para US $ 45 o barril! Dezoito dos 22 componentes do índice de commodities da Bloomberg (ver imagem) caíram mais de 20 por cento nos últimos meses. Esta queda só é comparável ao registrado em Outubro de 2008, quando o aprofundamento da crise financeira enviou aos mercados globais a uma situação da qual ainda não se recuperam. 

Para entender este novo capítulo da crise que ainda mostra as garras mais obscuras do "modelo econômico" que foi criado nos anos 70 tem-se que detectar ​​alguns caminhos. Primeiro, a máquina financeira que tomou conta da economia global e provocou bolhas em espiral no setor de commodities e o mercado imobiliário. Este boom especulativo que impulsionou a "eficiência de custos" gerou a transferência de grandes empresas para a China, que a China se tornou rapidamente o maior produtor do mundo, com a sua "mão de obra barata". 


O impacto da China
A China tornou-se, assim, um motor de crescimento que comprava matérias-primas em países emergentes, e ao mesmo tempo produtos acabados dos países desenvolvidos. Seu forte impulso de mais de duas décadas de crescimento ininterrupto e crescente fez-se pensar em uma máquina insaciável. Justamente o tipo de máquina que gostam os mercados financeiros para construir castelos no ar por meio de derivativos. Mas isso não era nada mais do que especulação apoiada na ideia de um crescimento contínuo e perpétuo.
A China não só se tornou o principal comprador de cobre e ferro, mas também de petróleo. Suas taxas de crescimento de 10 por cento ao ano  incentivavam o investimento na China e o consumo nos países ocidentais. Já na década de 1990 a China ultrapassou os maiores produtores de aço do mundo, o Japão e os Estados Unidos. Agora, vinte anos mais tarde, a produção de aço na China aumentou oito vezes. No entanto, desde o ano de 2010 a China entrou em dormência reduzindo a velocidade de crescimento crescimento de forma contínua. Nos últimos dois anos, a atividade de construção na China estagnou e nos últimos 6-12 meses foi negativo. Isto fez preço do cobre cair 40 por cento e o ferro teve uma queda de 60 por cento desde 2011. O petróleo caiu 60 por cento nos últimos 12 meses.
A queda dos preços das commodities ainda não bateu no fundo e demonstra a fraqueza econômica global, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, que depois de sete anos de crise estão preso em um coma. Injeção de dinheiro volumoso pelos bancos centrais não estimulou a economia. Só serviu para criar mais bolhas e fazer florescer a especulação dos mercados acionários jogando como se a economia fosse um grande casino. E isso é o que é conhecido como "mercado livre".
Agora, o tsunami começa a bater duro em países emergentes, com a queda nos preços das commodities. Se entendermos que a bolha chinesa está em pleno desenvolvimento e que a atividade de construção pode demorar 4-5 anos para se recuperar, os preços vão continuar para baixo por mais tempo. A desaceleração da China pode continuar ao longo da década e estabilizar o crescimento em torno de 5 por cento. Mas este crescimento será menos intensivo em recursos, o que arrastará para baixo os preços para uma queda ainda maior.
Enquanto a Europa e os Estados Unidos vão crescer a uma taxa de 1 a 2 por cento este força fraca deixará de compensar a desaceleração da China. Agora toca os países emergentes que enfrentam a crise. Longe de terminar, a crise que começou em 2008 entra numa nova etapa.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Grécia: de quem é a culpa, e para quê?

Por Immanuel Wallerstein

Qualquer pessoa que tenha visualizado os seguintes eventos mundiais recentemente não poderia ter deixado de ler análises intermináveis ​​nos meios de comunicação relativos a realidades econômicas na Grécia. A coisa mais notável sobre essas análises é quão radicalmente diferente elas são, umas das outras. Elas podem, no entanto, ser divididas em dois campos principais.

Há um grupo que dizem que as dificuldades da Grécia são auto-criadas porque os sucessivos governos e os cidadãos gregos usaram de forma imprudente dinheiro que não tinha, a fim de sustentar um estilo de vida coletivo para além do seu nível de rendimento coletivo. Este grupo tem uma solução simples para os males da Grécia. É cortar drasticamente as despesas coletivas da Grécia para que ela pague os seus extensos empréstimos. Os defensores desse programa propõem "reforma" e dizer que ao longo do tempo a Grécia vai sair mais forte. Este ponto de vista é realizado em diferentes graus, pela maioria dos membros da zona do euro da União Europeia. Seu porta-voz mais vocal e intransigente tem sido o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Ele tem vindo a fazer dois argumentos principais: a Grécia deve deixar a zona do euro "temporariamente" e a Grécia deve realizar o pagamento rigoroso de todas as dívidas pendentes.

Os críticos deste programa chamam-no de "austeridade" e argumentam que é cruel e sem coração, forçando uma parte cada vez maior da população grega em pobreza abjeta. Além disso, dizem eles, um regime de austeridade não vai, não pode levar a um fim à atual depressão aguda na Grécia. Dizem que cada empréstimo sucessivo aumentou, não diminuiu, a taxa de desemprego e tornou-o menos possível para atingir o seu objetivo ostensivo de restaurar a "competitividade" da Grécia no mercado mundial. Eles chamam ao perdão substancial da dívida e uma reversão das exigências dos credores que a Grécia faça cortes nas pensões e outras partes da rede de segurança social. A procura de perdão da dívida ganhou apoio crescente de economistas de destaque, como Joseph Stiglitz e de Christine Lagarde, presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Como é que a Grécia chegou a este ponto de aflição econômica? O primeiro debate é sobre quando até agora o ponto de partida de infortúnios da Grécia, ele próprio um grande ponto de discórdia. Os partidários das reformas neoliberais começam a história muito recentemente, essencialmente quando a ditadura militar foi derrubada, em 1974, e um partido de esquerda, o PASOK, liderado por Andreas Papandreou, emergiu como uma força importante na cena. Esta data põe a culpa solidamente na própria Grécia para a adoção das políticas social-democratas dos sucessivos governos. Os críticos começam a história muito antes, em algum lugar na década de 1930, quando os governos da Europa Ocidental, e especialmente a Alemanha, impôs um sistema quase-colonial subordinado na Grécia. Isso coloca a culpa nas forças capitalistas e imperialistas.

A política grega depois de 1974 era, em muitos sentidos a divisão habitual entre um partido de centro/direita, Nova Democracia, e um partido inicialmente de esquerda, mas cada vez mais centro/esquerda, o PASOK. À medida que os sucessivos governos aceitaram as condições para empréstimos e, portanto, mais e mais austeridade, o espaço deixado vago passou a ser ocupado por Syriza, um novo partido fundado em 2004, cujo nome é um acrônimo grego para a Coligação da Esquerda Radical.

No início, Syriza era de fato uma coalizão que reunia uma variedade de pequenos partidos que vão desde a extrema-esquerda para a centro/esquerda. Este partido se destacou por sua forte oposição à austeridade. Seu líder veio a ser Alexis Tsipras. Nas eleições sucessivas, Syriza ganhou mais e mais força, finalmente, obtendo o primeiro lugar em 2015, com 36% dos votos. As regras eleitorais gregas concedem um bônus para o partido líder, este foi o suficiente para dar-lhe 149 assentos dos 300 e habilitando Syriza para formar um governo com o apoio de um partido pequeno.

Foi neste ponto que Syriza teve que enfrentar os dilemas de ser o governo, que não permite que as posições fáceis de ser um movimento de oposição radical. O novo governo escolheu Yanis Varoufakis como seu ministro das Finanças e negociador-chefe com os credores da Grécia.

Uma das promessas eleitorais do Syriza não tinha sido para lidar com a chamada troika sobre o que deve ser feito. A troika é composta pelo FMI, Banco Central Europeu e a União Europeia. Varoufakis descobriu que ninguém iria falar com ele, se ele não falasse com a troika. No entanto, Varoufakis foi muito persistente e volúvel sobre a necessidade de perdão da dívida e para um empréstimo de transição para permitir que os bancos da Grécia permaneçam solventes. Ele queria ganhar tempo para permitir Syriza reduzir os danos que anos de austeridade fizera. E ele queria fazer isso sem a Grécia deixar a zona do euro, o chamado Grexit.

Quando as negociações não deu em nada, de repente Syriza chamou para um referendo na Grécia sobre se deve ou não aceitar os termos oferecidos pela troika. Todos, incluindo o próprio Syriza, espera que os resultados do referendo seria próximo. Em vez disso, quando foi realizada em 5 de julho, a nenhum voto contra ceder à troika (chamado OXI em grego) recebeu uma notavelmente elevada percentagem de 61,3 por cento.

O que fazer agora era a questão ante o Syriza. Sua decisão se deitou com um comitê restrito de seis pessoas, incluindo Tsipras e Varoufakis. Varoufakis propôs um chamado Plano B que ele estava se preparando para cinco meses. Ela envolveu a criação de um sistema de pagamentos paralelo que teria permitido transações monetárias se houvesse um feriado e controles de capital dos bancos. Era uma espécie de Grexit em termos da Grécia. Ele teria enfrentado máxima retribuição pelas forças neoliberais. O pequeno comitê de seis votou 4-2 contra implementação do Plano B e Varoufakis renunciou ao cargo de ministro das Finanças. Syriza foi então forçado a concordar com um conjunto ainda mais dura de "reformas" do que ele havia enfrentado no início das negociações.

O locus da tempestade política já passou para o Syriza. Há aqueles que dão prioridade para a sobrevivência da Syriza como uma festa. Há aqueles na chamada Plataforma esquerda dentro do Syriza que estão denunciando Tsipras como um "traidor" e são, talvez, a intenção de criar um novo partido. E há aqueles que pensam como Yaroufakis que Tsipras cometeu um erro sério em suas táticas, mas continua empenhado em acabar com austeridade.

Que conclusões podem Syriza (e o resto de nós) retirar do que aconteceu? A primeira coisa a notar é que não está sendo debatido. Desde o início em 2004 Syriza tem se empenhado em buscar o poder do Estado para implementar seus objetivos. Parece que rotas alternativas políticas não estavam previstas. Mas, claro, buscando o poder do Estado traz consigo determinados custos muito graves. Um destes custos é que os governos, todos os governos em todos os lugares, são obrigados a fazer concessões em seu lidar com o resto do mundo. Eventualmente isso leva ao tipo de divisão que Syriza está passando agora.

O que está sendo debatido é se é uma vantagem ou desvantagem para permanecer na zona euro. E, obviamente, isso é uma questão de táticas de curto prazo. A Zona Euro como presentemente construído é uma pressão a mais políticas neoliberais. Mas a retirada de ela envolve grave impacto negativo de curto prazo sobre a vida dos gregos. O enorme apoio para OXI foi um voto pela dignidade da Grécia, contra a austeridade, e pela sua permanência na zona do euro, tudo ao mesmo tempo.

Podemos esperar eleições parlamentares antecipadas, agora em que Syriza sob Tsipras terá um tempo difícil obter um mandato renovado. Mas não há alternativa para Tsipras. Ele está preso por suas decisões anteriores e as prioridades de um partido que deseja permanecer no poder.

Desdobramentos da crise política até o momento

A crise política pela qual passa a República brasileira tem inúmeras variações; uma crise econômica, de popularidade do governo, crise advinda da operação lava-jato e a crise política em si. Define-se no dia do segundo turno das eleições de 2014. Depois da morte do candidato Eduardo Campos e  com Marina Silva, substituta do pernambucano na chapa do PSB, passando a liderar a disputa, parecia que o segundo turno se daria entre Dilma e Marina, a candidatura tucana fora dada como fracassada.

No entanto, uma reviravolta nos últimos dias da campanha, com o PT apontando toda a artilharia sobre Marina e com sinalizações da lava-jato, Aécio Neves passa ao segundo turno com enorme força nas pesquisas, despontando como favorito para vencer durante boa parte do segundo turno.

Aí veio o resultado final, uma vitória petista com margem estreitíssima, onde, já ficou claro que o país estaria a partir dali dividido. A própria presidente no discurso de vitória conclamou a população e a oposição derrotada para reunir o país. O ex-senador gaúcho, Pedro Simon foi enfático ao dizer que aquilo não podia ter acontecido.

A união não veio, a crise foi derretendo o governo antes da posse. As coisas pioram com o anúncio das MP´s  664 e 665 tratando de mudanças em direitos  previdenciários o que causou descontentamento entre os apoiadores na sociedade do governo; aqui surge  o discurso do estelionato eleitoral por parte da oposição como tendo sido cometido pela presidente.

O outro epicentro sem dúvidas é o ajuste fiscal do Ministro Joaquim Levy, este gerou enormes descontentamentos entre os aliados e entre o próprio partido do governo. Fortaleceu a ideia de estelionato eleitoral, inclusive sendo feitas referências entre o Ministro Levy e o possível ministro da fazendo num governo de Aécio, o economista Armínio Fraga.

Dia de abertura do Congresso Nacional, a possível eleição de um "aliado" já era dado como inúmeros problemas garantidos para o governo, mesmo assim Eduardo Cunha derrota com larga vantagem o petista e ex-presidente da casa Arlindo Chinaglia. Cunha passa a pautar temas frontalmente contrários aos interesses do governo e a impor sucessivas derrotas ao planalto; no fim do primeiro semestre e depois de ser citado por um delato na lava-jato assume publicamente passar para a oposição.

Resultados ruins na economia, aumento do desemprego e da inflação, torraram a popularidade do governo que vai ficando a cada dia mais fragilizado no Congresso, ontem (05) dois partidos da base; o PDT, que deve ter candidatura própria na próxima eleição, e o PTB anunciaram a saída da base.

As tentativas de negociação dentro do Congresso e de diálogo com a sociedade civil não têm surtido efeitos concretos e o governo ruma com destino ao incerto numa trajetória onde parece não faltar tormentas e precipícios.

O declínio econômico da América Latina


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
“Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos”
Eduardo Galeano

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A América Latina e Caribe (ALC) teve um octênio virtuoso entre 2004 e 2011, quando a variação do PIB da região cresceu acima do PIB mundial. Neste período houve melhora do mercado de trabalho, da educação, das condições de moradia e redução da pobreza. O ciclo de valorização das commodities possibilitou uma valorização dos termos de troca e uma melhoria das contas externas e internas dos países da região.
Mas a situação mudou na segunda década do século XXI. Os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam um declínio consistente na variação do PIB. Em 2010, o crescimento da ALC foi de 6,1%, caindo para 4,9 em 2011, 3,1% em 2012, 2,9% em 2013, 1,3% em 2014 e somente 0,5% em 2015. Ou seja, o PIB em 2015 vai crescer abaixo do crescimento da população, que está em torno de 1,1% ao ano. O impressionante é que o declínio é constante e consistente no último sexênio.
O que está acontecendo agora é muito semelhante ao que aconteceu por volta de 1980. Quando os preços do petróleo dispararam, na década de 1970, houve um ponto de ruptura para a maioria dos países da região. Os países encontraram-se em uma crise de liquidez desesperada. Países Exportadores de Petróleo – com muito dinheiro após os aumentos do preço do petróleo de 1973 – investiram seu dinheiro em bancos internacionais, que reciclaram uma grande parte do capital como empréstimos a governos latino-americanos. O forte aumento dos preços do petróleo fez com que muitos países buscassem mais empréstimos para cobrir os altos preços e os países produtores de petróleo queriam aproveitar a oportunidade para se desenvolver ainda mais.
Mas com o aumento das taxas de juros nos Estados Unidos e na Europa a partir de 1981, os custos da dívida aumentaram, tornando mais difícil para os países endividados pagarem suas dívidas. A deterioração da taxa de câmbio fez com que os povos e os governos latino-americanos perdessem poder de compra. A contração do comércio mundial em 1981 fez com que os preços dos recursos primários caíssem. Menos receitas e maiores custos dos serviços da dívida levaram à década perdida. Infelizmente, os mesmos erros estão sendo repetidos mais uma vez. O gráfico abaixo mostra que o preço dos produtos básicos que são importantes na pauta de exportação da ALC estão em queda.

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Com a redução do preço das commodities e a desaceleração da economia internacional a ALC passou de uma situação de superávit na conta de transações correntes entre 2004 e 2007, para déficits crescentes a partir de 2008. Isto significa que aumentou a dependência ao capital externo.

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A queda no dinamismo da região está vindo em um momento ruim, quando a economia chinesa perde fôlego e existe a possibilidade de aumento da taxa de juros dos Estados Unidos. Segundo o Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2015, da CEPAL, a desaceleração econômica se deve a fatores tanto externos como internos. No âmbito externo, destaca-se o lento crescimento da economia mundial durante 2015, particularmente das outras economias emergentes, com exceção da Índia. O relatório ressalta que o comércio mundial se manterá estagnado no que já se transformou em um problema estrutural da economia mundial (estagnação secular) e que à menor demanda externa se soma, por um lado, a tendência à queda dos preços dos produtos básicos, e por outro, a maior volatilidade e a incerteza nos mercados financeiros internacionais.
Os países da América Latina e do Caribe crescerão em média somente 0,5% em 2015, segundo as novas projeções da CEPAL. Ainda que a desaceleração seja um fenômeno generalizado na região, o crescimento é heterogêneo entre sub-regiões e países. O Panamá liderará a expansão regional com um crescimento de 6,0%, seguido por Antígua e Barbuda (5,4%), pela República Dominicana e pela Nicarágua (ambos com 4,8%). O México alcançará um crescimento do PIB de 2,4% e a Argentina de 0,5%. O Brasil apresentará uma contração de -1,5%, enquanto que a Venezuela terá uma redução ainda maior de -5,5%. A América Central vai crescer 3,9%, enquanto a América do Sul vai decrescer 0,4% em 2015.

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Ao apresentar o relatório anual, a CEPAL propõe dinamizar o processo de investimento para retomar o crescimento e melhorar a produtividade da economia da Região. No âmbito interno, a publicação mostra que a contração do investimento, junto com a desaceleração do crescimento do consumo, explica entre outros fatores a redução da demanda interna, fator principal do crescimento nos últimos anos. A redução da taxa de investimento e a menor contribuição da formação bruta de capital ao crescimento são preocupantes, já que não somente afetam o ciclo econômico, mas também a capacidade e a qualidade do crescimento de médio e longo prazo. Por isso um dos principais desafios para retomar um crescimento vigoroso é dinamizar o processo de formação bruta de capital, mas a crise fiscal dos países não ajuda.
Uma situação inusitada acontece em Porto Rico (agora Porto Pobre), que vive uma tragédia semelhante à ocorrida recentemente na Grécia. São as ruínas gregas do Caribe. A ilha tem uma população de 3,5 milhões de habitantes, vive há sete anos em recessão e acumula uma dívida total de US$ 72 bilhões. Porto Rico não é um país independente, mas sim um território livre associado aos Estados Unidos, com o chamado status de Commonwealth. A ilha, porém, ao contrário dos estados americanos, não pode pedir concordata para se proteger dos credores. Sem ter como pagar a dívida e sem perspectivas de melhora, muitos habitantes preferem migrar para os EUA. O país pode virar Porto Vazio.
O fato é que a região da América Latina e Caribe (ALC) está entrando novamente no ritmo de uma segunda década perdida e a Venezuela e o Brasil, seguidos pela Argentina, são os países que estão puxando a média de crescimento para baixo. Isto significa que a pobreza vai aumentar e, sendo uma região muito violenta, é de se esperar uma grave crise de segurança pública e de instabilidade social.
Referências:
CEPAL. Estudio Económico de América Latina y el Caribe: Desafíos para impulsar el ciclo de inversión
con miras a reactivar el crecimiento, Santiago de Chile, julio de 2015


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 05/08/2015