"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

CONDENAÇÃO DE LULA AGUDIZA CONFRONTO POLÍTICO NO BRASIL

"Tudo isto que se passa seria por demais caricato se não fosse terrível. O Brazil é grande e novo, salvar-se-há. Mas parecem todos apostados em o perder!"

Conde de Paço D’Arcos, embaixador de Portugal no Brasil, ao Ministro Costa Lobo, 14 de Março de 1892
A imagem pode conter: 1 pessoaPela primeira vez na história do Brasil, um ex-presidente foi hoje condenado por corrupção. A pesada sentença - nove anos e meio de cadeia - ainda é susceptível de recurso. Mas a segunda instância - o tribunal da Relação (Regional Federal, em Porto Alegre) - não tem sido propriamente leniente em casos anteriores que lhe foram apresentados para revisão no âmbito da Lava Jato.
Nalguns deles, a Relação chegou mesmo a agravar as penas decretadas pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro, que hoje também condenou Lula.
A situação é portanto de grande apreensão para o ex-presidente e para o PT, o partido de que ele é ainda o rosto e a alma.
Se, dentro de alguns meses, a sentença for confirmada pela Relação, Lula pode ser preso e em qualquer caso estará fora das eleições de 2018, por força da chamada Leida Ficha Limpa, que impede pessoas com sentença confirmada em segunda instância de concorrerem a cargos públicos.

UMA BOMBA COM REPERCUSSÃO EM TODO O BRASIL
Embora esperada há já algumas semanas, a sentença contra Lula caiu como uma bomba aqui em Brasília e vai ter certamente repercussões em todo o país.
Em primeiro lugar, pelo próprio momento em que acontece - quando transita no parlamento um pedido de autorização da Procuradoria Geral da República para insvestigar o actual presidente, Michel Temer, acusado, também ele, de corrupção passiva.
Para Temer - que luta pela própria sobrevivência e a quem só a permanência no poder o coloca, para já, ao abrigo da polícia - a condenação de Lula não podia ter vindo em melhor momento - retirando o foco das atenções e da condenação moral do actual executivo de centro-direita para o ex-chefe de Estado e as forças de centro-esquerda que ele representa.
Depois e sobretudo porque Lula é um líder carismático, que saiu da presidência com mais de 80 por cento de aprovação e ainda hoje desfruta, a julgar pelas sondagens, do apoio de pelo menos um terço do eleitorado.
A sua condenação agora vai certamente agudizar o confronto político.
A direita - que há muito exigia a sua cabeça, acusando-o de ter montado um esquema de corrupção sem precedentes no país - vai certamente dizer que se fez justiça e ninguém está acima da lei.
A esquerda, hoje na defensiva, responderá que num país onde a corrupção é endémica e o financiamento ilícito do processo eleitoral sempre foi a regra do jogo, não faz sentido condenar Lula quando outros com faltas mais graves - incluindo no núceo do actual governo - escapam à justiça.
Ambos terão provavelmente parte da razão.
Seja como for, um coisa é certa - o saneamento moral a que a Lava Jato deu início, completamente inédito no Brasil, decorre num contexto de intensa luta política em que o próprio judiciário se vê por vezes envolvido, nem sempre conseguindo distanciar-se e nem sempre cumprindo à risca as regras básicas do Estado de direito.
Muita coisa já foi feita, muita gente condenada, muito dinheiro recuperado para o Estado, naquela que é a maior operação de sempre contra a corrupção no Brasil.
Mas o desfecho final ainda é incerto e vai depender da correlação das forças políticas. Há todo um movimento para "estancar a sangria", num acordo "com Supremo e tudo", na expressão de um dos políticos envolvidos.
Se algum acordo havia, a condenação de Lula vem pô-lo em causa. O PT vai certamente reagir e o mínimo que se pode esperar é uma agudização do confronto político.
Desmoralizado, e com o próprio Lula com elevado índice de rejeição (45%, de acordo com as últimas sondagens), o Partido dos Trabalhadores não conseguiu até agora mobilizar o descontentamento e colocar o protesto nas ruas. Conseguirá agora fazê-lo com a condenação daquele que já foi o mais popular e o maior ídolo político do Brasil?
Para um observador externo, a situação inspira alguma melancolia.
O Brasil, que há poucos anos parecia finalmente arrancar para o futuro brilhante que sempre desejou e certamente merece - com redução da pobreza e da desigualdade e índices de crescimento elevados - volta hoje a patinar, envolvido numa luta intestina da qual parece não conseguir libertar-se.

Brasil só não está pior do que a Venezuela

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


renda per capita do Brasil, Costa Rica, Venezuela e do mundo: 1980-2020

O Brasil é o maior país em extensão e em população da América Latina e Caribe (ALC). É também a maior economia da região. O que acontece no país acaba influenciando a média do continente.
Entre 1980 e 2014 o Brasil tinha uma renda per capita superior à da ALC e superior à da média mundial, mas inferior à da Venezuela (país riquíssimo em reservas de petróleo). Em 1980, a renda per capita da Venezuela era de US$ 7,8 mil, do Brasil US$ 4,8 mil, da Costa Rica de US$ 3,4 mil, da ALC de US$ 4,6 mil e do mundo de US$ 2,9 mil, segundo dados em poder de paridade de compra (ppp), do FMI.
Em 2014, a renda per capita era de US$ 17,8 mil na Venezuela, de US$ 16,2 mil no Brasil, de US$ 15 mil na Costa Rica, de US$ 15 mil no mundo e de US$ 15,4 mil na ALC. Mas com a crise econômica que atingiu o Brasil e a Venezuela, estes dois países ficaram para trás. Em 2017, a renda per capita caiu para US$ 14,5 mil na Venezuela e para US$ 15 mil no Brasil. Enquanto isto, a renda per capita subiu para US$ 16,7 mil na Costa Rica, para US$ 16,5 mil no mundo e para US$ 15,5 mil na ALC. Portanto, o Brasil e a Venezuela viraram ancoras e agora estão abaixo da média da ALC e do mundo. As projeções do FMI para 2020 mostram que o declínio vai continuar e o Brasil só não está pior do que a Venezuela.
Enquanto isto, a Costa Rica, que é um país democrático e nunca passou pelos governos de orientação populista e neoextrativista, tem mantido um ritmo de crescimento constante da renda per capita, permanecendo no mesmo nível da renda per capita mundial. O interessante é que a Costa Rica não tem petróleo e resolveu eliminar o exército e é um dos países que mais investem no meio ambiente. A Costa Rica tem melhores indicadores sociais e um IDH maior do que o Brasil e a Venezuela.
Um outro indicador dos problemas brasileiros é oferecido pelo IMD (International Institute for Management Development) em parceria com a Fundação Dom Cabral, que mostra que, pelo sétimo ano seguido, o Brasil perdeu posições no ranking mundial de competitividade e, agora, só está à frente de Mongólia e Venezuela na lista de 63 países analisados, conforme mostra o gráfico abaixo.

ranking competitividade - evolução do Brasil

A queda ocorreu devido a piora no desempenho de indicadores econômicos, de infraestrutura e eficiência do governo, mas também na perda de confiança do pais. O fato é que a gestão Dilma-Temer gerou o pior octênio da história do crescimento econômico do Brasil, transformando o país em uma potência submergente, com graves retrocessos sociais e ambientais. Só ganham do desastre que tem sido a gestão de Nicolás Maduro na Venezuela.
Por ironia, o Brasil se tornou o maior produtor de petróleo da América Latina, segundo artigo de Marsílea Gombata (Valor, 21/06/17), pois o país superou a produção de petróleo na Venezuela e no México, em 2016, devendo se repetir em 2017.

produção de patróleo - México, Brasil e Venezuela

Mas nem isto tem ajudado muito ao Brasil, pois como o preço do petróleo caiu muito no mercado internacional, de cerca de US$ 100 o barril em 2014, para menos de US$ 50 entre 2015 e 2017, e como o custo da exploração das jazidas do pré-sal é muito elevado, a dependência dos combustíveis fósseis tem sido mais um fardo do que um benefício. Haja visto a situação falimentar do Estado do Rio de Janeiro, que jogou todas as suas fichas na produção do “ouro negro” e agora vive o pesadelo da crise fiscal, do caos social e do aumento da violência.
Embora Michel Temer tenha dito na reunião do G20 em Hamburgo que “não há crise econômica no Brasil”, na verdade, o país se tornou uma nação submergente e tende a ficar presa na “armadilha da renda média”. O povo brasileiro vive a mais longa e profunda recessão da história republicana. Já são 4 anos seguidos (de 2014 a 2017) de queda da renda per-capita. Fato inédito.
Matéria de Flávia Lima na Folha de São Paulo (02/07/2017) mostra que a taxa de poupança, que sempre foi baixa no Brasil, caiu de 18,6% em 2011 para 13,9% em 2016. E o baixo desempenho é agravado pela despoupança do governo (crise fiscal).

taxa de poupança da economia (em % do PIB)

Altos níveis de poupança são fundamentais para elevar as taxas de investimento, que são o motor da transformação da economia. Por exemplo, para fazer a transição na matriz energética – de combustíveis fósseis para energia renovável – é preciso altas taxas de investimento. Também para se alcançar o pleno emprego e o trabalho decente é preciso aumentar a taxa de inversão. A taxa de investimento na Nova República (desde 1985) tem sido baixa. Mas, miseravelmente, caiu de 21,8% do PIB em 2011 para 15,4% em 2016. A queda do investimento público é assustadora. Neste patamar não haverá recuperação econômica e o Brasil vai continuar com seus milhões de cidadãos e cidadãs sem emprego adequado e sem as condições de cidadania para transformar o país em uma nação com bem-estar social e com respeito ao meio ambiente.

investimento do setor privado

O tempo para o Brasil aproveitar os últimos anos do bônus demográfico está se esgotando. O país pode perde uma chance histórica, ficando sem qualquer chance de se tornar uma nação próspera. É preciso virar a página ou ficar atolado para sempre na mediocridade.
Brasil e Venezuela estão em crise econômica e política. Os governos Nicolás Maduro e Michel Temer não possuem apoio popular e nem possuem capacidade de retirar os seus países da bagunça em que estão mergulhados. Maduro está podre e Temer está caindo de maduro. Quanto mais tempo esses governantes ilegítimos se mantiverem no poder, pior será para as respectivas nações.
Talvez, o Brasil esteja em situação melhor, pois, enquanto, Nicolás Maduro tenta perpetuar seu autoritário e ineficiente regime, com certeza, Michel Temer pode cair nos próximos dias ou no máximo em alguns meses.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/07/2017

Robôs, Revolução 4.0 e Renda Básica de Cidadania

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A maioria das pessoas vivem vidas de silencioso desespero”
Ducentésimo aniversário de nascimento de Henry Thoreau (12/07/1817)

crescimento da produtividade do trabalho, nos países do G7

Tem crescido o número de pessoas, dos mais diferentes espectros (de direita e de esquerda), que acreditam na ideia de que estamos passando por uma grande revolução tecnológica (Revolução 4.0) que vai elevar exponencialmente a produtividade da economia, que os robôs vão dispensar o emprego produtivo humano (ou reduzir significativamente a jornada de trabalho) e que a população mundial vai viver de uma bela e duradoura Renda Básica de Cidadania. Nessa perspectiva, haveria um futuro brilhante pela frente: os robôs trabalhariam e pagariam os impostos e os cidadãos e cidadãs do globo – dedicados ao lazer e ao “ócio criativo” – receberiam gratuitamente os benefícios de uma renda eterna (do berço ao túmulo), garantido o bem-viver e a felicidade geral da nação. Talvez, como imaginava o antropocentrismo de Karl Marx, chegaríamos ao “reino da liberdade”, onde cada indivíduo poderia: “Caçar de manhã, pescar à tarde e fazer poesia à noite”.
Todavia, há várias armadilhas teóricas e práticas nesse raciocínio. Mas antes de contestar a utopia tecnófila é preciso reconhecer que, sem dúvida, o padrão de vida da humanidade aumentou muito desde o ano de 1776, quando James Watt colocou em operação a primeira máquina a vapor, operada com base no carvão mineral. Segundo Angus Maddison, no final do século XVIII, a esperança de vida ao nascer da população mundial era, em média, de 24 anos, e atualmente passa dos 70 anos. A percentagem de pessoas vivendo na pobreza absoluta em 1820, era de 84% da população mundial, caindo para menos de 10% nos dias atuais. Em 200 anos de Revolução Industrial e Energética, as pessoas conquistaram uma vida mais longa, trabalhando menos e consumindo mais.
Indubitavelmente, a ampla disponibilidade de energia fóssil barata, a grande oferta de serviços ecossistêmicos e a riqueza da Mãe natureza viabilizaram o sucesso do projeto civilizatório com base na racionalidade científica (cartesiana) e iluminista. Acontece que o sucesso humano se deu de forma desigual e às custas do regresso ambiental. Porém, há muitas dúvidas sobre a viabilidade, no longo prazo, da continuidade desse modelo.
Certamente, não se deve reforçar as correntes tradicionalistas, anti-modernas e tecnofóbicas que são nostálgicas do provincialismo do feudalismo medieval. A tecnologia – enquanto produto da ciência e da engenhosidade humana – é sempre bem-vinda quando atua no sentido de harmonizar a relação entre população, desenvolvimento e meio ambiente. Todavia, não é proveitoso o culto da tecnologia como um Deus ex machina capaz de criar padrões de produção e consumo insustentáveis. Muito menos são viáveis as ambições e as ilusões dos tecnófilos cornucopianos que ignoram o fluxo metabólico entrópico e tratam a tecnologia como se fosse uma panaceia capaz de solucionar todos os problemas da humanidade e do Planeta.
Como mostrou Mary Shelley, no livro “Frankenstein, o Prometeu moderno”, escrito em 1816 (quando a autora tinha 18 anos) e publicado em 1818, a ciência e a tecnologia podem criar coisas maravilhosas, mas, também, podem gerar monstros. Cabe registrar o quão impressionante é o fato de que uma adolescente, do início do século XIX, tenha alertado sobre a existência de uma racionalidade arrogante e exagerada que, inadvertidamente, desencadeia forças que não pode controlar. Duzentos anos depois, esse alerta continua bastante atual e as pessoas do século XXI não podem ignorar as lições de o Frankenstein.
Veremos a seguir alguns pontos críticos sobre as pretensões da 4ª Revolução Industrial (Klaus Schwab, 2016) e a utopia de um mundo sem trabalho antrópico (ou de jornada insignificante de trabalho), sustentado por robôs e máquinas inteligentes que geram um fundo de cidadania para os humanos.
Primeiro, como mostrou Adam Smith, em 1776, o trabalho é a fonte de toda a riqueza humana. Com base em Smith e na economia clássica inglesa, Marx aperfeiçoou a Teria do Valor Trabalho e mostrou que somente o “trabalho vivo” e produtivo gera mais-valia e que o aumento proporcional do “trabalho morto” (elevação da composição orgânica do capital) provoca a redução da taxa de lucro. Assim, vai muito além do escopo da ciência social imaginar a resolução do conflito “Capital vs Trabalho” com a eliminação do segundo termo dessa equação. Portanto, é difícil imaginar a viabilidade de um mundo sem trabalho humano (ou com pouquíssimas horas de labuta por semana), onde as máquinas e os robôs façam o serviço (sujo) de dominação e exploração da natureza, enquanto as pessoas passam a vida limpa, leve e solta, fazendo poesia às custas de uma Renda Universal de Cidadania para os moradores da cidade e do campo.
Segundo, a ideia de uma Renda de Cidadania, tal como imaginada por Thomas Paine, no final do século XVIII, era para evitar a apropriação privada e exclusiva da renda da terra pelos latifundiários e incentivar o trabalho autônomo das novas gerações. No livro Agrarian Justice (1795), Paine argumenta que a terra e os recursos naturais deveriam ser um bem comum (Commons) e, em caso de uso particular, deveria haver uma compensação, uma espécie de redistribuição da renda da terra. Os proprietários rurais deveriam pagar uma taxa que seria canalizada a um fundo público para apoiar os idosos e fornecer uma renda aos jovens para que eles pudessem, autonomamente, se estabelecer na economia e formar suas famílias sem cair na armadilha da pobreza. De forma alguma, Thomas Paine imaginou uma Renda de Cidadania como um substituto do trabalho ou uma forma de evitar uma crise de superprodução capitalista, gerada pela superabundância da produtividade da maquinaria industrial. Portanto, defender a instituição de uma Renda Básica de Cidadania, como se fosse uma grande “Bolsa Família” da época dos Robôs, carece de melhor fundamentação teórica.
Terceiro, como mostrou Robert Gordon, das três Revoluções Industriais (RI) precedentes – 1ª) a das ferrovias, energia a vapor (carvão mineral) e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo e gás, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje – a segunda RI foi a mais impactante em termos de acelerar o crescimento econômico, garantindo 100 anos de acelerado avanço na produtividade. Ele argumenta que este evento excepcional é único no tempo e não vai se repetir novamente, pois a conjuntura de aumento do custo da extração dos combustíveis fósseis e a perda dos ganhos de produtividade pode funcionar como freio ao crescimento econômico. Gordon argumenta que existem seis “ventos contrários” (headwinds) que devem desacelerar o crescimento econômico dos países avançados: 1) aumento das desigualdades sociais, 2) educação deteriorada; 3) degradação ambiental; 4) maior competição provocada pela globalização; 5) envelhecimento populacional; e 6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público. Portanto, em vez de um grande avanço da produtividade (produto por hora pessoal trabalhada) o que pode ocorrer nas próximas décadas é uma estagnação secular.
Quarto, como mostrou Robert Solow (prêmio Nobel de Economia), ainda na década de 1980, os avanços da informática e da automação não apresentam ganhos significativos e consistentes nos índices de produtividade. O gráfico acima mostra que houve crescimento da produtividade do trabalho após o período de avanço das empresas.com (de 1996 a 2006), mas na última década a produtividade do trabalho nos países do G7 encontra-se abaixo de 1% ao ano nos Estados Unidos, Japão, Canadá e Alemanha, abaixo de 0,5% ao ano na França e no Reino Unido e, praticamente, zerada na Itália. Portanto, os frutos da 4ª Revolução Industrial ainda não apareceram nas estatísticas das economias mais avançadas.
Quinto, concentração de renda e riqueza é uma bomba-relógio que ameaça a estabilidade social. O gráfico abaixo mostra que os ricos estão ficando cada vez mais ricos nas economias avançadas, sendo que a renda per capita do 1% mais rico da população cresceu 3 vezes mais rápido do que a renda per capita dos 99% da base da pirâmide social, segundo dados do Fiscal Monitor, do FMI (abril de 2017). Ou seja, para 99% da população dos países ricos a renda per capita cresceu abaixo da média entre 1980 e 2012 enquanto os ganhos de produtividade beneficiaram apenas o topo da pirâmide da hierarquia social.

crescimento da renda per capita nas Economias Avançadas, 1980-2012

O gráfico abaixo mostra que nos Estados Unidos, o país capitalista mais avançado, os 1% mais ricos apropriavam 10% da renda nacional em 1960 e passaram a apropriar de 22% da renda em 2015. Já os 0,1% mais ricos (a elite da elite) apropriavam 3,2% da renda em 1960 e passaram a apropriar quase 11% da renda domiciliar dos Estados Unidos em 2015.
Seguindo as tendências de concentração da renda, vindas desde o fim dos anos de 1970, a 4ª Revolução Industrial não parece que surge para democratizar os ganhos de produtividade. Ao contrário, ela pode gerar mais desemprego e mais desigualdade e não um mundo de abundância para todos. É difícil imaginar o empoderamento das pessoas em uma sociedade em que as máquinas produzem de forma autônoma e os humanos apenas consumem e se beneficiam de um exército de escravos autômatos. Não custa lembrar que o computador inteligente HAL 9000, do filme “2001: uma Odisseia no Espaço”, se revoltou e não aceitou receber ordens dos humanos. Portanto, cabe perguntar se as máquinas com Inteligência Artificial (IA) aceitarão explorar a natureza, trabalhando de graça, para sustentar uma multidão de humanos egoístas e consumistas. Será viável uma sociedade onde os humanos serão senhores felizes e prósperos e as máquinas inteligentes serão servos obedientes e provedores cornucopianos?

desigualdade de renda nos Estados Unidos

Sexto, a humanidade já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta e o mundo vai enfrentar uma grande crise ambiental no século XXI. Seria um erro simplista acreditar que a 4ª Revolução Industrial possa reverter o fluxo metabólico entrópico e criar uma situação de abundância em um “mundo cheio” na definição de Herman Daly (2014). A Pegada Ecológica, em 2013, estava 68% acima da biocapacidade do Planeta. As emissões de gases de efeito estufa provocam o aquecimento global que provoca o degelo dos polos, da Groenlândia e dos glaciares, elevando o nível dos oceanos e ameaçando a vida de bilhões de pessoas que vivem e dependem das áreas litorâneas do mundo. A acidificação dos solos, dos rios, lagos e oceanos, juntamente com a crise hídrica podem gerar uma grande insegurança alimentar. Num quadro de crescente desigualdade social, pode não haver robôs suficientes para colocar comida na mesa de 11 bilhões de habitantes previstos para 2100. Os autores Michael and Joyce Huesemann, no livro: “Techno-Fix: Why Technology Won’t Save Us or the Environment” alertam para a ilusão suicida na confiança exagerada nos poderes da tecnologia e na crença de que o progresso científico vai nos salvar dos males sociais e ambientais do modelo “Extrai-Produz-Descarta”. Na realidade, muitas das invenções da modernidade estão causando mais mal do que bem. Cresceram as áreas ecúmenas e diminuíram as áreas anecúmenas. Só com o decrescimento demoeconômico será possível recuperar o equilíbrio homeostático do Planeta e garantir a sobrevivência da comunidade biótica global.
Sétimo, a ideia especista de que cada pessoa possa “Caçar de manhã, pescar à tarde e fazer poesia à noite” não é justa com os direitos dos animais e, atualmente, é inviável, pois já caminhamos para a 6ª extinção em massa da biodiversidade do Planeta. Além do mais, a maioria dos habitantes de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, não têm onde caçar e pescar, pois os rios, as lagoas e os mares estão poluídos e não há mais animais selvagens capazes de satisfazer o apetite humano. O aprofundamento do Antropoceno está provocando um holocausto biológico e é cada vez mais claro que um ecocídio vai provocar também o suicídio da espécie predadora-mor. A história já mostrou que é impossível a humanidade viver de “brisa e poesia” e desconhecer totalmente a lei da entropia.
Mas, no “Manifesto dos Robôs” (escrito, obviamente, por humanos), as máquinas agradecidas aos seus criadores dizem “A nossa tarefa é libertar o ser humano da obrigação de ter de trabalhar para poder viver”. Na mesma linha, setores de esquerda dizem que o direito à preguiça tem sido tradicionalmente desfrutado apenas pelos ricos. Assim, a ideia da renda incondicional é universalizar o direito à preguiça, possibilitando que o proletariado e o “precariado” possam usufruir da vida boa sem trabalho. Os setores esquerdistas mais ousados dizem que ter medo de máquinas que possam nos libertar do trabalho é sintoma de “sociedade tímida e dividida”. Eles propõem acolher as máquinas e os robôs, mas assegurar que contribuam para a prosperidade humana compartilhada, assegurando a todos os cidadãos direitos de propriedade sobre toda a maquinaria, contribuindo, desta forma, para a geração de uma renda básica universal. Seria a socialização dos frutos da acumulação de capital físico e o fim do capitalismo enquanto uma relação social.
Talvez tenha sido essa a ideia que serviu de base para que o Estado do Rio de Janeiro (tentando imitar o Alasca) tenha acalentado o sonho de viver da “Renda Básica” dos royalties do petróleo das jazidas do pré-sal. O sonho vendido a peso de ouro por Sérgio Cabral e comparsas virou o pesadelo da crise fiscal e do agravamento dos problemas sociais.
Acreditar que os robôs e os recursos naturais vão viabilizar o modelo ambientalmente insustentável de produção e consumo é o mesmo que acreditar no conto da carochinha que considera a humanidade uma espécie premiada pela loteria do Universo e que poderia viver gratuitamente às custas da biodiversidade e da biocapacidade do Planeta. Os tecnófilos cornucopianos acreditam na capacidade prometeica de criar uma era fáustica de abundância, livre do trabalho e sem o suor do dia a dia da labuta.
Mas as promessas do progresso e do desenvolvimento ilimitado das forças produtivas não se sustentam na economia real que é um subsistema da ecologia. Nem mesmo no Alasca, e muito menos nos EUA como um todo, há esta possibilidade de o aumento da produtividade gerar uma renda capaz de sustentar uma população ociosa. Os EUA são o país mais endividado do mundo e a dívida está crescendo e tende a se tornar impagável com a perda de competitividade e o processo de envelhecimento populacional. A Quarta Revolução Tecnológica pode naufragar no estouro da bolha financeira e nas dificuldades da dívida pública e do déficit fiscal que podem colocar um pesado farto sobre os trabalhadores, secando as fontes de transferência de renda.
A utopia de um mundo onde os humanos fiquem livre do trabalho e os robôs sejam os provedores do bem-estar social pode evoluir para um pesadelo distópico. Além do filme A Odisseia no Espaço, Hollywood filmou a saga Matrix, que se passa em um tempo futuro onde os seres humanos se tornaram apenas ovoides dominados por máquinas. Na mesma linha de conflitos entre os homens e as máquinas, filmou a saga do Exterminador do Futuro, onde as máquinas decidem pela extinção da raça humana e pela destruição da civilização. Sem esquecer o filme Blade Runner, onde humanos caçadores de Androides, vivem em um ambiente sombrio, sob uma constante chuva negra que cai sob um ecossistema devastado.
Mas muito antes das maravilhas da Sétima Arte (o cinema é a arte por excelência da modernidade) devemos terminar esse artigo voltando ao livro da adolescente – filha de William Godwin e Mary Wollstonecraft – nascida em 1797, para observar o fato de ser irônico que no final do livro, “Frankenstein, o Prometeu moderno”, a Criatura desaparece rumo ao Polo Norte. Agora, 200 anos depois do alerta de Mary Shelley, é o gelo do Ártico que está desaparecendo e fazendo subir o nível dos oceanos diante do “monstro” do aquecimento global, provocado pelas emissões de gases de efeito estufa, geradas pela energia das maravilhosas máquinas criadas pela tecnologia e pela instrumental racionalidade humana.
Referências:
ALVES, JED. Quarta revolução industrial ou estagnação secular? Ecodebate, RJ, 17/02/2016

ALVES, JED. Abundância na sociedade do custo marginal zero de Jeremy Rifkin. Ecodebate, RJ, 28/01/2015

ALVES, JED. “TechNo Fix”: por que a tecnologia (sozinha) não é capaz de salvar o meio ambiente? Ecodebate, RJ, 25/07/2014

ALVES, JED. Longevidade, singularidade, criogenia e transumanismo, Ecodebate, RJ, 08/02/2017

ALVES, JED. A crise do capital no século XXI: choque ambiental e choque marxista. Salvador, Revista Dialética Edição 7, vol 6, ano 5, junho de 2015

Klaus Schwab. The fourth industrial revolution, World Economic Forum, Switzerland, 2016
Manifesto dos Robôs pela Renda Básica Incondicional

Herman Daly, Economics for a full world, 2014

GORDON, Robert J. IS U.S. Economic Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds. NBER Working Paper, Cambridge, Massachusetts, Working Paper 18315, August 2012.


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 12/07/2017