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quinta-feira, 15 de março de 2018

O aumento do padrão de vida da humanidade nos últimos 200 anos


Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Heal the world
Make it a better place
For you and for me
And the entire human race”
Michael Jackson

Os gráficos acima, do site “Our World in Data”, mostram 6 indicadores que refletem os avanços sociodemográficos inquestionáveis, ocorridos desde o início do século XIX, nas áreas de pobreza, saúde, educação e democracia

A Revolução Industrial e energética que teve início no final do século XVIII colocou em funcionamento uma máquina de produção de bens e serviços que ampliou a dominação e a exploração da natureza e abriu um período de grande elevação do padrão de consumo da humanidade. Nesta nova etapa do avanço civilizacional, o ano de 1776 foi marcante devido à conjugação de três acontecimentos históricos: a Independência dos Estados Unidos; O lançamento do livro “A riqueza das nações” de Adam Smith e a entrada em funcionamento da máquina a vapor aperfeiçoada por James Watt que deu início à utilização dos combustíveis fósseis em larga escala.
Entre 1776 e 2016 o crescimento da população foi de quase 9 vezes (de cerca de 850 milhões para 7,5 bilhões de habitantes), enquanto o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) foi de 120 vezes. O aumento da renda per capita foi superior a 13 vezes. Isto quer dizer que um cidadão médio da atualidade recebe em um mês o que um indivíduo médio do antigo regime, antes da Revolução Francesa, levava mais de um ano para receber. Acompanhando o crescimento da renda, houve uma melhoria nos indicadores sociais e políticos
Os gráficos acima, do site “Our World in Data”, mostram 6 indicadores que refletem os avanços sociodemográficos inquestionáveis, ocorridos desde o início do século XIX, nas áreas de pobreza, saúde, educação e democracia.
O primeiro gráfico mostra as estimativas da participação da população mundial em extrema pobreza. Em 1820, apenas uma pequena elite gozava de padrões de vida mais elevados, enquanto a grande maioria das pessoas vivia em condições que hoje se chamaria de pobreza extrema. Os dados da pobreza extrema consideram os valores abaixo de US$ 1,90 por dia.
Esses números consideram as formas de renda não monetárias (no passado, isso era importante, principalmente por causa da agricultura de subsistência). A medida da pobreza também é corrigida para diferentes níveis de preços em diferentes países e ajustada pelas mudanças de preços ao longo do tempo (inflação). A pobreza é medida no chamado dólar internacional que explica esses ajustes. Em 1820, 94% da população mundial estava em situação de pobreza extrema e apenas 6% estavam fora deste patamar crítico. Quase 200 anos depois, apenas 10% da população mundial estava em situação de pobreza extrema e 90% fora desta condição, em 2015.
O segundo gráfico mostra o processo de democratização da educação e confirma que o sonho iluminista de oferecer educação básica avançou incrivelmente nos últimos 200 anos. A escola era acessível apenas por uma pequena elite. Em 1820 apenas 17% da população mundial possuía educação básica ou mais, sendo que 83% não tinha nenhuma educação formal. Em 2015, os números se inverteram e 86% da população mundial tinha educação básica ou mais e apenas 17% não tinha nem educação básica. Foi nos últimos dois séculos que a alfabetização tornou-se a norma para toda a população.
O terceiro gráfico mostra que 88% da população mundial era analfabeta em 1820 e este percentual caiu para 15% em 2014. Atualmente, há 5,4 bilhões de pessoas no mundo com mais de 15 anos, sendo 85% alfabetizados, o que representa 4,6 bilhões de pessoas. Em 1800, havia menos de 100 milhões de pessoas com a mesma habilidade. Só uma educação em massa seria capaz de movimentar a ciência e a tecnologia, que se bem aplicadas, poderiam resolver os problemas da humanidade.
Os gráficos sobre saúde mostram que a vacinação em massa só começou na década de 1960 e a cobertura chegou a 86% em 2015. Com o desenvolvimento de antibióticos e vacinas, o mundo começou a ver por que a saúde pública é importante. Todos se beneficiariam se a vacinação for universal e com todas as pessoas obedecendo às regras de higiene pública.
Nos últimos 200 anos a conquista mais espetacular foi a redução da mortalidade na infância (0 a 5 anos), que era de 43% (430 por mil) em 1820 e caiu para 4% (40 por mil) em 2015. Nos países desenvolvidos esta taxa está abaixo de 1% (10 por mil). Ou seja, a mortalidade na infância caiu mais de 10 vezes em menos de dois séculos. A sobrevivência das crianças é não só um direito humano básico, mas é fundamental para o próprio bem-estar dos pais. Quanto a mortalidade de crianças é alta, em geral, a mulher passa mais tempo tendo filhos e cuidando da sobrevivência da prole.
A queda da mortalidade possibilita a queda da fecundidade e libera a mulher para investir seu próprio tempo em educação e na inserção do mercado de trabalho. Não só a mulher ganha, mas toda a família e o país como um todo, pois haverá mais pessoas atuando em nas atividades produtivas. A esperança de vida global que estava abaixo de 30 anos no início do século XIX ultrapassou 70 anos no início do século XXI.
O gráfico sobre democracia mostra que em 1820, somente 1% da população mundial vivia sobre regimes democráticos e este número passou para 56% em 2015. Embora seja difícil classificar o grau de liberdade política dos países, não há dúvidas que o mundo ficou mais democrático. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve a queda dos impérios coloniais e o processo de descolonização possibilitou que mais países se tornassem democráticos.
O fim das ditaduras na América Latina, o fim da União Soviética e o fim do Apartheid na África do Sul são marcos da democratização global. A liberdade política e as liberdades civis são essenciais para o desenvolvimento científico e tecnológico e para o avanço cultural e o aumento do bem-estar das nações.
Evidentemente, existem muitos direitos humanos que não foram alcançados e a desigualdade social é uma realidade que não se pode ignorar. A pobreza extrema voltou a aumentar na América Latina e a democracia recebeu reverses com a ascensão de líderes fortes na Rússia, Turquia, Filipinas, China, etc. Há países em guerra civil que estão retrocedendo em ritmo acelerado como a Síria, Venezuela, Iêmen, etc. O ritmo do mundo moderno deixa as pessoas estressadas e a sensação de desesperança é grande.
Mas, sem dúvida, os ideais iluministas do século XVIII se materializaram em melhores condições de vida para a humanidade ao longo dos últimos 200 anos. As pessoas vivem mais tempo, com maior renda e com maior padrão de consumo. Nenhum Rei ou milionário do início do século XX, tinha acesso a vaso sanitário, luz elétrica, geladeira, telefone, celular, Internet, etc., como tem hoje em dia a maioria da população mundial. A fome e a pobreza ainda são uma realidade para boa parte dos habitantes do globo, mas a proporção de pessoas vivendo na miséria nunca foi tão baixa. O acesso à informação e à educação nunca foi tão alto.
Porém, não cabe ufanismos e comemorações míopes, pois todo esse avanço das condições de vida da humanidade ocorreu às custas do retrocesso das condições ambientais. Enquanto a humanidade avançou, as demais espécies vivas do Planeta regrediram e os ecossistemas foram degradados. O ser humano usou a riqueza ecossistêmica para usufruto próprio e reduziu as condições ambientais para as futuras gerações.
Portanto, o extraordinário avanço antrópico ocorrido nos últimos dois séculos pode não se repetir no futuro e diversas conquistas que pareciam sólidas podem se desmanchar no ar, pois sem ECOlogia não há ECOnomia.
Referência:
Max Roser. “The short history of global living conditions and why it matters that we know it”. Published online at OurWorldInData.org., 2017

Our World in Data https://ourworldindata.org/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/03/2018

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