"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Mundo se levanta contra o capitalismo


Espanha: marcha operária levanta a Andaluzia

A marcha operária que percorreu a Andaluzia, no sul da Espanha, parecia, no início, um quixotesco protesto idealizado por teimosos, radicais e desesperados sindicalistas. Mas, passo a passo, mostrou a profundidade da revolta e da revolução que vive hoje todo o Estado Espanhol. Foi a continuidade heroica do levante mineiro, iniciado no norte, que se insurgiu contra a brutal política de austeridade do governo de Mariano Rajoy.

A marcha operária que percorreu a Andaluzia, no sul da Espanha, parecia, no início, um quixotesco protesto idealizado por teimosos, radicais e desesperados sindicalistas. Mas, passo a passo, mostrou a profundidade da revolta e da revolução que vive hoje todo o Estado Espanhol. Foi a continuidade heroica do levante mineiro, iniciado no norte, que se insurgiu contra a brutal política de austeridade sobre os trabalhadores, sintetizada no pacote de cortes do governo de Mariano Rajoy anunciado em julho.

Dias antes da marcha, ativistas do Sindicato Andaluz de Trabajadores (SAT), encabeçados pelo seu líder, Sánchez Gordillo, entraram num supermercado da rede Mercadona e confiscaram alimentos, enchendo nove carrinhos e saindo sem pagar. Os alimentos foram entregues aos necessitados. Esta ação do SAT ganhou as manchetes, escancarando a discussão sobre se aqueles que não têm o que comer têm o direito de se apropriar dos alimentos para poderem sobreviver, num país onde os políticos fazem tantos absurdos, como uma lei que permite que pessoas que recolhem comida no lixo possam ser multadas, como ocorreu recentemente a um indigente. A ação do SAT recebeu também, além do destaque, um processo judicial contra vários dos ativistas que participaram do confisco de alimentos, chamado de roubo e até mesmo de assalto pelas vozes patronais. Foi um eloquente aviso simbólico daquilo que está por vir.

O cartaz do SAT convocava a militância para iniciar a marcha (Andalucía en Pie – Marcha Obrera) no dia 16 de agosto, às 9 horas, partindo de Jódar, passando por Bedmar, em direção à Jimena, onde se realizaria uma assembleia. Depois seguiria para Mancha Real, Pegalajar, completando a primeira etapa em Jaén, no dia 18, sábado.

É de se perguntar, se, no escaldante verão espanhol, haveria motivos suficientes para iniciar uma caminhada dessa natureza, percorrendo centenas de quilômetros, ou se seria melhor ficar em casa, com o ar condicionado ligado. Marchas desse tipo ocorreram sistematicamente desde o início do sistema capitalista, não sendo, portanto, nenhuma novidade histórica. Mas, que trabalhadores se disponham a fazê-la, demonstra não a vontade de desfrutar o calor do verão nas estradas andaluzas, mas a alta temperatura da crise social que atravessa o país. É a dinâmica da luta social em curso que empurra esses valorosos trabalhadores à heroica caminhada, enquanto nós, que observamos, protestamos em meios como o Facebook ou Twitter, como bem lembrou algum companheiro da Argentina.

Que os capitalistas paguem a crise!
Centenas de pessoas responderam ao chamado do SAT e assim teve início, naquela quinta-feira, dia 16, um dos mais importantes protestos da mobilização contra Rajoy.

O SAT imaginava que a marcha teria a participação de 150-200 pessoas, mas logo se verificou que cerca de 700 ativistas participavam, que percorria as estradas com uma temperatura de 40 graus, na sombra, como diziam, apelando para a solidariedade dos outros trabalhadores para poderem comprar água e um pouco de comida.

Não só operários, trabalhadores da colheita de azeitonas, estudantes, desempregados, homens e mulheres, mas também artistas como Willy Toledo uniram-se à marcha. Desde Jódar, uma pequena cidade que vive dos campos de oliveiras, começava a ecoar o grito ouvido durante vários dias em toda a Andaluzia: Contra o desemprego! Luta operária! Que os capitalistas paguem a crise!

A marcha, segundo Gordillo, tinha como objetivo mostrar a outra face da lua, a crise econômica, que afeta milhões de trabalhadores, desempregados, que mantêm milhares de crianças desnutridas.(...) As vítimas (da crise), já não aguentam mais!

Quando os manifestantes chegaram à Mancha Real, foram recebidos como heróis pela população. Lá, a marcha parou em frente à Unicaja e ao Banco Santander, onde fizeram um protesto com todos sentados na rua, gritando: “Mãos para cima, isto é um assalto!”, referindo-se ao roubo realizado pelos bancos com o aval do governo. Momentos depois, os ânimos aqueciam e começa um confronto com a polícia, chamada de “Filhos da p...”. Começam a gritar a velha palavra-de-ordem “O povo unido jamais será vencido!” Alguns ativistas entram na Unicaja, provocando um rebuliço momentâneo.

Na última parte do trajeto, rumo a Jaén, dez carros da polícia escoltavam a marcha para impedir que esta pudesse bloquear a auto-estrada. Em frente ao Corte Inglês, uma muralha de polícias blindava o edifício, com receio de que os manifestantes pudessem confiscar os seus produtos.

Passadas algumas dezenas de quilômetros, os caminhantes estavam suados, cansados, sem voz, depois de gritarem por todas as partes suas reivindicações, a maior parte delas elementares, como o direito ao trabalho, impossível de se conquistar numa sociedade capitalista. Muitos dos que marcharam essa parte do roteiro eram diaristas, com mais de cinquenta anos, que lutavam também em prol das gerações futuras. Alguns desses caminharam até onde aguentaram, com os pés doloridos, feridos, cheio de bolhas. Em Jaén, a marcha já tinha conquistado uma grande vitória, que foi a de chamar a atenção de toda a opinião pública sobre a atual crise. A crise é um “atraco” (assalto), como dizem eles.

Nesse mesmo dia, Sánchez Gordillo e Diego Cañamero, secretário-geral do SAT, participaram do popular programa de televisão “O grande debate”, onde puderam explicar as suas posições e opiniões. No programa receberam também toda a série de ataques dos jornalistas convidados, dos melhores do país, como disse o apresentador, que certamente recebem bons salários e, por isso mesmo, criticaram impiedosamente o confisco alimentar do supermercado Mercadona. Somente o jornalista Ignacio Escolar defendeu a atitude simbólica dos sindicalistas.

Ocupando o palácio de Moratalla
Na manhã do dia 21, a marcha ocupava o Palácio de Moratalla, pertencente ao Duque de Segorbe e Maria de la Glória de Orleans-Braganza, prima do rei Juan Carlos. A marcha entrou por um vão próximo ao portão principal e aproveitou a ocasião para denunciar e reivindicar o fim do latifúndio, que é um dos principais problemas agrários da Andaluzia. Os manifestantes gritavam: “Reforma agrária, agora!” Depois de ocupar por uma noite o Palácio de Moratalla, pela manhã a marcha saiu em direção a Posadas onde chegou ao redor do meio-dia. Durante o caminho, um dos ativistas tocava uma gaita de foles, dando ânimo aos participantes que caminhavam sob o sol abrasador. O povoado estava completamente tomado pela Guarda Civil e o presidente da câmara da cidade, do Partido Popular, tinha feito terrorismo, dizendo que a marcha iria ocupar o comércio, o que fez os comerciantes locais fecharem as portas.

Chegaram a Almodóvar às duas e meia, onde foram recebidos com um guisado de arroz e puderam descansar. A população saiu para aplaudir os manifestantes, contrastando com o forte dispsitivo policial antidistúrbios montado. A marcha percorria as ruas: “Viva a luta da classe operária!”

A solidariedade de Cádiz
Na manhã do dia 27, começava a terceira etapa da marcha, desde El Puerto de Santa María. Poucos metros depois de iniciada a marcha, os manifestantes ocupam simbolicamente a agência da “La Caixa”. Apesar da ocupação pacífica, a polícia interveio, desalojando violentamente os manifestantes e prendendo onze deles. A polícia antidistúrbios agrediu uma senhora idosa, provocando tensão.

Em Puerto Real, foram recebidos por 5 mil moradores da cidade, superando todas as expectativas, mesmo as mais otimistas. Nas palavras de Maricarmen Garcia, do SAT, estava clara a importância do acolhimento: “Nesta praça, reina esta noite a dignidade operária!” Em seguida, tomou a palavra Lola Álvarez: “O vosso ânimo, o vosso apoio, o calor desta praça faz com que esqueçamos o cansaço e sigamos adiante!”

De Puerto Real seguiram para Cádiz, recebendo, no caminho, o abraço dos trabalhadores da Navantia, que se uniram aos manifestantes. Minutos depois, fizeram um protesto, sentando-se na Puente de Carranza, recordando desta maneira a luta dos estaleiros, que muitas vezes interrompeu esse local nos seus protestos. Após atravessar a ponte, o cortejo foi engrossado pela Autonomia Obrera e Ustea, que manifestavam a sua solidariedade. Em Cádiz, milhares de pessoas aguardavam a marcha, sindicatos, organizações de esquerda e movimentos sociais. Juntando-se numa grande manifestação que tomava a principal artéria da cidade.

Milhares em Granada
No dia 30 pela manhã, a marcha saia de Maracena passando por Atarfe, Albolote, para pernoitar em Peligros. Como ocorrera desde o início, a reação da população foi calorosa. Em Peligros, centenas de moradores incorporaram a marcha, participando da manifestação de protesto na cidade. Cerca de 3 mil pessoas aglomeraram-se no Anfiteatro de Peligros para ouvir os discursos de Sánchez Gordillo e Diego Cañamero. Cañamero frisou: “Quando o desemprego bate à sua porta, não pergunta de qual partido você é, o desemprego chega para ficar e destrói a sua vida. É preciso rebelar-se! Esta sociedade não pode suportar seis milhões de desempregados. É preciso colocar a economia a serviço das pessoas e não do mercado!”.

Em Granada, a marcha fez uma ocupação simbólica da rede Zara, propriedade de Amancio Ortega, o empresário mais rico do Estado Espanhol e o 3º mais rico do mundo, segundo a avaliação recente da Bloomberg. Um forte dispositivo policial escoltava a marcha, e policiais fardados filmavam a manifestação. No bairro de Zaidín, por onde passou, centenas de moradores aderiram, seguindo para o centro, percorrendo as principais ruas, onde terminou com uma grande manifestação de 10 mil pessoas.

Marchando sobre Málaga
A quinta etapa da marcha foi proibida pelo governo, mas, mesmo assim seguiu em frente. Ocuparam simbolicamente uma agência do Banesto, denunciando a responsabilidade dos banqueiros na atual crise. Doze participantes foram detidos e logo colocados em liberdade. A marcha tinha partido de Fuente de La Reina e terminou na Plaza de la Constitución. Gordillo ressaltou: “O povo de Málaga disse claramente que está com a marcha, que está com a utopia, por um mundo melhor, por outra Andaluzia, por outra política económica e por um ser humano novo!”.

Rumo a Sevilha
Depois de cerca de duzentos quilómetros a marcha parte para Sevilha, na sua última etapa. Sai de Utrera com mais de mil participantes rumo a Los Palacios. Os manifestantes ocuparam a agência do BBVA de Utrera. Dois helicópteros, cerca de trinta furgões da polícia e mais de cem soldados da guarda civil escoltavam-na. Uma companhia desnecessária, inútil e cara, segundo os sindicalistas. Um desperdício de dinheiro com o objetivo não de proteger os manifestantes, mas de proteger os bancos e latifúndios, como se viu em La Romana.

Em Los Palacios, a marcha fez outro protesto, sentando-se em frente à La Caixa.

Em Dos Hermanas, os manifestantes ocuparam o supermercado Lidl, de capital alemão, em protesto contra a visita de Angela Merkel à Espanha que, segundo Cañamero, veio a Espanha para exigir os cortes, que beneficiam os banqueiros alemães.

Uma grande maré humana, um grande rio de dignidade e luta em Sevilha
A marcha que começara em Jódar, no dia 16 de agosto, com algumas centenas de ativistas, terminou em Sevilha, depois de percorrer cerca de 300 quilómetros, em 23 dias, com a participação de cerca de 15 mil pessoas. Vinham de Bellavista e durante o trajeto, nas proximidades do estádio Benito Villamarín, encontraram-se com a multidão que os esperava. A marcha se transformara em impressionante manifestação que ocupava toda a Avenida de La Palmera, dirigindo-se à Plaza de España, sede do governo, onde foi realizado o comício final de encerramento do protesto.

Durante o trajeto tremulavam as bandeiras verdes do SAT, com uma faixa branca no meio e SAT escrito em vermelho, no centro. Tremulavam também dezenas de bandeiras vermelhas e negras dos anarquistas da CGT, algumas do PCE, da Esquerda Unida e também um pequeno grupo de trotskistas da Esquerda Anticapitalista e da Corrente Vermelha, assim como as bandeiras tricolores dos republicanos.

Nesse local ecoavam os gritos: Reforma Agrária, Já!; Temos a solução, banqueiros na prisão! Contra os cortes, Greve Geral!

Diego Cañamero afirmou que a grande surpresa do dia não foi nenhuma ocupação de supermercado ou banco, “a autêntica surpresa de hoje foi o acolhimento e receção desta cidade!”. Em Sevilha, demonstrou-se que a marcha conquistara os corações dos operários andaluzes, com o seu heroísmo e combatividade, e que novas grandes lutas se preparam.

Cañamero deixou claro que o SAT continuará a “ocupar palácios, terras e bancos” e concluiu: “Isto é só o começo, não conseguirão parar-nos!”

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