"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 9 de agosto de 2014

Milhares de pessoas marcharam em todo o mundo pelo fim do massacre em Gaza

De Londres a Paris e de Teerã à Cidade do Cabo, vários milhares de pessoas exigiram o fim da ocupação e da agressão israelita em Gaza e a condenação, por parte da comunidade internacional, do massacre contra o povo palestiniano.


Manifestação em Londres. Foto retirada do facebook de Palestine Solidarity Campaign UK-
Em Londres, a manifestação organizada pelo movimento Stop The War reuniu mais de 150 mil pessoas, segundo avançam os organizadores. Vários membros de grupos judeus engrossaram o protesto. Os participantes reclamaram liberdade para a Palestina e criticaram o presidente dos EUA, Barack Obama.
Na África do Sul cerca de 50 mil pessoas ocuparam as ruas da Cidade do Cabo. As autoridades afirmam que foi a maior manifestação na cidade no período pós apartheid. Os manifestantes, entre os quais se destacou o arcebispo Desmond Tutu, pediram paz e apelaram ao presidente Jacob Zuma e ao governo sul africano para que deixem de vender armas a Israel.
Mais de duas mil pessoas marcharam nas ruas das duas principais cidades australianas. Em Sydney, o protesto foi encabeçado por caixões com imagens de crianças feridas durante os ataques de Israel.
Porto, em Portugal, Valência, em Espanha, Dublin, na Irlanda, Paris, Bayonne, Avignon e Marselha, em França, Amã, na Jordânia, Helsinque, na Finlândia, Teerã, no Irã, Tóquio, no Japão, Berlim, na Alemanha, e Deli, na Índia, entre muitas outras cidades, também foram palco de protestos contra o massacre em Gaza e a ocupação israelita.

Amã, Jordânia 

Foto do facebook de Palestine Festival of Literature.

Cidade do Cabo, África do Sul

Fotos do facebook de Firooza Adams.

Londres, Inglaterra

Fotos do facebook de Palestine Solidarity Campaign UK.

Crise climática: por que agir agora

Novos dados revelam que o degelo na Antártida é acelerado e potencialmente catastrófico, enquanto começa outro ciclo de negociações sobre redução das emissões de carbono. 
Por Bill McKibben, New York Review of Books.
Podemos estar a chegar ao final do jogo da mudança climática. As peças, tecnológicas e talvez políticas, finalmente estão posicionadas para uma ação rápida e poderosa capaz de nos libertar dos combustíveis fósseis. Infelizmente, os jogadores também podem optar por simplesmente mover os peões para frente e para trás durante algumas décadas, o que seria fatal. Mais triste ainda é constatar que a natureza está a avisar-nos todos os dias de que o tempo está a esgotar-se. Todo o jogo está praticamente em xeque.
Vamos começar na Antártida, o continente com a menor densidade demográfica e praticamente intocado pelos humanos. No seu livro sobre a região, Gabrielle Walker descreve muito bem as atividades recentes na vasta placa de gelo, desde as constantes descobertas de novas formas de vida marinha até a procura frenética de meteoritos, que são relativamente fáceis de encontrar na brancura do gelo. Se é um daqueles curiosos sobre como é sentir um inverno de 70 graus negativos, a história dar-lhe-á uma ideia. Gabrielle cita Sarah Krall, que trabalhou no centro de controlo aéreo do continente, coordenando voos e servindo como “a voz da Antártida”. Desde o seu primeiro encontro com a paisagem, Krall diz que ficou apaixonada:
"Não conseguia conter o meu entusiasmo… Era tão majestoso, tão belo. Achei que não teria qualquer encanto, mas não foi essa a expressão que surgiu na minha mente. A Antártida era simplesmente esplendorosa".
Ao descrever a sua caminhada ao redor da borda do Monte Érebo, o vulcão mais ativo do extremo do sul do planeta, Krall acrescentou: “É visceral. Esta terra faz com que me sinta pequena. Não diminuída, e sim pequena. Eu gosto dessa sensação”.
No entanto, por outro lado, a Antártida é onde percebemos o quanto somos grandes - não como indivíduos, mas como espécie. Há tempos, os cientistas perceberam que estamos a encher a atmosfera com dióxido de carbono ao queimarmos carvão, gás e petróleo. Um instrumento nas encostas do vulcão Mauna Loa, no Havai, foi criado para medir a abundância desse gás, e descobriu uma acumulação maior de CO² a cada ano. Porém, essa medição não diz muito sobre o passado. Para entender o perigo que enfrentamos, é preciso saber como o planeta respondeu ao carbono na atmosfera no passado distante. Se pegar num núcleo central de uma placa de gelo, as minúsculas bolhas de ar presas em cada camada podem dar uma boa ideia das quantidades sucessivas de CO². E não há como negar que os núcleos de gelo mais longos podem ser recolhidos na Antártida.
Walker faz um relato interessante das dificuldades em perfurar o gelo glacial, recuperar núcleos intactos e mantê-los congelados para estudo. Quando a máquina congela durante o processo, a equipa de perfuração europeia solta “bombas de conhaque” pelo buraco para descongelar o mecanismo. A recompensa pelo esforço despendido é um cilindro perfeito e transparente com cerca de três metros, com grandes laterais de cristal e a visibilidade de uma janela. Algo nunca visto por olhos humanos. Era a parte mais antiga do núcleo de gelo contínuo mais antigo da Terra. Coloquei o meu rosto perto dele, cuidadosamente para não lhe tocar, sustendo a minha respiração.
Quando a equipe finalmente recolheu as suas brocas, tinha obtido o registro climático do mundo de aproximadamente 800.000 anos, através de muitas eras do gelo e períodos interglaciares. E o que descobriram era simples e invariável:
Mesmo quando o nosso clima estava noutro período - alguma forma diferente de equilibrar as várias influências sutis que compõem o vento, o tempo e o calor que experimentamos - a temperatura e os gases do efeito estufa sempre caminhavam de mãos dadas. Uma temperatura mais alta sempre vinha com um nível mais alto de CO². E também o contrário: uma temperatura mais baixa significava um nível mais baixo de CO².
Além disso, em toda a história impressa nesse cilindro, nunca houve um nível tão alto de CO² na atmosfera como hoje. De acordo com Walker, “em todo o registro [do núcleo de gelo], o valor mais alto de CO² era cerca de 290 partes por milhão de partes de ar. Hoje estamos com 400 e continua a aumentar.” Isso quer dizer que a Antártida, por ser imaculada, proporciona o melhor vislumbre possível do momento geológico bizarro que vivemos hoje.
Mas, é claro, a Antártida não é mais imaculada. Os efeitos humanos sobre a atmosfera e o clima podem de facto ser lidos com mais facilidade no Polo Sul do que em qualquer outro lugar da Terra. E os resultados são verdadeiramente horripilantes. Para simplificar, as imensas placas de gelo estão a começar a movimentar-se a uma velocidade incrível. Na estreita Península da Antártida, que aponta para a América do Sul, e onde a maioria dos turistas visitam a Antártida, o degelo está a ocorrer tão ou mais rápido do que em qualquer outro lugar do planeta. Foi nesse local que um grande pedaço da plataforma de gelo Larsen B se desprendeu em 2002.
Porém, a península contém quantidades relativamente pequenas de gelo; a maior parte da água doce do mundo está presa nas placas de gelo gigantes da Antártida Oriental e Ocidental. Os cientistas, conservadores por natureza, chegaram à conclusão de que esses depósitos gigantes estiveram relativamente estáveis, pelo menos durante os últimos mil anos: Não é fácil derreter um quilómetro ou dois de gelo, especialmente quando a temperatura do ar raramente, ou nunca, sobe acima do ponto de congelamento. No entanto, como Walker deixa claro no final de seu relato, os investigadores estão cada vez mais preocupados com a estabilidade da Antártida Ocidental especificamente.
Glaciares enormes estão a desprender-se da placa de gelo da Antártida Ocidental para o Mar de Amundsen no Pacífico Sul. Talvez seja a parte mais remota do continente mais remoto e, para piorar as coisas, a parte mais interessante desse continente está debaixo de água. Por isso, os cientistas estão a enviar robôs subaquáticos autónomos, os submarinos autónomos, para estudar a geologia, e estão a usar satélites para estudar as mudanças na altura do gelo. O trabalho não estava concluído quando Walker convocou a imprensa para o lançamento do seu livro, mas o seu relato fornece toda a base de que precisa para entender o que pode ter sido o anúncio mais triste já feito na era do aquecimento global.
Em meados de maio deste ano, dois documentos foram publicados na Science e na Geophysical Research Letters, deixando claro que os grandes glaciares voltados para o Mar de Amundsen não estavam mais efetivamente “sustentados”. Descobriu-se que a geologia da região tem forma de tigela: por baixo dos glaciares, o terreno inclina para dentro, ou seja, a água pode e está a invadir a área abaixo deles. A água está literalmente a comer a partir de baixo e a libertar os glaciares dos pontos onde estavam presos ao solo. Essa água é mais quente, já que os nossos oceanos estão a aquecer continuamente. De acordo com os cientistas, esse colapso em câmara lenta, que ocorrerá durante várias décadas, é “irreversível” agora; já “passou do ponto sem retorno”.
Isso significa que três metros de elevação do nível do mar estão a ser acrescentados às previsões anteriores. Não sabemos quando isso ocorrerá e com que rapidez, apenas sabemos que isso ocorrerái. E não será só isso. Poucos dias após o anúncio sobre a Antártida, outros cientistas descobriram que a maioria das placas de gelo da Gronelândia apresentam uma geologia subjacente parecida, com a possibilidade de derretimento pela água aquecida. Outro estudo publicado naquela semana mostrou que a fuligem de enormes incêndios florestais, mais frequentes como resultado do aquecimento global, está a ajudar a derreter a placa de gelo da Gronelândia, um ciclo incrivelmente vicioso.
De certa maneira, nada disso é realmente novidade. Um dos principais glaciólogos, Jason Box, do GEUS (Geological Survey of Denmark and Greenland – Pesquisa Geológica da Dinamarca e Groelândia), calculou, com base no registo paleoclimático, que os níveis atmosféricos atuais de gases do efeito estufa provavelmente são suficientes para produzir uma eventual elevação de 21 metros no nível do marii. Mas uma coisa é saber que a arma está engatilhada, e outra é ver a bala a ser disparada; as notícias sobre a Antártida representam um momento decisivo. Isso não significa que devemos desistir dos nossos esforços no sentido da redução da mudança climática: na verdade, de acordo com os cientistas, significa que devemos aumentá-los muito, pois ainda podemos afetar a velocidade dessas mudanças e, com isso, o nível de caos que elas produzem. Enfrentar o problema no decorrer de séculos será mais fácil do que em apenas algumas décadas.
Também podemos limitar as várias outras formas de danos além da elevação no nível do mar (desde a intensidade das secas até a praga de insetos portadores de doenças), se limitarmos muito as emissões de carbono agora. Porém, as notícias da Antártida sinalizam, de uma vez por todas, que não é possível “parar o aquecimento global”. Não há uma maneira de resfriar as águas aquecidas que estão a derreter os glaciares. A física não vai nos dar uma trégua. A partir de agora, todos os nossos esforços precisam ser dedicados a impedir um cenário pior.
O drama anunciado em maio sobre as descobertas na Antártida foi o clímax de um ano com um crescente rufar de tambores do mundo científico. Durante esse período, os investigadores tentaram, com insistência cada vez maior, transmitir a mensagem ao público e aos políticos. Em março, a Sociedade Norte-americana para o Progresso da Ciência emitiu um manifesto bem direto com o título “What We Know” (O que sabemos), que começa assim:
A grande quantidade de provas em documentos sobre a mudança climática causada por seres humanos significa custos consideráveis e riscos futuros extraordinários para a sociedade e os sistemas naturais.
A declaração refere ainda que a mudança climática “põe em risco o bem-estar das pessoas de todos os países”.
Algumas semanas depois disso, a Casa Branca publicou a sua Avaliação Climática Nacional (National Climate Assessment), “Impactos da mudança climática nos Estados Unidos”, num site (Globalchange.gov), no qual é possível ver como cada estado ou região do país está a ser afetado pelo aumento da temperatura. A inovação da avaliação é retratar o dano resultante da mudança climática não como uma ameaça remota, mas como uma realidade atual:
Antes considerada um problema para um futuro distante, hoje a mudança climática faz parte do presente… Os americanos estão a perceber as mudanças ao redor.
E é claro que a mudança do clima é a responsável: por exemplo, atualmente, metade dos Estados Unidos está em estado de seca, e a seca da Califórnia é a pior desde, pelo menos, o séc. XVI, com incêndios por todos o lado como prova.
A Avaliação Climática Nacional importa mais pela sua mensagem implícita do que pelo seu conteúdo: ela sugere que o governo de Obama finalmente levará a sério, pelo menos retoricamente, a mudança climática. Isso marca uma mudança. Nas primeiras semanas do primeiro mandato de Barack Obama, funcionários do governo convocaram os líderes ambientalistas para uma reunião na qual disseram que não discutiriam o aquecimento global: em grupos focais, era mais popular falar sobre “trabalhos sustentáveis”. E eles mantiveram a sua promessa infame: nas palestras fracassadas da Conferência sobre Mudança Climática de Copenhaga em 2009 (o maior fiasco da política externa dos anos de Obama) e na tentativa fracassada no Congresso norte-americano de limitar a emissão de carbono no ano seguinte, a Casa Branca mal sussurrou a palavra “clima”.
Na campanha para a reeleição, em 2012, eles literalmente conseguiram evitar mencionar esse assunto (copiando a postura de Mitt Romney), até que o Furacão Sandy tornou isso impossível, nos últimos dias antes do pleito. Enquanto realizava a campanha, durante o ano mais quente da história norte-americana, com uma seca a devastar o centro do país, a equipa de Obama mantinha um silêncio sepulcral. E quando o presidente falava sobre energia, fazia de tudo para deixar claro que apoiava o carbono, em qualquer forma possível. Por exemplo, em cima dos tubos de um oleoduto em Cushing, Oklahoma, afirmou:
“Sob o meu governo, os Estados Unidos estão a produzir mais petróleo hoje do que em qualquer outro momento nos últimos oito anos. Isso é importante saber. Nos últimos três anos, orientei a abertura de milhões de hectares para exploração de gás e petróleo em 23 estados diferentes. Estamos a abrir mais de 75% das nossas possíveis reservas de petróleo no oceano. Quadruplicamos o número de equipamentos de perfuração, estabelecendo um recorde. Construímos uma quantidade suficiente de tubulação nova para gás e petróleo capaz de dar a volta na Terra e um pouco mais”.
Realmente, quando Obama deixar o seu cargo, os Estados Unidos terão ultrapassado a Arábia Saudita e a Rússia como os maiores produtores de petróleo e gás do planeta. O país estará a usar menos carvão nas suas usinas, mas estamos a exportar mais. Estas ações resultaram em lucros tremendos para as empresas de petróleo e gás, mas não estão de acordo com a nova realidade física. Mesmo quando houve um enorme clamor do público, por exemplo, a onda de comentários públicos contrários ao oleoduto Keystone, o presidente hesitou. Realmente, os funcionários seniores sabem quão obscuro tem sido esse recorde. O jornalista Mark Hertsgaard, escrevendo para o Harper’s, cita uma série de confidentes de Obama admitindo que as suas ações não foram suficientes para atingir as metas internacionais, muito menos para deixar um legado climático sólido.
Ainda assim, parece que algumas mudanças estão a ocorrer. No início de junho, o presidente propôs novos regulamentos para centrais a carvão, com o objetivo de reduzir as suas emissões em até um terço até 2030. Esses regulamentos foram fortes o suficiente para disparar o alarme republicano de que o presidente estava a iniciar uma “guerra contra o carvão”.
O problema é que fazer mais do que George W. Bush com relação à mudança climática não é apenas pouco, também é irrelevante. Neste caso, a pergunta útil é: o que a ciência exige? Pelo facto de aprendermos durante o mandato de Obama que o Ártico está a derreter rapidamente e que o oceano está a acidificar a uma velocidade incrível, e com base nos relatórios mais recentes sobre o Polo Sul citados por mim, precisamos de muito mais. Defender as mudanças com relação ao carvão anunciadas recentemente pela Agência de Proteção Ambiental é, provavelmente, o máximo que Obama pode fazer com o Congresso atual, mas será necessário tirar proveito dessas ações com uma diplomacia inspirada a fim de garantir que a “próxima Copenhaga” — uma sessão global de negociações, marcada para Paris em dezembro de 2015, não seja outro fiasco.
Para colocar pressão sobre todos os negociadores, o Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, convidou líderes mundiais para uma reunião sobre o clima que será realizada em Nova York, em setembro. Essa reunião provavelmente repetirá os discursos enfadonhos sobre o destino das gerações futuras. Porém, tendo em vista o histórico de vinte e cinco anos de futilidades diplomáticas, muitos de nós que tentaram exigir alguma ação aproveitarão para promover, no cenário de Nova York e com a inundação do furacão Sandy ainda fresca na memória, o que pode vir a ser o maior protesto de rua da história do movimento climático.
O objetivo é tornar mais claro o sentido de urgência para medidas contra a mudança climática e influir nas negociações. Já há pelo menos alguns sinais do aumento da consciência sobre esse problema mundial. Cada novo desastre parece convencer cada vez mais a opinião pública sobre a necessidade de ação, assim como a perspetiva preocupante de um El Niño em larga escala começar na metade do inverno no hemisfério sul, trazendo consigo os seus prováveis desastres climáticos.
A comunidade financeira começou a questionar o valor em longo prazo dos stocks de combustível fóssil. Instituições com um grande volume de dotações, como a Universidade de Stanford, começaram o processo de venda de alguns das suas ações em empresas de carvão. De acordo com os analistas, caso o mundo tome alguma atitude relacionada à mudança climática, muitas das reservas nas quais essas empresas baseiam o seu valor teriam que ser deixadas debaixo da terra. “Este é um dos debates mais acelerados que já vi nos meus trinta anos no mercado de ações”, disse Kevin Bourne, um diretor administrativo do Financial Times Stock Exchange, ao Financial Times durante o outono, no dia em que a Blackrock, a maior gestora de ativos do mundo, lançou um fundo de índice livre de combustíveis fósseis. No entanto, sabemos que será necessário um movimento muito mais forte e barulhento, e principalmente global, para pressionar os personagens principais a executar ações proporcionais ao tamanho do perigo.
Comecei esta resenha com a metáfora de um jogo de xadrez, mas o futebol também serve, pelo poder das forças agora desencadeadas. Como civilização, estamos a 44 minutos do segundo tempo e a perder um a zero. Trocar a bola de pé em pé, mesmo que permaneçamos no campo de ataque, simplesmente não vai ser suficiente para ganhar o jogo. Temos que fazer lançamentos longos e improváveis.
A boa notícia é que às vezes essas jogadas arriscadas funcionam. Na tarde em que a notícia assustadora sobre a Antártida foi anunciada, uma estatística encheu-nos de esperança, vinda da Alemanha. Lá, o único país que levou a sério a mudança climática e trabalhou para mudar a sua infraestrutura de energia, um novo recorde de energia renovável foi estabelecido. Naquela mesma tarde, a Alemanha tinha gerado 74% das suas necessidades elétricas de fontes renováveis.
Há muito ainda a aprender sobre como armazenar a energia do vento e do sol para dias nublados e sem vento. Precisamos de redes melhores para fazer com que esse sistema de energia funcione perfeitamente, e elas não serão baratas. Porém, se um país localizado numa latitude muito mais ao norte pode fazer uma economia moderna funcionar com energia proveniente de cima, não de combustíveis fósseis provenientes de baixo, todos nós podemos sentir-nos encorajados. Isso pode ser feito. O recurso que conseguiu essa façanha na Alemanha foi a vontade política, que é infinitamente renovável. Se pudermos colocá-la em movimento.

Tradução: Eduardo Sukys.
Publicado originalmente no New York Review of Books e republicado pelo site Outras Palavras.
Este texto é uma resenha de três obras:
Antarctica: An Intimate Portrait of a Mysterious Continent [Antártida: Retrato Íntimo de um Continente Misterioso], de Gabrielle Walker. Houghton Mifflin Harcourt, 388 páginas

What We Know: The Reality, Risks and Response to Climate Change [O que Sabemos: Realidade, Riscos e Resposta à Mudança Climática], relatório do Painel de Ciência Climática da Sociedade Norte-americana para o Progresso da Ciência], 28 páginas, março de 2014
Climate Change Impacts in the United States: The Third National Climate Assessment
[Os Impactos da Mudança Climática nos Estados Unidos: Terceira Avaliação Climática Nacional, relatório do Programa de Pesquisas Globais dos EUA, 829 páginas, maio de 2014.

i Três metros é aproximadamente o nível da onda de tempestade do Furacão Sandy no Porto de Nova York. Ela transformou grande parte da baixa Manhattan em uma Veneza passageira; imagine isso com a nova realidade.
ii Confira Chris Mooney, “Humans Have Already Set in Motion 69 Feet of Sea Level Rise” (Os humanos já colocaram em movimento 21 metros de elevação do nível do mar), Mother Jones, 31 de janeiro de 2013. 

Mais doenças, mais lucro

À medida que o mundo moderno continua a consumir doenças - toxicidade ambiental, alimentos geneticamente modificados, gordura trans, excesso de sódio, açúcar, farináceos industrializados, conservantes, agrotóxicos, corantes etc. - as consequências para a saúde tornam-se mais prevalecentes e difíceis de ignorar. Para a indústria farmacêutica , entretanto, não poderia ser melhor. 
Por Sérgio Vaisman.

A escalada de doenças colocou a produção de remédios entre as atividades mais rentáveis do planeta. Com dúzias de escolhas de drogas para cada tipo de sintoma existente ou doençacrónica, a indústria equilibrou-se no facto de produzir milhares de milhões de dólares mesmo com a saúde a continuar a declinar vertiginosamente. O mais irônico de tudo isso é que a imensa maioria dos medicamentos fabricados é designada para tratar doenças que podem ser corrigidas mediante simples mudanças no estilo de vida, tais como a adoção de métodos corretos de exercícios físicos e dieta alimentar.
No caso da diabetes, por exemplo, a indústria farmacêutica tem estudos que preveem uma faturação de mais de 23 bilhões de dólares nos próximos 20 anos nos tratamentos dos estimados 280 milhões de novos pacientes diagnosticados com a doença.
Um estudo da American Heart Association estima que, em 2030, cerca de 40% dos adultos americanos apresentarão algum tipo de doença cardíaca, incluindo comprometimento de artérias coronárias (angina, enfarto), hipertensão arterial e acidente vascular cerebral (derrame), entre outras. O estudo não tem em conta mudanças no estilo de vida e que poderiam ser suficientes para evitar o aparecimento dos problemas. O custo dos procedimentos médicos (medicamentos, cirurgia, tratamentos específicos etc) serão três vezes maiores do que os de hoje, no mínimo. A estimativa é que doenças cardíacas passem a custar cerca de US$ 1 bilhão por ano. Não é difícil imaginar para onde vai a maioria desses recursos. Logicamente, os principais premiados são os fabricantes dos remédios.
Não surpreendentemente, existe uma forte ligação entre doenças coronárias e diabetes do tipo II. Estudos já bem documentados mostram que adultos portadores de diabetes são duas a quatro vezes mais propensos a desenvolverem doenças cardíacas do que a população sem diabetes. Os principais fatores de risco para o desenvolvimento desses problemas incluem o tabagismo, obesidade, sedentarismo e dieta alimentar desregrada. Ora, se a indústria alimentícia produz grandes “venenos” para comer, usando os media para incentivar o aumento de peso, a indústria do tabaco continua a todo o vapor e nada se faz para educar a população quanto à adoção de hábitos de vida salutar, como imaginar que a SAÚDE venha a prevalecer? É claro que muitos lucram com a indústria da doença. …e que se danem os outros.
Sergio Vaisman é médico especialista em Cardiologia e Nutrição, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
** Publicado originalmente no site Mercado Ético

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

OMS declara ébola como emergência pública de saúde de alcance internacional

A diretora-geral da OMS considera que a contenção do ebola dependerá dos países com recursos e capacidade fornecerem a ajuda necessária àqueles que são afetados. O vírus causou até agora 932 mortes de 1.711 casos possíveis e confirmados na África, segundo dados da organização internacional.

"Estamos perante o surto mais severo e complexo em quatro décadas de história desta doença" declarou Margaret Chan diretora-geral da OMS em conferência de imprensa, dada em conjunto com o seu adjunto Keiji Fukuda
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou nesta sexta-feira (8 de agosto) que o surto de ebola no oeste da África é uma emergência pública de saúde de alcance internacional e recomendou medidas excepcionais para deter sua transmissão.
Os países onde foram registrados casos da doença terão que, entre outras medidas, efetuar exames nas pessoas com sintomas associados aos do ebola na saída de aeroportos, portos marítimos e nos cruzamentos fronteiriços.
"Não deve permitir-se a viagem de nenhuma pessoa com um mal-estar que possa ser o ebola, a menos que a viagem seja parte de uma transferência médica", indica a recomendação emitida pela OMS para os seus 194 países-membros. Os países onde se determinou que há uma transmissão ativa do vírus do ebola são Guiné, Libéria e Serra Leoa, enquanto que se avalia com atenção a evolução na Nigéria.
A recomendação da OMS, que consta de uma análise detalhada da situação atual do surto, assim como de várias recomendações dirigidas aos governos dos países afetados e ao resto do mundo, foi adotada por unanimidade por seu Comitê de Emergência, que se reuniu durante os dois últimos dias em Genebra.
A conclusão das suas deliberações foi aceita e referendada pela diretora geral da organização, Margaret Chan, que disse que esta decisão representa "um reconhecimento da gravidade e da natureza incomum deste surto". "Estamos perante o surto mais severo e complexo em quatro décadas de história desta doença", declarou num pronunciamento à imprensa.
Por outro lado, a OMS considera que os países em questão devem adiar eventos e reuniões públicas até que se confirme que a cadeia emissora de contágio desta doença foi quebrada. Fukuda esclareceu que isto não contradiz o facto de que a OMS não considere necessário proibir as viagens, pois é a aglomeração de centenas ou milhares de pessoas a que cria uma situação na qual "pode haver uma potencial transmissão" do ébola.O seu adjunto e que ficará a cargo do acompanhamento diário da evolução da doença, Keiji Fukuda, afirmou que é desnecessário proibir as viagens e o comércio com os países afetados. "A OMS não recomenda a proibição de viagens e comércio, a menos que se trate, de maneira específica, de pessoas infetadas ou que estiveram em contacto (com um doente) e que não devem viajar", disse o especialista.
Nesta linha, a OMS mostrou-se em desacordo com a decisão de certas companhias áreas de cancelar os seus voos para os países onde se concentram os casos de ébola, por considerar que as tripulações e passageiros enfrentam um risco muito baixo se forem aplicadas adequadamente as medidas de prevenção.
Por isso, Chan indicou que está em contacto com as companhias áreas para que estas "entendam a maneira de continuar os seus serviços de maneira apropriada. Se for aplicado o pacote completo (de medidas preventivas) o risco é mínimo".
Como parte das recomendações, a OMS também pede aos três países que declarem uma emergência nacional e que assegurem de que as áreas onde há uma transmissão intensa do vírus estejam abastecidas de tudo o que é necessário para que a população não tenha que ir para outro lugar.
"Em regiões de intensa transmissão, como as zonas fronteiriças de Serra Leoa, Guiné e Libéria, o atendimento clínica de qualidade e um apoio psico-social para as povoações afetadas são essenciais para reduzir o movimento das pessoas", na opinião dos especialistas. Eles consideram que, como uma medida suplementar excecional, também pode ser aplicada a quarentena.
Após o anúncio das recomendações, Chan insistiu que a contenção do ébola dependerá em grande medida da "solidariedade internacional", ou seja, que os países com recursos e capacidade forneçam a ajuda necessária àqueles que são afetados.
Libéria declara estado de emergência
A presidente da Libéria, Ellen Johnson-Sirleaf, declarou na quinta-feira, num comunicado transmitido pela televisão, o estado de emergência no país por consequência da epidemia de ébola. No seu discurso, a presidente afirmou que alguns direitos civis podem ser suspensos pela crise vivida pelo surto de ébola, que já matou 282 pessoas no país.
"A ignorância e a pobreza, assim como as práticas religiosas e culturais arraigadas, continuam a favorecer a propagação da doença", disse no discurso. O vírus causou até agora 932 mortes de 1.711 casos possíveis e confirmados na Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria, de acordo com os números mais recentes da OMS.
Estações de quarentena
Os temores que o surto de ébola se estenda fora do continente africano puseram as autoridades sanitárias dos Estados Unidos em alerta e, embora descartem a possibilidade de uma epidemia, têm preparadas 20 "estações de quarentena" para detetar viajantes infetados.
O medo de que o letal vírus possa estar a um "voo de distância" ficou patente com os recentes casos de vários passageiros infetados que morreram ao chegar ao seu destino na Arábia Saudita e na Nigéria, assim como vários casos suspeitos em Nova York e Ohio, que já foram descartados.
Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA anunciaram ontem o aumento dos esforços, com especial ênfase nos viajantes entre a zona mais afetada e Estados Unidos.
Artigo publicado por Opera Mundi

A simplificação do universo

Generalizar, caricaturar e atacar os seguidores de qualquer religião a partir de uma perspectiva simplificada, não só não faz nada para a resolução de conflitos, mas, em essência, é uma parte fundamental do ciclo de violência.

Andrés Ortiz Lemos

O universo é muito mais complexo do que as nossas tentativas de defini-lo. Johannes Kepler passou grande parte de sua vida tentando explicar as órbitas dos planetas com base nas doutrinas da filosofia de Pitágoras. Mas os caminhos dos astros recusou-se a ser rotulados dentro dos círculos perfeitos pregados pela filosofia mistérica da Grécia antiga, Kepler descobriu depois de anos de trabalho que as órbitas planetárias eram elípticas, irregulares e complexas. Sigmund Freud passou muitos anos analisando casos de pacientes com doença mental, ele tentou explicar a origem das diferentes patologias da psique humana de muitas propostas teóricas interessantes. No final de sua vida intelectual, Freud entendia que vários de seus casos não tinham explicação única, e desenvolveu o conceito de "sobredeterminação", que propõe que certos fenômenos inconscientes obedecem a uma pluralidade de fatores determinantes. Simplificar qualquer fenômeno é um erro. 

As metodologias que promovem projetos simplificados foram realmente desafiadas no campo da epistemologia pela teoria da complexidade, que tem entre seus ilustres representantes de pensadores renomados como Edgar Morin no campo das ciências sociais, Humberto Maturana na área de biologia, ou Fritjof Capra, que aplicou a teoria dos sistemas no campo da física. Eles desenvolveram importantes contribuições teóricas sob a premissa de que qualquer fenômeno vem de uma extensa ramificação de circunstâncias que interagem de modo sobredeterminado e cuja abordagem epistemológica deve procurar adaptar-se a essa complexidade. Procurar simplificar o porquê das coisas não faz mais do que manchar a realidade às limitações do observador. 

Mas não se precisa ir para o campo da epistemologia para criticar a simplificação de alguns fenômenos, particularmente os que afetam as nossas sociedades. Um dos exemplos mais dramáticos de simplificação teve lugar imediatamente após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 Após o ataque em Nova York, várias pessoas (incluindo políticos e intelectuais) tentou culpar o mundo muçulmano. Os seguidores do Islã, de repente tornaram-se vítimas de discriminação em vários países ocidentais. Pessoas mal-intencionadas escreveram vários artigos desprestigiando a cultura muçulmana, cineastas utilizavam toscos estereótipos  usados ​​para se referir aos árabes e a outros grupos étnicos que professavam a religião de Meca. 

O pensamento simplista foi imposto em um extenso setor da sociedade ocidental: dado que a mídia anunciou que os bombardeiros eram muçulmanos, da noite para o dia o credo do Alcorão foi sujeito a um processo inaceitável para estereotipar criando discriminação, e intolerância em muito amplo segmento da população. Isso já aconteceu antes. O pensador Franz Fanon defendia que o racismo se baseia precisamente neste tipo de discurso que procura converter o outra em um estereótipo simples. 

Simplificar é uma atividade popular, porque é muito fácil de fazer. É mais fácil dar uma opinião baseada em uma foto no Facebook, que através da leitura de um livro. Talvez seja por isso que hoje, quando a violência no Oriente Médio é notória, as redes sociais são preenchidas com ataques viscerais às tradições religiosas semitas. No entanto, a realidade é complexa demais para reduzir a uma postagem no twitter. Assim, nem o grupo terrorista Hamas representa o Islã e nem a Força Aérea israelense é o porta-voz da fé judaica. Generalizar, caricaturar e atacar os seguidores de qualquer religião a partir de uma perspectiva simplificada, não só não faz nada para a resolução de conflitos, mas, em essência, é uma parte fundamental do ciclo de violência.

Publicado no Jornal Hoy do Equador

As origens da Guerra Nuclear

Artigo publicado por Vicenç Navarro na columna “Pensamiento Crítico” no diario PÚBLICO, Espanha, 6 de agosto de 2014.

Este artigo assinala dados desconhecidos anteriormente sobre a utilização de armas nucleares que teve lugar durante a II Guerra Mundial, e que também estiveram a ponto de lançar-se tanto no Vietnã como no Iraque.


Estão sendo publicados hoje em dia documentos e informações nos Estados Unidos sobre importantes eventos históricos que tinham permanecido ocultos por um longo tempo. Um deles são as raízes da guerra nuclear, que começou com o uso de bombas nucleares em Hiroshima (06 de agosto de 1945) e Nagasaki (9 de agosto de 1945) que causou 200 mil mortes na população dessas cidades. Nunca antes se tinha usado em uma guerra armas tão mortais e prejudiciais. Cada uma era equivalente a 2.000 vezes a potência da arma mais mortal até então conhecida: a bomba britânica "Grand Slam". E tais bombas nucleares caíram deliberadamente sobre as populações civis. Na verdade, o presidente Truman não disse a verdade, quando ele anunciou a explosão da primeira bomba em Hiroshima. Como David Swanson indica em seu artigo “Truman Lied, Hundreds of Thousands Died”, Truman disse: "Dezesseis horas atrás um avião americano lançou uma bomba em uma base militar japonesa em Hiroshima, 20.000 toneladas de TNT." A realidade é que o objetivo era muito, muito maior do que a base militar: era a população civil de Hiroshima. O argumento de que o presidente Truman usou para lançar bombas nucleares era conseguir a rendição do Japão. Usando este argumento, o presidente Truman não disse toda a verdade. Na verdade, ele estava ciente de que o governo japonês já havia manifestado a vontade de se render. Tinha expressado em um cabo secreto da União Soviética, que foi interceptado pela inteligência americana. A União Soviética iria realizar um ataque em larga escala contra o Japão no dia 9 de agosto, ataque sobre o qual o Japão estava ciente, e que, apesar do desejo de se render, a União Soviética fez, matando 84.000 japonês (12.000 soldados soviéticos). Ambos os governos, tanto soviéticos e americanos, queriam uma rendição incondicional. E os ataques de ambos os países perseguem esse objetivo. E eles fizeram isso (a única condição colocada pelo Japão era a não deposição do Imperador).

Toda a evidência acumulada mostra agora que o governo japonês tinha se rendido nas mesmas condições em que o fez, muito antes dos ataques feitos pelos governos dos EUA e da União Soviética. E assim, o governo dos Estados Unidos sabia três meses antes de lançarem as bombas nucleares. Na verdade, o objetivo das bombas era marcar as coordenadas do poder após a rendição do Japão. O governo federal dos EUA queria ser a força dominante no Pacífico na era posterior à derrota do Japão. E a demonstração de força foi um passo nesse sentido. 200 mil mortos sem nenhum soldado americano morto era um indicador de eficiência e poder. Como observou o Secretário da Defesa (cargo político), Mr. James Forrestal, "o atentado foi uma tentativa de acabar com a guerra antes que a União Soviética fizesse", ao que o assessor do presidente Truman, o Sr. Byrnes acrescentou "que o bombardeio vai nos permitir ditar os termos ao fim da guerra."

Importante, figuras proeminentes do establishment militar americano foram contra o lançamento de tais bombas. Nada menos do que o Chefe do Estado Maior, o almirante William D. Leahy, escreveu que o uso dessas bombas em Hiroshima e Nagasaki "não era necessário em nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já foram derrotados e estão prontos para se renderem. "E o General Eisenhower, que também se opôs-se a tais explosões nucleares, concordou com o almirante Leahy.

Mais informação não conhecida é que o presidente Nixon estava disposto a usar bombas atômicas sobre o Vietnã, e o presidente Bush o considerou na guerra do Iraque. O que não fizeram parece ser que foi pelo fato de eles terem conseguido o que queriam antes de ter a necessidade de usá-las. Mas eles estavam dispostos a usá-las em tais conflitos é em si uma informação mais do que importante, e extremamente preocupante. Existindo estas bombas, há um perigo claro que sejam utilizadas, o perigo é mais real do que a maioria do mundo assume.

Guerra de sanções

Sancionar a Rússia estar a dar uma dor de cabeça danada a Washington e à União Europeia, ontem o presidente Russo, Vladimir Putin, anunciou  “antissanções”, além de ameaçar bloquear o espaço aéreo russo.

As “antissanções” de Moscou abrangem frutas, legumes, carne, lacticínios e matérias-primas dos países que introduziram anteriormente sanções discriminatórias contra a Rússia. Foram proibidos pelo período de um ano os fornecimentos de carne de bovino e suíno, queijo, carne de aves, leite e enchidos da União Europeia, EUA, Austrália, Canadá, Noruega e Japão. A lista final não inclui alimentos para crianças, nela também não figuram os vinhos europeus e bebidas espirituosas. Para alguns importadores serão introduzidas quotas quantitativas em vez da proibição das importações.

O principal “contragolpe” russo terá de ser aparado pelos produtores e exportadores europeus de frutas e legumes, enchidos, queijos, manteiga e outros lacticínios. A União Europeia é responsável, segundo dados da Comissão Europeia, por 30% das importações russas de frutas e por mais de 20% de legumes, por exemplo. No total a Rússia importa anualmente produtos agroalimentares no valor de cerca de 30 bilhões de dólares. Apenas 2% cabem aos EUA.

A Rússia aguentou pacientemente, e durante bastante tempo, golpes e alfinetadas políticas que eram efetuadas sob cobertura de proibições e limitações completamente ilegais, diz o analista político Semion Bagdasarov:

“Foram a União Europeia e os EUA que declararam uma “guerra econômica” contra a Rússia. Nós apenas tomámos nossas medidas de resposta. Quando a União Europeia agora se refere às regras da OMC, gostaria de recordar: a Rússia já tinha avisado que as sanções da União Europeia contra a Rússia contrariavam as regras dessa organização. Agora já é tarde para falar de OMC, deviam ter começado por si próprios.”

As novas medidas tonificaram claramente as economias dos vizinhos próximos e distantes da Rússia (que não fazem parte do grupo das sanções). As cadeias de varejo russas já estão realizando negociações com a África do Sul, Argentina, Brasil, Chile, China, e outros países da Ásia, para a substituição da carne de bovino e suíno, frutas e legumes europeus e norte-americanos.

Moscou estuda, ainda, a perspetiva de poder proibir às companhias aéreas ocidentais a utilização do espaço aéreo da Rússia nas rotas da Europa para a Ásia, assim como alterar os pontos de entrada e saída no espaço aéreo russo para os voos fretados. Mas a decisão sobre essas proibições ainda não foi tomada. Isso é sobretudo um aviso.

Essas medidas fará com que Washington recue ou que alguns aliados mudem de lado ou levará a um total isolamento da Rússia e a criação de blocos?

Informações: Voz da Rússia

Mercúrio triplica nos oceanos e ameaça vida marinha

A poluição causada por atividades humanas, como mineração e queima de combustíveis fósseis, fez com que a concentração de mercúrio nos oceanos triplicasse em comparação com os níveis pré-industriais.

Concentração do mercúrio triplicou nas camadas de águas superficiais - Foto: jjjj56cp
A conclusão consta de um novo estudo publicado nesta semana na revista Nature.
A contaminação ambiental pelo metal altamente tóxico é uma realidade mundial. Mas só agora começou a ser dimensionada. E os resultados preocupam.
Além disso, o lançamento de esgoto sem tratamento na água também pode criar condições que potencializam os efeitos da substância ao torná-la mais solúvel.
O estudo destaca que a concentração do mercúrio triplicou nas camadas de águas superficiais, onde a presença de vida marinha é grande.
Uma das características do mercúrio que mais preocupam os cientistas é a sua capacidade de biomagnificação. Ele acumula-se ao longo da cadeia alimentar, fazendo com que as espécies mais altas na cadeia sejam expostas a uma maior concentração tóxica, o que aumenta, eventualmente, a exposição humana ao metal.
No entanto, falta quantificar essa acumulação nos animais aquáticos e os seus possíveis efeitos, incluindo os riscos para os seres humanos.
O nosso impacto
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Simon Boxall, professor de Universidade de Southampton, afirmou que é difícil dizer, a partir da investiação, o tamanho do dano que já foi feito para a vida marinha.
"Eu não iria parar de comer peixe por causa disso", ponderou. "Mas esse aumento de mercúrio é um bom indicador do nosso impacto no meio ambiente marinho. É um alerta para o futuro", ressaltou.
Artigo publicado em EcoD

Argentina denuncia EUA em Haia por violação de soberania em caso dos "fundos abutres"

País sul-americano sustenta que são ilegais as decisões dos tribunais norte-americanos no episódio dos fundos especulativos que detêm os títulos da dívida.

Cartoon de Latuff, publicado por Opera Mundi
A Argentina apresentou nesta quinta-feira (07/08) uma denúncia contra os Estados Unidos na Tribunal de Justiça Internacional de Haia, na Holanda. O governo argumenta que as decisões judiciais adotadas por tribunais norte-americanos no caso das ações dos fundos especulativos (os chamados "fundos abutre") violam a sua soberania nacional.
O documento apresentado no tribunal internacional alega que a Argentina sofreu uma "violação das suas imunidades soberanas" e da "obrigação internacional de não aplicar ou estimular medidas de caráter económico e político para forçar a vontade soberana de outro Estado".
A contenda jurídica internacional faz menção à decisão de primeira instância do juiz Thomas Griesa — ratificada em segunda instância e avalizada pelo Supremo Tribunal dos EUA —, determinando que a Argentina deveria pagar integralmente a dívida aos fundos Aurelius Management e NML Capital, uma unidade da Elliott Management, do bilionário Paul Singer. São estes os denominados "fundos abutres", detentores de títulos da dívida do país sul-americano que rejeitaram os termos da sua reestruturação de 2005 e 2010.
O prazo estipulado para a negociação da dívida com os detentores de títulos da dívida venceu na semana passada, sem que houvesse um acordo. A presidente argentina, Cristina Kirchner, nega que o país viva uma situação de "falência técnica", ou "seletiva", como está a ser classificada a manobra. “Oferecemos 300% de lucro e não quiseram. Querem a sentença usureira que dá 1600%”, disse.
Além da estratégia jurídica de recorrer ao Tribunal de Justiça Internacional, o ministro da Economia argentino, Axel Kicillof, já havia reclamado ontem pedindo que Barack Obama "coloque limites" ao juiz Griesa, queixando-se também da "falta de segurança jurídica" nos Estados Unidos.
Artigo publicado em Opera Mundi

Lixo com prazo vencido, por Viviane Tavares

lixão

Municípios não conseguem dar fim aos lixões, que causam mal à saúde humana e do meio ambiente.
O prazo para que os municípios brasileiros desativassem os lixões a céu aberto terminou no último dia 2 de agosto, mas a meta não foi alcançada pela maioria das 5.564 cidades que contam com esse tipo de descarte do resíduo solido, mas especialistas apontam que, além da falta de recurso, falta interesse por parte dos gestores públicos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12305/2010) estipulou o ano de 2012 – dois anos após a sanção da política – como data limite para que os municípios apresentassem o Plano de Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos (PGIRS), que mostra caminhos para o fim dos lixões, além de uma série de obrigações como a implantação da logística reversa e da coleta seletiva. Com isso, garantiria mais recursos federais destinados à área. Quase nada foi cumprido até agora.
De acordo com a pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) em cidades com até 300 mil habitantes, 32,5% delas ainda enviam os resíduos para lixões e 61,4% para aterros sanitários. Em relação ao Plano de Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos, 51,6% afirmam possuir e 45,7% disseram não contar com este planejamento.
O CNM alega que essas ações não puderam ser concluídas porque para cumprir a Lei dos Resíduos Sólidos os governos municipais deveriam contar com apoio financeiro por parte da União o que, segundo eles, é escasso. De acordo com a nota publicada pela CNM na última semana, entre 2011 e 2013, o Ministério do Meio Ambiente recebeu 577 planos de gestão, mas apenas 96 se transformaram em contratos e oito estão em execução. As que ainda não estão em curso, tiveram a mesma justificativa: não puderam “executar as políticas por entraves burocráticos e contingenciamento do orçamento”. De acordo com o Portal da Transparência, o repasse dado entre entes para a temática resíduos sólidos e resíduos sólidos urbanos chega a R$ 72 milhões. A CNM aponta que até agora foram desembolsados R$ 308,6 milhões para o programa.
Em entrevista coletiva realizada no dia 28 de julho, o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, confirmou que um dos principais problemas para se adequar a lei é a verba municipal. “Todo mundo sabe que é preciso investir R$ 70 bilhões [para cumprir a lei] e a arrecadação total dos Municípios não chega a R$ 100 bi” questionou Ziulkoski e completou: “Para alcançarmos a plenitude da lei, temos que implantar a coleta seletiva, que custa o dobro da atual. Tem a logística reversa. A lei é grande e complexa. O Distrito Federal tem a maior arrecadação do País e não tem aterro. Ainda é lixão”. Em sua fala, o presidente da CNM criticou ainda o fato de o lixão ser enquadrado em crime ambiental.
Maurício Waldman, professor da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) e pós-doutor em resíduos sólidos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) acredita que as ações não foram realizadas por falta de interesse por parte dos gestores públicos. “Os municípios não fizeram o plano porque não quiseram. O que tem é uma má vontade. E isso acontece porque o poder público é omisso, porque preferem soluções que gerem grandes obras”, informa e completa, analisando as dificuldades dos municípios em realizar o plano de resíduos: “Se tivessem políticas mais inteligentes, seriam menos sobrecarregados e mais atuantes. Já tem alguns anos que as faculdades oferecem curso de gestão e engenharia ambiental. Não está faltando profissional para auxiliar nisso. A realidade é que ninguém quer ser controlado por um plano. O poder público não está preocupado com o processo, ele está preocupado com os resultados finais. Mas o caminho certo seria pensar a educação ambiental, fortalecer as cooperativas de catadores de lixo, porque se não fossem eles, as pessoas iriam ver que é o caos do lixo”, pontua.
O professor diz ainda que a população poderia ser colaborativa. “Em Berlim, 30 a 40% do lixo é resolvido em casa, com toda uma rede de reciclagem que atende a 48% do lixo. O poder público nem toca nisso, podendo, assim sobrar mais dinheiro para saúde e educação. O lixo pode ser uma solução. Ele se torna um problema quando falta educação ambiental, quando falta interesse no que diz respeito a soluções boas de verdade”, opina.
Como informado pela matéria ‘O que fazer com o lixo?’, da Revista Poli nº 25, os 2.906 lixões do país estão distribuídos por 2.810 municípios de acordo com a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. “Trocando em miúdos, 50,5% das cidades brasileiras têm como principal forma de destinação de seus resíduos os lixões”.
Impactos ambientais e na saúde
E a pergunta que não quer calar: Que mal tem os lixões? O professor da Unoeste explica que ele produz tóxicos poluentes para o solo, para a água e muito danosos à saúde humana. “O chorume é uma substância tão perigosa como a dioxina e o plutônio, considerando que os três são derivados do lixo: um nuclear, outro da queima e o outro por enterrar o material orgânico, que deveria ser compostado. O lixão é por definição um condomínio de patógenos. Ele tem as características do que chamamos de três “A”, de abrigo, água e alimento. Então, esses patógenos fazem a festa. Já tem estudos dos anos 1990 que comprovam que uma tênia permanecesse durante anos num lixão, além de tantos outros que causam, por exemplo, dermatites, hepatite. Não é à toa que a lei de crimes ambientais considera o lixão como crime”, explica. Nesta lista de doenças causadas pelo lixão podem ainda ser incluídas a peste bubônica, salmonelose e leptospirose.
Para a saúde ambiental, esse tipo de descarte dos resíduos também é um problema como explica Mauricio. “É preciso lembrar os problemas ambientais que os lixões causam na água. A contaminação da água por chorume é de 120 a 200 vezes pior que o esgoto, que já é complicado por ter uma alta demanda bioquímica de oxigênio, causando morte da vida marinha. Imagina o chorume? E o pior é a ignorância da população. A gravidade do problema não é muito disseminada, as pessoas sequer têm acesso aos riscos que correm”, avalia.
Aterro sanitário é solução?
Como afirma a Política Nacional de Resíduos Sólidos, o local mais adequado para receber os lixos são os aterros sanitários, que devem seguir determinadas regras para sua liberação e funcionamento como, por exemplo, a licença ambiental de órgãos ambientais estaduais e instalações adequadas. Uma das iniciativas apontadas pela CNM são as ações consorciadas entre vários municípios, para a implantação de aterros sanitários.
Mauricio Waldman discorda dessa solução, embora reconheça como um pouco melhor do que os lixões a céu aberto. “Não dá pra defender como a melhor solução. A saída é consumir de forma responsável os recursos. Se consumiu, reutiliza, recicla, mas vale lembrar que essa coisa de lixo zero é bobagem, não existe”, avalia e completa: “Para cair por terra essa história de que é difícil, é caro, um dos únicos problemas urbanos que podem ser resolvidos em um prazo relativamente curto é o lixo. Se começar com a compostagem do lixo, que não precisa de grandes instalações como um aterro, já seria uma grande saída para uma considerável parcela do lixo. Mas, as soluções inteligentes são, infelizmente para os gestores, baratas. Não precisa fazer grandes instalações, então não dá dinheiro para empreiteira, não gera voto”, explica.
Viviane Tavares – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

As lágrimas de nossos rios, por Roberto Malvezzi (Gogó)

seca

Contemplando a situação terminal de tantos rios brasileiros – só no Norte de Minas se fala na extinção de aproximadamente 1200 rios e riachos -, parece que a gente tem que chorar a última lágrima sobre seus leitos secos. Aquele verso de Guimarães Rosa, retomado por D. Luís Cappio em seu baião – “Meu Rio de São Francisco, nessa longa turvação, vim te dar um gole d’água e pedir tua benção” – contem mesmo algo de profético.
Então, quando os discursos acabam diante dos fatos, a gente muitas vezes recorre à poesia, à música, mais para consolar a própria alma que para tentar modificar a realidade.
Nesse sentido, envio minha música “Rios” – letra e áudio – feita há mais de dez anos, onde a gente sonhava com nossos rios vivos e revitalizados.
Para alguns a esperança é a última que morre. Para Casaldáliga a esperança não morre jamais.
RIOS

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Se preferir, pode ouvir a música no seu player ou fazer o download do arquivo MP3 [com 6.77 MB] clicando aqui

Autor: Roberto Malvezzi (Gogó)
Interpretação: Coral Proestudio (Paulo Afonso-Ba)
Arranjos: Luciel Rodrigues

Rios
Que rolam suas águas da nascente até a foz
Deságuem suas águas e batizem todos nós.

Todos os rios mirins
Todos os Mearins
Em cada Pindaré, em cada Subaé….
Existe um rio correndo em nós

Os rios do Pantanal,
Araguaia, Tocantins
Os rios de toda a Terra
Nilo, Tejo,
Mississipi, Ganges, Volga
Dançam a valsa do
Danúbio Azul

Águas negras do Negro
Em todos corações
Existe um Solimões…
Em cada rio nascente
Em todo afluente
Rola uma gota d’água
Tem uma ponta d’água
Existe um fio de água
Apontando o oceano azul.

Em cada rio bendito
Existe um São Francisco
Existe um Parnaíba, Paraíba,
E nas Águas Emendadas
Nas Águas Espalhadas
Um Rio Grande, um Paraná, um Prata.
Rio Branco, Rio das Velhas, Madeira
Riozinho de esperança, os rios de nossa infância
Potirendaba, Barra Grande, Borá.

Rio secos do sertão,
Rasgando os corações
Que brotem as nascentes
Que jorrem os afluentes
Que a chuva molhe a terra
E fecunde o chão
E a vida se refaça
Nos mistérios da ressurreição

Somos todos água
Todos somos rios
Em cada rio que morre,
Morremos todos nós
Em cada rio que vive,
É o Amazonas desaguando em nós.

Roberto Malvezzi (Gogó), Articulista do Portal EcoDebate, possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.
EcoDebate

Ébola: A “falência moral” da indústria farmacêutica

O principal médico de saúde pública do Reino Unido defende que a culpa pelo fracasso em encontrar uma vacina contra o vírus do Ébola reside na “falência moral” da indústria farmacêutica em investir numa doença porque a mesma só afetou, até agora, pessoas em África — apesar das centenas de mortes. Por Jane Merrick, no The Independent.

O professor John Ashton, presidente do Instituto de Saúde Pública do Reino Unido, disse que o Ocidente precisa de tratar o vírus mortal como se este estivesse a dominar as partes mais ricas de Londres, e não “apenas” na Serra Leoa, Guiné e Libéria. Ao escrever no jornal The Independent, no domingo, o prof. Ashton compara a resposta internacional ao Ébola àquela que foi dada à AIDS. Esta matou pessoas em África durante anos e os tratamentos só foram desenvolvidos quando a doença se espalhou pelos EUA e Inglaterra, nos anos 1980.
Ashton escreve: “Em ambos os casos [AIDS e Ébola], parece que o envolvimento de grupos minoritários menos poderosos contribuiu para a resposta tardia e o fracasso em mobilizar recursos médicos internacionais adequados (…) No caso da AIDS, foram necessários anos para que o financiamento de pesquisa adequada fosse posto em prática, e apenas quando os chamados grupos ‘inocentes’ se envolveram (mulheres e crianças, pacientes hemofílicos e homens heterossexuais) os media, os políticos, a comunidade científica e as instituições financiadoras levantaram-se e tomaram conhecimento”.
O surto de Ébola já custou a vida de pelo menos 729 pessoas na Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria, de acordo com os números mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS). O número real é provavelmente muito maior.
Ontem, uma organização de ajuda norte-americana confirmou que dois agentes humanitários norte-americanos, que contraíram a doença na Libéria, deixaram o país. O dr. Kent Brantly passou a ser tratado numa unidade de hospital especializado em Atlanta, no estado da Geórgia, depois de se tornar a primeira pessoa com a doença a aterrar em solo norte-americano, ontem à noite. A segunda trabalhadora, Nancy Writebol, teve de aterrar num voo privado separado.
Na sexta-feira, a Organização Mundial de Saúde alertou que o surto no oeste africano está “a mover-se mais rápido do que os nossos esforços para controlá-lo”. A diretora geral da organização, Margaret Chan, alertou que se a situação continuar a deteriorar-se, as consequências serão “catastróficas” para a vida humana. O professor Ashton acredita que deveria ser investido mais dinheiro em pesquisa de tratamento.
“Devemos responder a essa emergência como se estivesse a acontecer em Kensington, Chelsea e Westminster. Nós devemos também enfrentar o escândalo da falta de vontade da indústria farmacêutica em investir em pesquisa para tratamentos e vacinas, algo que se recusam a fazer porque o número de envolvidos é, nas suas palavras, muito pequeno e não justifica o investimento. Essa é a falência moral do capitalismo, manifestando-se na ausência de um quadro moral e social”.
Os países do Ocidente estão em grande alerta após Patrick Sawyer, um funcionário do governo liberiano, morrer na última semana após chegar ao aeroporto de Lagos — o primeiro caso conhecido na Nigéria. Os aeroportos internacionais são foco de atenção por causa do alto volume de passageiros a voar a partir do oeste de África ou para lá, todos os dias. A empresa aérea Emirataes, do Dubai, suspendeu, por tempo indeterminado, os seus voos de Guiné, por causa da crise.
O professor John Ashton saudou a decisão do Ministro de Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Philip Hammond, em convocar, na semana passada, uma reunião do comitê de crises do governo — o Cobra – para discutir a prevenção, no Reino Unido, contra casos de Ébola.
O desenvolvimento de uma vacina está nos primeiros estágios nos EUA, mas em pequena escala, e há pouca esperança de que alguma fique pronta para tratar o atual surto no oeste africano. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Saúde, uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, disse que existem planos no sentido de começar a testar uma vacina experimental conta o Ébola, possivelmente a meio de setembro. O ensaio tem vindo a obter resultados encorajadores nos testes pré-clínicos em macacos. No início do mês passado, a Agência norte americana de Alimentação e Medicamentos [FDA, Food and Drug Administration] suspendeu um teste realizado em voluntários saudáveis pela Corporação Farmacêutica Takmira, por forma a certificar que o seu tratamento potencial do Ébola não tem efeitos colaterais. Entretanto, a FDA recolhe mais informações para garantir a segurança dos voluntários.
O professor Ashton frisou: “O foco real precisa de ser posto na pobreza e na devastação ambiental em que as epidemias prosperam, e no fracasso da liderança política e sistemas de saúde pública em responder efetivamente. A comunidade internacional deve envergonhar-se e procurar um comprometimento real… se se deseja enfrentar as causas essenciais de doenças como o Ébola.”
Artigo originalmente publicado no The Independent e reproduzido pelo Outras Palavras
Tradução: Gabriela Leite