"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 20 de setembro de 2014

40% dos presos no Brasil ainda não foram julgados

Documento foi lançado nesta quinta (18) pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. ONG Justiça Global lança campanha para dar visibilidade ao problema do uso ilegal e abusivo da prisão provisória.

Levantamento feito pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) mostra que 40% da população carcerária brasileira é formada por detentos que ainda não foram julgados. Ou seja, das 567 mil pessoas presas, aproximadamente 230 mil nunca tiveram a chance de se defender.
O documento, que foi lançado nesta quinta-feira (18) solicita a intensificação de políticas para “erradicar o uso da prisão preventiva como ferramenta de controle social ou como forma de pena antecipada.”

O defensor público do Rio de Janeiro Leonardo Meriguetti aponta que as falhas no sistema penal são decisivas para o agravamento da situação.

“O sistema favorece a eficiência em te prender, mas não favorece a eficiência de te soltar. Exige-se que se dê motivos verdadeiros e inidôneos para que se mantenha alguém preso cautelarmente. No entanto, em espécies criminais, como roubo e tráfico de drogas, a manutenção da prisão cautelar é regra.”

Antes mesmo do relatório, a ONG Justiça Global já havia lançado uma campanha para que presos provisórios fossem libertados por se tratar de uma condição ilegal e abusiva.

Segundo a entidade, presos provisórios e condenados compartilham as mesmas celas e unidades prisionais, apesar da Lei de Execução Penal exigir a separação entre esses dois casos. Ambos estão submetidos a condições de detenção degradantes, como celas superlotadas, pouco ou nenhum acesso à saúde, violência e tortura.

De São Paulo, para a Radioagência BdF, José Francisco Neto.

Maioria dos artigos de consumo vem da desflorestação ilegal

Pelo menos metade da desflorestação mundial é ilegal e está vinculada à agricultura comercial, sobretudo para abastecer os mercados estrangeiros, afirma um novo estudo. Na última década, a maior parte do desflorestação ilegal do mundo deveu-se à procura estrangeira por artigos básicos como papel, carne bovina, soja e óleo de palma. 

Artigo da Carey L. Biron, IPS

Entretanto, os governos dos principais mercados, como Estados Unidos, e União Europeia (UE), não tomaram quase nenhuma medida para desestimular o consumo desses produtos. De fato, seria muito difícil adotar medidas, já que o uso desses produtos potencialmente “sujos” é generalizado e quotidiano em muitos países, segundo a análise divulgada no dia 11 pela Forest Trends, uma organização independente dos Estados Unidos.
“Nos supermercados médios da atualidade, existe o risco de a maioria dos produtos conter matérias-primas procedentes de terras sujeitas a desflorestação ilegal”, opinou Sam Lawson, autor do relatório e diretor da Earthsighty, uma organização britânica que investiga crimes ambientais.
“É assim para qualquer produto envolto em papel ou papelão, toda a carne bovina, de frango e suína, já que esses animais são criados à base de soja. E, naturalmente, o óleo de palma está agora em quase tudo, do batom aos gelados”, detalhou Lawson. “Sempre existe esse risco” porque não há leis que evitem a importação e a venda desses produtos, acrescentou.
Em geral, 40% do óleo de palma e 14% da carne bovina comercializados no mundo procedem de terras desflorestadas ilegalmente, afirma o estudo. O mesmo ocorre com 20% da soja e um terço da madeira tropical utilizada para fabricar produtos de papel. Enquanto isso, exporta-se cerca de 75% da soja brasileira e do óleo de palma indonésio. Essa tendência está a aumentar em Papua Nova Guiné e na República Democrática do Congo.
Estudos anteriores sobre este problema limitavam-se a países, setores ou empresas específicas, mas o novo relatório é o primeiro que extrapola os dados a nível mundial.
“A procura dos consumidores dos mercados estrangeiros traduziu-se na eliminação ilegal de mais de 200 mil quilômetros quadrados de florestas tropicais nos primeiros 12 anos do novo milênio”, diz o estudo, segundo o qual isso equivale a, “em média, cinco campos de futebol por minuto”. Embora grande parte dessa desflorestação ilegal seja facilitada pela corrupção e por falta de capacidade do Sul em desenvolvimento, para Lawson a culpa é dos outros.
“São as empresas que realizam esses atos as que têm a responsabilidade, em última instância. Os grandes países consumidores também devem deixar de permitir o livre acesso aos seus mercados desses produtos que prejudicam os esforços dos países em desenvolvimento”, apontou Lawson.
As repercussões da degradação das terras florestais são locais e mundiais para os meios de vida, os ecossistemas e a saúde humana. As florestas maduras não contêm apenas grandes quantidades de carbono, mas também absorvem continuamente dióxido de carbono da atmosfera. Entre 2000 e 2012, as emissões associadas à desflorestação ilegal com fins agrícolas comerciais equivaliam, em cada ano, a um quarto das emissões anuais de combustíveis fósseis da União Europeia.
O relatório foi divulgado enquanto são preparadas duas grandes cúpulas mundiais sobre o clima. No final deste mês, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, receberá governantes de todo o mundo em Nova York para discutir o tema, e em dezembro acontecerá a próxima rodada de negociações sobre o clima mundial no Peru. Este último encontro é conhecido como a rodada da “floresta”.
Alguns observadores sugerem que a silvicultura oferece o maior potencial para a redução das emissões mundiais. O crescente consenso mundial em torno da importância da conservação da cobertura florestal diante da mudança climática criou importantes gestões internacionais para deter o corte ilegal.
Porém, Lawson assegura que algumas das empresas que antes se dedicavam ao corte ilegal de madeiras duras tropicais agora desflorestam ilegalmente para dar lugar à agricultura de grande escala. “A maior ameaça para as florestas está a mudar gradualmente, e essa ameaça hoje é a agricultura comercial. O que precisamos agora é repetir alguns dos esforços realizados em relação ao corte ilegal e aplicá-los aos produtos básicos agrícolas”, recomendou.
A UE, por exemplo, está para implantar um sistema bilateral de concessão de licenças que permitiria rastrear a origem da madeira cortada ilegalmente. Lawson propõe que sejam adotados acordos bilaterais semelhantes para as principais matérias-primas. Desta maneira, governos e companhias transnacionais deveriam garantir que os produtos comercializados não procedem de terras florestais sujeitas a desflorestação ilegal. Em essência, o requisito básico para a entrada nos principais mercados seria a legalidade comprovada das matérias-primas.
Atualmente, a compra ou não de um produto elaborado com elementos que possivelmente procedam de terras desflorestadas ilegalmente depende da decisão dos consumidores. Mas esse tipo de acordo modificaria por completo essa situação. “Toda responsabilidade que recai no consumidor desagrada-me. Não deveria ser tão difícil tomar essas decisões”, pontuou Danielle Nierenberg, presidente da Food Tank, uma organização com sede em Washington que trabalha em torno da sustentabilidade e da segurança alimentar.
“O fato é que os consumidores continuam imunes a essas questões. Apesar do crescimento do movimento por alimentos locais nos países ocidentais, continua a existir uma importante procura por uma diversidade de produtos de baixo custo. É por isso que a verdadeira ação tem de partir da parte empresarial e os governos devem adotar um compromisso maior”, acrescentou.
Os Estados Unidos proíbem o uso de produtos de madeira de origem ilegal. O seu regime jurídico teve grande eficiência ao excluir o enorme mercado desse país para a entrada desses produtos. Porém, Washington não tem interesse político em fazer algo semelhante com relação aos produtos agrícolas, ressaltou Nierenberg.
“A verdadeira oportunidade para a iniciativa estatal procede dos países em desenvolvimento”, afirmou Nierenberg. “É preciso investir mais nos pequenos e médios produtores agrícolas, proteger as suas áreas da apropriação de terras e investir em tecnologias agrícolas simples que realmente funcionem. É aí onde pode ocorrer a verdadeira mudança”, enfatizou.
Washington, Estados Unidos, 15/9/2014
Envolverde/IPS


Professores cedidos. A horda de babões



O Ministério Público do Rio Grande do Norte tem solicitado ao governo do estado para que proceda  à convocação de professores cedidos a outros órgãos enquanto nas salas de aula das escolas do RN faltam professores de várias áreas onde são colocados professores "tapa buracos" sem formação específica.

Uma das maiores mentiras, portanto, é que faltam recursos para o estado aplicar em educação, na verdade o que falta é por fim ao apadrinhamento; isso ocorre pelo simples fato de apadrinhados terem acesso, em troca de favores, a inúmeros cargos doados, pelo simples fato de conhecer um padrinho do tipo.

O sujeito então acumula cargos, não só professores, mas quem for parente ou próximo dos "políticos" potiguares, o mal da casa grande nos destrói em todos os aspectos. Acumula, portanto, cinco ou seis cargos, não cumpre nenhum da forma devida mas recebe os soldos generosos do dinheiro do contribuinte; dentro da gestão se torna um operador desses projetos de coronéis, enganando as pessoas tratando serviços públicos como favores pessoais.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte em mais de um século de existência realizou apenas um concurso público na sua história, em 2013, imaginemos a quantidade de babões; procuremos nas secretarias das prefeituras e das câmaras de vereadores... O indivíduo que deveria trabalhar das 7 às 13 chega às 9 e vai pra casa às 10.

No sujeito passivo da situação, a população, está enraizado ainda, infelizmente, que isso é assim é ponto, então aceita receber aquele exame do SUS  como se fosse do deputado ou do vereador, entende?

Os professores cedidos esses não são professores, professor no Brasil deve por no lixo  esse mal da casa grande e a decadência, na verdade depravação cultural, e dar aos seus alunos uma visão sobre isso tudo.

Será que com tantos acordões os acordados terão coragem para mexer na cota dos aliados? Não espere para ver...

Império em pânico no Oriente Médio

Mal explicada pelos militares e Obama, nova guerra na região será provável desastre. Em grave declínio, EUA cometem desatinos que ameaçam planeta

Por Immanuel Wallerstein 

O presidente Barack Obama disse aos Estados Unidos, e em particular ao Congresso, que o país deve fazer algo no Oriente Médio, para interromper um desastre. Sua análise do suposto problema é extremamente turva, mas os tambores do patriotismo estão batendo forte e, no momento, quase todo mundo, nos EUA, está cotagiado. Alguém mais sensato diria que todos estão se debatendo em desespero, diante de uma situação pela qual Washington é o principal responsável. Não sabem o que fazer. Por isso, agem em pânico.

A explicação é simples. Os Estados Unidos estão em grave declínio. Tudo dá errado. E, em pânico, seus governantes assemelham-se ao condutor de um automóvel possante, que perdeu o controle da máquina e não sabe como reduzir a velocidade. Em vez disso, ele acelera rumo a um grande desastre. O carro trafega em ziguezague e derrapa. Tornou-se um enorme perigo – não apenas para o motorista, mas também para o resto do mundo.

As análises atuais concentram-se sobre o que Obama fez ou deixou de fazer. Mesmo seus defensores mais próximos parecem duvidar do presidente. Um comentarista australiano escreveu, no Financial Times, que “em 2014, o mundo subitamente cansou-se de Barack Obama”. Imagino que talvez o próprio Obama tenha se cansado de si mesmo. Mas seria um erro culpar apenas o presidente. Virtualmente ninguém, entres os líderes norte-americanos, apresentou alternativa mais inteligente. Bem ao contrário. Há os profetas da guerra, que estimulam o presidente a bombardear todo mundo, e já. Há os políticos que realmente creem que as próximas eleições norte-americanas farão grande diferença…

Uma rara voz de sensatez surgiu numa entrevista do New York Times com Daniel Benjamin, que foi, no primeiro governo Obama, o principal conselheiro antiterrorismo do Departamento de Estado. Ele considera a suposta ameaça do ISIS uma “farsa”, em que “membros do governo e do alto comando militar descrevem a ameaça, todo o tempo, em termos escabrosos, que não se justificam”. Ele diz que as alegações são feitas sem nenhuma “evidência comprovada”, o que só demonstra como é fácil, para altos funcionários e a mídia, “mergulhar o público em pânico”. Mas quem dá ouvidos a Benjamin?

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Neste instante, e com a ajuda de fotos macabras da decapitação de dois jornalistas norte-americanos pelo califado, as pesquisas mostram enorme apoio a uma ação militar. Mas quanto isso perdurará? O apoio só será sustentado enquanto houver resultados concretos. Mesmo o chefe do Estado-Maior militar, Martin Dempsey, reconhece, quando defende ação bélica, que ela se estenderá por pelo menos três anos. Multiplique três por cinco, para se aproximar de uma estimativa de duração mais real. A população norte-americana, com certeza, irá se desencantar rapidamente.

Por enquanto, Obama propõe alguns bombardeios na Síria, nenhum soldado norte-americano “em solo”, mas um número maior de soldados especiais, em atividades de treinamento no Iraque (e provavelmente em outras partes). Quando disputou a presidência, em 2008, Obama fez muitas promessas, como é normal para um político. Mas sua promessa-chave foi sair do Iraque e Afeganistão. Ele não irá mantê-la. Na verdade, está envolvendo os EUA em novas guerras.

A coalizão liderada por Obama oferecerá “treinamento” a quem o presidente define como “gente de bem” [orig: “good guys”]. Aparentemente, o treinamento ocorrerá na Arábia Saudita. Bom para os governantes do pais. Eles podem vetar qualquer participante dos exercícios e escolher em quem confiam ou não. Isso tornará possível, ao regime saudita (hoje, ao menos tão desnorteado quanto o norte-americano), sugerir que está fazendo algo e sobreviver um pouco mais.

Há maneiras de alterar este cenário catastrófico. Mas elas exigem uma decisão de substituir a guerra por acordos políticos entre muitos grupos, que não se gostam, nem confiam uns nos outros. Tais acordos políticos não são impossíveis, mas são difíceis de articular – e, depois de firmados, são, num primeiro momento, frágeis. Uma das principais condições para que eles tenham espaço no Oriente Médio é um menor envolvimento dos Estados Unidos. Ninguém acredita em Washington, ainda que alguns atores convoquem assistência norte-americana momentaneamente, para executar certas tarefas. O New York Times lembra que, no encontro que Obama montou, para lançar sua nova coalizão, o apoio dos países do Oriente Médio presente foi “morno” e “relutante”, por haver “crescente desconfiança nos Estados Unidos, partindo de todos os lados”. Portanto, ainda que alguns se alinhem de forma limitada, ninguém mostrará gratidão por algum tipo de assistência norte-americana. É provável que os atores políticos do Oriente Médio desejem agora produzir seu próprio cenário, ao inveś de encenar a visão dos EUA sobre o que lhes convém.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Cúpula do Clima da ONU: só teatro ou fatos concretos?

Para além de mais promessas, o que se pode esperar realmente de uma Cúpula que provavelmente não durará mais do que 12 horas? 

Artigo de Thalif Deen, da IPS.


Cartaz da manifestação do próximo domingo em Nova Iorque, que pretende ser a maior de sempre a reclamar ação dos Estados contra as alterações climáticas.
























A tão comentada Cúpula do Clima, que acontecerá no final deste mês, é apresentada como um dos grandes acontecimentos político-ambientais da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2014. O seu secretário-geral, Ban Ki-moon, pediu aos mais de 120 governantes e empresários que participarão da Cúpula de um único dia, 23 de setembro, que anunciem iniciativas significativas e substanciais, com promessas de fundos incluídas, “para ajudar o mundo a avançar por um caminho que limite o aquecimento global”.
No dia 21, dois dias antes da Cimeira, centenas de milhares de pessoas farão uma manifestação contra as alterações climáticas em cidades de todo o mundo. “Nesse dia, estaremos nas ruas de Nova Iorque como parte da maior marcha climática na história, que enviará uma mensagem forte e clara para que os líderes mundiais ajam agora”, explicou Martin Kaiser, líder do projeto Política Climática Mundial, do Greenpeace.
Segundo a ONU, a Cúpula será a primeira ocasião em cinco anos em que os líderes do mundo se reunirão para discutir o que se classifica de desastre ecológico: as alterações climáticas. Entre as repercussões negativas do aquecimento global estão a elevação do nível do mar, padrões climáticos extremos, acidificação dos oceanos, derretimento de geleiras, extinção de espécies da biodiversidade e ameaças à segurança alimentar mundial, alerta a organização.
Mas o que se pode esperar realmente da conferência deste mês, que provavelmente não durará mais do que 12 horas?
“Um acontecimento de um dia não poderá nunca resolver tudo o que se relaciona com a mudança climática, mas pode ser um ponto de inflexão para demonstrar uma renovada vontade política de agir”, opinou Timothy Gore, diretor de políticas e pesquisa da campanha Crecede Oxfam International. Alguns líderes políticos aproveitarão a ocasião para fazer isso, mas muitos “parecem decididos a manterem-se afastados dos compromissos transformadores necessários”, acrescentou.
Segundo Gore, a Cúpula foi pensada como uma plataforma para os novos compromissos de ação em matéria climática, mas existe o risco real de estes não serem grande coisa. “O enfoque colocado nas iniciativas voluntárias em lugar dos resultados negociados significa que não há garantias de que os anúncios que forem feitos na Cúpula serão suficientemente sólidos”, acrescentou.
Espera-se que o Fundo Verde para o Clima mobilize anualmente cerca de 100 bilhões de dólares no Sul em desenvolvimento até 2020, segundo a ONU, mas ele ainda não recebeu os fundos que serão entregues aos países em desenvolvimento para que possam implantar as suas ações climáticas.
“No dia 23 de setembro veremos como os líderes mundiais não estão à altura do que necessitamos para lidar com a perigosa mudança climática”, declarou à IPS Dipti Bhatnagar, da Amigos da Terra Internacional e da Justiça Ambiental, de Moçambique. As “promessas” que os governos e as empresas farão na Cimeira do Clima serão extremamente insuficientes para abordar a catástrofe climática, sublinhou a ativista.
“A ideia de os governantes assumirem compromissos voluntários e não vinculantes é um insulto para centenas de milhares de pessoas que morrem a cada ano pelos impactos da mudança climática”, afirmou Bhatnagar. “Necessitamos que os países industrializados assumam objetivos de redução de emissões equitativos, ambiciosos e vinculantes, não um desfile de governantes que querem causar boa impressão. Mas este desfile falso é só o que vamos ver nesta Cimeira de um dia”, opinou.
No dia 21, dois dias antes da Conferência, centenas de milhares de pessoas farão uma manifestação contra as alterações climáticas em cidades de todo o mundo. “Nesse dia, estaremos nas ruas de Nova Iorque como parte da maior marcha climática na história, que enviará uma mensagem forte e clara para que os líderes mundiais ajam agora”, explicou Martin Kaiser, líder do projeto Política Climática Mundial, do Greenpeace.
Kaiser sugeriu que as empresas devem anunciar datas concretas a partir das quais operarão com 100% de energia renovável. Além disso, “os governos devem comprometer-se a eliminar gradualmente os combustíveis fósseis até 2050 e tomar medidas concretas, como acabar com o financiamento das centrais elétricas movidas a carvão”, destacou. “Também esperamos que os governos anunciem dinheiro novo e adicional para o Fundo Verde para o Clima, a fim de ajudar os países vulneráveis a se adaptarem aos desastres climáticos”, afirmou.
“Precisamos que o Norte industrial entregue fundos públicos seguros, previsíveis e obrigatórios ao Sul em desenvolvimento por intermédio do sistema da ONU”, disse Bhatnagar, da Amigos da Terra Internacional. Os líderes dos países industrializados estão a descuidar a sua responsabilidade para evitar as catástrofes climáticas, impulsionados pelos estreitos interesses econômicos e financeiros das elites ricas, da indústria dos combustíveis fósseis e das corporações transnacionais, acrescentou.
“O que se necessita para deter a mudança climática são objetivos de redução de emissões equitativos, ambiciosos e vinculantes dos países desenvolvidos, junto com a transferência de fundos e tecnologia aos países em desenvolvimento. Também precisamos de uma completa transformação dos nossos sistemas de energia e alimentos”, enfatizou Bhatnagar.
Nesse sentido, é preciso maior transparência para decidir se os anúncios feitos são coerentes com as últimas conclusões científicas sobre o clima e se protegem os interesses dos mais vulneráveis diante dos impactos climáticos, detalhou Gore. Em relação ao papel do setor privado, “precisamos que os empresários combatam as alterações climáticas, e estão a surgir bons exemplos de empresas que estão à altura da ocasião”, acrescentou.
No setor de alimentos e bebidas, por exemplo, a Oxfam trabalhou com companhias como Kellogg e General Mills para que estas assumam compromissos de redução das emissões das suas cadeias de fornecimento agrícola, extremamente contaminantes. “Mas, em geral, essa Cúpula mostra que há muitas partes do setor privado que ainda não estão à altura, já que as iniciativas que serão apresentadas não cumprem com a  transformação que precisamos”, destacou Gore.
“Isso serve para recordarmos a importância fundamental que tem a forte liderança governamental na mudança climática. As iniciativas voluntárias de baixo para cima não são um substituto da ação real do governo”, afirmou Gore.
Artigo publicado no portal da IPS

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?
Por Immanuel Wallerstein

Nos infindáveis realinhamentos geopolíticos do Médio Oriente, o Califado do Estado Islâmico (antes ISIS ou ISIL) parece ter assustado quase todos os envolvidos na política da região, o que os levou a uma aliança geopolítica de fato. De repente, encontramos o Irã e os Estados Unidos, os curdos (tanto na Síria quanto no Iraque) e Israel, a Turquia e o governo sírio de Bashar al-Assad, a Europa ocidental (Grã-Bretanha, França e Alemanha) e a Rússia, todos eles a procurar atingir de formas diferentes o mesmo objetivo: impedir a expansão e a própria consolidação do Califado.
Isto ainda não alterou significativamente outros pontos de conflito geopolítico, tais como Israel/Palestina e Ucrânia, mas certamente terá impacto neles. Todos estes atores perseguem, evidentemente, objetivos de médio prazo muito diferentes. No entanto, olhem o que aconteceu apenas na primeira metade de agosto.
Nuri al-Maliki foi afastado do cargo de primeiro-ministro do Iraque pelas pressões combinadas dos Estados Unidos, do Irã, do Grande Ayatollah Ali al-Sistani e dos curdos, principalmente por ter resistido a dar aos sunitas um papel significativo no governo iraquiano. E por que era isso tão importante? Porque, para todos estes atores, parecia ser a única forma de minar o Califado por dentro.
Os Estados Unidos comprometeram-se a envolver os seus drones e uma nova força de cerca de 1000 marines e forças especiais para impedir o massacre dos yazidis e dos cristãos iraquianos (uma operação que requer a assistência de fato de Bashar al-Assad), impedindo o avanço do Califado de Ebril – a capital curda iraquiana, onde há um consulado dos EUA e um número significativo de cidadãos norte-americanos – e outras coisas, provavelmente, que se descobrirão depois de um levantamento em curso no terreno. O presidente Barack Obama recusa-se a indicar uma data para o fim desta operação e por isso quase certamente deixará sem cumprimento a sua assinada promessa de uma retirada total do Iraque durante a sua Presidência.
O governo turco encerrou a fronteira aberta às forças anti-Assad na Turquia, que fora um elemento-chave da sua política para a Síria. O ex-senador Joseph Lieberman, conhecido falcão e defensor ardoroso das políticas israelitas, elogiou publicamente Obama pelo que acabou de fazer, ao mesmo tempo que os iranianos se abstinham de criticá-lo. Os sauditas, que parecem não conseguir decidir-se acerca da sua estratégia síria, resolveram aparentemente que o silêncio e o mistério são a melhor tática.
O que virá em seguida? E quem está a aproveitar-se deste realinhamento? A curto prazo, parece haver três óbvios vencedores. O primeiro é o próprio Califado. A reentrada dos Estados Unidos no conflito militar do Iraque permite que o Califado se apresente como uma força fundamental para desafiar o demônio incarnado, os Estados Unidos. Servirá para atrair muitos novos recrutas, especialmente do mundo ocidental. E pode-se esperar que tentará envolver-se em atividades hostis no interior dos Estados Unidos e na Europa ocidental. Esta vantagem de curto prazo irá evidentemente entrar em colapso se o Califado sofrer revezes militares pesados. Mas vai demorar algum tempo antes que isto ocorra, se é que vai acontecer. O exército do Califado parece ainda ser a força militar mais moralizada e treinada na região.
Um segundo grande vencedor é Bashar al-Assad. O apoio externo às forças anti-Assad foi sempre inferior a decisivo, e é provável que diminua mais ainda a curto prazo, à medida em que mais e mais opositores sírios se alinhem com o Califado.
O terceiro grande vencedor são os curdos, que consolidaram a sua posição no Iraque e melhoraram as suas relações com os curdos da Síria. Irão agora receber mais armas dos países ocidentais e possivelmente de outros, fortalecendo ainda mais as suas forças militares, ospeshmerga.
Há derrotados evidentes? Um, suspeito, são os Estados Unidos. A menos que o Califado desmorone no futuro próximo (o que parece muito improvável), este esforço militar irá em breve expor uma vez mais os limites das capacidades militares dos EUA, bem como a inconsistência das suas posições públicas sobre o Iraque, a Palestina e a Ucrânia. E Obama terá perdido a oportunidade de proclamar a sua maior realização geopolítica. O povo dos Estados Unidos apoia o sucesso, não o pântano.
E há pelo menos três grupos cujo futuro imediato como vencedores ou derrotados ainda não é claro. Um é o Irã. Se os Estados Unidos e o Irã estão do mesmo lado no Iraque e no Afeganistão, podem os EUA rejeitar que haja algum compromisso com o Irã sobre a questão da energia nuclear? A posição iraniana nesta negociação saiu pelo menos reforçada.
Um segundo é o Hamas. Os israelitas já estão sob forte pressão internacional para reformular as suas posições em relação à Palestina. Esta ênfase sobre os perigos do Califado irão aumentar a pressão? Muito provavelmente, mas os israelitas vão procrastinar o máximo que puderem.
O terceiro é a Rússia. Enquanto escrevo este texto, o governo de Kiev resiste à entrada da caminhões russos que Moscou garante serem uma missão humanitária para ajudar os sitiados habitantes de Lugansk, cercada por tropas ucranianas que procuram obter a sua rendição pela fome. Será que isto é muito diferente dos esforços do Califado de forçar à rendição pela fome os yazidis que estão refugiados nas montanhas? Se os Estados Unidos e a Europa ocidental são a favor da ajuda humanitária num lugar, como podem ser contra no outro?
Vivemos tempos interessantes.
Immanuel Wallerstein
Comentário n.º 383, 15 de agosto de 2014
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net
   Immanuel Wallerstein
   Sociólogo e professor universitário norte-americano.

Escócia rejeita independência em referendo com participação recorde

O Não à independência obteve 55% dos votos num referendo em que participaram 86% dos eleitores inscritos. O primeiro-ministro escocês exige agora que Londres cumpra rapidamente as promessas de transferência de mais poderes para a Escócia.

Esquerda.net

Contagem dos votos em Aberdeen, uma das praças-fortes da vitória do Não. Foto Robert Perry/EPA
“Os partidos unionistas prometeram na reta final da campanha para devolver mais poderes à Escócia. E a Escócia espera que elas sejam honradas de forma rápida”, afirmou Alex Salmond na sua declaração em que assumiu a derrota do Sim à independência. O primeiro-ministro e líder dos nacionalistas escoceses (SNP) destacou a participação recorde no referendo e o fato de 1,6 milhões de eleitores terem apoiado a independência da Escócia, para dizer que tanto eles como “todos os escoceses que participaram neste referendo vão exigir que o calendário seja cumprido”, ou seja, que até 27 de março de 2015 seja aprovada uma lei que transfira mais poderes a nível fiscal e de proteção social.
“Uma afluência às urnas de 86% é uma das mais altas do mundo democrático em qualquer eleição ou referendo da História - isso foi uma vitória para o processo democrático e para a participação na política”, sublinhou Alex Salmond.
O resultado do Sim foi afetado por uma participação abaixo da média em Glasgow. Com 75% de afluência às urnas, os habitantes da maior cidade escocesa deram a vitória ao Sim, com 53,5%, mas não conseguiram contrariar o avanço do Não noutras regiões importantes. Por exemplo, em Edimburgo, o Não venceu com 61%. E no total dos 32 distritos, o Sim apenas venceu em quatro.
Ainda antes do anúncio dos resultados, o líder dos socialistas escoceses (SSP) atribuía uma eventual vitória do Não aos “truques de propaganda” dos partidos do Não nos últimos dez dias. Eles amedrontaram as pessoas. Os idosos e a classe média são a maior parte dos votantes do Não, enquanto a maioria dos trabalhadores esteve ao lado da campanha do Sim”, declarou Colin Fox.
“Hoje a escolha foi entre a independência e o adiamento da independência e parece que vamos ter o adiamento da independência”, lamentava o líder do SSP, garantindo no entanto que o referendo e a campanha do Sim “foram bons para o futuro da esquerda”, que conseguiu marcar a agenda e impedir que o debate fosse preenchido por argumentos xenófobos.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Elogio do herege

Os hereges costumam ser elogiados depois de mortos, justamente por ter cumprido sua heresia; a história caminha pelo inesperado e pelo herege, mais propriamente a viragem. É, também, possível que transformem o herege no seu oposto, aquilo que fez criar sua heresia, tendo que esperar outro herege para desmentir tudo.

Sem os hereges as consciências não mudam. Faz-se dentro de dada sociedade, grupo ou instituição para dentro desses círculos começar a traçar os desvios, os de dentro passam a persegui-lo, tripudiá-lo e tudo o mais; mas se você não é um herege e passa a gostar de ser não perca tempo, nunca se faz um herege, ou se é ou não se é; nem seu dizer se crer em destino é heresia.

De uma heresia pode-se passar à outra, evidentemente, depois de esta deixar de ser heresia e tiver se consolidado em seu fechamento anti-herético.

A Universidade nasceu como heresia, despedaçou os muros dos monastérios, veja o que fez o monge lá de O Nome da Rosa de Umberto Eco, provocou indiretamente a morte de sete para que um livro de Aristóteles não fosse lido, mas não tem quem segure um herege. As tragédias gregas se compunham de quatro partes, três trágicas e uma cômica; as comédias foram tratadas como heresias bestiais e se perderam quase todas.

Mas a universidade deixou de ser herege e pôs cabresto nos seus quadros, quem gosta do herege na Universidade? Não gosta do currículo, muito menos do programa. 

Às vezes o que vai volta, quando fizeram a república mais monárquica do Mundo no Brasil se considerava o império pautado por uma cultura bacharelesca; vamos gora tecnicizar o ensino para avançarmos positivisticamente.  Já vi um sujeito falar com saudade do tempo dos grandes estudos clássicos, "estamos perdidos, agora tudo é técnico", dizia.

"Então junta os dois que agrada todo mundo", essa é a heresia deseherege .

Citam uma frase de William Shakespeare  que diz o seguinte - "Herege não é aquele que arde na fogueira e sim aquele que a acende", isso significa inverter a lógica, ao meu ver corretamente, o herege só é herege para hereges.

O agosto mais quente da história

A Nasa revela que o mês passado foi o agosto mais quente da história e, também segundo o instituto norte-americano, foram registradas na Antártida temperaturas de até 4 graus Celsius acima do habitual.

Esquerda.net

O mês passado foi o agosto mais quente no mundo inteiro desde o início dos registros, há 130 anos, segundo dados divulgados nesta terça-feira (16/09) pela Nasa.

De modo geral, 2014 é um ano excepcionalmente quente, tendo junho como também o mais quente de todos e março como o terceiro mais quente desde 1880, aponta o órgão.

"A questão-chave para o clima são as tendências de longo prazo, não meses individuais", ressalta o diretor da Instituto Goddad de Estudos Espaciais da Nasa, Gavin Schmidt, ao The Guardian.

A partir de dados terrestres, marítimos e de satélite, institutos meteorológicos sugerem que a alta mundial deste ano foi muito próxima aos de 2011, 2008, 2006 e 2003. No geral, as temperaturas foram 0,70 graus Celsius superiores à média registada entre 1951 e 1990.

A zona oeste dos Estados Unidos continua sob uma seca prolongada, enquanto a maior parte do norte e do leste do país tem sido visivelmente mais fria do que a média, revela a Nasa.

O órgão também mostra que temperaturas de até 4 graus Celsius acima do habitual foram registadas na Antártida, assim como a extensão de gelo do mar atingiu níveis recordes.

Analfabetismo cai no país, mas ainda atinge 13 milhões

Em números absolutos, de 2012 para 2013 houve redução de 297,7 mil analfabetos acima de 15 anos no país
A taxa de analfabetismo das pessoas acima de 15 anos no Brasil voltou a cair em 2013. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), o país tinha cerca de 13 milhões de analfabetos nesta faixa etária no ano passado, o que corresponde a 8,3% da população. O resultado é 0,4 ponto percentual abaixo do registrado em 2012 (8,7%). A taxa de analfabetismo funcional também caiu, de 18,3% para 17,8%. A Pnad foi divulgada hoje (18) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
O resultado de 2012 manteve-se praticamente estável, com alta de 0,1 ponto percentual em relação a 2011, quando foi registrado 8,6% de analfabetos. Desde 2004, ano em que a abrangência da Pnad incluiu pela primeira vez as populações rurais de toda a Região Norte, houve queda de 3,2 pontos percentuais, de 11,5% para 8,3%. Em números absolutos, de 2012 para 2013 houve redução de 297,7 mil analfabetos no país.
De acordo com o IBGE, a maioria de analfabetos eram mulheres, com 50,6%, realidade que se repete nas regiões Sudeste (56,2%), Sul (55,6%) e Centro-Oeste (50,5%). No Norte e no Nordeste, os homens representam a maioria dos analfabetos, com 53,2% e 52,1%. Apesar disso, a taxa de analfabetismo é superior entre os homens, com 8,6% contra 8,1% da mulheres. Na divisão por região e sexo, os homens nordestinos têm a taxa mais alta, de 18,2%, enquanto as mulheres da Região Sul têm a menor, de 3,9%.
Ao considerar a idade, a pesquisa mostra que pessoas com mais de 60 anos são mais frequentemente analfabetas que as mais jovens. Entre quem possui menos de 30 anos, a taxa de analfabetismo em 2013 chegou a 3%, enquanto na população com mais de 60, ela foi de 23,9% da população. Entre quem tinha de 40 a 59 anos, o analfabetismo atingia 9,2%.
Todos os grupos etários tiveram redução da taxa entre 2012 e 2013, e, com uma queda de 0,2 ponto percentual, a menor porcentagem registrada foi a dos jovens entre 15 e 19 anos, com 1%. Para Maria Lucia Vieira, gerente da pesquisa, a diferença na taxa de analfabetismo entre as idades se deve a uma dificuldade maior de atingir pessoas mais velhas com programas de alfabetização.
Regionalmente, o Nordeste continua a ser a região com a maior taxa de analfabetismo entre os maiores de 15 anos, mas foi também o local onde ela mais caiu, de 17,4% em 2012 para 16,6% em 2013. De acordo com a Pnad, mais da metade (53,6%) dos analfabetos do Brasil estão nos estados nordestinos.
Todas as regiões tiveram queda, e a segunda maior foi registrada na região Norte, de 10% para 9,5%, seguida pelo Centro-Oeste, de 6,7% para 6,5% e pelo Sul, de 4,4% para 4,2%. O Sudeste teve a menor redução da taxa, de 4,8% para 4,7% da população. Como é a mais populosa, a Região Sudeste concentra 24,2% dos analfabetos, apesar de ter a segunda menor taxa.
O analfabetismo funcional também caiu em todas as regiões brasileiras, e acompanha o analfabetismo quando enumeradas as regiões em que ele é mais incidente. No Nordeste, a taxa caiu de 28,4% para 27,2% e ainda é a maior do país. O Norte vem em seguida, com 21,6%, 0,3 ponto percentual a menos que no ano passado. No Centro-Oeste, a situação ficou praticamente estável, com queda de 0,1%, de 16,5% para 16,4%.
Na região Sul, o analfabetismo funcional foi maior do que no Sudeste em 2013, com uma diferença de 13,6% para 12,9%. As duas regiões tiveram queda na taxa, já que, em 2012, apresentavam percentuais de 13,7% e 13,2% respectivamente.

(Vinícius Lisboa / Agência Brasil)

Referendo na Escócia: Neoliberalismo vs socialismo

O referendo na Escócia põe frente a frente a opção entre continuar no neoliberalismo ou avançar na direção do controle social sobre o investimento. 
Por Alejandro Nadal
Nesta quinta-feira, 18 de setembro, realiza-se o referendo mais importante dos 300 anos de vida do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. A Escócia irá às urnas para decidir a sua manutenção como parte dessa união política ou a sua conversão num Estado independente.
Para Londres, o triunfo dos independentistas representa uma séria ameaça. Por isso combate a campanha a favor do sim com todas as suas forças. A imprensa de negócios e a BBC não pouparam recursos para assustar o eleitorado e orientá-lo para o voto negativo. É certo que a diminuição de influência política será um duro golpe para Londres, mas é na frente económica que o poderio britânico seria mais afetado, entre outras coisas pela perda de uma boa parte dos recursos dos campos de petróleo e gás do Mar do Norte.
Para os partidos independentistas o referendo oferece uma oportunidade única para recuperar a independência da Escócia e estabelecer um governo democrático de centro-esquerda que permita escapar às garras do neoliberalismo que Londres e, mais especialmente, a City, têm imposto aos 5,3 milhões de escoceses.
Há 25 anos foi submetido a voto o tema da devolução de alguns poderes à Escócia. O resultado foi negativo. Naquele tempo foi argumentado que o tamanho da Escócia tornava inconcebível a independência, como se a auto-determinação de um povo fosse questão de economias de escala. Em 1997 noutro referendo, foi aprovada a criação do parlamento escocês, com poderes limitados. Mas nesse parlamento não se pode discutir o desemprego, os direitos sindicais, os salários, a desigualdade, os cortes nas despesas da saúde e da educação, ou a regulação financeira e bancária.
Esse parlamento também não pôde debater as aventuras militares de Tony Blair no Iraque e no Afeganistão. Hoje não pode opinar sobre a base de submarinos nucleares Trident na margem direita do rio Clyde ou sobre a nova ação que Londres prepara no norte do Iraque.
O debate econômico sobre o referendo girou em torno da viabilidade de uma Escócia independente. Há argumentos variados, mas os dados são bastante contundentes. A economia escocesa seria forte e diversificada.
Os jazigos de petróleo os do Mar do Norte foram abertos há 50 anos, mas as reservas que corresponderiam a uma Escócia independente anunciam uma produção rentável para as próximas duas ou três décadas. O mais provável é que uma Escócia independente procederia à nacionalização da indústria petrolífera e do gás, seguindo o bem sucedido exemplo da Noruega, onde sempre se manteve o controle público sobre este setor. Ainda que haja dificuldades metodológicas para medir os fluxos de comércio internacional na Escócia, se forem incluídas as exportações de crude e de gás, o saldo da conta corrente do novo país independente seria superavitário.
A receita fiscal na Escócia atingiu os 57 bilhões de libras esterlinas no exercício fiscal de 2011-12, o que representa quase 10 por cento dos rendimentos tributários do Reino Unido. A estrutura dos impostos é essencialmente regressiva, o que agrava o problema da desigualdade econômica, mas uma nova política fiscal permitiria reverter as tendências negativas, reorientar a despesa pública, promover o desenvolvimento industrial, científico e tecnológico.
Hoje o debate econômico sobre a independência está centrado sobre a divisa de uma nova Escócia independente. Há três vias possíveis. A primeira implica continuar a usar a libra esterlina. A desvantagem é que a nova república entregaria o controle da sua política monetária a Londres e a regulação do sistema bancário e financeiro escaparia às autoridades escocesas. A taxa de juro no novo espaço econômico seria fortemente afetada por esta falta de controle monetário e até a política fiscal ver-se-ia constrangida. Esta é a proposta do Partido nacionalista escocês, mas essa via implica permanecer na zona de influência da City e ficar no neoliberalismo.
A segunda é a adoção do euro como divisa do novo país. Parece-se com a anterior pela falta de controle da política monetária e é recusada por todos na Escócia porque equivale a adotar as posições neoliberais de Maastricht e Lisboa. O esquema que conduziu à eurocrise não pode ser uma referência em matéria de política macroeconômica na Escócia.
A terceira via estaria baseada numa moeda própria baseada num regime de flutuação semi-regulada. As novas autoridades monetárias teriam que organizar a transição, mas em princípio nada impede a adoção de uma nova moeda que permita recuperar o controle soberano dos principais instrumentos da política macroeconômica. Muito provavelmente esta nova postura estaria próxima de um esquema de tipo democrata-socialista ao estilo da Noruega.
O referendo na Escócia põe frente a frente a opção entre continuar no neoliberalismo ou avançar na direção do controle social sobre o investimento.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado no jornal mexicano La Jornada, traduzido por Carlos Santos para esquerda.net

Brasil reduz em 50% o número de pessoas que passam fome, mas ainda tem 3,4 milhões em insegurança alimentar

A Organização da ONU para Alimentação e Agricultura (FAO) estimou, nesta terça-feira (16), que mais de 805 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar no mundo. O Brasil, no entanto, caminha na contramão dessa estatística graças aos seus programas, ações e estratégias que levaram o país ao posto de referência mundial no combate à fome.
“O Brasil é um grande exemplo nesse aspecto porque estabeleceu essa causa como uma prioridade nacional. Ele provou que um país grande pode reduzir a insegurança alimentar e ainda influenciar toda uma região e o mundo”, disse a representante adjunta da FAO para América Latina e Caribe, Eve Crowley, destacando que a América Latina e o Caribe tiveram juntos o melhor desempenho no combate à insegurança alimentar dos últimos anos. A região concentra atualmente 6,1% das pessoas com insegurança alimentar, percentual bem abaixo dos 15,3% registrados em 1992.
Peça central no estudo realizado pela FAO, o Brasil aparece como modelo para promoção de experiências exitosas como transferência de renda, compras diretas para aquisição de alimentos e capacitação técnica de pequenos produtores. Com isso, o Brasil conseguiu diminuir em 50% o número de pessoas que passam fome.
O diretor do Centro de Excelência contra a Fome do Program Mundial de Alimentos (PMA), Daniel Balaban, destacou que uma maneira de definir a expressão “insegurança alimentar” é quando existe restrição do acesso aos alimentos. Isso porque as pessoas que estão na situação de insegurança alimentar consomem alimentos de forma difusa, sem saber quando será a próxima refeição.
Uma iniciativa que contribuiu diretamente para a redução da insegurança alimentar no cenário brasileiro foi o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA). Balaban ressalta que, com o programa, os agricultores tiveram a garantia da venda de seus produtos para o governo e instituições como escolas e hospitais.
“No Brasil, os pequenos produtores sofriam de insegurança alimentar. Eles largavam suas terras rumo aos grandes centros urbanos em busca de emprego. O grande mérito do programa foi incentivar todo esse grupo a permanecer no campo, estimulando a produção e oferecendo demanda para ele. Cerca de 70% do nosso consumo interno é abastecido pela agricultura familiar”, disse o diretor.
O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil
Divulgado durante a coletiva de imprensa em Brasília, o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Brasil – Um Retrato Multidimensional – é um dos sete casos de países específicos estudados pela FAO, lançado paralelamente ao relatório anual da Organização, O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2014.
O documento sobre o caso brasileiro aborda as estratégias de governança adotadas pelo país com o objetivo de garantir o acesso de todos à alimentação, além de uma análise sobre a produção e disponibilidade de alimentos e outros aspectos como saúde. Para ilustrar o sucesso das medidas brasileiras, a FAO reuniu diversos indicadores da segurança alimentar, entre eles, o Indicador de Prevalência de Subalimentação, uma medida empregada pela FAO há 50 anos para dimensionar e acompanhar a fome em nível internacional. Hoje, o país tem 3,4 milhões de brasileiros que passam por insegurança alimentar, o que representa 1,7% da população brasileira. A porcentagem de 5% é o limite estatístico determinado que representa se um país superou o problema da fome.
“O relatório mostra a situação da insegurança alimentar e as tentativas de eliminar a fome da Terra. Ele ressalta os nossos avanços, mas mostra que ainda há muito para fazer. Mesmo com a disponibilidade de alimentos e tecnologia, temos mais de 800 milhões de pessoas com risco de insegurança alimentar.Temos que reconhecer que a fome é a maior inimiga em todos os territórios do mundo e manter o compromisso de combater esse problema”, afirmou o coordenador residente do sistema das Nações Unidas no Brasil, Jorge Chediek.
Para Chediek, a insegurança alimentar é um tema complexo, que não se resolve apenas com o aumento da produção ou da distribuição de alimentos, mas com uma multiplicidade de ações e programas que o Brasil vem desenvolvendo muito bem.
“O Brasil precisa continuar nesse caminho, de chegar aos que estão fora do ‘sistema’, e aprimorar a coordenação de programas sociais. Por conta desse compromisso, o país teve um resultado admirável. O IDH, que inclui elementos de saúde e renda, melhorou mais de 50% nos ultimos 20 anos”, destacou.
Discurso da fome e a desigualdade social
O relatório também parabeniza o governo por importantes passos institucionais e implementação de marcos legais que possibilitaram os avanços no combate à fome no Brasil. Entre eles, a incorporação à Constituição Federal, em 2010, do direito humano à alimentação adequada e, em 2011, da institucionalização do Plano Nacional de Segurança Alimentar, com destaque ao lançamento da Estratégia Fome Zero, e a implementação, de forma articulada, de políticas de proteção social – como o Bolsa Família e o Programa Nacional de Alimentação Escolar – e de fomento à produção agrícola – como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar – PAA.
Segundo o estudo, os gastos federais (em 2013) com programas e ações de segurança alimentar e nutricional no Brasil totalizaram cerca de 78 bilhões de reais. Os investimento em programas sociais aumentaram mais de 128% entre os anos de 2000 e 2012, enquanto a parcela desses programas no Produto Interno Bruto aumentou 31%. Em 2013, os programas relacionados à proteção social chegaram a aproximadamente um terço dos gastos federais em programas e ações de segurança alimentar e nutricional, enquanto os programas relacionados com a produção e distribuição de alimentos, inclusive os destinados à promoção da agricultura familiar, foram responsáveis por um sexto do total de dispêndios.
O resultado desses investimentos trouxe números positivos para erradicar a extrema pobreza e a fome no país, compromisso assumido através do primeiro Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM1) e na Cúpula Mundial sobre Alimentação (CMA). Apenas com o Bolsa Família, cerca de 22 milhões de brasileiros foram retirados da extrema pobreza desde 2011.
A consultora da FAO, Anne Kepler, que apresentou o relatório sobre o caso brasileiro, acredita que o avanço do país está também no seu discurso sobre a fome, atrelado à desigualdade social.
“Nos Estados Unidos, também há insegurança alimentar, também há fome, mas o tratamento é muito diferente do que vemos hoje no Brasil. A fome não está relacionada ao fato de a pessoa não se interessar por trabalho, como muitos dizem. Aqui, estamos provando que esse déficit na alimentação está ligado a uma diferença de classes, a uma desigualdade social que vem diminuindo”, disse Kepler, nascida nos Estados Unidos, mas residente do Brasil há 20 anos.
Durante a entrevista, Crowley ressaltou que o mundo está vivendo um período histórico, onde o progresso no combate à fome é evidente. “Se firmarmos um compromisso, poderemos erradicar a fome dentro da nossa geração”.
Para a elaboração deste documento, a FAO contou com a colaboração do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, além de pesquisadores e acadêmicos.
Fonte: ONU Brasil

Mortes por Ebola e o ‘choque malthusiano’ na Libéria

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
esperança de vida, nascimentos e óbitos na Libéria

A Libéria é uma república presidencialista localizada na África Ocidental, fazendo fronteira com Serra Leoa, Guiné e Costa do Marfim. Foi fundada e colonizada por escravos americanos libertos com a ajuda de uma organização privada chamada American Colonization Society, entre 1821 e 1822. A capital do país é Monróvia (homenagem a James Monroe, o quinto presidente dos Estados Unidos). O nome Libéria significa “liberdade”.
Embora a Libéria não tenha sofrido os traumas da escravidão e da colonização europeia, é um país pobre, com renda per capita de US$ 700,00 (em poder de paridade de compra), com 80% das pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza e apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de somente 0,412, um dos mais baixos do mundo (175º em 187 países). Segundo a Divisão de População da ONU a população da Libéria era de 930 mil habitantes em 1950, passou para 4 milhões em 2010 e está projetada para 9,4 milhões de habitantes em 2050. A densidade demográfica era de 8 habitantes por quilômetro quadrado (hab/km2) em 1950 e pode chegar a 84 hab/km2 em 2050.
No quinquênio 2010-15, o número anual de nascimentos está estimado em 151 mil bebês e o número de óbitos em 38 mil. Portanto, a Libéria apresenta um crescimento vegetativo de 113 mil pessoas por ano. A esperança de vida ao nascer era de 33 anos no quinquênio 1950-55 e chegou a 58 anos em 2005-10. A projeção da ONU indica uma esperança de vida de 71 anos em 2045-50.
Contudo, a epidemia de Ebola pode mudar o cenário demográfico desenhado pela ONU. Até o momento, a Libéria é o país onde foram registrados os maiores números de mortes por causa do ebola. Na primeira semana de setembro, a OMS (Organização Mundial da Saúde) advertiu que o vírus ebola estava se espalhando “exponencialmente” na Libéria e que “milhares” de novos casos estavam sendo esperados nas próximas três semanas.
O surto de Ebola atinge, além da Libéria, Guiné, Serra Leoa e Nigéria. Apenas na Libéria, até a primeira semana de setembro, 1.089 pessoas de um total de 1.871 diagnosticadas já morreram, um índice de mortalidade de 58%. Ou seja, o vírus do Ebola é extremamente fatal.
Se a epidemia não for controlada a Libéria pode ver, dentro de pouco tempo, as taxas de óbitos superarem as taxas de nascimentos, criando uma situação de “choque malthusiano”. A expressão “choque malthusiano” é utilizada para descrever uma situação em que o crescimento populacional é interrompido, não pela queda da fecundidade, mas pelo aumento das taxas de mortalidade.
Thomas Malthus (1766-1834) considerava que a tríade: “guerra-miséria-epidemia”, funcionava como um “freio positivo” para interromper o crescimento desregrado da população. O salário de subsistência era a solução que ele propunha para evitar que a população crescesse acima do ritmo da economia. Malthus, como pastor da Igreja Anglicana, era contra os métodos contraceptivos, a esterilização e o aborto.
Poucos países que passaram por esta situação as mortes superarem os nascimentos, desde que o reverendo Malthus escreveu seus escritos pessimistas. A Revolução Industrial e Energética viabilizou um grande crescimento da economia mundial e todos os países passaram pela transição da mortalidade e a transição epidemiológica. Nunca as taxas brutas de mortalidade foram tão baixas no mundo quanto atualmente. Nunca a esperança de vida global foi tão alta.
Mas enquanto o mundo apresenta ganhos demográficos, a Libéria pode entrar numa situação de pesadelo. Para a OMS, é preciso triplicar ou multiplicar várias vezes os esforços no país e em outras nações africanas para enfrentar de forma adequada a doença. Os táxis usados para transportar os pacientes infectados pelo vírus parecem ser uma fonte da transmissão do Ebola. O vírus se espalha pelo contato direto com sangue contaminado, fluidos corporais ou órgãos, e também indiretamente, pelo contato com ambientes contaminados.
O ministro da Defesa da Libéria disse ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, de acordo com reportagem da Revista Exame, que: “A existência nacional da Libéria está seriamente ameaçada pelo vírus mortal do Ebola, que está se espalhando como fogo e devorando tudo em seu caminho. A Libéria está enfrentando uma ameaça séria à sua existência nacional. O vírus Ebola causou uma interrupção no funcionamento normal de nosso Estado. Agora ele está se espalhando como fogo e devorando tudo em seu caminho. A infraestrutura já frágil do sistema de saúde do país foi sobrecarregada”.
O espectro do choque malthusiano ronda a Libéria e pode migrar para outros países da região e outras regiões do mundo. Esta é uma notícia que vai na contramão da transição demográfica e da transição epidemiológica. O mundo precisa se unir para prestar solidariedade e evitar que a elevação das taxas de mortalidade se tornem uma realidade no século XXI.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

A vingança do ISIS

O fundamentalismo no islamismo invoca a vingança da expulsão da península ibérica ocorrida no século XIV e também pelo fim do império Otomano, acontecimento pós Primeira Guerra Mundial.


Por isso que o califado proclamado pelo ISIS configurou uma área de extensão que cobre todos esses territórios. De fato uma guerra global, ainda em fase local, sem sabermos se se tornará de fato mundial, mas uma guerra entre modernidade e fundamentalismo religiosos.

Até aqui a modernidade tinha se visto em guerras mundiais consigo própria, mas foi buscar e fomentar um ódio dividindo Ocidente e Oriente; então, a modernidade ao mesmo tempo em que tenta ser a razão que constrói o próprio racional sobre o que considera supersticioso, nos termos mais antigos, não tem conseguido evitar a barbárie.

O grande erro é se imputar tudo na conta do islã, é preconceito puro. Os "erros" que tiver na história do islã as religiões ocidentais estão no mesmo patamar, o grande exemplo são os budas gigantes destruídos pelo Talibã em 2001 (Sobre leia aqui) e que haviam convido com o islã desde sua fundação por mais de mil anos.

Só que o ISIS se voltou, como dizem os especialistas, para o inimigo próximo (Xiitas, principalmente) dentro da própria região, enquanto que a Al-qaeda se voltava contra o Ocidente, mais particularmente os EUA.

Liberamos a intolerância com a força de ser global, e sequer temos coragem de assumir isso, que modernos que somos...

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

No Brasil a ferrugem come o que é público



Eu já vi a seguinte tratativa:

Uma equipe de pedreiros trabalhando para o poder público na construção de uma cisterna na zona rural de Caicó-RN, se viu, sem muito estranhamento, evidentemente, diante de um morador da localidade, que propunha que os instrumentos usados para a construção da cisterna ficasse com ele (O morador), como não concorda o trabalhador, dizendo que teria de prestar contas a respeito dos instrumentos, àquele afirmou - Diga que a ferrugem comeu-.



Essa é a diferenciação do público (Da polis) com relação ao particular: o que é público deve ser vilipendiado, tratado com abuso e aquilo que pode ser usado "com as ventas". Nas prefeituras os empregos arranjados são imundos no seu cumprimento, o interesse galopa sobre os direitos, os deveres, ficam, dessa maneira, subjugados.

Catolicismo cultural, luso-brasileirismo e baixa escolaridade ainda predominante formam a receita impecável para destruir aquilo que é público e isso parte para o que é mais imundo: O político idolatrado por fazer o que não deve, se não passa por cima ou por trás das leis é "um fraco", isso ser ser apologeta da lei, mas ele constrói e destrói ao mesmo tempo, sua assembleia é sempre farsante. As quadrilhas farsantes que traficam de dentro das casas legislativas, sabotam a administração em contratos, vendem exames médicos, que montam esquemas de prostituição.

Parece utopia fazer em retirar tudo isso pelo menos da praxe, mas as transformações culturais somente são impossíveis na cabeça de preguiçosos, individualistas prepotentes e que se aproveita disso; com o Estado moderno é uma brincadeira através da educação superar o catolicismo cultural (Diferente de intolerância com a Igreja católica, os termos não têm nada a ver um com o outro); construindo, assim uma mentalidade nova, participando e valorizando o público, como também prezando pela liberdade e autonomia do sujeito.

Imigrantes afundados no Mediterrâneo fugiam de Gaza

O barco afundado por traficantes no Mediterrâneo tinha cerca de 500 pessoas a bordo. Os poucos sobreviventes dizem que a maioria dos passageiros eram palestinos em fuga do desastre humanitário na Faixa de Gaza.

Esquerda.net

Mais de 900 imigrantes foram regatados a 12 de setembro pela patrulha costeira italiana. Foto Giuseppe Lami/EPA
"Toda a Faixa de Gaza está a falar do assunto. É uma história tão dolorosa, como se não bastasse o que aconteceu na última guerra", disse um dirigente da ONG Adamir ao jornal israelita Haaretz. A destruição de Gaza provocou a fuga de muitos palestinianos que, como um residente explicou ao EUObserver, acham que "é melhor tentar e morrer afogado no mar do que ficar em casa e ser morto pelas bombas de Israel".
A última semana foi das mais mortíferas dos últimos anos para os imigrantes que tentaram chegar à Europa atravessando o Mediterrâneo. Cerca de 700 pessoas terão morrido em dois naufrágios e um deles foi provocado pelos traficantes, que afundaram propositadamente um barco com 500 pessoas a bordo. Os poucos sobreviventes, resgatados após dois dias à deriva no mar, contaram como foram obrigados a trocar várias vezes de embarcações durante a travessia, tendo recusado o último transbordo para um barco que não tinha capacidade para tanta gente. A resposta dos traficantes foi usarem a sua embarcação para virar a dos imigrantes, na maioria palestinianos, sírios, sudaneses e egípcios, provocando a morte por afogamento a quase todos.
Os sobreviventes palestinos contaram que tiveram de pagar 2 mil dólares por cabeça numa "agência" em Gaza, tendo passado para o Egito através dos túneis de Rafah, onde eram esperados por autocarros que os levaram para esconderijos. Daí partiam para o embarque e já no mar foram obrigados a trocar de embarcação várias vezes, até que se recusaram a fazê-lo. "Depois de atingirem o nosso barco, eles ficaram à espera para terem a certeza de ia completamente ao fundo. Eles riam-se", contou um sobrevivente.
Também na semana passada, outro naufrágio, desta vez a poucos quilômetros da costa líbia, provocou a morte de mais de 160 pessoas. A Organização Internacional de Migrações estima que este ano já morreram  mais de 3000 imigrantes a tentar cruzar o Mediterrâneo, um número que quase triplica o total de mortes registadas no ano passado.

Os bancos privados aproveitam-se escandalosamente do monopólio do crédito ao setor público

No que diz respeito à Zona Euro, os bancos beneficiam de um privilégio: detêm o monopólio do crédito destinado ao sector público. De facto, é interdito ao BCE e aos bancos centrais que fazem parte do euro-sistema concederem crédito às administrações públicas (ver caixa sobre o BCE). Os governos da Zona Euro podem contornar parcialmente esta proibição, pedindo empréstimos aos bancos públicos (nos países em que estes ainda existam) mas até hoje sempre recusaram pôr em prática essa possibilidade.

por Eric Toussaint

Ora os bancos privados financiam-se principalmente, desde 2008, recorrendo a entidades dependentes do poder público (o BCE e os bancos centrais dos países do euro-sistema), a taxas de juro extremamente vantajosas. Desde junho de 2014, pedem empréstimos ao BCE a uma taxa de 0,15 % (quando a taxa de inflação foi em 2013 da ordem dos 0,8 % na Zona Euro, isto significa que os bancos pagam uma taxa de juro inferior à inflação, ou seja, uma taxa real de juro negativa). A 4 de setembro 2014 o BCE voltou a baixar a taxa, que é agora de 0,05 %. A seguir, esses mesmos bancos emprestam dinheiro aos países europeus da Periferia (Espanha, Itália, Portugal, Grécia, Irlanda, Chipre e aos países de Leste membros da Zona Euro), exigindo taxas de juro nitidamente mais altas, para não dizer exorbitantes (entre 3 e 7 %, no caso das taxas aplicadas em junho de 2014). Emprestam à França, à Bélgica e à Holanda a taxas ligeiramente inferiores a 2% e à Alemanha a 1,6% (taxas praticadas em junho de 2014). Em setembro-2014 os bancos emprestaram a Portugal com uma taxa de juro ligeiramente superior a 3%, quando já estavam a ter crédito do BCE a 0,05 %! Belo negócio para os bancos!

O Banco Central Europeu

Criado em 1998 com base no modelo do Bundesbank alemão e instalado em Frankfurt, na Alemanha, o Banco Central Europeu (BCE) é a instituição responsável pela aplicação da política monetária nos países que adotaram o euro como moeda comum |1| . Os bancos centrais nacionais dos países da Zona Euro transferiram para o BCE as suas competências em matéria monetária. Previsto no Tratado de Maastricht de 1992, o BCE tem como missões fundamentais, em virtude do artigo 105º, parágrafo 2º, do tratado que instituiu a Comunidade Europeia:

  • definir e pôr em prática a política monetária da Zona Euro;
  • conduzir as operações de câmbio;
  • guardar e gerir as reservas oficiais de câmbios dos países da Zona Euro;
  • promover o bom funcionamento dos sistemas de pagamento.
O seu objectivo principal, bem como o dos bancos centrais nacionais dos países da Zona Euro, é o de «manter a estabilidade dos preços» |2|, apontando para uma inflação anual de 2 %.

Proclamado como independente, o BCE é dirigido por banqueiros segundo uma pura lógica de banqueiro. Se os povos europeus exigissem democraticamente outras escolhas monetárias, o BCE poderia recusar e prosseguir os seus dogmas ao serviço dos indivíduos mais ricos e das grandes empresas. Ora esta independência não é mais do que uma hábil encenação para fazer crer que não é possível questionar as escolhas feitas pelo BCE. Na realidade, o BCE é completamente permeável às exigências das instituições financeiras no seu conjunto, bem como às dos dirigentes europeus, que organizam a submissão dos povos graças às políticas neoliberais. Embora as políticas respeitantes ao mercado de trabalho não façam parte das competências do BCE, ele intervém sistematicamente neste domínio em favor do aumento da precarização dos trabalhadores e em favor dos interesses particulares dos patrões.

Recordemos que o BCE não compra diretamente aos Estados os títulos da dívida pública, que eles emitem para se financiarem |3|. Os governos que criaram o BCE pretendiam reservar ao setor privado o monopólio do crédito em relação aos poderes públicos. Desde 2010 que o BCE compra títulos da dívida pública no mercado secundário: não os compra diretamente aos Estados, mas sim aos bancos, que os adquiriram no mercado primário e que não têm como se desembaraçar deles. Este é outro método utilizado pelo BCE para financiar os bancos. Se o BCE comprasse títulos públicos no mercado primário, forneceria diretamente os Estados de meios financeiros.

Convém também notar que o BCE apenas compra no mercado secundário os títulos de dívida pública de países que se submetem às brutais políticas de austeridade.

Os estatutos do BCE, assim como o Tratado de Lisboa, proíbem-no, assim como aos bancos centrais da União Europeia, de emprestar diretamente aos Estados. O BCE empresta, portanto, aos bancos privados, que, por seu turno, emprestam aos Estados a uma taxa mais elevada. O artigo 101º do Tratado de Maastricht, inteiramente confirmado no Tratado de Lisboa, no seu artigo 123º, acrescenta: «É proibido ao BCE e aos bancos centrais dos Estados-membros […] conceder empréstimos a descoberto ou qualquer outro tipo de crédito às instituições ou organismos da Comunidade, às administrações centrais, às autoridades regionais, ou a outras autoridades públicas.» Esta é uma das razões pelas quais é necessário anular este tratado e refundar democraticamente a UE.

Tradução: Rui Viana Pereira
Revisão: Maria da Liberdade



Notas
|1| Onze países criaram a Zona Euro* em 1999 (Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal), aos quais se juntaram a Grécia em 2001, a Eslovénia em 2007, o Chipre e Malta em 2008, a Eslováquia em 2009, a Estónia em 2011 e a Letónia em 2014. Ver: http://www.touteleurope.eu/actualite/carte-des-pays-membres-de-la-zone-euro.html

|2| Tratado sobre o funcionamento da União Europeia, artigo 282º.

|3| Desde o início da crise, a Fed comprou por mais de 2,4 biliões de dólares títulos do Tesouro norte-americano (em outubro de 2014, o volume total de títulos do Tesouro na posse da Fed atingirá 2,450 biliões), o que representa 18 % do volume total dos títulos do Tesouro em circulação. Fonte:Natixis, EcoHebdo, 25 de julho de 2014, n.° 29, http://cib.natixis.com/flushdoc.aspx?id=78192. Atenção, contrariamente a uma ideia corrente, a Fed não compra títulos do tesouro directamente, compra-os através de operações open market aos bancos privados, que as adquiriram previamente. Ver a legislação dos EUA nesta matéria: http://www.federalreserve.gov/aboutthefed/section14.htm. O mesmo acontece com o Banco de Inglaterra.

Eric Toussaint, docente na Universidade de Liège, preside ao CADTM Bélgica e é membro do conselho científico da ATTAC França. É autor dos livros Bancocratie, Aden, 2014,http://cadtm.org/Bancocratie; Procès d’un homme exemplaire, Editions Al Dante, Marselha, 2013;Un coup d’œil dans le rétroviseur. L’idéologie néolibérale des origines jusqu’à aujourd’hui, Le Cerisier, Mons, 2010.