"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Potências ocidentais ignoram violações da Arábia Saudita

As potências ocidentais mantêm o apoio político e militar à Arábia Saudita, um dos seus maiores aliados no Médio Oriente, apesar de uma coligação de países liderados pelo reino saudita ser acusada de lançar bombas de fragmentação, que são proibidas, sobre objetivos civis no vizinho Iémen. Por Thalif Deen, da IPS.

O falecido rei Abdalá (esquerda) e seu irmão mais novo, Salmão bin Abdulaziz, o monarca da Arábia Saudita
A coligação também teria destruído hospitais em território iemenita com armas fornecidas, na sua maior parte, por Estados Unidos, França e Grã-Bretanha.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos destacou que, somente em dezembro, o conflito armado no Iémen custou a vida de 81 civis e causou ferimentos em 109. As autoridades calculam que mais de 2.800 civis morreram e 5.300 ficaram feridos devido às hostilidades entre os dias 26 de março e 31 de dezembro.
Embora as potências ocidentais tenham condenado e sancionado outros países acusados de massacres civis, não tomaram nenhuma medida contra a Arábia Saudita e os seus sócios da coligação, entre eles Bahrein, Egito, Emiratos Árabes Unidos, Jordânia, Marrocos, Sudão, Kuwait e Qatar.
A Arábia Saudita constitui um mercado de milhares de milhões de dólares para os vendedores de armas britânicos, norte-americanos e franceses, que fornecem ao país aviões de caça, helicópteros, mísseis, carros de combate e sistemas bélicos eletrónicos de avançada tecnologia.
De procedência norte-americana, o arsenal saudita inclui caças Boeing F-15, helicópteros Bell, Apache e Sikorsky, sistemas aerotransportados de advertência Boeing E-3A, mísseis Sidewinder, Sparrow e Stinger, e tanques Abrams e M60.O país também conta com helicópteros Aerospatiale, Puma e Dauphin, e aviões de combate Tornado, produzidos por França e Grã-Bretanha, respetivamente.
Natalie J. Goldring, investigadora em estudos de segurança da Universidade de Georgetown, com sede em Washington, assegurou à IPS que o governo dos Estados Unidos há anos documenta os abusos de direitos humanos cometidos pela Arábia Saudita. “Mas os Estados Unidos continuam a fornecer ao governo saudita uma linha de armamentos em grande parte ilimitada. É hora de agir segundo o Tratado sobre Comércio de Armas e as suas próprias leis e suspender a transferência de armas para a Arábia Saudita”, destacou.
A avidez por lucro dos fabricantes de armas norte-americanos não deve conduzir a política militar e externa de Washington, pontuou Goldring. “Os riscos para o pessoal militar e para os interesses dos Estados Unidos deveriam ter muito mais peso na tomada de decisões”, ressaltou.
O último número da revista Time assegura que a Arábia Saudita gasta relativamente mais com defesa do que qualquer outro país, com 11% de seu produto interno bruto, em comparação com os 3,5% dos Estados Unidos. “Queima 6 mil milhões de dólares por mês para bombardear o Iémen, uma guerra desaconselhável que chegou a definir a abrupta mudança por parte do rei Salmán (bin Abdulaziz) desde que assumiu o trono”, em janeiro de 2015, afirmou a revista.
Mas é provável que esse gasto militar diminua no futuro, devido à forte queda nos preços do petróleo – a principal exportação da Arábia Saudita –, que na semana passada caíram para menos de 30 dólares o barril, contra os 110 dólares do início de 2014.
Segundo o Instituto Internacional de Estocolmo de Investigações para a Paz, no período 2010-2014, Estados Unidos e Grã-Bretanha foram os principais fornecedores de armas para a Arábia Saudita. Os britânicos responderam por 36% das entregas de armas ao reino saudita, contra 35% por parte dos norte-americanos. A França ficou com 6%, num distante terceiro lugar.
Num artigo publicado pela revista norte-americana Counter Punch, em novembro, William D. Hartung, do Centro para a Política Internacional, afirma que o recente aumento nas transferências de armas dos Estados Unidos para o Médio Oriente faz parte de um auge sem precedentes na venda de armas que se produziu durante a presidência de Barack Obama.
“A maior parte das vendas de armas pela administração Obama foi parar ao Médio Oriente e ao Golfo Pérsico, e a Arábia Saudita encabeça a lista com mais de 49 mil milhões de dólares em contratos novos”, diz o artigo. “Isso é particularmente preocupante devido à complexa série de conflitos existentes na região e pelo uso que o regime saudita dá às armas fornecidas pelos Estados Unidos na sua intervenção militar no Iémen”, acrescenta Hartung.
A administração Obama fez da venda de armas uma ferramenta central da sua política externa, em parte como forma de exercer influência militar sem precisar colocar “as botas no terreno” em grande quantidade, como fez o governo de George W. Bush (2001-2009) no Iraque, com consequências desastrosas, acrescentou o especialista.
Segundo Hartung, “as vendas para o exterior não só reforçam os lucros das empresas, como também ajudam a manter abertas as linhas de produção que, de outra forma, teriam que fechar devido à redução nos pedidos do Pentágono”.Por exemplo, nos primeiros dias do ano,foi divulgado que a Boeing venderia 40 caças F-18 ao Kuwait, o que estenderá a vida de produção desse produto em particular por um ano ou mais além da sua data atual de finalização, prevista para o começo de 2017.
Do mesmo modo, o tanque M-1 da General Dynamics sobrevive graças a uma combinação de complementos do Congresso norte-americano e um contrato com a Arábia Saudita.“Mas não se trata apenas de dinheiro. As armas fornecidas pelos Estados Unidos avivam o conflito na região. As vendas recentes mais preocupantes referem-se a um acordo que fornecerá mais de mil milhões em bombas e mísseis à força aérea saudita, novamente para seu uso na guerra no Iémen”, denunciou Hartung.
Artigo de Thalif Deen, da IPS.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

OMS alerta que El Niño ameaça 60 milhões em países em desenvolvimento

Agência da ONU prevê um aumento das emergências de saúde por causa do fenômeno climático; relatório diz que secas, enchentes, fortes chuvas e temperaturas altas podem causar insegurança alimentar, desnutrição e doenças; Brasil vai sofrer com chuvas acima da média no sul do país.
Uma seca severa e falta d'água estão afetando vários países em África. Foto: ONU/Tobin Jones
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
A Organização Mundial da Saúde alertou que o El Niño ameaça pelo menos 60 milhões de pessoas que vivem em países em desenvolvimento considerados de alto risco.
Em relatório divulgado esta sexta-feira em Genebra, a OMS e parceiros preveem um aumento das emergências de saúde neste ano em consequência do fenômeno climático.
Brasil
Segundo a agência da ONU, no primeiro trimestre de 2016, o Brasil vai registrar um aumento acima da média das chuvas, principalmente no sul do país.
O relatório cita que pelo menos 12 cidades brasileiras já ficaram inundadas por causa das enchentes e 8 mil pessoas foram retiradas dessas áreas. A OMS diz que a situação na região sul deve durar até maio e com isso pode haver um aumento nos casos de dengue, chikungunya, zika e malária.
A organização afirma que outras doenças também podem surgir por causa das enchentes, como por exemplo, diarreia, colera, tifo e infecções respiratórias.
Os especialistas alertaram também para casos de intoxicação alimentar como a salmonelose, causada pela bactéria salmonela.
A OMS informou que, em dezembro do ano passado, o governo brasileiro disponibilizou US$ 1,8 milhão, equivalente a R$ 7,4 milhões, em ajuda para as áreas atingidas pelas cheias.
Enchentes e Doenças
Além do Brasil, o El Niño está causando fortes chuvas em vários países da América do Sul. No Paraguai, por exemplo, mais de 100 mil pessoas foram retiradas de suas casas por causa das enchentes.
Peru, Equador e Bolívia também registraram uma alta no surgimento de doenças transmitidas por mosquitos.
Uma seca severa e falta d'água estão afetando quase 40 milhões de pessoas na África, América Central e região do Pacífico.
A agência da ONU afirmou que os países devem adotar medidas para prevenir ou reduzir os efeitos de saúde causados pelo El Niño, incluindo vigilância e controle de transmissão de doenças através de campanhas de vacinação.
Os governos e autoridades devem mobilizar as comunidades para que promovam práticas saudáveis de higiene, devem melhorar os serviços de água e saneamento básico, de cuidados médicos e devem manter livre acesso aos serviços de saúde.
Segundo a OMS, é necessário também que os países tenham uma coordenação eficaz das medidas de preparação e resposta.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Qual é o limite para o dólar em 2016?


por Wagner Torres

O brasileiro está assustado com o dólar batendo R$ 4,17 e qual a razão para essa trajetória de deterioração do real ante o dólar quando verificamos que em 2011 era R$ 1,60. E qual a análise mais profunda que temos de fazer?

Wagner TorresPrimeiro, que o dólar a R$ 4,00 em 2002 tinha muito mais peso do que atualmente quando consideramos a dinâmica inflacionária de 2002 a 2015. Segundo, que o dólar a R$ 4,00 em 2002 foi resultado do risco Lula e que com a combinação do boom das comodities resultado do peso da política chinesa e com o tsunami monetário liderado pelo Banco Central americano resultaram na entrada de bilhões de dólares e o reflexo foi a sobre apreciação excessiva do real ante ao dólar refletindo na farra das remessas do lucro ao exterior e na armadilha do alto endividamento externo.

Terceiro, o reflexo da deterioração expressiva do real ante ao dólar de 2016 ante 2011 é resultado do populismo fiscal do governo Dilma e da atuação do Banco em brincar com o câmbio com operação de swaps cambiais.

Nesse contexto, a atuação em conjunto do Tesouro Nacional e do Banco Central resultou na armadilha do alto endividamento externo refletindo na deterioração da base tributária do IRPJ efeito despesa de variação cambial e ampliou ainda mais o cenário de abismo fiscal dos Estados e principalmente do Estado do Rio de Janeiro.

Destaca-se,ainda, que a atuação incompetente do Banco Central resultará no empobrecimento em US 1 trilhão de 2016 ante 2011 efeito do atual cenário de dominância fiscal e que o papel de controlar a inflação está sendo feito pela marolinha do crédito, pois se estima uma despesa de juros de R$ 700 bilhões em 2016 contribuindo para o baixo consumo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Piketty: O capital e a desigualdade na Índia


Thomas Piketty
Embora as dúvidas se acumulam na China e no seu sistema financeiro, os olhos se voltam cada vez mais para a Índia para puxar a economia global nos próximos anos e nas próximas décadas. O crescimento deverá ser quase 8% em 2016-2017, como em 2015, contra 6% para a China. A Índia certamente a partir daí, com um poder de compra médio de cerca de 300 euros por mês per capita (contra 700 euros na China e 2000 euros na União Europeia). Resta que este ritmo, recuperar o atraso em Europa poderia ser feito em menos de trinta anos (contra quinze anos para a China).
Acrescentemos que conta a demografia para a Índia: de acordo com a ONU, a população indiana deverá ultrapassar significativamente a da China (que já está em envelhecimento e declínio) em 2025. A Índia está prestes a se tornar a primeira potência em população mundial no século XXI , e talvez também a primeira em energia. Especialmente desde que o país conta com fortes instituições democráticas e eleitorais, a liberdade de imprensa e o Estado de direito. O contraste é impressionante com a China, que acaba de expulsar um jornalista francês (sem a França e a Europa fazer queixas), cujo modelo político autoritário também parece impenetrável e imprevisível na sua evolução ao longo do tempo.
Os desafios para a Índia, no entanto, são enormes, começando com a desigualdade. Grande dificuldade era encontrar os números do crescimento em pesquisas ao consumo das famílias indianas, provavelmente porque uma parcela desproporcional de enriquecimento é capturado por uma elite fina mal coberta pelos investigadores. O governo indiano tem atrapalhado o acesso a dados fiscais sobre o rendimento no início de 2000 (A China de fato nunca publicou, ao mesmo tempo conseguiu mobilizar receitas fiscais bem acima), é difícil decidir com precisão.
O que é certo é que o investimento público na educação e na saúde continuam a ser claramente insuficientes na Índia e mina o seu modelo de desenvolvimento. Exemplo emblemático: o sistema de saúde pública pobre, com apenas 0,5% do PIB, contra quase 3% na China. A verdade é que até agora o Partido Comunista Chinês (PCC) tem sido muito mais eficiente do que as elites democráticas e parlamentares indianas em mobilizar recursos significativos para financiar estratégia de investimento social e os serviços públicos. No entanto, apenas tal política pode permitir que toda a população se beneficie do crescimento e do desenvolvimento sustentável do país. A opacidade e o autoritarismo do modelo chinês condenam sem dúvida, eventualmente, se ele não se abrir. Mas o modelo democrático indiano ainda precisa provar sua valia, de preferência, sem atravessar crises e choques que as elites ocidentais têm vindo a impor ao longo do Século XX as reformas sociais e fiscais necessárias.
O desafio mais significativo, muitas vezes incompreendido no ocidente, está ligado à herança do sistema de castas, além do risco de confrontos de identidade entre a maioria hindu e a minoria muçulmana (14% da população, 180 milhões pessoas para 1,3 bilhões de pessoas) atualmente alimentados pelo partido nacionalista hindu, Bharatiya Janata Party (BJP, no poder 1998-2004 e novamente desde 2014).
Vamos resumir. Em 1947, a Índia aboliu formalmente o sistema de castas, em particular termina o censo de castas conduzido pelo colonizador britânico, acusado de tentar dividir a Índia e endurecer suas classes, a fim de dominar e controlar o país. No entanto, o Governo está a desenvolver um sistema de admissão preferencial em universidades e repartições públicas para crianças a partir de castas mais baixas (SC/ST, "Castas/Tribos", ex-discriminados intocáveis, quase 30% da população). Mas essas políticas estão causando frustração crescente entre crianças de castas intermediárias (OBC, "Outras classes atrasadas", cerca de 40% da população), presos entre as mais desfavorecidas e as mais altas castas. Desde a década de 1980, vários Estados indianos estendem admissões de políticas preferenciais para estes novos grupos (que podem incidir muçulmanos, excluídos do sistema inicial). Conflitos sobre estes dispositivos são ainda mais vivos do que as antigas fronteiras entre castas, são porosas e nem sempre correspondem às hierarquias de renda e ativos, longe disso. O governo federal finalmente resolveu esclarecer essas relações complexas, organizando em 2011 um censo de castas sócio-econômico (o primeiro desde 1931).
O assunto é explosivo e ainda aguarda publicação integral dos resultados. Finalmente, o objetivo é transformar gradualmente estas regras de política de admissão preferencial com base em critérios sociais universais como renda e território parental, como ao programa de acesso a escolas de ensino médio ou no topo (ou determinados auxílios às empresas), que na França timidamente começam a dar pontos extras para alunos bolsistas ou os de empresas ou áreas desfavorecidas.
De alguma forma, a Índia simplesmente tenta lidar com os meios de o Estado de direito contestar a igualdade substantiva, numa situação em que a desigualdade de estatutos resultado da velha sociedade e discriminação passada é particularmente extrema e ameaça se transformar a qualquer momento por tensões violentas. Apesar de que seria errado imaginar que estes desafios não nos dizem respeito.
Coluna publicada no jornal Le Monde, em 17-18 de janeiro 2016 sob o título "O difícil desafio indiano" (online e papel)

Piketty: 2007-2015: uma longa recessão

Thomas Piketty em seu Blog no jornal francês Le Monde
Neste início de ano de 2016, é útil fazer um balanço da situação econômica na Zona do euro, com base nos dados mais recentes publicados pelo Eurostat. Isso também irá responder muitas perguntas feitas pelos usuários, como resultado da minha coluna "Change Europa."
Primeiro comparemos a situação dos países da Zona do euro, no seu conjunto, com os Estados Unidos.
F0
Nós primeiro descobrimos que a "Grande Recessão" de 2007-2009, inicialmente causada pela crise subprime dos Estados Unidos e pela falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, tinha aproximadamente a mesma extensão na Europa e nos Estados Unidos. Em ambos os lados do Atlântico, o nível de atividade econômica caiu cerca de 5% entre o final de 2007 e início de 2009, tornando-se a pior recessão global desde a Grande Depressão da década de 1930.
A recuperação começou em 2009, e o nível de atividade encontrada no final de 2010 e início de 2011, estava quase no mesmo nível do final de 2007. Foi então que ocorre em 2011-2013 uma nova recaída de atividade na Zona do euro, à medida que a recuperação continua lentamente nos Estados Unidos. O crescimento, eventualmente, volta timidamente  no início de 2013 na Europa, mas o estrago está feito: no final de 2015, o PIB na Zona do euro não excedeu seu nível do final de 2007, em seguida, os Estados Unidos experimentaram um crescimento acumulado de mais de 10% entre 2007 e 2015. Com o crescimento da população, lento, mas positivo, nomeadamente na França, não há dúvida de que o nível do PIB per capita Zona Euro em 2016-2017 será menor do que era em 2007. Uma década perdida de alguma forma: o maior desde a Segunda Guerra Mundial.
As razões para a recaída europeia de 2011-2013 são agora bem conhecidas: enquanto os Estados Unidos tem mostrado uma flexibilidade fiscal relativa e mantido o foco no crescimento, os países da Zona do euro têm tentado reduzir déficits muito rápido em 2011-2013, com aumentos particularmente onerosos impostos na França, o que levou a quebrar a recuperação e o aumento do desemprego e, finalmente, o aumento dos défices e da dívida pública que eles alegaram querer reduzir.
Por que os próprios europeus se descoordenaram, transformando uma crise que se avizinha no setor financeiro privado dos EUA em uma crise da dívida pública europeia sustentável? Provavelmente porque as instituições da Zona do euro não foram projetadas para lidar com uma tempestade. A moeda única com 19 diferentes dívidas públicas, taxas de juros em 19 mercados que podem especular livremente, 19 impostos corporativos na concorrência desenfreada entre si, sem base social e educativa comum, não pode andar. Provavelmente também principalmente por causa do aumento do egoísmo nacional que impediu os europeus de se adaptar as suas instituições e políticas. Especificamente, quando os mercados financeiros começaram a especular sobre a dívida dos países do sul da Europa a partir de 2010-2011, a Alemanha e a França, pelo contrário, beneficiaram-se de taxas de juros historicamente baixas, e lavaram as mãos e os países do sul da zona afundaram na recessão.

A partir deste ponto de vista, o gráfico seguinte é instrutivo:
F1
Note-se que a média da Zona do euro esconde realidades muito diferentes entre os países da zona euro. Enquanto a Alemanha e a França são relativamente melhor fora (embora com um crescimento significativo que fica atrás os EUA), a austeridade, a explosão das taxas de juros e a crise de confiança no setor financeiro causou estragos na Itália, Espanha e Portugal.
O caso mais extremo é, naturalmente, o da Grécia, o nível de atividade econômica ainda é um quarto mais fraco do que era em 2007:
F2
O que fazer hoje? Não vou repetir aqui os argumentos que usei em "Alterar a Europa ": Conferência dos países da área do euro para decidir sobre uma moratória sobre reembolsos e um processo de reestruturação da dívida (como tinha na Europa na década de 1950, o que beneficiou em particular a Alemanha); renegociação do tratado fiscal de 2012 para finalmente trazê-los a democracia e a justiça fiscal. O que é certo, e que esses poucos gráficos ilustram muito claramente é que não faz sentido pedir aos países cujo nível de atividade é de 10% ou 20% menor do que era 10 anos superávits primários de 3% ou 4% do PIB. No entanto, esta é que as instituições da área do euro, impulsionadas pela Alemanha e França, continuam a pedir a Grécia, Portugal e toda a Europa do Sul (como foi infelizmente confirmado durante a cúpula desastrosa da UE em 4 de Julho, empurrar ainda mais a questão única da reestruturação da dívida, que manteve metas irrealistas de excedentes orçamentais, tudo em decretar uma venda maciça de ativos estatais gregos, necessariamente, a preços de barganha no contexto atual). A prioridade hoje deve ser, em vez de uma moratória sobre a dívida como o nível de atividade e emprego não voltou para o nível correto. Se somarmos a isso que nós poderíamos usar para mobilizar todos, incluindo o sul da Europa, para mostrar negócio unido e cooperativo com a crise de refugiados, enquanto a atual estratégia europeia verdadeiramente se enquadra no suicídio e irracionalidade coletiva.

Colaboração saudita-iraniana: uma história esquecida


por Immanuel Wallerstein

Foto: Irã News
Em 2 de janeiro de 2016 o governo sunita do Reino da Arábia Saudita (KSA) executou o líder imam da comunidade xiita em KSA. O governo xiita do Irã denunciou esta execução, assim como os governos em todo o mundo, e afirmou que haveria consequências. Desde aquela época, a retórica tem continuado a crescer, e os políticos mundiais e a mídia têm falado de uma possível guerra direta entre Arábia Saudita e Irã. Quase todo mundo tende a representar essa tensão como baseada na clivagem religiosa entre sunitas e xiitas que se diz ter raízes muito longas no passado, e define a situação atual com base na clivagem religiosa entre sunitas e xiitas.

Embora ambos os lados pareçam puxar para trás antes de um confronto militar direto, não a guerra na Síria e no Iêmen, que é realizada por grupos dito ser proxies para os sauditas e iranianos. Aqueles que lutam em cena na Síria e Iêmen não parecem estar incentivando ninguém a agir como mediadores quase-neutros. Os grupos na Síria e Iêmen são tão profundamente desconfiados uns dos outros que eles parecem considerar a mediação como inviável. Isto torna extremamente difícil, se não impossível, dar prioridade a qualquer estratégia que combata eficazmente a força ainda generalizada do Estado islâmico, que os Estados Unidos (e outros) têm proclamado como prioridade número um.

Nossas memórias tendem a ser tão curtas que nos esquecemos completamente que a Arábia Saudita sunita e o xiita Irã já foram próximos colaboradores geopolíticos. Não foi há muito tempo.

Não precisamos voltar para a criação do Reino da Arábia Saudita em 1932, quando o Irã deu ao novo Estado o reconhecimento diplomático fundamental, levando à aceitação generalizada da Arábia Saudita na comunidade de Estados soberanos. O período mais interessante é o da década de 1960. Quando distribuidores de petróleo do mundo de repente reduziram unilateralmente os preços que eles estavam prontos para pagar do petróleo bruto, o governo da Venezuela (pré-Chavez) sugeriu ao governo do Irã (pré-aiatolá que eles se reunissem, convidando também o Iraque, o Kuwait e a Arábia Saudita, para ver se não encontrariam algumas medidas para combater este ataque à sua renda nacional. Eles foram muito irritados e culparam tanto os grandes bancos e distribuidoras de petróleo (os chamados Sete Irmãs) e o governo dos EUA, que  viam como apoiador dos bancos, se não realmente instigante de suas decisões.

A reunião teve lugar em Viena entre 10 e 14 de setembro de 1960. Os cinco estados fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Eles convidaram outros estados para se juntar a OPEP. Com o tempo, outros fizeram: Argélia, Angola, Equador, Indonésia, Líbia, Nigéria, Catar, Emirados Árabes Unidos, e o Gabão (que mais tarde retirou-se).

No início, a OPEP foi apenas um locus para discussão e troca de informações. Quando, porém, Israel derrotou um número de estados árabes na chamada Guerra do Yom Kippur, em 1973, com o apoio crucial e ostensivo dos Estados Unidos, a OPEP declarou um boicote mundial de petróleo. Foi proposto pela Arábia Saudita e o Irã. A ideia da ação militante pela OPEP havia sido proposta anteriormente pelos mais "radicais" membros da OPEP. Mas até 1973, não teve o apoio tanto da Arábia Saudita ou do Irã. Esses dois estados tinham sido considerados os estados mais próximos no momento dos Estados Unidos. Sua mudança conjunta na posição marcou um importante ponto de viragem na história da OPEP.

Mas observe o fato central de geopolítica. Arábia Saudita e Irã estavam colaborando diretamente. Não se falava da rivalidade milenar entre sunitas e xiitas. Em vez disso, eles estavam colaborando. E funcionou. Seguiu-se um grande aumento do preço mundial do petróleo, que beneficiou tanto a Arábia Saudita quanto o Irã.

Em 1974, a reunião dos ministros do petróleo da OPEP em Viena foi invadido por adeptos de movimentos palestinos liderados por "Carlos, o Chacal." Ele ameaçou atirar em muitos, especialmente no ministro do Petróleo iraniano. A história de como os reféns foram liberados e, finalmente, por que preço nunca foi muito claro. Há, porém, um detalhe crucial. Alguém pagou o resgate do ministro do Petróleo iraniano. Os analistas passaram a acreditar que o governo saudita fez isso em nome do seu colega iraniano. Comportamento estranho se alguém acredita que os dois governos foram motivados apenas pela discórdia religiosa.

Um momento curioso final. Em março de 2007, houve uma reunião da Organização de Cooperação Islâmica, em Riad, Arábia Saudita. O governo KSA explicitamente convidou o Irã para enviar alguém para participar. O então presidente Ahmadinejad do Irã, considerado na época o líder iraniano mais vocalmente e incondicionalmente opositor a quaisquer ligações com o mundo ocidental, aceitou o convite. Ele foi recebido no aeroporto pelo rei Abdullah, da Arábia Saudita, um grande gesto. Abdullah saudou a chegada de "nações fraternas." A reunião deu em nada, mas mais uma vez indicou que as relações geopolíticas não eram regidas exclusivamente por critérios religiosos.

Por que a OPEP foi capaz de alcançar o boicote e a subida global dos preços do petróleo em 1973 e novamente em 1979? O que era diferente, em seguida, a partir de hoje no Oriente Médio? Duas coisas principalmente. Os Estados Unidos ainda era, em 1973, o que não é mais em 2016, a nação decisiva e geopoliticamente. No final, todos tinham que acomodar aos desejos dos Estados Unidos, mais ou menos.

Por outro lado, o poder geopolíticos dos EUA trouxe consigo pressões. Quando se deu o seu aval aos israelenses na Guerra do Yom Kippur, foi necessário imediatamente equilibrar isso com um gesto em outra direção para apaziguar, pelo menos, a Arábia Saudita, um aliado crucial. Há muitas pessoas que pensam que os Estados Unidos realmente deram o sinal verde para a Arábia Saudita e o Irã para lançar o boicote. Além de apaziguá-los,  tinha a vantagem econômica para os Estados Unidos de fortalecer sua mão na competição trilateral entre Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

Onde estamos, então hoje? Arábia Saudita e Irã têm colaborado estreitamente no passado. Não é de todo inconcebível que eles possam fazê-lo novamente em um futuro relativamente próximo. A turbulência geopolítica é muito grande, e nenhum analista deve eliminar qualquer possível mudança. Na geopolítica podem voltar a trunfar as diferenças religiosas. Isto é especialmente verdadeiro por causa do grave declínio relativo da influência dos EUA na região.

OIT alerta que desemprego atingiu 197,1 milhões em 2015

Relatório divulgado pela agência da ONU mostra que economia global está mostrando novos sinais de fraqueza; documento afirma que Brasil e Rússia entraram em período de recessão.
Relatório da OIT, mostra que o desemprego global atingiu 197,1 milhões no ano passado. Foto: Banco Mundial/Dominic Chavez
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
O relatório Perspectiva Mundial de Empregos 2016, lançado esta terça-feira pela Organização Internacional do Trabalho, OIT, mostra que o desemprego global atingiu 197,1 milhões no ano passado.
O resultado revela um aumento de mais de 1 milhão em relação a 2014 e mais de 27 milhões acima do nível registrado antes do início da crise financeira mundial, em 2008.
Enfraquecimento
Os especialistas da OIT afirmam que a economia global está mostrando novos sinais de enfraquecimento. Calcula-se que o crescimento econômico mundial tenha chegado a 3,1% em 2015, mais de meio ponto percentual abaixo da previsão feita um ano antes.
O diretor adjunto do escritório da OIT em Nova York, Vinícius Pinheiro, falou sobre o relatório em entrevista à Rádio ONU.
"A economia mundial está mostrando sinais de fragilidade em relação ao crescimento econômico. Isso gera impactos negativos sobre os níveis de emprego. Ainda não recuperamos o nível de emprego que tínhamos antes da crise econômica de 2007-2008. A deterioração dos indicadores econômicos tem sido influenciada, principalmente, pela má performance econômica dos países emergentes. A economia chinesa que antes era a locomotiva do crescimento mundial está perdendo fôlego, isso gera um forte impacto nas economias dos exportadores de commodities, inclusive o Brasil."
A OIT prevê que o crescimento da economia mundial pelos próximos dois anos não deve passar de 3%. Segundo o documento, a desaceleração global tem como causa problemas nos países emergentes e em desenvolvimento.
Brasil
Vinícius Pinheiro deu mais detalhes sobre a situação do Brasil.
"E para o Brasil, infelizmente, as estimativas anuais de desemprego (mostram) um aumento de 6,8% em 2014 para 7,2% em 2015. E um aumento ainda para 7,7% em 2016. Para 2017, (o relatório) prevê uma leve melhora que seria em torno de 7,6%. Então é uma situação de deterioração dos indicadores de desemprego. Níveis de informalidade altos, cerca de 36,4%, mas ainda persistentes e baixa produtividade."
Segundo a OIT, os empregos de baixa qualidade continuam sendo um problema mundial. Os chamados "trabalhos vulneráveis" correspondem a 1,5 bilhão de pessoas, mais de 46% dos empregos globais. Os índices são maiores na sul da Ásia e na região Subsaariana da África, onde 70% dos trabalhadores estão nessa situação.
As mulheres correm um risco de até 35% mais alto do que os homens de trabalharem em empregos vulneráveis em alguns países da África e do Oriente Médio.
Futuro
O relatório mostra ainda que a previsão para o futuro não é boa. Segundo a OIT, mais 3,4 milhões de pessoas vão perder o emprego nos próximos dois anos.
As economias emergentes, como o Brasil, devem registrar 2,4 milhões de desempregos neste ano. Nos países avançados, o índice de desempregados deve diminuir lentamente.
A agência da ONU mostra preocupação quanto à expansão da classe média global, que passou de 36% em 2011 para 40% em 2015. A previsão é que essa tendência de aumento seja reduzida ou até mesmo acabe. Por isso, o relatório aponta para o risco de manifestações sociais.
A desaceleração da economia global também prejudica os esforços para reduzir o número de pessoas que vivem na pobreza.
Segundo o relatório, em 2015, 327 milhões de pessoas com emprego viviam na extrema pobreza, quer dizer, com menos de US$ 1,90 por dia. Aproximadamente 967 milhões viviam em situação moderada ou perto do índice de pobreza.
Esses resultados mostram um grande avanço em relação ao ano 2000, mas se comparados aos índices de 2013, foram bem mais limitados.

China cai para menor nível em 25 anos... e não só o PIB

por Marco Antonio Moreno
Resultado de imagem para chinese flagE tornou-se oficial: a economia da China cresceu em seu ritmo mais lento em 25 anos de acordo com dados divulgados nesta terça-feira pelo Serviço de Estatística de Beijing. Isso aumenta a pressão para lidar com os temores de uma recessão prolongada e obriga colocar muitas salvaguardas para aliviar o medo que afeta os mercados globais.
A china pode muito bem ser a terceira onda da crise pelo alto endividamento privado enfrentado pelo gigante asiático desde 2009. O sistema bancário paralelo tem crescido em níveis exponenciais e mais de 6000 bancos subterrâneos (que não existiam em 2008 ) pode causar novo tsunami financeiro global.
Segundo dados oficiais, o crescimento anual de 6,9% ficou ligeiramente abaixo das expectativas do governo fixado em 7%. Nos últimos três meses do ano o crescimento do PIB foi de 6,8%, um décimo a menos dos três meses anteriores e dois décimos menos do que o primeiro e segundo trimestres. No entanto, o PIB nominal foi abaixo de 6 por cento e foi o mais lento dos últimos 30 anos. 

Pode parecer curioso que o PIB nominal seja inferior ao PIB reaç, quando normalmente é o oposto. Mas há uma razão: a dívida tem crescido ao dobro da taxa de crescimento do PIB, enquanto a inflação oficial foi negativa, isto faz com que o deflator seja maior. Portanto, a maior parte dos novos empréstimos não são direcionados para estimular a economia, mas para pagar empréstimos antigos. É o círculo vicioso da dívida que entrou a China, e que, como todos os vícios, é difícil sair. O fato de que o PIB nominal é menor do que o PIB real indica a aceleração dos preços negativos. Há deflação por um tempo.

Este é o terceiro trimestre consecutivo em que o deflator de preços é negativo na China.O estouro da bolha imobiliária tem arrastado todos os setores, criando uma crise se sobreprodução que atinge a indústria e os serviços. A queda do deflator nos últimos quatro anos pode estar camuflando o crescimento real da China: em torno de zero por cento, como mostra este gráfico do The Wall Street Journal. Para alguns há muito nervosismo nos mercados.
Chinaslouching
Sem embargo, quando olhamos para o aumento da dívida privada no período 2009-2014 ficamos chocados e com razão:
China Privada Aumento de Crédito
China e Hong Kong são os países com o maior aumento na dívida privada nos últimos sete anos. Em níveis de 80 e 100 por cento do PIB.
Com a queda dos preços e a estagnação econômica são os países mais endividados que mais sofrem com as crises financeiras, como demonstrado pela Europa e pelos Estados Unidos em 2008. Agora, sete anos depois, estamos enfrentando o terceira tsunami da crise e, desta vez diretamente da China. Deixo aos leitores as suposições sobre o que pode acontecer.