"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 25 de junho de 2016

Livro de Isa Colli é lançado na Europa


Trata-se, sem dúvida, de mais uma contribuição valiosa à história do povo brasileiro e, como tal, digna de ser publicada. Capixaba de Presidente Kennedy, filha de pais simples, foi alfabetizada muito cedo. Canceriana nascida em 1968, viveu parte da sua vida em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, terra conhecida como celeiro de renomados artistas nacionais e internacionais. Quando criança sonhava em ser médica, porém, com o passar do tempo, percebeu, que gostava mesmo era de ler e escrever.

Sempre viajando nos livros, só se lembrava que as tarefas domésticas estavam por fazer, quando a sua mãe aparecia de sinto em punho. Exerceu várias profissões antes de se dedicar a escrita. Foi cabeleireira, maquiadora, estudou moda, e por fim, formou-se em jornalismo, exercendo a profissão por apenas 6 anos. Escreveu muitas trovas, poemas e contos infantis ao longo da sua vida. Migrou para o Rio de Janeiro por volta de 1999 e, ali, inicialmente morou no bairro de Fátima – Centro. Trabalhou em vários veículos de comunicação, cariocas e paulistas.

Estamos a falar de Isa Colli, uma mulher simples, que nasceu na pobreza e depois de uma árdua, mas bem-sucedida trajetória, foi acometida por uma grave doença que a fez abandonar o trabalho e a muitos anos, luta diariamente pela vida.

Residente na Bélgica, atualmente, ela se dedica apenas a carreira de escritora e a colorir algumas telas para se distrair.

Entre os livros que publicou, está a história de uma nuvem ambientalista, de uma árvore pedagoga, de uma fada que ensina como recuperar o planeta, de uma lagoa que fora despoluída pelos animais e dos príncipes que governam as estações do ano.

Em abril de 2016 ela nos brindou com uma bela fábula sobre empreendedorismo na infância. Lançado pela Chiado Editora, o lançamento do livro ‘O Pirulito das Abelhas’, teve lugar na 86° Feira do Livro de Lisboa no dia 28 de maio e foi um sucesso. Já está no forno “Felícia e a fazenda do Senhor Zicão”, “Mirela, a gatinha feliz” e o romance, “Uma segunda Chance”.

A autora é apaixonada por criar artigos educativos e os seus livros são elaborados com muita dedicação para agregar valores a vida das pessoas. Aposta todas as suas fichas na educação infantil, pois sabe que as mudanças vindouras tão necessárias para a melhoria do planeta, dependem exclusivamente deles, os nossos miúdos.

Assim é Isa Colli, uma mulher determinada, de fé, que passa parte do seu tempo entre os amigos imaginários das suas histórias, vivendo o presente sem se preocupar com o futuro. Como ela mesmo afirma, baseada em seu conhecimento pratico, vencer é uma decisão.

O Pirulito das Abelhas pode ser encontrado em quase todas as livrarias, tanto no formato e-book ou impresso. Também pode ser encontrado nas livrarias da Chiado Editora.

https://www.chiadoeditora.com/livraria/o-pirulito-das-abelhas - português
https://www.chiadoediteur.com/librairie/la-sucette-des-abeilles - francês https://www.chiadoeditora.com/livraria/the-bees-lollipop - inglês 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O impacto do Brexit

por Michael Roberts
Bem, me equivoquei. Eu pensei que o povo britânico votaria para permanecer na UE, mesmo que por pouco. Em vez disso, estreita margem votou para sair. A taxa de participação de 72% foi muito maior do que a última eleição geral de Maio de 2015 (67%), que viu o partido conservador por estreita margem retornar ao gabinete com uma pequena maioria de apenas 12 assentos em relação a outros partidos. O Primeiro-Ministro David Cameron tinha conseguido ranger até à vitória, ao concordar em convocar um referendo sobre a adesão à UE. Isso enfraqueceu suficientemente o voto florescente para a festa do partido euro-cético Independência do Reino Unido (UKIP), que tinha sido sondado por mais de 20% na UE nas eleições locais. Ao concordar com um referendo, Cameron conseguiu reduzir a representação do UKIP a apenas uma cadeira no parlamento.
Mas essa tática política fracassou. Cameron perdeu o referendo e anunciou que vai renunciar e dar lugar a um líder pró-Brexit como PM para conduzir as negociações tensas e tortuosas com os líderes da UE no Outono. Ganhar a eleição acabou por ser um cálice envenenado como sugeri.
Parece que um número suficiente de eleitores acredita que os argumentos dos pró-Brexit, Tories e UKIP, que o que estava errado com sua vida era "demasiada imigração" e "excesso de regulamentação" pela UE (embora a Grã-Bretanha já seja a economia mais desregulamentada na OCDE). Não teve nada a ver com a crise capitalista global, a que se seguiu a Longa Depressão e as políticas de austeridade do governo Conservador.
Sim, muitos eleitores não engoliram os argumentos de imigração e de regulação; mas estes foram principalmente os jovens; aqueles que viviam em áreas multi-étnicas como Londres e Manchester e as mais abastadas famílias no sul urbano. Eles não eram o suficiente em comparação com aqueles que votaram para sair. Eles eram mais velhos, viviam em pequenas vilas e cidades, principalmente no norte ou no País de Gales longe de Londres e da vista de qualquer "imigrantes", mas que sofreram o máximo de empregos de baixa remuneração, cortes do setor público e habitação e ruas principais e negligência geral.
Junto com estes foram os elementos racistas pequeno-burguês de pequenas empresas que ganham nada de trocas comerciais da UE ou da sua generosidade financeira. Eles acham que de alguma maneira um retorno aos bons velhos tempos do imperialismo britânico por si próprio ( "tomar de volta o nosso país") vai ser melhor. Só não vai porque, parece muito provável que os escoceses, tendo por estreita margem rejeitado a chamada para a sua própria independência em setembro de 2014, votou fortemente para permanecer na UE, irá agora insister em outra votação para deixar o Reino Unido e permanecer na UE como um estado independente. Voltando aos bons velhos tempos do imperialismo britânico é mais provável voltar para o tempo antes de união de 1603, quando a Inglaterra / País de Gales e Escócia tinham reis separados!
E agora? Bem, os mercados financeiros reagiram naturalmente com pânico, com o valor da libra esterlina queda em relação ao dólar para o menor nível desde 1985, no momento da (outra) crise do petróleo. Os preços das ações também caíram acentuadamente. Mas esta é apenas uma reação de choque para o inesperado. Como os mercados financeiros reagem nos próximos meses vai depender de como as negociações vão (e eles poderiam levar dois anos ou até mais!) E que acontece com a economia do Reino Unido.
Em posts anteriores, eu destaquei a visão quase unânime entre os economistas de que Brexit iria prejudicar a economia do Reino Unido, tanto no curto e longo prazo. A maioria agora acha que o Reino Unido irá cair em recessão antes do final do ano. Por quê? Afinal, com uma libra mais fraca, os exportadores britânicos serão capazes de competir em preço nos mercados mundiais e europeus. Certamente isso vai reduzir o perigosamente elevado déficit externo (agora 7% do PIB) que o capitalismo britânico foi executado com o resto do mundo? E o Banco da Inglaterra irá fornecer tanto crédito quanto os bancos e as empresas querem e pode até mesmo cortar as taxas de juros para zero para ajudar as famílias com suas hipotecas e empresas com suas dívidas.
Bem, talvez - exceto que a história tem mostrado que a desvalorização de uma moeda raramente é bem sucedida em virar o crescimento econômico, a produtividade e até mesmo o comércio de um país. Citei antes como os keynesianos estavam errados quando eles consideravam a desvalorização do peso na Argentina iria transformar essa economia em torno de 2001 - a Grande Recessão logo desenganou essa reivindicação.
E este déficit tem de ser financiado por entradas de capital - os estrangeiros que investem na indústria britânica; a compra de ações de empresas britânicas e títulos do governo; e depositar dinheiro em bancos britânicos para ganhar juros ou re-investir. Que o financiamento já tinha começado a secar com o medo de Brexit - agora o Brexit é uma realidade. A única maneira que o déficit pode ser financiado será, aumentando as taxas de juro dos depósitos, não cortando as taxas.
Mas o déficit externo pode realmente diminuir, não porque as exportações vão melhorar, mas porque as importações de bens e serviços estrangeiros vão cair. Isso porque, se a economia britânica estremece a um impasse, as empresas e as famílias vão comprar menos do exterior, particularmente quando os preços de importação vai aumentar com a queda da libra esterlina e da inflação pode voltar. Isso vai apertar os rendimentos reais na casa britânica média.
E os benefícios de uma libra mais fraca também dependem da demanda no resto do mundo. Se a Zona Euro e a economia dos EUA estão lutando, os preços mais baixos, em seguida, podem ser insuficiente para levar a grandes aumento na demanda de exportação do Reino Unido. Além disso, nos últimos anos, exportações britânicas provaram ser bastante inelásticas. (Produtos britânicos tendem a ser produtos de maior valor e de serviços - menos sensíveis à variação de preço do que as roupas fabricadas).
E aqui está o ponto real. Desvalorização realmente só afeta a demanda. O outro lado da equação é a oferta e capacidade produtiva. A desvalorização não necessariamente faz nada para promover o investimento e maior produtividade. Alguns chegam a argumentar que a desvalorização pode reduzir o incentivo para ser eficiente, porque se torna competitiva, sem o esforço de aumentar a produtividade. O que realmente importa é o que vai acontecer com o investimento empresarial e rentabilidade.
Aumento dos custos de produção de importações, a demanda mais fraca em casa e no exterior são susceptíveis de dissuadir as empresas britânicas a investir no país e estrangeiros investidores de pisar dentro. E a rentabilidade global das empresas do Reino Unido no final de 2015 ainda estava abaixo do pico de 1997, quando a rentabilidade no setor de fabricação chave para as exportações foi metade de 1997.
Se as dicas do Reino Unido em recessão, a demanda por exportações da UE (carros alemães, vinho francês, roupas italiana etc) vai enfraquecer. E assim uma recessão no Reino Unido poderia conduzir a UE volta também. E isso é em um ambiente onde o crescimento econômico global diminuiu a sua taxa mais baixa desde o fim da Grande Recessão, onde os lucros das empresas globais estão em zero e do investimento empresarial está caindo em muitas economias.
Brexit no longo prazo não pode fazer uma enorme diferença para a saúde do capitalismo britânico, mas agora poderia ajudar a acelerar uma nova recessão global. E isso teria um impacto muito maior sobre a vida daqueles que votaram em Brexit do que os problemas percebidos de "superlotação" de imigração ou regulamento a partir de Bruxelas.

Relatores para a Liberdade de Expressão alertam para interferências na EBC e na CGU


NOTA À IMPRENSA 

WASHINGTON/GENEBRA (24 de junho de 2016) - Relatores para a Liberdade de Expressão das Nações Unidas e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos manifestaram hoje sua preocupação com as medidas adotadas pelo atual Governo Federal Interino do Brasil, em relação à intervenção na direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a conversão da Controladoria Geral da União (CGU) em Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. 

“A interferência na direção da EBC e a conversão da CGU em Ministério são passos negativos para um país conhecido pelo seu sólido compromisso com a liberdade de opinião e expressão”, afirmaram o Relator Especial das Nações Unidas (ONU) sobre a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e Expressão, David Kaye, e o Relator Especial Interamericano para a Liberdade de Expressão, Edison Lanza. 

“O Brasil está passando por um período crítico e precisa garantir a preservação dos avanços que alcançou na promoção da liberdade de expressão e do acesso à informação pública ao longo das duas ultimas décadas”, disseram os Relatores. 

Em 17 de maio, o Presidente interino do Brasil substituiu o diretor da EBC, que estava apenas começando seu mandato de quatro anos. Em 2 de junho, o diretor da EBC foi reconduzido ao seu cargo por uma liminar do Supremo Tribunal Federal. Antes do seu retorno, a nova direção havia suspendido o contrato de alguns jornalistas em razão de um alegado “viés politico” contrário ao novo Governo e cancelado alguns programas de televisão. 

“Tomamos nota das preocupações expressadas pelo Governo sobre a situação econômica da EBC. Entretanto, essas preocupações não justificam interferências na administração de uma emissora pública nacional e, em particular, no seu trabalho jornalístico. Portanto, felicitamos a decisão do Ministro do STF Dias Toffoli, por reconduzir o diretor da EBC ao seu cargo”, afirmou o Relator Especial da ONU, Sr. Kaye. 

“Pelas normas internacionais, os Estados devem assegurar que os serviços públicos de radiodifusão tenham um funcionamento independente. Isso significa, fundamentalmente, garantir a sua autonomia administrativa e liberdade editorial”, continuou o Relator Especial Interamericano Edison Lanza.   

“A iniciativa de desenvolver uma emissora pública nacional alternativa com status independente foi um esforço positivo para a promoção do pluralismo na mídia brasileira; em especial, considerando-se os problemas de concentração da propriedade dos meios de comunicação no país”, afirmou o Sr. Lanza, que também manifestou preocupação com os posicionamentos recentes de algumas autoridades brasileiras, que sugeriram o fechamento da EBC. 

Os dois Relatores para a Liberdade de Expressão também chamaram atenção para a incorporação da CGU pelo recém-criado Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. 

“Nos últimos anos, os principais avanços alcançados no Brasil em termos de promoção do direito à informação se beneficiaram fortemente do trabalho da CGU”, apontou o Sr. Lanza, ao lembrar que a instituição auxiliou a promover a Lei de Acesso à Informação de 2011. 

O Sr. Lanza também apontou que “Por conta de sua ligação direta à Presidência da República, a CGU pôde oferecer uma oportunidade de recurso a todos aqueles a quem o acesso à informação havia sido negado por ministérios e outras instituições federais. É importante garantir a manutenção dessa capacidade no novo arranjo institucional”. 

“As Organizações que proporcionam o acesso à informação e promovem a prestação de contas devem ser protegidas de interferências politicas. Qualquer alteração no funcionamento da antiga CGU deveria visar torná-la mais autônoma e independente de determinações do Poder Executivo”, apontou o Sr. Kaye, que também expressou preocupação com as noticias de que o novo Ministro da Transparência sugeriu que funcionários da instituição insatisfeitos com o novo governo deixassem a organização. 

Os dois Relatores para a Liberdade de Expressão iniciaram um diálogo com o Governo brasileiro quanto à compatibilidade das medidas adotadas pelas autoridades em relação aos padrões internacionais ligados ao direito à liberdade de opinião e expressão. 

FIM 

Sr. David Kaye (EUA) foi apontado Relator Especial sobre a promoção e proteção do direito a liberdade de expressão e opnião em Agosto de 2014 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU. Veja mais aqui: http://www.ohchr.org/EN/Issues/FreedomOpinion/Pages/OpinionIndex.aspx 

Relatores especiais são parte do que é conhecido como Procedimentos Especiais do Conselho de Direitos Humanos. Procedimentos Especiais, o maior corpo de peritos independentes do sistema ONU para Direitos Humanos, é o nome dado aos mecanismos independentes para monitoramento do Conselho. Relatores especiais são especialistas em direitos humanos apontados pelo Conselho de Direitos Humanos para tratar de questões específicas de país ou temáticas em todo o mundo. Eles não são funcionários da ONU e são independentes de qualquer governo ou organização. Eles servem em capacidade individual e não recebem salário por seu trabalho.   

Sr. Edison Lanza (Uruguai) foi apontado Relator Especial para a Liberdade de Expressão em Julho de 2014 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.  A Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão foi criada pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) com o objetivo de incentivar a defesa hemisférica do direito à liberdade de pensamento e expressão, considerando seu papel fundamental na consolidação e no desenvolvimento do sistema democrático. Para mais informações, acesse:http://www.oas.org/pt/cidh/expressao/mandato/Relator.asp   

Direitos Humanos da ONU, página do país – Brasil: http://www.ohchr.org/EN/countries/LACRegion/Pages/BRIndex.aspx 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

O novo paradigma econômico para lutar contra o populismo

por Thomas Fricke

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Se as pesquisas dizem a verdade,  86 por cento dos operários austríacos votaram a favor do populista de direita Norbert Hofer  nas eleições presidenciais austríacas em maio. Nas eleições presidenciais na França Marine Le Pen teria atingido a fase final já em 2012, se tivesse sido até os trabalhadores de colarinho azul. Nos EUA, o egomaníaco Donald Trump está ganhando grande participação de votos entre os menos qualificados. E também na Alemanha muitos daqueles inclinados a favorecer os arautos de verdades simplistas tem uma experiência em comum: eles tornaram-se perdedores no processo de globalização, ou estão em risco de se tornarem perdedores, seja como trabalhadores ou membros da  classe média  de quem os rendimentos reais caíram nas últimas décadas.
Talvez essa seja precisamente a razão pela qual os partidos estabelecidos parecem ser tão letárgicos nos dias de hoje. O mais tardar desde o início da crise financeira o esplendor desapareceu a partir desta fórmula milagre da globalização, que por três décadas serviu como um princípio orientador e segundo a qual, em caso de dúvida, só se tinha a liberalizar mais e globalizar a fim de que por fim a tudo seria melhor.
Presentemente persistem dúvidas, bem como resolver os problemas com problemas, a fim de reduzir, eventualmente, alguns impactos negativos da globalização. O que está faltando é um substituto adequado para a fórmula bruta do liberalismo. Um vácuo emergiu que é ideal para os populistas que agora assustadoramente calar nada tendo a ver com o estabelecimento, que, em seguida, propor erguer paredes ou simplesmente chutar estrangeiros para fora do país. Já é hora de um novo paradigma substituindo o por demais simples dogma globalização antes que seja tarde demais.

Os Social-Democratas têm apenas repetido o paradigma

Não eram os bons velhos tempos, quando  Margaret Thatcher  e  Ronald Reagan nos mostrou o caminho - usando equações sofisticadas como   mercado = sempre bom! Governo = completamente tolo!  Por décadas, essas foram as diretivas claras: Em caso de dúvida, abolir a regulamentação e impostos mais baixos - especialmente para os ricos (então concebida como  grandes empreendedores).Os cortes nos gastos do governo são melhor realizados de acordo com o "princípio cortador de grama", porque um funcionário do governo é, por definição, incapaz de tomar tal decisão. Uma desregulamentação financeira deve ser substituída pela próxima. Os bancos devem ter livremente permissão para criar novos produtos financeiros incompreensíveis. Especular sobre quaisquer bens devem ser autorizados no mercado livre. E, claro, todas as previsões para o futuro são as melhores para ser deixadas para o cidadão individual tomar posse de sua vida. Expressando-o desta maneira soa mais suave do que chamar-lhe um desmantelamento do estado de bem-estar social.
Eventualmente, tudo isso foi repetido como pensamento moderno até mesmo por social-democratas em toda a Europa - e tornou-se a base para  cortes nos subsídios de desemprego. Ou para cortes no financiamento das instituições públicas. Primazia da economia. Como deve saber um político eleito o que é bom para nós?  As agências de rating  e os gestores de fundos fazem um trabalho melhor com isso, dizia-se. A evasão, em seguida, o imposto se tornou considerado sábio investimento em "paraísos fiscais", porque tal concorrência aumenta as pressões sobre os governos para reduzir os impostos e para agradar os mercados. Desde então, os políticos eleitos roem as unhas na expectativa de quão bem "o mercado" reage ao seu programa.

Ao Final, os Contribuintes pagam por crises financeiras

De acordo com a doutrina, a globalização deveria ter conduzido a uma maior prosperidade para todos, para os mercados financeiros mais estáveis ​​e para débitos mais gerenciáveis. Estes não são realmente os resultados que estamos enfrentando agora.
Dívidas têm subido rapidamente em todo o mundo - mesmo que seja por que cada vez que há um aumento  das existências  e dos valores financeiros, na outra extremidade alguém tem de pagar mais se o comprador revende à taxa mais elevada. Desde então, mais crises financeiras têm surgido para que o contribuinte teve de cobrir a conta. E em cidades como Londres ou Paris, nada que não seja um sheik do petróleo está cada vez mais tendo uma dificuldade para adquirir uma casa ou pagar aluguel. Muito do que os bancos fazem já não tem nada a ver com a economia real.
Devido ao dogmatismo de mercado, em quase todos os lugares a despesa pública foi cortada de forma tão extensa que durante anos tem havido queixas sobre a desintegração de pontes, ruas e sistemas de esgotos, sobre a deterioração gradual dos edifícios públicos, e cerca de uma escassez de policiais, professores e administradores.
Há uma outra, ainda mais grave, desastre. Em seu novo livro Desigualdade Global, o ex-economista do Banco Mundial Branko Milanovic escreve que a diferença de riqueza entre os países diminuiu em todo o mundo. Após uma inspeção mais próxima, no entanto, isso é verdade apenas de forma moderada, e principalmente devido aos chineses que praticam uma economia de mercado controlada de fato, juntamente com controles de capital rigorosos, o que vai contra a doutrina da salvação. Dentro dos países, Milanovic explica ainda, em quase toda parte a disparidade de riqueza ampliou de forma tão dramática que se tornou politicamente quase insustentável.
Entre 1980 e 2010, o rendimento dos empregados de tempo integral, a maioria do sexo masculino, fracassou nos EUA, escreve Prêmio Nobel Joseph Stiglitz - embora estatisticamente houve um aumento do produto interno bruto per capita de 75 por cento: O que significa que a maior parte dos norte-americanos de tem menos do que os de 30 anos atrás. Essa não era a intenção original. O mesmo é verdadeiro para o Reino Unido. E até mesmo para a Alemanha, diz o economista com sede em Berlim  Marcel Fratzscher: Entre 2000 e 2012, o rendimento disponível dos "mais pobres dez por cento encolheu enquanto os mais ricos dez por cento foram capazes de ganhar mais de 16 por cento no lucro".
Como colegas do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (Deutsches Institut für Wirtschaftsforschung (DIW) tem determinado, a proporção dos rendimentos médios na Alemanha diminuiu desde 1991 - semelhantea erosão da classe média nos EUA. E hoje existem muito mais pessoas.. trabalhadores que lutam de um emprego para o outro. o que nos leva de volta para Donald Trump, Norbert Hofer, Marine Le Pen e  Franke Petry  (o líder da direita populista da Alemanha).

Tentativas Inúteis De Curar Os Sintomas

O fato de que o princípio orientador de idade já não funcionar é aparente na realidade política. Assim se introduz um salário mínimo, como no ano passado na Alemanha, ou tentativas para restringir a exploração de leasing de trabalho, e aqui e ali introduz um novo regulamento para os bancos. O engate é que todos estes esforços se deparar com tentativas como bastante fúteis para os sintomas de cura.Além disso, eles ficam aquém de substituir o velho paradigma. Isso traz o cenário perfeito para os populistas, tornando mais fácil para eles para reclamar sobre as elites e os meios de comunicação e os políticos e todos aqueles lá em cima. Ao mesmo tempo, ele não parece particularmente plausível que os grandes problemas do mundo poderiam ser resolvidos através de erigir enormes paredes ao longo da fronteira entre os EUA eo México, ou através de proibir minaretes, ou lidar com a mudança climática, simplesmente negar que ela existe. Todo o ranting sobre benfeitores não vai trazer de volta riqueza para a classe média.
Para desfazer o dano dos 30 anos de excesso, é preciso um novo paradigma muito mais inteligente para resolver o conceito de um banais  mercados resolver todos os problemas  através de um igualmente platitudinous  o Estado resolve todos os problemas . Um novo modelo de axiomas é necessária, a partir do qual diretrizes para decisões corretas pode ser derivada - decisões para determinar quem é responsável por qual tarefa, e para onde queremos ir.
Na prática, isso pode levar a um New Deal como economista vienense Stephan Schulmeister sugerido na sequência das recentes eleições presidenciais austríacas.Um extenso programa talvez, em que o governo e os seus cidadãos desempenhar um papel muito mais criativa na luta contra as grandes crises. E em que uma reforma mais radical do mundo financeiro pode ser acoplado com um plano para usar os fundos liberados para um programa de investimento de longo prazo para o século vindouro, para restaurar os serviços urgentemente necessários e lançar esforços para salvar o clima. Despesas decorrentes desses programas poderiam, por sua vez empurrar a  atividade econômica  à frente. Um novo sistema monetário mundial também seria parte do novo paradigma. E novas diretrizes a respeito de quando a globalização faz sentido - e em que casos se deve focar melhor regulamentações regionais inteligentes e idiossincrasias. Ainda há muito trabalho pela frente.
Quem assume que isto é utópico não deve ser surpreendido quando seus filhos mais tarde perguntarem por que eles não tomam mais iniciativa para levantar-se intelectualmente contra o gosto populista de Donald Trump.
Muito possivelmente, estamos presentemente a assistir a uma corrida para encontrar novas respostas grandes em sequência do dogma ingênuo falho da globalização, sobre encontrar respostas que convencem e até mesmo conquistar os perdedores - antes de os arautos precipitados de verdade ganharem a próxima eleição. É uma corrida contra o espírito dos tempos.
Este artigo apareceu pela primeira vez no Institute for New Economic Thinking.  O original alemão apareceu na www.spiegel.de

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Uma morte anunciada no Brasil – Especialista da ONU condena assassinatos de indígenas e pede fim da violência

NOTA À IMPRENSA

GENEBRA (22 de junho de 2016) – A Relatora Especial das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas, Victoria Tauli-Corpuz, condenou hoje os ataques recentes contra a comunidade indígena Guarani-Kaiowá no Brasil. A perita instou as autoridades federais e estaduais para adotar ações urgentes para prevenir mais assassinatos, bem como investigar e responsabilizar os perpetradores. 

Em 14 de junho, o agente de saúde pública Clodiodi Achilles Rodrigues de Souza foi morto a tiros e outros seis indígenas foram baleados, incluindo uma criança de 12 anos. O ataque ocorreu no município de Caarapó, no estado do Mato Grosso do Sul, em terras ancestrais que foram recentemente reclamadas pelos Guarani-Kaiowá. 

Paramilitares agindo por instruções de fazendeiros supostamente realizaram o ataque em retaliação contra a comunidade indígena que busca o reconhecimento de suas terras ancestrais. 

“Essa foi uma morte anunciada”, ressaltou Tauli-Corpuz, quem visitou comunidades indígenas Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul em março de 2016*, e alertou publicamente sobre a alta incidência de assassinatos. “O estado é o mais violento no Brasil, com o número mais elevado e crescente de indígenas mortos”. 

“Lamento que, apesar de meus alertas anteriores, as autoridades federais e estaduais fracasaram em adotar medidas rápidas para prevenir a violência contra povos indígenas”, ela disse. “Essa falha é agravada pelos recorrentes altos índices de violência e temores expressados pela comunidade de sofrer novos ataques”. 

“Peço para que os procedimentos de demarcação sejam agilizados como uma questão prioritária, visando clarificar a titularidade de terras indígenas e prevenir uma maior escalada de violência”, comentou. “A busca por interesses econômicos de tal modo que subordinem ainda mais os direitos dos povos indígenas cria um risco potencial de efeitos etnocidas que não pode ser desconsiderado nem subestimado”. 

A Relatora Especial apresentará um relatório detalhado sobre sua visita oficial ao Brasil (7-17 de março de 2016) ao governo brasileiro e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU em setembro de 2016. 

(*) O texto completo da declaração ao final da missão encontra-se disponível em: http://www.ohchr.org/Documents/Issues/IPeoples/SR/EndMissionBrazil17Mar2016_Portuguese.doc 

FIM 

A Relatora Especial sobre os direitos dos povos indígenas, Sra.Victoria Tauli-Corpuz (Filipinas), é uma ativista de direitos humanos que trabalha com os direitos dos povos indígenas. Há mais de três décadas seu trabalho tem sido focado na criação de movimentos entre os povos indígenas e também entre as mulheres. Ela tem trabalhado como instrutora em educação em direitos humanos, desenvolvimento e povos indígenas em vários contextos. Ela é membro do povo indígena Kankana-ey, Igorot na região de Cordillera nas Filipinas. Para mais informações, consulte: http://www.ohchr.org/EN/Issues/IPeoples/SRIndigenousPeoples/Pages/SRIPeoplesIndex.aspx 

Os relatores especiais fazem parte do que se conhece como procedimentos especiais do Conselho de Direitos Humanos. Procedimentos Especiais, o maior corpo de especialistas independentes no sistema de direitos humanos das Nações Unidas, é o nome atribuído aos mecanismos de inquérito e monitoramento independentes do Conselho, que trabalha sobre situações específicas de cada país ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Os especialistas dos Procedimentos Especiais trabalham a título voluntário; eles não são funcionários da ONU e não recebem um salário pelo seu trabalho. São independentes de qualquer governo ou organização e prestam serviços em caráter individual.   

Consulte a Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas: 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Investimento Direto Estrangeiro subiu para US$ 1,7 trilhão em 2015

Relatório da Unctad mostra que resultado é o maior desde a crise, mas agência pede cautela com excesso de otimismo; no Brasil, IDE, caiu para US$ 65 bilhões, uma redução de 12%.
O Investimento Direto Estrangeiro no Brasil caiu 12% em 2015 para US$ 65 bilhões. Foto: Unctad
Edgard Júnior, da Rádio ONU em Nova York.
O relatório Investimento Mundial 2016 afirmou que o Investimento Direto Estrangeiro Global, (FDI na sigla em inglês), atingiu US$ 1,7 trilhão em 2015, um aumento de 38% em comparação ao ano anterior.
O documento, preparado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, diz que a principal razão para esse resultado foi a alta das fusões e aquisições de empresas, que subiram mais de 70%.
Brasil
De Genebra, em entrevista à Rádio ONU, o chefe da seção dos Países Menos Avançados da Unctad, Rolf Traeger, falou sobre as conclusões do relatório em relação ao Brasil.
"No caso do Brasil, o movimento do investimento direto estrangeiro refletiu dois fatores: o primeiro foi a crise econômica aguda pela qual o país passa atualmente e, em segundo, foi uma retração no setor das indústrias extrativas, ou seja, nas indústrias de commodities, sejam elas indústrias indústrias de mineração, de extração de petróleo e de gás, mas também da agricultura."
O Investimento Direto Estrangeiro no Brasil caiu 12% em 2015 para US$ 65 bilhões. Mesmo assim, o país foi o que mais recebeu na América Latina e no Caribe.
No geral, os IDEs na região latino-americana, excluindo os centros financeiros offshore no Caribe, se mantiveram estáveis no ano passado, chegando a US$ 168 bilhões.
A depreciação das moedas locais, incluindo o real, pode ajudar no processo de aquisição de bens. No primeiro trimestre deste ano, houve um aumento no setor graças às altas vendas no Brasil, no Chile e na Colômbia.
Agora, o relatório mostrou que a saída dos IDEs da América Latina e do Caribe aumentou 5% no ano passado, mas no caso específico do Brasil, a saída dos investimentos diretos cresceu 38%, um reflexo da redução dos investimentos feitos pelas filiais multinacionais em operação no território brasileiro.
Maiores Investidores
O secretário-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi declarou que os dados "dão a esperança de que os IDEs estão retornando a um caminho de crescimento sustentável", mas alertou que o mercado ainda não está "fora de perigo".
Os três maiores investidores mundiais são Estados Unidos, Japão e China. A Unctad prevê uma queda de 10% a 15% nos fluxos de investimento neste ano, refletindo a fragilidade da economia global e a persistente demanda agregada.
O relatório cita ainda o crescimento lento da economia em alguns países exportadores de commodities, como é o caso do Brasil. Além disso, riscos geopolíticos e tensões regionais podem agravar ainda mais a queda.
A médio prazo, a previsão é de que o fluxo de Investimento Direto Estrangeiro volte a crescer em 2017 até ultrapassar a marca de US$ 1,8 trilhão em 2018.

Donald Trump vs Hillary Clinton: o elefante em loja de cristais e o teto de vidro

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Donald Trump vs Hillary Clinton

Os Estados Unidos da América (EUA) são uma potência em decadência, mas ainda são uma potência e o que acontece por lá sempre tem um grande impacto no resto do mundo. A economia dos EUA representava cerca de 27% do PIB mundial em 1950, caiu para 22% em 1980 e ficou em 15,8% em 2015, segundo dados do FMI. O PIB da China (em poder de paridade de compra – ppp) representava 17% da economia global em 2015. Para 2021 as previsões do FMI são de uma participação na economia internacional de 14,6% para os EUA e de 20% para a China. A China também é a líder no comércio mundial.
Enquanto os EUA encolhem sua presença econômica na comunidade internacional, aumentam seus problemas internos como o agravamento das desigualdades sociais, o encolhimento da classe média, a deterioração da infraestrutura e o aumento da violência, como mostram os diversos casos de estupro em universidades, tiroteios, assassinatos em massa e o aumento dos fundamentalismos, da intolerância e do uso de drogas e da criminalidade em geral.
Mas mesmo sendo a segunda economia do mundo (em ppp) e um dos países desenvolvidos com menor esperança de vida ao nascer, os EUA ainda continuam sendo a primeira economia em dólares correntes e possuem a moeda mais aceita e mais influente no mundo. Assim, as eleições presidenciais americanas de 2016 vão agitar as discussões políticas globais, pois uma crise nos EUA pode comprometer a frágil situação da economia mundial. Questões como a proteção ao comércio (protecionismo), valorização do dólar, mudança na taxa de juros, os rumos dos acordos ambientais, etc., são acompanhados com interesse e preocupação nos demais países da comunidade internacional. A democracia americana, já não tem mais o mesmo vigor apontado por Alexis Tocqueville há mais de 150 anos. A aprovação do Congresso está em 12% e a desaprovação em 78%. Portanto, os EUA estão em processo de enfraquecimento econômico e político.
Nas eleições presidenciais de 2016, pelo lado do Partido Republicano (Grand Old Party – GOP), cujo símbolo é um elefante, o pré-candidato é Donald Trump (1946 -). Ele, 70 anos completados em junho, é um empresário bilionário do setor de construção e da área de entretenimento. Casou-se 3 vezes e tem 5 filhos. Pelo lado do Partido Democrata – cujo símbolo é um burro – a pré-candidata é Hillary Clinton (1947 -). Hillary, completa 69 anos em outubro, é casada com Bill Clinton que foi presidente dos EUA entre 1993 e 2001 e o casal tem uma filha.
Os EUA iniciaram o processo de independência da Inglaterra em 1776. O primeiro presidente, George Washington, tomou posse em 1789. De lá para cá, 44 presidentes foram eleitos (ou reeleitos) nos últimos 227 anos. Os EUA tiveram 56 eleições presidenciais neste período. Nas 33 primeiras eleições, as mulheres não votaram. Nas últimas 23 eleições presidenciais as mulheres votaram, mas não houve nenhuma mulher eleita nem para a presidência e nem para a vice-presidência. Também nunca houve uma mulher indicada e disputando as eleições por algum dos dois grandes partidos que dominam o cenário político do país.

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Assim, a presença de Hillary Clinton na disputa das eleições presidenciais de 2016 já é uma quebra de paradigma e uma grande novidade em termos de relações de gênero na política americana. Outra novidade é ter uma ex-primeira-dama como candidata à presidência dos EUA. Evidentemente, Hillary Clinton tem carreira política própria, diferentemente de outras primeiras-damas que ficavam apenas na sombra do marido.
Hillary Clinton é considerada, no momento atual, a pessoa com maior experiência política dos EUA. Ela nasceu em Illinois, fez graduação em Direito na universidade de Yale (1973), trabalhou como advogada atuando na defesa dos direitos das crianças, casou-se com Bill Clinton em 1975, foi primeira-dama do estado do Arkansas de 1979 a 1983, primeira-dama americana de 1992 a 2000 e, dentre outras atividades, liderou a delegação dos Estados Unidos na IV Conferência Mundial das Mulheres, em Beijing, em 1995. No início do século XXI, foi eleita senadora pelo estado de Nova Iorque, sendo a primeira mulher eleita pelo estado e a primeira ex-primeira-dama a ser eleita para o Senado. Em 2008, Hillary perdeu a indicação das primárias democratas para o então senador Barack Obama, mas se tornou Secretária de Estado do governo Obama, entre 2009 e 2012. Ela tem grande conhecimento sobre a política interna dos EUA, grande participação na defesa dos direitos das mulheres e conhece bem o cenário internacional e os principais conflitos geopolíticos do mundo.
Porém, ela não é uma pessoa muito carismática e é atacada em várias frentes: como o uso de um servidor particular quando era Secretária de Estado, questionamento sobre a captação de recursos para a Fundação Clinton, palestras milionárias para o banco Goldman Sachs e outras firmas de Wall Street, falhas na segurança da embaixada americana em Benghazi na Líbia, etc. Enfim, Hillary é atacada pelos setores de direita e pelos setores de esquerda que a identificam com parte do establisment democrata e de Washington que favorece os 1% mais ricos do país.
Hillary Clinton está na frente da corrida presidencial pelo voto direto e também está na frente pelo voto dos delegados estaduais que formam o colégio eleitoral de 538 membros. Pelas contagens atuais ela tem mais ou menos garantido cerca de 211 votos, enquanto Donald Trump tem 164 delegados. Existem 163 delegados em disputa e que vão decidir as eleições. Mas Hillary está na frente na maioria dos “swings states”, ou seja, aqueles estados que vão ser determinantes no resultado final das eleições de novembro.

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Já Donald Trump não esconde que faz parte do 0,1% da elite americana e assume abertamente uma plataforma eleitoral de direita e contra os direitos dos trabalhadores, dos migrantes e do meio ambiente. Sobre ele Barack Obama disse: “Penso que o povo vai perceber que ser presidente é um trabalho sério. Não é como ser apresentador de um talk show ou de um reality show. Não é publicidade. Não é marketing. É difícil”. O Papa Francisco também criticou a proposta de Trump de construir um muro na fronteira com o México, sugerindo que Trump não é cristão. O jornalista Nicholas Kristof (NYT, 11/02/2016) disse: “Os mercados de apostas dizem agora que o republicano com maior probabilidade de ser escolhido à presidência é um homem que ridiculariza mulheres, insulta latinos, endossa crimes de guerra como tortura, condena ícones da legenda e é favorável a barrar pessoas que entram nos EUA com base em sua religião”.
Trump reconhece que o Império Americano está em declínio e promete “trazer a América de volta” ou “fazer a América Maior”. Mas há quem diga que Trump na presidência significaria o declínio mais rápido e definitivo do império americano. O maior colunista econômico do jornal Financial Times, Martin Wolf escreveu: “Donald Trump será o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos. Pode até se tornar presidente dos Estados Unidos. É difícil exagerar a importância e o perigo desse desdobramento. Os Estados Unidos foram o bastião da democracia e da liberdade no século 20. Se elegerem Trump, um homem com atitudes fascistas para com as pessoas e o poder, o mundo seria transformado. Trump é misógino, racista e xenófobo. Alardeia com orgulho sua ignorância e incoerência. A verdade é qualquer coisa que lhe seja conveniente. Suas ideias políticas são ridículas, quando não horripilantes. No entanto, suas atitudes e ideias são menos perturbadoras do que seu caráter: ele é narcisista, gosta de intimidar, e difunde teorias da conspiração. É assustador considerar de que maneira um homem como ele poderia usar os poderes de que dispõe um presidente”.
Donald Trump na presidência dos Estados Unidos poderá ser uma ameaça aos direitos humanos, deverá aumentar ainda mais a riqueza dos 1% da elite americana e será retrocesso no relacionamento com o resto do mundo. Ele é um elefante em loja de cristais e poderia provocar conflitos e desastres irreparáveis. Até o Partido Republicano (GOP) está rachado e muitas lideranças devem apoiar outra candidatura e talvez o partido perca a maioria no Senado.
Outra alternativa seria o ex-governador republicano do Novo México, Gary Johnson. Ele foi indicado candidato presidencial do Partido Libertário. Johnson participou das eleições de 2012, quando obteve somente 1% dos votos. Mas neste ano, contudo, o cenário é diferente: Johnson tem a seu favor o caos provocado pela vitória de Donald Trump nas primárias republicanas e os problemas de imagem de Hillary Clinton. Algumas pesquisas indicam que ele ultrapassa 10% dos votos. Nos Estados Unidos, a corrente libertária (“libertarian” em inglês) é pequena, porém persistente, sendo a favor da liberdade individual e da redução do papel do governo federal na economia.

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A quarta alternativa que aparece com até 5% nas pesquisas é a pediatra Jill Stein, de 62 anos, do Partido Verde e que concorre às eleições presidenciais dos Estados Unidos com um programa eleitoral baseado em um sistema de saúde universal, matrículas gratuitas para ter acesso à educação universitária, o perdão da dívida dos estudantes e uma moratória imediata a todas as casas sobre as quais pese uma execução hipotecária (plataforma bem parecida com a de Bernie Sanders).

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A base de apoio de Trump são os homens brancos de classe média. Mas a maior força eleitoral pertence ao sexo feminino. As mulheres são maioria da população e do eleitorado nos EUA. Contudo, segundo o Pew Research Center, 5,2% das 500 maiores empresas americanas são presididas por mulheres. Dos 22 ministros do governo Barack Obama, 7 são mulheres. Dos 434 assentos da Câmara dos deputados apenas 84 (19,4%) são ocupados por mulheres. Nas primárias do Partido Democrata, Hillary perdeu para Bernie Sanders entre as mulheres jovens de 18 a 24 anos, mas ganhou no conjunto do eleitorado feminino. Mas para as eleições de novembro Hillary lidera com folga entre as mulheres.

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Nas eleições presidenciais, Hillary tem uma taxa de rejeição (52%), porém, menor do que a de Donald Trump (60%), conforme mostra a pesquisa Ipsos. Ou seja, Hillary pode chegar à Presidência dos EUA menos pelas suas qualidades e mais pelos defeitos de seu adversário. Aliás, Trump está tendo dificuldade para arrecadar dinheiro junto aos financiadores do Partido Republicano e não está conseguindo consolidar seu apoio nem entre o eleitorado masculino branco e de baixo nível de escolaridade, sua principal base eleitoral. Trump tem uma grande rejeição por parte do eleitorado muçulmano, hispânico, negro, etc. Entre as mulheres, quase 80% tem opinião desfavorável e pouco acima de 60% entre os homens. Seria impossível ganhar uma eleição com este nível de rejeição. O que aumentou ainda mais depois do ocorrido na boate Pulse, Orlando.

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As últimas pesquisas mostram que a candidata democrata está na frente da corrida eleitoral, tanto no voto direto como no colégio eleitoral. Algumas pesquisas colocam a candidata democrata 12 pontos na liderança. As chances de uma mulher chegar à presidência em 2016 aumentaram com o apoio do senador Bernie Sanders que conquistou o eleitorado jovem e mais à esquerda e com o apoio do presidente Barack Obama que está com índices de aprovação na casa dos 50%. Hillary Clinton não é nenhuma revolucionária e representa o status quo. Mas do ponto de vista das relações de gênero ela pode quebrar definitivamente o teto de vidro que limita a participação feminina nos altos cargos de poder ao chegar ao comando da Casa Branca.
As questões sobre segurança, de controle de armas, radicalismo islâmico, terrorismo, liberdade sexual, tolerância e intolerância religiosa e cultural devem polarizar as eleições dos EUA depois dos assassinatos juninos de Orlando. Neste sentido deve-se afirmar a defesa do Estado Laico.
Combater a intolerância religiosa sem ser intolerante com a religião

Na madrugada do domingo, 12 de junho (dia dos namorados no Brasil) um homem armado abriu fogo contra o público de uma boate gay em Orlando, na Flórida (EUA), matando ao menos 49 pessoas e deixando outras 53 feridas, no pior ataque a tiros da história dos Estados Unidos. A casa realizava uma festa de temática latina e estava próxima do seu horário de fechamento. O assassino foi Omar Siddique Mateen, cidadão norte-americano de 29 anos, muçulmano de origem Afegã e simpatizante declarado do grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês). Às 5h da manhã a polícia invadiu a boate e matou o atirador.
O pai do autor da chacina, Seddique Mateen, disse que a ação de seu filho foi motivada por seu ódio aos gays, e não por sua religião, muçulmana. Mas no dia seguinte disse que “cabe a Deus punir os homossexuais”. O jornal turco Yeni Akit colocou em manchete: “Somam 50 as vítimas no clube visitado por pervertidos homossexuais”. Mesmo a Turquia sendo um dos países mais moderados e seculares do mundo mulçumano, o presidente Recep Tayyip Erdogan disse que as mulheres que não têm filhos por conta da carreira “negam sua feminilidade”, ficam “incompletas” e são só “meias pessoas”. Não precisa nem dizer o que ele acha das mulheres transgênero e lésbicas.
Tudo isto fez os conservadores e apoiadores de Donald Trump acusarem o presidente Barack Obama e a candidata Hillary Clinton de serem coniventes com o radicalismo e homofobismo da religião muçulmana. Os conservadores dos Estados Unidos reclamam da leniência que os liberais têm com o sistema patriarcal, sexistas e homofóbico do islamismo fundamentalista e conservador. Sebastian Gorka, na Fox News, disse que não se trata de um crime de ódio e sim “parte de um assalto militar e ideológico sobre os Estados Unidos da América.” Donald Trump aproveitou para criticar o assassinato em massa e reafirmar suas convicções xenófobas com a restrição às imigrações.
Já a candidata democrata Hillary Clinton disse no dia 13/06, que os EUA devem encontrar uma maneira de manter o país a salvo sem demonizar muçulmanos. Ela disse que irá apoiar medidas mais fortes de prevenção contra os ataques dos chamados lobos solitários e pediu maior monitoramento na Internet, mas destacou que ao mesmo tempo irá proteger os direitos de muçulmanos norte-americanos. Enquanto isto, Donald Trump, candidato republicano, afirmou que o país precisa aumentar a sua resposta militar contra o Estado Islâmico, incluindo bombardeios, após o ataque contra a boate gay. Assim, fica claro que os Estados Unidos estão divididos: Trump e a direita culparam o radicalismo islâmico, mas não mencionaram o controle de armas e o dogmatismo evangélico. Obama, Hillary e a esquerda culparam a falta de controle na venda de armas, mas não mencionaram o radicalismo e o dogmatismo islâmico.
Todavia, as vozes mais sensatas dos Estados Unidos dizem que é preciso combater a intolerância religiosa e os dogmas muçulmanos sem ser intolerante com o islamismo. De fato, é difícil estabelecer a diferença equilibrada entre a conivência e a intolerância. Ser conivente é fechar os olhos para o que há de autoritário e equivocado na religião. Mas é difícil ser crítico da intolerância religiosa sem cair na intolerância crítica. Não se deve ser tolerante com a intolerância, muito menos reforçar a intolerância recíproca. Ainda mais neste caso que não está claro se trata de “extremismo doméstico” ou de ataque (direto ou indireto) do ISIS.
Um Estado Laico é aquele que não é gerido por princípios religiosos, assume posturas imparciais em relação às doutrinas das igrejas e garante a liberdade e a pluralidade religiosa, inclusive a liberdade de crítica aos dogmas religiosos, sem fomentar a intolerância, sem atacar os direitos sexuais e reprodutivos e sem agravar as discriminações e os preconceitos.
As eleições nos Estados Unidos já estão muito polarizadas e a falta de perspectiva econômica, especialmente para as gerações mais novas, aumenta o ódio quanto às injustiças do status quo. Provavelmente, este crime absurdo acontecido no dia 12/06 vai acirrar ainda mais os ânimos e os nervos dos americanos e de todas as pessoas que vivem nesse mundo conflagrado.
A atual esposa de Omar, Noor Zahi Salman, parece que foi cúmplice do crime. Já a ex-mulher do atirador de Orlando disse que ele era violento nas relações interpessoais e durante o casamento e que ele “pode ser homossexual”, o que implica alguma razão psicológica para o ataque à boate Pulse, em Orlando. Há comprovações de que Omar Mateen compartilhava fotos em apps LGBT e frequentava a boate.
Como disse o psicanalista Contardo Calligaris (FSP, 16/06/2016), Omar Mateen foi a boate Pulse para matar uma parte de si mesmo: “Quem agride, abusa ou tenta inibir os membros de uma minoria sexual está tentando reprimir nele mesmo um desejo que, às vezes, ele nem sequer consegue reconhecer”. A tese de uma possível homossexualidade de Mateen complica a análise entre o radicalismo religioso e os impulsos psicológicos que o levaram a cometer o pior ataque a tiros da História dos EUA.
Mas como disse o jornalista Hélio Schwartsman, na FSP (14/06/2016) os lobos solitários, motivados por conflitos pessoais, pelas contradições da pós-modernidade e inspirados pelo Estado Islâmico (EI), se radicalizam via Internet e atacam símbolos da modernidade secular: “Os alvos passaram a ser símbolos mais abstratos do Ocidente, como a liberdade de expressão (“Charlie Hebdo”), a liberdade individual (vida noturna em Paris) e, agora, a liberdade sexual. A exemplo de outros parasitas, é improvável que consigamos eliminar o terrorismo. Mas, para que ele não saia vitorioso, devemos zelar para que os ataques não resultem na redução de nossas liberdades”.
José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 20/06/2016