"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 3 de junho de 2017

Senado do Império estudou transposição do São Francisco

Dom Pedro II criou comissões técnicas para planejar canais que levassem água do rio aos pontos mais secos do Norte do Império. Briga entre províncias, porém, impediu que Parlamento aprovasse liberação de verbas.

Ricardo Westin - Jornal do Senado

Resultado de imagem para A canalização do Rio da Integração Nacional Atual obra de transposição se divide em dois eixos: o leste, inaugurado em março, e o norte, em fase final de construção. Canais

Assim que as comportas da barragem cravada na divisa de Pernambuco com a Bahia se abriram, as águas represadas do Rio São Francisco caíram num imenso canal de concreto e rolaram com fúria rumo ao norte, para dar vida às terras mais ressequidas do sertão. 

A cena se deu em março, e quem acionou o botão das comportas foi o presidente Michel Temer. Após uma década de obras, era inaugurado o primeiro canal, com 220 quilômetros de extensão, da faraônica transposição das águas do Rio São Francisco. O outro canal, com 270 quilômetros, está quase pronto e irrigará outras paragens do semiárido. 

Embora só agora se torne realidade, o sonho de fazer o sertão virar mar tem pelo menos dois séculos. O primeiro plano de transposição de que se tem notícia remonta à década de 1810, no fim da Colônia, mas a ideia só começaria a ser levada a sério anos mais tarde, no Império. Dom Pedro II esteve bem perto de executar o “encanamento” (a palavra usada na época) das águas do Rio São Francisco.

Resultado de imagem para Crianças famintas durante a violenta seca que atingiu o Ceará entre 1877 e 1879
Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará
Documentos históricos sob a guarda do Arquivo do Senado e do Arquivo da Câmara mostram que vários projetos de lei que previam a transposição passaram pelas mãos dos senadores e deputados do Segundo Reinado. — Basta fazer um canal. Não é difícil. Cavar e atirar a terra para os lados pouco custa. As mesmas águas que correm farão o resto — disse o deputado França Leite (PB) no Plenário em 1846. — Uma enxada dirigida por um homem pode levar água até o fim do mundo — insistiu no argumento o deputado Venâncio de Rezende (PE) em 1852. 

As secas cíclicas castigam o Norte (como se chamava a porção do país acima de Minas Gerais) desde sempre, dizimando plantações, matando rebanhos e levando sede, fome, doença e miséria à população. Mesmo assim, nenhum dos projetos do Parlamento imperial que previam o “encanamento” vingaria. 

Mississipi brasileiro 

Da nascente à foz, o São Francisco mede 2.700 quilômetros — quase a mesma distância entre Porto Alegre e Maceió. É o maior rio localizado integralmente no Brasil. As águas brotam no alto da Serra da Canastra, em Minas Gerais, correm para o Nordeste, banham cinco estados (Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe) e caem no Atlântico. Por percorrer uma faixa tão extensa do país, ganhou o apelido de Rio da Integração Nacional. No Império, era Rio “de” São Francisco. — O Rio de São Francisco é o nosso Nilo, o nosso Mississipi — comparou o senador Fernandes da Cunha (BA) em 1871. — Quem lança os olhos para o nosso sistema hidrográfico vê os Rios Paraná e Paraguai circulando todo o Império ao sul, vê no norte o vasto oceano do Rio Amazonas e vê no centro o patriarca das águas interiores do Império, o caudaloso São Francisco, rolando plácida e majestosamente. 

Quando cruza o semiárido, o São Francisco enfrenta escassez de chuva, evaporação intensa e falta de afluentes permanentes. Embora seu volume baixe, o rio se mantém relativamente caudaloso, o que faz de suas margens um enclave verde em pleno sertão. A transposição busca espalhar outros oásis pelo semiárido adentro. 

No século 19, o Senado e a Câmara analisaram tanto projetos de lei que criavam comissões de engenheiros para desenhar o trajeto dos canais de água quanto projetos que liberavam as verbas necessárias para tirá-los do papel. Os primeiros foram aprovados. Os segundos, não. 

Cada proposta previa uma província do Norte como a receptora das águas — Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte ou Paraíba, a depender da origem do senador ou deputado autor da proposta. 

Na batalha interprovincial pela cobiçada vazão do Rio São Francisco, os parlamentares mais aguerridos foram os cearenses. Eles sonhavam com um rio artificial que alimentasse o Riacho dos Porcos e os Rios Salgado e Jaguaribe. Até hoje, os três secam nos meses de estiagem. Uma vez concluído o “encanamento”, eles se tornariam perenes. 

Em 1850, o deputado Araújo Lima (CE) aproveitou a discussão sobre um projeto que reajustaria o salário dos juízes e desviou o debate para a transposição: — No exame da conveniência de elevar o ordenado da magistratura, perguntarei: acaso não existem no país necessidades que com maior força podem ser satisfeitas? O Ceará carece de melhoramentos materiais. É preciso que se empreguem os meios convenientes para fazer desaparecer as secas que o assolam. Entre esses meios, o que se aponta como o mais apropriado é um canal que comunique o São Francisco com o Salgado. 

O deputado continuou: 
— Na falência de melhoramentos materiais, o Ceará será despovoado, reduzido a um deserto. Dispensará, portanto, as vantagens de uma boa magistratura, porque os desertos não precisam de Justiça. Despesas com a abertura do canal, portanto, serão infinitamente mais úteis do que com a elevação dos vencimentos da magistratura. 

Orçamento e compasso 

Em 1864, o deputado Liberato Cardoso (CE) recorreu a uma estratégia mais criativa. Ele narrou um cruzeiro iniciado em Minas: — Nosso barquinho foi contemplar as maravilhas do Mississipi brasileiro. Ao chegar à província de Pernambuco, em vez de continuar pelo São Francisco, virei de proa, sulcando as águas do canal que se abriu do Cabrobó [PE] ao Riacho dos Porcos. Saudando a Serra do Araripe e a rica cidade do Crato [CE], entrei pelo Rio Salgado. Deixando à minha direita a bela e risonha cidade do Icó [CE], tomei o Rio Jaguaribe. 

Com tantos detalhes, os colegas que o escutavam sentiram como se estivessem a bordo do navio. O deputado prosseguiu: — Saudando a cidade de Russas [CE], reclinada em seus verdes tabuleiros de relva, eu contemplava em poucas horas o teto de meu berço na rica e industriosa cidade do Aracati [CE], onde da borda do navio dei um aperto de mão nos meus amigos e parentes, que me cumprimentavam do cais. Lançando um derradeiro olhar de saudades para a terra do meu berço, eu volvia os olhos para o Atlântico. Em poucas horas, eu via alvejar as torres da catedral de Fortaleza por entre os coqueirais da praia. 

Terminada a narrativa, Liberato Cardoso trouxe os deputados de volta à realidade. Aquele lindo cruzeiro jamais fora feito. Motivo: faltava o canal que unisse o São Francisco aos rios cearenses. — Esse sonho, senhores, pode ser realidade no futuro — continuou ele. — O que convém? Que não viajemos com a imaginação, e sim com o orçamento em uma mão e o compasso na outra. 

Em outras palavras, a transposição exigia dinheiro e conhecimentos de engenharia. Na avaliação dos defensores da obra, o Império dispunha tanto do “orçamento” quanto do “compasso”. O deputado paraibano França Leite afirmou em 1846 que o salário dos operários não pesaria nos cofres públicos: — Aquela gente do Norte acha- -se sem trabalho e não duvidaria ganhar a subsistência por meio do seu trabalho. Um homem trabalha um dia inteiro de enxada por 100 réis e de machado por 160 réis. Com salários tão baixos, o trabalho se pode fazer sem grande despesa. 

Falas do trono 

O mundo já dominava a técnica das grandes canalizações, lembrou o deputado Alencar Araripe (CE). Num pronunciamento em 1877, ele citou o Canal de Suez, no Egito, recém-aberto. — Por que hesitaremos em empreender obras que tornem o Ceará um novo Egito, dando- -lhe um Nilo, canais e lagos? Se a natureza recusou águas abundantes ao Ceará, o homem lhas dê — filosofou Araripe. 

Dom Pedro II tocou com frequência no tema da estiagem nas falas do trono, os pronunciamentos que ele proferia duas vezes por ano no Senado. Em 1878, no meio de uma das secas mais violentas da história, discursou: — O flagelo da seca devasta há quase dois anos uma parte considerável do Norte do Império, afligindo profundamente o meu coração. Para minorar as consequências de tamanha calamidade, tem o governo empregado os meios a seu alcance. Os “socorros públicos” consistiam basicamente de cereais para a população carente e empréstimos para os fazendeiros. 

As falas do trono nunca trataram da transposição. O tema, porém, constava da pauta do governo. Em 1852, dom Pedro II contratou o engenheiro alemão Henrique Guilherme Fernando Halfeld para elaborar dois projetos: um que tornasse o São Francisco integralmente navegável e outro que desviasse água do rio para outros pontos do semiárido. Os croquis de Halfeld seriam engavetados. 

Uso político da seca 

O que movia dom Pedro II não era exatamente a benevolência. Ao mostrar-se consternado com o infortúnio dos “nortistas” abatidos pela seca, ele tinha um objetivo não declarado. O historiador Gabriel Pereira de Oliveira, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e estudioso do São Francisco no Império, explica: 
— No século 19, a ideia de nação ainda não estava cristalizada no Brasil. As províncias mais distantes não se sentiam parte do Império, e havia o temor de que nelas explodissem movimentos separatistas semelhantes aos da Colônia e da Regência. Dom Pedro II, então, se apoiou na seca para forjar a imagem do imperador que não se descuidava de nenhum ponto do país e criar nos nortistas o sentimento de que não sobreviveriam sem ele. 

Por essa razão, o monarca fez em 1859 uma excursão ao Norte e conheceu o São Francisco. Ele, contudo, não conseguiu nem sequer iniciar a transposição. Faltou o apoio do Parlamento. Os senadores e deputados rejeitaram, ano após ano, todas as emendas ao Orçamento imperial que destinavam verbas à obra. 

Segundo o historiador Pereira de Oliveira, do IFRN, o “encanamento” do Rio São Francisco não foi aprovado por causa da briga entre as províncias: 
— Os senadores e deputados do Norte estavam rachados, cada um querendo que a sua província fosse a beneficiada. E os parlamentares do restante do Império boicotaram todos os planos, desejosos de que a fortuna a ser consumida pela transposição fosse destinada a obras em suas próprias províncias. 

A falta de consenso no Parlamento fica clara num embate ocorrido em 1852. O deputado pernambucano Venâncio de Rezende disse que era preciso “dar vida ao Ceará”, onde “homens se deitam ricos e acordam pobres” por causa da seca. Ele apoiava o projeto cearense porque, para chegar ao Ceará, o canal teria que cruzar Pernambuco. 
— Temos de fazer um canal do Rio de São Francisco que, atravessando esses sertões estéreis, não só lhes leve a fertilidade, como vias de comunicação. 
— Isso nem os americanos do norte fariam — retrucou o deputado Santos e Almeida (MA), afirmando que uma obra de tal grandeza era impossível. — O nobre deputado não conhece os norte-americanos. Se lá fosse, veria que um canal julgado impossível foi feito só com despesas do estado de New York 
— argumentou Rezende, citando o canal navegável de 600 quilômetros entre o Lago Erie e o Rio Hudson, inaugurado em 1825. — Os americanos do norte não seriam capazes de fazer passar para o Ceará o Rio de São Francisco — insistiu Santos e Almeida. 

Em 1846, o deputado Francisco José da Silva (SE) recorreu ao aspecto financeiro para pedir a rejeição de um projeto que beneficiaria o Ceará: 
— Quanto não seria preciso para a canalização do Rio de São Francisco pelas províncias flageladas, atravessando mais de 400 léguas? É preciso incluir no cálculo a hipótese de encontrar rochedos que tenham de ser abertos para dar passagem ao rio. O país não pode com tal despesa. O historiador do IFRN explica: — As províncias que esperavam pelas águas do São Francisco não tinham força para aprovar os projetos. Eram pobres, pequenas e sem peso político. Em meados do século 19, o Piauí contava com apenas 3 deputados e o Ceará, com 5. Não tinham como brigar no Parlamento com as províncias poderosas. Minas Gerais, por exemplo, era representada por 20 deputados. Os parlamentares que pediam a transposição se irritavam com o desequilíbrio político. Como consequência, segundo eles, suas províncias eram tratadas pelo Império a pão e água enquanto as províncias poderosas nadavam em privilégios. — O Ceará não é considerado para os benefícios. Só é considerado para dar soldados e dinheiro para o Império — queixou-se o senador Pompeu (CE) em 1871. — Nunca mais acabará o sacrifício do Império a bem da dotação das empresas [empreendimentos] do Sul? Nunca raiará a aurora dadivosa em que deve começar o desenvolvimento do Norte do Império? — questionou no mesmo ano o senador baiano Fernandes da Cunha, apesar de sua província ser uma das mais influentes. — As províncias que são amparadas com grandes representações podem tudo, conseguem facilmente os favores do governo, o que não acontece com as outras, haja vista a minha pouco afortunada província — lamuriou-se o senador Mendes de Almeida (MA) em 1874. — Tudo se concede para Minas, ao passo que para o Ceará é preciso pedir licença, uma petição com muito cuidado, um “espero receber mercê” — comparou o senador Viriato de Medeiros (CE) em 1884. 

Bancada desunida 

Outro problema contribuiu para que a transposição naufragasse: nem sequer os parlamentares cearenses caminhavam unidos. Embora a maior parte dos projetos beneficiasse o Ceará, houve senadores e deputados da província que, incrivelmente, votaram contra as obras. 

Numa audiência na Câmara em 1854, o deputado Jerônimo Macário (CE) disse ao ministro dos Negócios do Império, Visconde do Bom Retiro, que seria um erro o Império “mandar engenheiros examinarem as possibilidades de um encanamento de águas do Rio São Francisco” até o Ceará: 
— O melhoramento de que o nobre ministro quer dotar o Ceará não é aquele de que se deveria ocupar. Esse melhoramento promete frutos tão tardios, que me faz desanimar. Oxalá, porém, que os frutos sejam apenas tardios, e não uma quimera [utopia]. 

A falta de unidade da bancada cearense tinha origem política, segundo o historiador Pereira de Oliveira. A transposição levaria água do São Francisco para localidades cearenses como Crato e Aracati. Fortaleza e Sobral, situadas no outro lado da província, não teriam ganho nenhum. Temendo perder a supremacia, a elite dessas duas grandes cidades agiu para barrar a transposição e impedir a ascensão do Crato e de Aracati. O deputado Jerônimo Macário era de Sobral. 

O plano de irrigar pontos do semiárido com água do São Francisco ressurgiria de tempos em tempos. Presidentes como Epitácio Pessoa, João Figueiredo e Itamar Franco tentaram executar a obra, sem êxito. As prioridades acabaram sendo os açudes, os poços artesianos e as cisternas. 

Após dois séculos de promessas, os canais do Rio São Francisco começaram a ser abertos em 2007, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. 

O primeiro canal está pronto. O segundo, quase concluído, depende do julgamento de uma ação judicial movida por empreiteiras que disputaram a licitação. Quando toda a obra terminar, a água chegará a 400 cidades de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, beneficiando 12 milhões de pessoas. 

A transposição está sob a responsabilidade do Ministério da Integração Nacional. O senador Fernando Bezerra Coelho (PSBPE), titular do ministério de 2011 a 2013, diz que a obra é o pagamento de “uma dívida histórica do Brasil com os nordestinos”. — O Nordeste foi o responsável por praticamente toda a riqueza nacional nos primórdios da nossa história, com a cana-de- -açúcar e o algodão. Depois foi esquecido pelos governos. Se a transposição tivesse sido feita lá atrás, tantos nordestinos não teriam vivido na miséria, migrado, morrido. O Nordeste não seria hoje lembrado pelo problema.



Estudo de Gabriel Pereira de Oliveira sobre o rio no Império: http://bit.ly/RioCaminhoNatural

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A transição religiosa na América Latina e no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

participação de católicos, protestantes e sem religião - America Latina e Caribe: 1910 a 2014

A colonização da América, abaixo do Rio Grande, foi marcada pela força do catolicismo que acompanhou o domínio espanhol e português no continente. A América Latina e Caribe (ALC) é a casa de cerca de 425 milhões de católicos – aproximadamente 40% de todos os católicos do mundo. Pela primeira, a Santa Sé tem um Papa de origem latino-americana.
Mas a ALC está passando por uma grande transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos:
1) Declínio absoluto e relativo das filiações católicas;
2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados);
3) Crescimento do percentual das religiões não cristãs;
4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião;
De maneira mais resumida e muito generalizada, pode-se dizer que a ALC está passando por duas grandes transformações agregadas, que devem se prolongar ao longo do século XXI:
1) Mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (protestantes);
2) Aumento da pluralidade religiosa, com queda no percentual de filiações cristãs (católicas + evangélicas), aumento de outras religiões e aceleração do processo de secularização.
O gráfico acima, do Instituto PEW, mostra que, na média da América Latina e Caribe, os católicos representavam mais de 90% da população antes de 1970 e caíram para 69% em 2014. Os protestantes (evangélicos) representavam somente 1% em 1910, 3% em 1950, 4% em 1970 e deram um salto para 19% em 2014. As pessoas que se declaram sem religião (unaffiliated) eram menos de 1% até 1970 e pularam para 8% em 2014.
Os países que estão mais adiantados no primeiro aspecto da transição religiosa (alternância de hegemonia entre católicos e evangélicos) na ALC são Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador. O país mais adiantado no segundo aspecto da transição religiosa (aumento da pluralidade e secularização) é o Uruguai. O número de uruguaios que se declaram sem religião está próximo de 40%
O país mais resiliente à transição é o Paraguai, onde os católicos mantêm um percentual em torno de 90% da população. Os países Equador, México, Colômbia e Bolívia também estão numa fase inicial da transição religiosa. Enquanto o Chile e a Costa Rica estão em uma fase parecida com a do Brasil.
O gráfico abaixo – com dados dos censos demográficos do IBGE – mostra que a transição religiosa brasileira é parecida com a transição da ALC, mas o Brasil está mais adiantado nesse processo do que a média da ALC, pois o percentual de católicos estava em 64,6% em 2010, o percentual de evangélicos em 22,2% e o percentual de sem religião estava em 8%.

participação de católicos, evangélicos e sem religião, Brasil: 1940-2010

Infelizmente, não temos dados das pesquisas do IBGE desde o último censo de 2010. Mas dados do Instituto Datafolha, de dezembro de 2016, mostra que a transição religiosa no Brasil tem se acelerado na atual década (Alves, 18/01/2017). A última pesquisa do Datafolha mostra que houve um crescimento muito grande do número de pessoas que se declaram sem religião.
O Brasil é o maior país católico do mundo e a ALC é o continente mais católico. Uma mudança no panorama religioso da região vai ter uma grande implicação para a correlação de forças internacionais entre as grandes religiões. Resta saber se o Papa Francisco, bastante conhecedor dos problemas da região, vai conseguir reverte essa situação de declínio relativo da influência da Igreja de Roma sobre os povos que foram colonizados e convertidos há cerca de 500 anos.
Referências:
ALVES, JED. Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010, Ecodebate, RJ, 04/10/2017

ALVES, JED. Chuí: a capital brasileira dos sem religião, Ecodebate, RJ, 06/02/2017

ALVES, JED. A transição religiosa em ritmo acelerado no Brasil, Ecodebate, RJ, 18/01/2017

PEW. Religion in Latin America. Widespread Change in a Historically Catholic Region, PEW, November 13, 2014


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Desequilíbrios mundiais e declínio nos salários

Por Jordi Angusto

Jordi AngustoPor volta de 2000, começou uma descida na participação da compensação trabalhista em valor agregado a nível global. Em uma década, a participação dos salários na renda nacional (valor agregado) diminuiu seis por cento em média: de 63 para 57% nos EUA; de 64 para 59 por cento na Alemanha; de 63 a 57 por cento no Reino Unido; de 62 para 56 por cento no Japão e de 66 para 54 por cento na China. Simetricamente, os lucros cresceram e a desigualdade aumentou em quase todos os países.

Um dos principais fatores utilizados para explicar esses fenômenos é a globalização. Com as fronteiras econômicas corroídas o capital circula em busca do maior rendimento, a taxa de lucro tende a se igualar a qualquer aumento, através do declínio dos salários, replicando em todos os lugares. Um processo que tem como fatores catalíticos causa desequilíbrios comerciais entre os países. Como pode ser visto no quadro seguinte: também foi próximo de 2000 que os desequilíbrios comerciais aumentaram como nunca antes. De um lado, podemos ver os enormes déficits comerciais dos EUA; por outro, os excedentes no Japão, na China e na Alemanha - com um pico logo antes do crash financeiro mundial.

Fonte: OCDE

Na China, a migração interna ajudou a aumentar a produtividade mais do que os salários; Da mesma forma na Alemanha, graças à reunificação. Uma vantagem competitiva "compartilhada" com os EUA através do seu déficit: enquanto importava bens comercializáveis, o que podemos chamar de emprego de bolhas emergiu: empregos pouco remunerados e precários em setores não negociáveis, como serviços e construção, vinculados ao crédito Bolha que financia o déficit.

Na verdade, não há transferência de empregos entre países com superávit e déficit. A demanda em países deficitários sustenta empregos em um país com excedente; Mas o último financia a demanda do primeiro em um jogo de soma zero. O que certamente acontece é uma mudança no tipo de empregos em ambos os lados da equação com um declínio semelhante dos salários: dois efeitos diretamente ligados a desequilíbrios e não ao próprio comércio. Se o comércio for equilibrado, os trabalhos de bolhas não aparecem nem a queda dos salários ou a bolha de crédito. Os países comercializam bens e serviços comercializáveis ​​de igual valor, sem modificar sua estrutura interna.

É por isso que é vital estabelecer um mecanismo de evitação de excedentes/déficits, conforme previsto por Keynes nas negociações de Bretton Woods, sabendo como ele sabia que os ajustes das moedas não seriam capazes de conseguir isso por conta própria. Sua ideia era um centro de compensação de balanços comerciais, onde os excedentes seriam penalizados duas vezes mais do que os déficits. A lógica dessa dupla penalização foi clara: qualquer ajuste pelo lado do déficit implica uma contração agregada da demanda, portanto maior desemprego, enquanto o ajuste pelo lado excedente requer o contrário: aumento da demanda agregada e, portanto, mais emprego.

Evitar o excedente há outro efeito fundamental: ao dissuadir os países de permitir maiores aumentos de produtividade do que nos salários, os países menos desenvolvidos não são forçados a sobreviver diminuindo os salários abaixo do nível salarial digno e obrigando milhões de cidadãos a migrar. Portanto, um mecanismo de evitação de desequilíbrios tem efeitos benéficos em todo o mundo. Quem se opõe? Historicamente, nenhum país excedente voluntariamente renunciou ao poder que o seu excedente dá. Apenas a China aceitou recentemente reduzir o seu excedente externo e impulsionar sua economia através da demanda doméstica. Ela agora tem a autoridade moral para exigir dos outros que façam o mesmo. Espero que use essa autoridade!

Os desequilíbrios comerciais também estavam por trás da crise do Euro, uma vez que os déficits acumulados em alguns países tornaram-se uma dívida externa quase impossível de serem reembolsados. E esses desequilíbrios também começaram com um declínio da compensação trabalhista na Alemanha, o campeão de excedente, enquanto os países com déficit viram empregos de bolhas e bolhas de crédito emergentes. O programa de resgate da troika consistiu, precisamente, em um declínio da compensação trabalhista nos países resgatados. Na verdade, apenas a França resistiu a essa tendência até agora.

Fonte: Eurostat

Embora a UE incluísse o mecanismo de evasão excedente/déficit como parte do Procedimento de Macro-Desequilíbrio (MIP), quando o Euro estava próximo do colapso, nunca foi aplicado. A Alemanha e os Países Baixos, os países excedentários que deveriam ser obrigados a agir, desviaram a responsabilidade apontando para o pacto de estabilidade, o que, de fato, significa um ajuste do déficit amplamente aplicado. Como resultado, um enorme aumento do desemprego e da pobreza onde esse ajuste foi imposto e um menor crescimento econômico em toda a Europa com o aumento do seu populismo.

A questão agora é se Macron poderá convencer a Alemanha de reduzir o seu excedente ou, inversamente, se a França seguirá o caminho dos outros países, aprofundando o declínio dos salários globais, aumentando a desigualdade e pressionando outros países a forçar a migração de seus cidadãos.

Os salários no primeiro mundo devem ser altos devido à sua alta produtividade, e esta é a melhor maneira de proteger os trabalhadores nos países menos avançados. Receber migrantes é um mandato moral, mas para evitar que as pessoas desejem migrar é, obviamente, muito melhor. Um mecanismo de prevenção de desequilíbrios também pode ajudar nesta direção.



Jordi Angusto e um economista.  começou sua carreira como professor universitário em Teoria Econômica na Universidade Autônoma de Barcelona. Mais tarde, tornou-se consultor econômico da Câmara Municipal de Barcelona, ​​do Governo da Catalunha e, de 2014 até 2016, do Parlamento Europeu. Ele publicou dois ensaios sobre a crise econômica de 2008 e dezenas de artigos em mídia especializada e geral. Ele agora lidera o departamento de análise socioeconômica da Fundació Catalunya-Europa, um grupo de reflexão com sede em Barcelona, ​​e participa de vários fóruns públicos em rádio e TV.

terça-feira, 30 de maio de 2017

O TSE deve cassar a chapa Dilma-Temer

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“A corrupção dos governantes quase sempre começa
com a corrupção dos seus princípios”
Montesquieu

O TSE deve cassar a chapa Dilma-Temer

As eleições presidenciais de 2014 constituíram o maior estelionato eleitoral dos 500 anos da história do Brasil. A chapa prometia “Mais mudanças e mais futuro”, porém, se algo mudou, foi para pior, sendo que o futuro do país foi abortado.
Os cidadãos brasileiros que acompanharam com atenção a propaganda eleitoral perceberam a quantidade de dinheiro envolvida na campanha e o montante extraordinário de mentiras e promessas falsas propagadas. Os próprios marqueteiros da campanha vitoriosa (João Santana e Mônica Moura) confirmaram a sujeira que havia por baixo da capa de normalidade da campanha eleitoral.
As duas candidaturas (e seus respectivos vices), que foram ao segundo turno no final de outubro de 2014, prometeram um Brasil de fantasias e muita riqueza para todo o povo pobre e oprimido. Mas o que se seguiu foram tristes fatos. A candidata vitoriosa foi “impichada”, seu vice também está prestes a ser impedido de uma ou outra forma e a candidatura derrotada está combalida, desmoralizada e prestes a ir para a prisão.
As grandes empresas brasileiras, sob o tacão da justiça, estão pouco a pouco desvendando as fontes sujas da liquidez que irrigou a eleição de deputados, senadores, governadores e presidente da República.
Os dados econômicos já apontavam que o Brasil caminhava para uma grande recessão e para o empobrecimento geral da nação, mesmo antes do resultado das eleições. Antes do pleito já havia escrito artigos apontando para a fraqueza da economia brasileira e, logo após as eleições movidas pelo marketing, em novembro de 2014, escrevi um artigo no Ecodebate mostrando que o Brasil caminhava para uma segunda década perdida (Alves, 28/11/2014). Não precisava ser vidente para saber que havia um desastre programado à frente.
Quem está pagando o pato são os trabalhadores brasileiros. A massa salarial mensal (R$ 189,8 bilhões) atingiu o valor máximo no trimestre out-dez de 2014. Depois do estelionato eleitoral, a massa salarial caiu e atingiu 182,9 bilhões de reais em jan-mar de 2017. Ou seja, o conjunto dos trabalhadores brasileiros estão recebendo R$ 7 bilhões a menos por mês, conforme mostra o gráfico abaixo. Ao invés do enriquecimento geral, as eleições de 2014 trouxeram desemprego e empobrecimento do povo brasileiro.

massa de rendimentos de todos os trabalhos

Não foi a operação Lava-Jato que provocou a crise econômica. A grande recessão já estava contratada pelas políticas macroeconômicas equivocadas adotadas, principalmente, nos anos “dourados” do ministro Guido Mantega (de alcunha “pós-italiano”). A promiscuidade entre o ministro da Fazenda, os tesoureiros do PT e as empresas corruptoras não tem paralelo na história, conforme as denúncias apresentadas. Mais esclarecimentos provavelmente virão na delação do “italiano” Antônio Palocci. Mas, de fato, a crise política e os constantes escândalos de corrupção contribuíram para o aprofundamento da crise.
A gestão Dilma-Temer vai passar para o livro dos recordes como a pior dupla a governar o Brasil em mais de cinco séculos, pois além dos escândalos de corrupção (envolvendo todos os partidos do presidencialismo de coalizão), serão os oito anos (octênio) mais desastrosos na economia. Evidentemente os escândalos de corrupção já aconteciam em governos anteriores. Mas o acúmulo de problemas se avolumou de forma insustentável.
A estrutura do Estado foi utilizada para achacar o povo brasileiro e para o roubo dos recursos públicos para fins pessoais e políticos. Atividades relativamente “inocentes” como a Copa do Mundo de futebol, em 2014, e as Olimpíadas, de 2016, funcionaram como meio de barganha política e de roubo aberto contra os interesses de uma população que acreditava que o esporte é uma maneira sadia de manter o corpo são, a mente sã e que possibilita a integração harmoniosa entre os povos. As 12 Arenas construídas para a Copa agora são “elefantes brancos” (desculpa elefantes!) que dão prejuízo aos contribuintes. As instalações das Olimpíadas do Rio estão jogadas às traças e engordam o débito de quem paga as contas públicas. O Maracanã está em situação de miséria.
Dois ex-governadores do Distrito Federal foram presos em uma operação da Polícia Federal. José Roberto Arruda (PR) e Agnelo Queiroz (PT) teriam ligação com um esquema que superfaturou o valor da arena Mané Garrincha em mais de R$ 900 milhões. O ex-vice-governador e atual assessor de Michel Temer, Tadeu Filippelli, também foi alvo de prisão temporária. O mesmo aconteceu em outras arenas esportivas. Novas denúncias virão. Mas segundo as denúncias do ministério público ninguém roubou tanto como o ex-governador Sérgio Cabral, o que explica em grande parte a falência do Estado do Rio de Janeiro. A máquina corrupta do PMDB garantia inclusive o “alpiste” para o ex-presidente da Câmara dos Deputados que está preso em Curitiba.
Hoje se sabe que os recursos do pré-sal, que foram apresentados como a salvação nacional e o “passaporte para o futuro”, estavam exagerados e serviram para garantir um vultoso esquema de corrupção na Petrobras. Dinheiro foi jogado fora na compra da refinaria de Pasadena, no Texas (quando Dilma Rousseff era presidente do Conselho da Petrobras), também foi jogado fora nas refinarias programadas no Ceará e no Maranhão e, especialmente, nas refinarias de Abreu e Lima, em Pernambuco, e Comperj no Rio. Uma montanha de dinheiro foi queimada para turbinar a corrupção. As atuais e as futuras gerações do Brasil vão pagar as custas desta ineficiência.
Os jornais anunciam que houve roubalheira nas obras da transposição do rio São Francisco, nas hidrelétricas da Amazônia (verdadeiros crimes ambientais), nas usinas nucleares de Angra dos Reis, na compra dos caças da Suécia, na construção do submarino nuclear, nos investimentos dos fundos de pensão, nos empréstimos do BNDES, etc. A chamada “Bolsa empresário” transferia recursos para o setor empresarial (financiador de campanhas eleitorais) a custos subsidiados e que dava grande prejuízo para o Tesouro Nacional, mas sem retorno social dos investimentos.
Os chamados “Campeões Nacionais”, cópia tupiniquim do Keiretsu japonês e do Chaebol coreano, deu com os “burros n’água”, com o fracasso dos irmãos Wesley e Joesley Batista (da J&F, JBS, donas da Friboi, etc.) e de Eike Batista (da EBX), dentre outros. Em vez de campeões de produtividade o que aconteceu foi o apoio aos campeões de corrupção e ineficiência. O fracasso da empresa Sete Brasil é mais um indicador da derrota dos últimos governos que achavam que poderiam garantir o crescimento econômico turbinado por propinas. Ainda não está claro o papel o setor financeiro nas campanhas eleitorais, mas nenhum banco se tornou sócio de tantas empresas no Brasil em tão pouco tempo quanto o banco de investimento BTG Pactual, de André Esteves (que passou uma temporada em Bangu).
Depois de todas as delações da empreiteira Odebrecht, o escândalo da “carne fraca” e as denúncias da JBS mostram que a maior “produtora de proteína animal do mundo” irrigava as campanhas de Dilma-Temer (PT-PMDB), Aécio-Aloysio (PSDB) e dezenas de deputados, senadores e governadores. Aécio, teve não só a irmã e primo presos, mas também foi afastado das funções de Senador da República. É a segunda morte de Tancredo e o fim definitivo da possibilidade da família Neves chegar ao Planalto.
Toda essa promiscuidade jogou a economia brasileira na sua maior e mais profunda recessão da história. Os resultados ruins se acumulam de maneira espantosa. A crise fiscal vai gerar passivos que vão pesar sobre os ombros das presentes e das futuras gerações, que terão que lidar com um país de renda média, em permanente estagnação secular, mas com uma dívida insustentável, mesmo para os padrões de nações ricas.
Os dados do Seade/Dieese mostram que o desemprego na Região Metropolitana de São Paulo atingiu mais de 2 milhões de pessoas e nunca foi tão alto em toda a história da maior e mais rica região metropolitana do país. Os dados da PNADC do IBGE mostram que a taxa de desemprego aberto no Brasil atingiu 13,7% (14,2 milhões de pessoas) e a subutilização da força de trabalho atingiu a impressionante cifra de 24,1%, significando 26,5 milhões de pessoas. Os jovens são os mais atingidos por esta tragédia.
Assim, o que a gestão Dilma-Temer ofereceu ao país, como resultado do estelionato eleitoral, foi o aumento da pobreza e do desemprego, aumento da violência, dos crimes e da insegurança pública, revolta nos presídios, crise na educação e na saúde, crise sanitária, epidemias de dengue, zika e chikungunya, aumento da degradação ambiental, ataque aos direitos dos povos indígenas, queda nas exportações e de desprestígio internacional, etc. Não dá para falar no espaço de um artigo de todo o desastre econômico e social e nem da quantidade de crimes cometidos em todos os níveis e em todos os grandes partidos nos últimos anos.
Não dá para manter esta situação. A Dilma já caiu e agora é a vez de Temer. A solução mais rápida e justa para a crise atual é a cassação da chapa eleita em 2014. Evidentemente, antes mesmo da cassação, existe a possibilidade de renúncia ou de impeachment. Com base no depoimento de Joesley Batista, a Procuradoria-Geral da República (PGR) acusou o presidente de corrupção passiva, obstrução de Justiça e pertencimento a organização criminosa. O certo é que esta página tem que ser virada. As opções são: renúncia, impeachment, afastamento por crime comum ou cassação pelo TSE.
Michel Temer – que foi eleito junto com Dilma em 2014 – já era questionado antes de entrar e agora não tem a menor condição de continuar depois da divulgação da gravação de seus crimes. O Brasil mergulhou em mais fundo do que o fundo do poço. Na semana passada, Brasília se transformou num campo de batalha dentro do Congresso e na Esplanada dos Ministérios, que resultou na depredação de ao menos sete ministérios.
O presidente Temer em vez de renunciar, determinou que 1.500 homens das Forças Armadas passassem a fazer o policiamento de prédios públicos até o próximo dia 31 de maio. A capital federal passou a ser policiada por militares. Tudo isto significa mais violência e mais uma crise da democracia. Mesmo com a revogação do decreto que autorizou o uso de tropas das Forças Armadas na Esplanada dos Ministérios no dia 25/05, a crise continua!
A troca de comando do Ministro da Justiça e a ida de Osmar Serraglio (envolvido no escândalo da “carne fraca”) para o Ministério da Transparência, se não for uma tentativa de esvaziar a Polícia Federal, parece até uma gozação com o povo brasileiro e mostra que o governo Temer não tem fôlego para ficar mais tempo no Planalto.
A Constituição estabelece a eleição indireta para um mandato tampão. Porém, o atual Congresso – com tantos deputados envolvidos em denúncias de corrupção – não tem legitimidade moral para escolher o próximo presidente do país. Ficar com um presidente tampão é prolongar o sofrimento do povo brasileiro. A melhor opção é a eleição direta, mesmo que se gaste um certo tempo para se aprovar uma emenda constitucional e organizar o pleito. Fora todos é a palavra de ordem mais ouvida. A campanha das eleições diretas já está nas ruas.
O acirramento das tensões já estava “escrito nas estrelas”. Estelionato eleitoral tão acintoso e a continuidade do sistema criminoso de corrupção não poderia desaguar em outro resultado e em outro tipo de tragédia. Em janeiro desse ano escrevi um artigo aqui no Ecodebate falando sobre a cassação da chapa Dilma-Temer e a necessidade de eleições diretas já. Sem pretender encampar todas as bandeiras da Conlutas, “Fora todos eles” é uma oportuna palavra-de-ordem.

fora todos eles. eleições gerais já!

E por incrível que pareça, até o senador e réu Renan Calheiros que já serviu (e se serviu) de todos os governos nos 32 anos de “redemocratização” e também peitou o STF e derrubou Dilma, agora está defendendo o fim do governo Temer e a convocação de eleições diretas. O que, simplesmente, mostra que o que não dá é para continuar do jeito que está.
No dia 06 de junho, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) vai se reunir para deliberar sobre a impugnação da chapa vencedora em 2014. O vice-procurador-geral Eleitoral, Nicolao Dino, pediu a cassação da chapa Dilma e Temer com o argumento de que a campanha dos dois em 2014 foi financiada com pelo menos R$ 112 milhões de caixa dois.
O relatório final do ministro Herman Benjamin, do TSE, aponta que ele votará pela cassação da chapa de Dilma Rousseff-Michel Temer. Já existe jurisprudência. A decisão recente do TSE que possibilitou a cassação do governador do Amazonas, José Melo (PROS), e de seu vice, Henrique de Oliveira (SD), determinando também a realização de eleições diretas, poderá servir de referência para a cassação da chapa vencedora do estelionato eleitoral de 2014.
Assim, se o colegiado for coerente com as provas recolhidas no inquérito e souber interpretar a anseio popular, o resultado já estará decidido. Aí caberá ao Congresso dar o próximo passo. O Brasil não aguenta mais tanto sofrimento.
Referências:
ALVES, JED. O fim do crescimento econômico e a década perdida 2.0, Ecodebate, 28/11/2014

ALVES, JED. A cassação da chapa Dilma-Temer, Ecodebate, 10/01/2014


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/05/2017

A perigosa dança das espadas

por Carlos Fino

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Espada em riste, ao lado do rei Salman, rodeado de príncipes e altos dignitários, o presidente norte-americano Donald Trump participou a semana passada em Riad na tradicional cerimônia da ardah, ritual guerreiro com que a corte saudita costuma acolher os mais destacados visitantes estrangeiros.

A imagem fica a marcar aquela que foi a primeira viagem externa do seu controverso mandato. Não pela originalidade - George W Bush já havia feito o mesmo em 2008 - mas pelo manifesto alinhamento de Trump com um dos mais consagrados vetores da política externa americana – o apoio praticamente incondicional à Arábia Saudita.

ALIANÇA ESTRATÉGICA

Esse apoio vem desde a Segunda Guerra Mundial, quando Roosevelt, no regresso de Ialta, em Fevereiro de 1945, se encontrou, a bordo do cruzador Quincy, na entrada do canal de Suez, com o velho rei Ibn Séoud.

Ao cabo de várias horas de conversa, foi então selada uma aliança estratégica – o chamado pacto do Quincy - que dura até hoje: exploração do petróleo saudita por companhias americanas em troca de garantia militar à estabilidade do reino, a qual passou assim a fazer parte dos “interesses vitais” dos EUA.

Um acordo que inclui a sistemática renovação do armamento saudita. Só desta vez, foram assinados contratos no montante de 110 mil milhões de dólares, podendo chegar, na próxima década, a 380 mil milhões – simplesmente a maior venda de armas de toda a história dos Estados Unidos! 

Beneficiários diretos – os grandes fabricantes americanos de armamento: Lockheed Martin, Boeing e Raytheon, General Dynamics, Northrop Grumman e BAE Systems, entre outros.

UM SILÊNCIO GRITANTE

Arautos da luta pela liberdade, a democracia e os direitos humanos no mundo inteiro, os americanos observam em relação ao regime saudita,– um dos mais despóticos do mundo - um prudente e gritante silêncio. 

Em 2011, escrevia o xeique Nim al-Nimr, da minoria xiita da Arábia Saudita:

“Desde que nascemos, vivemos sob opressão, intimidados, perseguidos, vivemos sob terror... Somos continuadamente acusados, ameaçados e agredidos por todos os lados… Nosso peito continuará nu diante das balas deles; nossas mãos, desarmadas; mas nosso coração estará sempre cheio de fé. Não nos resta alternativa: viver nesta terra como homens livres e dignos, ou ser enterrados com honra depois do martírio. Nunca deixaremos de denunciar a opressão que vocês nos impõem e de reivindicar nossos direitos.”

Foi executado em Janeiro de 2016, juntamente com outros 46 sauditas, a maioria sunitas, acusados de terrorismo e/ou conspiração.

Quem, hoje, ainda se lembra deles? Quem, incluindo os media, refere o conflito interno saudita, a sistemática violação dos direitos das mulheres, a ausência de democracia, as numerosas violações de direitos humanos?

Obama ainda ensaiou algumas reticências, mas a Trump, completamente centrado nos negócios, isso não lhe deve ter sequer passado pela cabeça. 

PERIGO DE GUERRA 

Pior um pouco: no mesmo dia em que era anunciada a vitória do candidato moderado nas eleições do Irão, o presidente Hassan Rouhani, o secretário de estado americano Rex Tillerson, falando em Riad ao lado do seu homólogo saudita, numa conferência de imprensa de que foram barrados os media americanos, denunciava as violações dos direitos humanos... Onde? no Irão!

Uma situação verdadeiramente espantosa, que só tem paralelo no apelo à luta contra o terrorismo feito por Trump numa conferência de líderes árabes, reunidos em Riad, sem qualquer alusão às responsabilidades sauditas no problema.

Como se não se soubesse que os sauditas, promotores do wahabismo, uma doutrina sunita extremista, têm financiado ao longo dos anos as escolas corânicas onde se têm formado muitos dos radicais jiahdistas. E dado apoio financeiro, ainda que indirecto, juntamente com o Qatar, a grupos islamitas radicais.

Ao proceder assim, a administração americana respaldou inteiramente a política saudita de fazer do Irão o principal inimigo na luta pela hegemonia regional, deixando entender que afinal o terrorismo sunita pode ser até útil na luta contra os xiitas, seja no Irão, na Síria ou no Iémen...

A reforçada aliança dos EUA com a Arábia Saudita que esta visita de Trump consagrou traz assim no bojo poucas perspectivas de travagem do radicalismo e o perigo renovado de um confronto direto com o Irão. 

Certamente não por acaso, logo a seguir à passagem de Trump por Riad, Teerão anunciou ter construído uma terceira fábrica subterrânea para a construção de mísseis balísticos. É a perigosa dança das espadas.

Política do retorno: o choque global entre nacionalismo e federalismo

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Há uma analogia impressionante entre a atual crise econômica e política global e a crise mundial que ocorreu entre as duas guerras mundiais. Então a grande depressão de 1929, a ascensão de Mussolini e Hitler ao poder e a Segunda Guerra Mundial, a atual instabilidade financeira e econômica, o crescimento do populismo e do nacionalismo, o declínio do consentimento com as instituições democráticas, inclusive na Europa, os ataques terroristas, os massacres do ISIS em nome do culto da morte - um traço muito semelhante ao nazismo - o retorno da guerra na periferia da Europa, da Ucrânia à Síria ...
Lucio LeviAmbas as crises têm suas origens sistêmicas: a mudança no modo de produção e a mudança na ordem política internacional. A primeira metade do século XX viu a transição da primeira para a segunda fase do modo industrial de produção. As técnicas de produção introduzidas pela linha de montagem e a correia transportadora juntamente com o uso de petróleo, eletricidade e o motor de combustão interna provocaram o declínio dos Estados-nação e o surgimento de Estados multinacionais e federais de dimensão macro-regional. A ascensão dos EUA e da então União Soviética ao topo da hierarquia do poder mundial marcou essa transição da época dos Estados-nação para um dos estados macro-regionais e para os organismos internacionais que agruparam vários estados-nação. A UE e outras organizações internacionais fazem parte deste processo.
O final do século XX viu o início da transição do industrial para o modo científico de produção. O conhecimento científico é a força motriz do progresso econômico e social. A automação alivia os trabalhadores da fadiga industrial, aumenta a quantidade de bens necessários para satisfazer as necessidades materiais e reduz seu preço. A revolução nas tecnologias de comunicação e transportes intensifica os fluxos de bens, capitais, pessoas, informações e modelos culturais. A revolução científica gera mercados globais e uma sociedade civil correspondente e Estados anões soberanos, mesmo os maiores que nós chamávamos de superpotências, e cria a necessidade de instituições globais. É de notar que a unificação europeia e a globalização pertencem a duas fases diferentes da história:
Essas mudanças no modo de produção foram acompanhadas por mudanças igualmente profundas nas estruturas políticas. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o sistema estadual europeu codificado pela paz de Westphalia (1648) foi substituído em 1945 por um sistema mundial liderado pelos EUA e pela URSS. Os Estados-nação da Europa se tornaram satélites das duas superpotências. Hoje, a transição para uma ordem mundial multipolar está em andamento. A história e a teoria das relações internacionais ensinam que nos sistemas multipolar um equilíbrio de poder tende a tomar forma em que é improvável que um estado individual possa se tornar mais forte do que a coalizão de todos os outros membros do sistema. Este sistema favorece o respeito das regras partilhadas. Por outro lado, se um poder dominante se forma, é encorajado a desconsiderar os direitos dos outros.
O que distingue o sistema mundial multipolar emergente de sistemas internacionais similares como o concerto europeu (1648-1945) é que os Estados têm de enfrentar um desafio sem precedentes: a concorrência com os atores não estatais - em primeiro lugar, as oligarquias financeiras e as empresas multinacionais, mas Também o crime organizado e o terrorismo internacional - para o poder de decisão a nível internacional.
Ao contrário dos ciclos anteriores da política mundial, que sustentou a ordem internacional com a estabilidade hegemônica de um único grande poder - primeiro a pax britannica no sistema europeu de estados, então o pax americana no sistema mundial - hoje está em curso uma redistribuição de poder entre um Pluralidade de atores globais, nenhum dos quais tem recursos para aspirar à hegemonia mundial. Se essa tendência for confirmada, poderemos afirmar que a Guerra Fria foi o último conflito de estilo antigo sobre a hegemonia global. Portanto, a partir de agora, a ordem internacional só será assegurada através da cooperação baseada em normas jurídicas entre os protagonistas da política mundial e do multilateralismo no âmbito das instituições internacionais. Esta é a maneira pela qual a política pode recuperar a mão sobre a economia e governar a globalização. A crise financeira e econômica global marcou o fracasso do conceito de mercados auto-regulados e ideologia neoliberal. A política, que havia desistido de governar a economia e a sociedade, está re-ocupando o palco.
Duas respostas políticas à globalização estão competindo: nacionalismo e globalismo.
O nacionalismo representa um retorno ao passado com sua variedade de desastres.CLIQUE PARA TWEET
A única alternativa é o ajustamento das instituições políticas à dimensão tomada pela economia e pela sociedade, de modo a preparar o caminho para uma globalização regulamentada. No período de transição de hoje, os EUA e a Rússia representam a velha ordem, montando a onda de nacionalismo com o objetivo de defender seus antigos privilégios. Mas seus esforços são prometidos à derrota, desde que é impossível ir de encontro ao curso da história.

Por outro lado, a China e a UE têm interesses vitais na manutenção de mercados abertos, regulando seu modus operandi e corrigindo suas distorções. Embora seja incompleta, a experiência da UE é um modelo para o mundo. Provou ser capaz de governar um espaço multinacional através de instituições tendendo a evoluir em uma direção federal. A UE conseguiu associar os princípios de uma economia de mercado aos do Estado de direito e do constitucionalismo e difundi-los a nível europeu. Se se tornar um ator global a falar a uma só voz, adquirirá o poder de promover valores democráticos para além das suas fronteiras, quer onde a democracia nunca tenha sido alcançada (China, Arábia Saudita, Coreia do Norte, Sudão etc.) , Turquia, Hungria, Polônia etc.
A nível global, está a delinear-se uma nova linha divisória entre as forças progressistas e reacionárias - uma que se faz eco da traçada pelo Manifesto de Ventotene: a linha divisória entre nacionalismo e federalismo.

Lucio Levi é Professor de Ciência Política e Política Comparada na Universidade de Torino, Itália. É também Diretor Científico do International Democracy Watch promovido pelo Centro de Estudos sobre Federalismo e Membro do Comitê Federal da União dos Federalistas Europeus. É ex-presidente do Movimento Federalista Europeu na Itália (2009-2015).