"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 17 de junho de 2017

Os desafios da África Subsaariana em sete figuras

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

população da África Subsaariana, Europa, ALC, China e Índia

A ONU alerta para a situação dramática de cerca de 13 milhões de pessoas que estão ameaçadas pela fome na região do Sahel e, também, de 26 milhões de pessoas ameaçadas na África Subsaariana. O Sahel abarca uma faixa de 500 a 700 km de largura e 5 400 km de extensão, tendo o deserto do Saara, ao norte, e a savana do Sudão, ao sul; o oceano Atlântico, a oeste, e o mar Vermelho, a leste. O Sahel perpassa áreas de 16 países: Gâmbia, Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Nigéria, Camarões, Chade, Sudão, Sudão do Sul, Eritreia, Etiópia, Djibouti e a Somália.
Se o quadro já é dramático hoje em dia – como também mostram as notícias de milhares de migrantes e refugiados que tentam atravessar o mar Mediterrâneo para chegar à Europa – a situação tende a se agravar com o crescimento populacional e a degradação do meio ambiente.
O gráfico acima, com dados da Divisão de População da ONU, mostra que, em 1950, a população da Europa era de 549 milhões de habitantes, de 544 milhões na China, de 376 milhões na Índia, 179 milhões na África Subsaariana e 169 milhões na América Latina e Caribe (ALC). A população somada de Europa, China, Índia e ALC era de 1,6 bilhão de habitantes, sendo que a população da África Subsaariana naquela época representava cerca de 10% deste total. Mas como o ritmo da transição demográfica foi diferente em termos nacionais e regionais a distribuição espacial e o ritmo de crescimento populacional mudou a configuração. Em 2016, a Europa já apresentava o segundo menor contingente de habitantes (641 milhões) a China e a Índia ficavam com primeiro e segundo lugar e a África Subsaariana, com 1 bilhão de habitantes ficava em terceiro lugar.
O grande destaque das próximas décadas será o rápido crescimento demográfico da África. Em 2046, a população da África Subsaariana deve atingir 2 bilhões de habitantes, ficando em primeiro lugar na comparação acima. Em seguida viria a Índia com 1,7 bilhão de habitantes, superando a China (com 1,36 bilhão), a ALC com 779 milhões de habitantes, superando a Europa com 711 milhões de habitantes.
Na segunda metade do século XXI, a população deve decrescer na maior parte do mundo, mas vai continuar aumentando na África Subsaariana e deve atingir 3 bilhões de habitantes em 2072 e 4 bilhões de habitantes em 2100. Ou seja, no final do século, a população da África Subsaariana será equivalente à soma da população de Índia, China, Europa e ALC também com 4 bilhões de habitantes. Portanto, entre 2016 e 2100 a população da África Subsaariana vai passar de 1 bilhão para 4 bilhões de habitantes, colocando um grande desafio para a redução da pobreza, a melhoria da qualidade de vida e a sustentabilidade ambiental. Há que destacar que o Norte da África já está em uma fase mais adiantada da transição demográfica e deve apresentar estabilidade do crescimento até o final do século.
O aumento da população da África Subsaariana vai provocar um grande aumento do número de habitantes por km2. A densidade demográfica de um país não é um bom indicador de desenvolvimento humano e econômico. Podemos encontrar países altamente desenvolvidos com baixa e alta densidade e países muito pobres com baixa e alta densidade demográfica. Alguns países com alta densidade demográfica (como Japão, Coréia do Sul, Singapura, Holanda, etc.) possuem alto índice de desenvolvimento humano (IDH). Mas também há aqueles com alto nível de IDH e baixíssima densidade demográfica (como Canadá, Austrália, etc.). De outro lado, existem países com baixa densidade demográfica e baixo IDH (como Angola, Gabão, Mauritânia, etc.), assim como países com alta densidade demográfica e baixo IDH (Bangladesh, Índia, Ruanda, etc.). O gráfico abaixo mostra que a densidade demográfica do mundo era de 57 habitantes por km2, em 2015.

densidade demográfica da África Subsaariana, mundo, regiões e China

Abaixo deste valor estavam a África Subsaariana (44 hab/km2), Europa (33 hab/km2) e ALC – América Latina e Caribe (32 hab/km2). Acima da média, estavam a Ásia (142 hab/km2), e a China (147 hab/km2). No final do século, a África Subsaariana poderá ter uma densidade de 180 hab/km2. A Europa (29 hab/km2) e a ALC (36 hab/km2) terão poucas modificações. A China terá uma grande queda da densidade (107 hab/km2) até 2100. A Ásia terá aumento da densidade até meados do século e depois queda até 2100, com 156 hab/km2. A alta densidade demográfica da África Subsaariana na segunda metade do século XXI vai trazer grandes desafios o bem-estar humano e ambiental.
Nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) está expresso uma meta de crescimento econômico de 7% ao ano para os países pobres, como os da África Subsaariana. Porém, o que se tem visto na atual década é uma redução das taxas de crescimento econômico, como mostram os dados do FMI. Na média da região, o crescimento ficou em torno de 3% em 2016, o que representa quase uma estagnação da renda per capita.

crescimento anual do PIB da África Subsaariana

O gráfico abaixo, do Banco Mundial, mostra que houve uma redução da pobreza no mundo em desenvolvimento, entre 1990 e 2012, em especial no leste asiático (que inclui a China). A pobreza foi reduzida também na África Subsaariana, mas em ritmo bem menor do que nas outras regiões e, atualmente, concentra a maior quantidade de pobres do mundo.

poverty reduction in Africa lags other regions

Portanto, a África é o continente que apresenta as maiores taxas de pobreza e de pessoas passando fome no mundo e a produção per capita de alimentos ficou abaixo de outras regiões do mundo. O mais grave é que o futuro pode estar comprometido em decorrência da degradação ambiental, da perda de biodiversidade e dos danos às terras aráveis e à produção de comida. A grave situação da África é retratada no relatório “No ordinary matter: conserving, restoring and enhancing Africa’s soils” (2014), que mostra que o continente sofre com uma tripla ameaça: a) degradação do solo; b) colheitas fracas e c) uma população crescendo em ritmo acelerado.
O relatório diz que a estabilidade política, a qualidade ambiental, a fome, a pobreza tem a mesma raiz e, no longo prazo, uma solução fundamental, passa pela restauração do mais básico de todos os recursos, o solo. A recomendação básica é que os governos africanos e os doadores internacionais invistam na gestão da terra e do solo, criando incentivos sobre os direitos à terra seguros para incentivar o cuidado e a gestão adequada dos terrenos agrícolas. Além disso, o relatório recomenda aumentar o apoio financeiro para melhorar a gestão sustentável da terra.

o declínio da produtividade dos solos africanos

O declínio da produtividade dos solos acontece no contexto de uma crise hídrica. 40% dos africanos (mais de 330 milhões de pessoas) não têm acesso à água potável, e metade das pessoas que vivem em áreas rurais não tem acesso. O problema mais grave é na África subsaariana, onde mais de 320 milhões de pessoas não têm acesso. Neste momento, a África subsaariana é a única região do mundo que não acompanha os objetivos de desenvolvimento do milênio da ONU de 2015.

percentagem da população com acesso à agua tratada

O maior rio da África, o Nilo, não consegue mais atender a demanda populacional. A bacia hidrográfica do rio Nilo, abrange uma área de 3.349.000 km² e não dá conta de abastecer as populações dos 10 países que, em maior ou menor proporção, dependem de suas águas. A população conjunta de Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi, Sudão, Sudão do Sul, Etiópia e Egito era de 84,7 milhões de habitantes em 1950, passou para 411,4 milhões em 2010, devendo chegar a 877,2 milhões em 2050 e 1,3 bilhão de habitantes em 2100, segundo dados da divisão de população das Nações Unidas. Os problemas de fome, perda de biodiversidade e pobreza humana e ambiental são, cada vez mais, graves na região. A capacidade de carga da bacia hidrográfica do rio Nilo já não suporta o consumo da população atual e suas necessidades econômicas. Já existem diversos conflitos pela disputa da água entre os povos e os países.
Segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), até 2025, daqui a 8 anos, 1,8 bilhão de pessoas sofrerão escassez absoluta de água e dois terços do mundo viverão sob condições de estresse hídrico. O avanço da seca e dos desertos, o aumento da escassez de água e a diminuição da segurança alimentar podem provocar um enorme “tsunami” de refugiados climáticos e migrantes.
Para resumir todos estes problemas, a Footprint Network apresenta duas medidas que são muito úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” do mundo. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. A unidade de medida é o hectare global (gha).
A Pegada Ecológica per capita da África sempre foi baixa e se manteve praticamente estável, pois estava em 1,3 gha em 1961 e passou para 1,4 gha em 2013. Porém, a biocapacidade sofreu uma grande queda devido ao crescimento populacional. A biocapacidade per capita estava em 3,7 gha em 1961 e caiu para 1,2 gha em 2013. Assim, o continente africano que tinha um superávit ambiental até 2005, passou a uma situação de déficit nos últimos anos. E o pior é que este déficit deve aumentar com o crescimento da população e da economia. Na África Subsaariana não dá para falar em decrescer o consumo, pois o padrão de vida já é muito baixo. Todavia, a estabilização da população e o futuro decrescimento demográfico deveriam estar nos planos de ação das políticas públicas para evitar a perda acelerada da biocapacidade.

pegada ecológica e biocapacidade per capita: África

Todos os dados acima mostram que tanto a África como um todo, quanto a África Subsaariana já vivem em uma situação crítica em termos econômicos, sociais e ambientais, mas os desafios vão se avolumar nas próximas décadas. Sem dúvida, é preciso aprofundar a discussão sobre população, desenvolvimento e ambiente, pois o desequilíbrio é grande e pode jogar a África num cenário de colapso, com grande repercussão global.
Referências:
ALVES, JED. O crescimento demoeconômico da África, degradação do solo e insegurança alimentar, Ecodebate, 17/07/2015

ALVES, JED. A densidade demográfica na África Subsaariana, Ecodebate, 15/06/2016

IMF. Africa’s Rise—Interrupted?, 2016

Ryan Andrews. All About Drinking Water, Precision Nutrition, 2012

Water Crisis In Africa, 2012

Word Bank. POVERTY IN A RISING AFRICA, 2016


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/06/2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Compreendendo a estagnação atual

Por Robert Shiller

Robert ShillerDesde a "Grande Recessão" de 2007-2009, os principais bancos centrais do mundo mantiveram taxas de juros de curto prazo em níveis próximos de zero. Nos Estados Unidos, mesmo após os recentes aumentos da Reserva Federal, as taxas de curto prazo permanecem abaixo de 1%, e as taxas de juros de longo prazo sobre os principais títulos do governo são igualmente baixas. Além disso, os principais bancos centrais apoiaram os mercados em um nível recorde comprando enormes montantes de dívida e mantendo-o.
Por que é necessário todo esse apoio à vida econômica, e por que por tanto tempo?
Seria uma simplificação excessiva dizer que a Grande Recessão causou isso. As taxas de juros reais (ajustadas pela inflação) de longo prazo realmente não atingiram níveis baixos durante o período 2007-2009. Se olharmos para uma parcela do rendimento do Tesouro a dez anos nos últimos 35 anos, vemos uma tendência descendente razoavelmente estável, com nada particularmente incomum sobre a Grande Recessão. A taxa de rendimento foi de 3,5% em 2009, no final da recessão. Agora é pouco mais de 2%.
O mesmo acontece com as taxas de juros reais. Durante a Grande recessão, o rendimento de segurança protegido contra a inflação do Tesouro a dez anos atingiu quase 3% em um ponto e foi quase 2% no final da recessão. Desde então, o rendimento TIPS de dez anos diminuiu principalmente e ficou baixo, em 0,5% em maio de 2017.
O fato de que as pessoas estão dispostas a amarrar seu dinheiro por dez anos a baixas taxas sugere que houve uma longa tendência em relação ao pessimismo, refletida na recente popularidade do termo "estagnação secular" para descrever uma economia perpetuamente fraca. Depois que o ex-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, usou o termo em um discurso de novembro de 2013 no Fundo Monetário Internacional, o colunista do New York Times, Paul Krugman, pegou isso e foi viral a partir daí.
Embora a estagnação secular tenha se tornado um meme cinco anos após a crise financeira de 2008, o termo em si é muito mais antigo. Ele apareceu pela primeira vez com o economista da Universidade de Harvard Alvin Hansen no discurso presidencial à American Economic Association, em dezembro de 1938, e em seu livro publicado no mesmo ano.
Hansen descreveu a "essência da estagnação secular" como "recuperações doentes que morrem em sua infância e depressões que se alimentam de si mesmas e deixam um núcleo duro e aparentemente imobilível de desemprego". Quando Hansen pronunciou seu discurso, ele esperava que a estagnação econômica da economia dos Estados Unidos persistisse indefinidamente. A depressão que havia começado com o crash do mercado de valores de 1929 aproximava-se do décimo ano, e a Segunda Guerra Mundial ainda não havia chegado. Só depois que a guerra começou, em 1939, a estagnação terminou.
A teoria da estanquia secular da era da Grande Depressão de Hansen baseou-se em uma observação sobre a taxa de natalidade dos EUA, que era excepcionalmente baixa na década de 1930, depois de ter declinado dramaticamente até o final da década de 1920. Menos partos perpetuaram a estagnação, pensou Hansen, porque as pessoas não precisavam gastar tanto em crianças e sentiam menos necessidade de investir no futuro. Na verdade, de acordo com as estatísticas do Banco Mundial, a taxa de natalidade média global também caiu desde a crise financeira de 2008. Mas a baixa fertilidade não teve nada a ver com essa crise em particular, uma vez que as taxas de natalidade têm diminuído constantemente durante a maior parte de um século.
Outra explicação é que a crise de 2008 está perdida em nossas mentes, sob a forma de um maior medo de que eventos raros, mas conseqüentes, de "cisnes negros" possam ser iminentes, apesar das medidas de confiança do consumidor moderadamente fortes e da volatilidade do mercado financeiro relativamente baixa (com algumas exceções ). Um artigo recente da Universidade de Nova York de Julian Kozlowski, Laura Veldkamp e Venky Venkateswaran argumenta que é racional abrigar tais medos, porque uma vez que um evento anteriormente impensável realmente ocorre, é justificado não esquecer.
Minha própria teoria sobre a estagnação atual se concentra na angústia crescente sobre avanços rápidos em tecnologias que poderiam eventualmente substituir muitos ou a maioria de nossos empregos, possivelmente alimentando a enorme desigualdade econômica. As pessoas podem estar cada vez mais relutantes em gastar hoje porque têm medos vagos quanto à sua empregabilidade a longo prazo - medos que talvez não sejam mais importantes nas mentes quando respondem a pesquisas de confiança dos consumidores. Se for esse o caso, eles podem necessitar cada vez mais de estímulos sob a forma de taxas de juros baixas para mantê-los gastos.
Um redemoinho perene de boas novas após uma crise pode incutir uma espécie de otimismo sem graça, sem realmente eliminar o medo de outra crise no futuro. Os políticos e os meios de comunicação alimentam esse otimismo com narrativas corajosas de que o público em geral não está em posição de classificar ou confirmar.
Desde o ano de 2012, o patrimônio e os mercados imobiliários têm atingido novos registros. Mas o mesmo tipo de coisa aconteceu regularmente na Grande Depressão: as mídias de notícias estavam constantemente reportando recordes para um indicador econômico ou outro. A pesquisa da Proquest 'News and Newspapers para o período 1930-1939 encontra 10.315 artigos com as palavras "high record". A maioria dessas histórias são sobre variáveis ​​econômicas. Em 1933, no fundo da depressão, foram registrados altos recordes para a produção de petróleo; Preços do trigo, do ouro e dos preços das mercadorias; Consumo de cigarros; Depósitos postais; Vendas ou lucros de empresas individuais; e assim por diante.
Tais relatórios corajosos podem dar às pessoas alguma esperança de que as coisas melhorem em geral, sem aliviar o medo de que ainda possam sofrer um evento economicamente catastrófico. Salvo medidas de estímulo excepcionalmente fortes, essa sensação de pressentimento limitará seus gastos. A psicologia narrativa nos ensinou que não há contradição: as pessoas podem manter narrativas paralelas e conflitantes ao mesmo tempo. Quando as pessoas estão imaginando cenários de desastres, os formuladores de políticas devem responder de acordo.

Robert Shiller, Professor de Economia da Universidade de Yale e economista-chefe da MacroMarkets LLC, é co-autor, com George Akerlof, de Animal Spirits: How Human Psychology Drives the Economy and Why It Matters for Global Capitalism.

O panorama das mudanças religiosas na América Latina

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


evolution of religious identities in Latin America

Quinhentos anos depois da chegada do catolicismo, com Cristóvão Colombo, em 1492, e com Pedro Álvarez Cabral, em 1500, a América Latina passa por uma grande transformação em seu panorama religioso. David Stoll, em livro publicado em 1990, já perguntava, de maneira um tanto quanto precoce e presciente, se a América Latina estava se tornando evangélica.
De fato, os dados ainda não indicavam uma transição religiosa na década de 1980. Contudo, já havia algumas indicações de mudanças no panorama religioso que foram ficando claras nas décadas seguintes. Havia um terremoto ocorrendo na estrutura religiosa latino-americana, pois, os católicos estavam em declínio, os evangélicos e os sem religião em ascensão e outras religiões também cresciam, tornando o continente mais plural e diversificado.
Trabalho de Somma et. al. (2017), usando dados da pesquisa do Latinobarómetro, traz um mapeamento do perfil religioso das populações adultas de dezessete países latino-americanos entre 1996 e 2013. Os autores consideram que o panorama religioso atual da região é altamente dinâmico e está se tornando cada vez mais plural na maioria dos países. As mudanças não só derivam do crescimento dos evangélicos, mas também do forte aumento dos indivíduos sem religião.
O país menos católico da América Latina é o Uruguai, que também tem a maior proporção de habitantes que se declaram sem religião. A transição religiosa no Uruguai acontece entre católicos e os sem religião, mostrando um país altamente secularizado. A quantidade de filiações evangélicas é muito pequena, perdendo, inclusive para as outras religiões não cristãs.
Os países com maiores percentuais de evangélicos são Guatemala e Honduras. Em seguida, aparecem El Salvador e Nicarágua. Estes quatro países são aqueles em que a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos está mais adiantada.
Numa etapa intermediária da transição estão Chile, Brasil e Costa Rica, sendo que a proporção de católicos no Chile é menor do que no Brasil, mas tanto o Chile como a Costa Rica possuem maior proporção de pessoas que se declaram sem religião, enquanto no Brasil os evangélicos ocupam o segundo lugar.
Panamá, Bolívia, México, Argentina, Peru, Venezuela e Colômbia são países que estão numa etapa inicial da transição religiosa, pois a presença dos católicos, embora em queda relativa, ainda se encontra na faixa de 70 a 80%. Os dois países que apresentam as menores mudanças são Equador e Paraguai, onde os católicos continuam com mais de 80% das filiações religiosas, como pode ser visto na figura abaixo.

proportion of religious groups by country

O que se conclui é que o monopólio católico na América Latina está se diluindo, enquanto cresce, em diferentes ritmos, os evangélicos (especialmente os pentecostais) e os sem religião, mostrando a força do processo de secularização na região. Nunca houve tanta desafeição e tantas pessoas que se declaram sem religião.
O artigo de Somma et. al. (2017) mostra que a América Latina é um dos continentes que apresenta maior dinamismo no cenário religioso e onde há muito o que se debater nos temas da secularização e da competição religiosa. O quadro nacional é bastante diverso, mas o fato incontestável é que a competição entre igrejas e a apostasia vão definir o futuro religioso da América Latina.
Referências:
ALVES, JED. Uma projeção linear da transição religiosa no Brasil: 1991-2040, Ecodebate, 11/01/2017https://www.ecodebate.com.br/2017/01/11/uma-projecao-linear-da-transicao-religiosa-no-brasil-1991-2040-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
STOLL, David. Is Latin America turning protestant? The politics of Evangelical Growth. University of California Press, 1990

Nicolas M. Somma, Matíuas A. Bargsted, Eduardo Valenzuela. Mapping religious change in Latin America, Latin American Politics and Society, 2017


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/06/2017

terça-feira, 13 de junho de 2017

Transição religiosa e secularização nos Estados Unidos

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves


filiações religiosas nos Estados Unidos: 1974-2052

Não apenas a América Latina e o Brasil estão passando por uma transição religiosa e por um processo de aumento da pluralidade. Os Estados Unidos (EUA), de maneira diferente dos seus vizinhos continentais do Sul, também estão passando por uma reconfiguração no seu panorama religioso.
Os EUA são o terceiro maior país do mundo em tamanho de população (estão atrás apenas da China e da Índia) e são o maior país cristão do mundo. De origem WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), os cristãos norte-americanos se dividem em três grandes ramos: protestantes tradicionais, protestantes pentecostais e católicos.
O gráfico acima, do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), mostra que, em 1974, os protestantes (tradicionais e pentecostais) representavam 63% da população, os católicos 26%, os sem religião (unaffiliated) 7% e as outras religiões 4%. Quarenta anos depois, em 2014, os protestantes caíram para 46%, os católicos caíram para 21% e os sem religião subiram para 23%. As outras religiões se mantiveram no mesmo patamar.
O mesmo gráfico do PRRI apresenta uma projeção linear para meados do atual século. A novidade seria a posição majoritária do grupo sem religião que ultrapassaria os protestantes em 2050 e seria o grupo majoritário (embora sem maioria absoluta). Os católicos ficariam abaixo de 20% em 2050 e as outras religiões manteriam a mesma proporção de 4%. Ou seja, os EUA passariam por um forte processo de secularização e podendo chegar a mais de 40% de pessoas sem afiliação religiosa (aproximadamente o mesmo percentual que existe hoje no Uruguai).
Pesquisa do Instituto PEW mostra, com pequenas diferenças e maior desagregação, o quadro religioso nos EUA entre 2007 e 2014. Nota-se que a maior queda ocorreu entre os protestantes tradicionais que passaram de 18,1% para 14,7% entre 2007 e 2014. No mesmo período, a queda dos protestantes pentecostais foi de 26,3% para 25,4% e dos católicos de 23,9% para 20,8%. O maior aumento aconteceu entre os sem religião (unaffiliated) que passou de 16,1% em 2007 para 22,8% em 2014. As outras religiões também subiram, passando de 4,7% para 5,9%, no mesmo período.

filiações religiosas nos Estados Unidos: 2007-2014

Pesquisa do Instituto Gallup mostra que o percentual de americanos que acreditam em Deus diminuiu de 90% no início do atual século para 79% em 2016. As pessoas que não estão certos da existência de Deus (aproximadamente equivalente a agnósticos) passou de algo em torno de 7% para 10% e os ateus passaram de2% para 11% no mesmo período.


O gráfico abaixo, também do Instituto Gallup, mostra que o pertencimento a alguma igreja, sinagoga ou mesquita nos Estados Unidos tem diminuído desde a época da Segunda Guerra Mundial até 2016, passando de aproximadamente dois terços para pouco mais da metade.


Se o quadro geral é de aumento do percentual de pessoas sem religião e de redução da frequência religiosa, no caso dos jovens esta tendência é mais acirrada. O número de estudantes universitários sem afiliação religiosa triplicou nos últimos 30 anos, de 10% em 1986 para 31% em 2016, de acordo com dados do CIRP Freshman Survey, mostrado em matéria Scientific American (25/05/2017).

percentagem de alunos de ensino superior que se declaram sem religião - EUA

No mesmo período, o número de pessoas que frequentavam serviços religiosos caiu de 85% para 69%. O gráfico abaixo mostra como o número de alunos cuja preferência religiosa é “Nenhum” mudou ao longo do tempo. O recuo da religião começa por volta de 1990 e acelera, com uma média de quase 1 ponto percentual por ano. Essas tendências fornecem um retrato da atual geração de jovens adultos e fornecem um quadro da rápida secularização nos EUA.
Outro estudo do “The Public Religion Research Institute” (PRRI), denominado “EXODUS. Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back” (2016) mostra que o crescimento no número de pessoas sem religião cresce em todas as idades, mas principalmente entre os jovens. Este estudo considera que o número de pessoas sem religião é maior do que o comumente mostrado nas pesquisas tradicionais.


Os Estados Unidos continuam sendo o maior país cristão do mundo e devem manter este posto ao longo das próximas décadas. Mas tende a ser um país cada vez mais secularizado, desencantado (na expressão de Max Weber) e com alto grau de pluralidade religiosa. Mas caminha para ter um percentual de população “descrente” semelhante a outros grandes países, como China, Japão, Suécia, Suíça e Reino Unidos – todos com elevado número de pessoas que se declaram sem religião.
Provavelmente, o crescimento da parcela da população sem religião deve ter influência sobre o conjunto da América Latina e do Brasil. O debate sobre “desencantamento”, “reencantamento” “ressacralização e secularização deve ganhar volume, especialmente se consideramos que todo o continente americano está ficando mais diverso e plural.
Referências:
Robert P. Jones THE CHANGING AMERICAN LANDSCAPE, PRRI, 2015

Pew Research Center’s new Religious Landscape Study, 2015

GALLUP. Most Americans Still Believe in God Gallup, Social Issues, June 29, 2016

GALLUP. Five Key Findings on Religion in the US Gallup, December 23, 2016

Allen Downey. Data from a nationwide survey shows students who list their affiliation as “none” has skyrocketed, May 25, 2017

Robert P. Jones, Daniel Cox, Betsy Cooper, and Rachel Lienesch, EXODUS. Why Americans are Leaving Religion, and Why They’re Unlikely to Come Back,The Public Religion Research Institute” (PRRI), September 22, 2016


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Investimento, lucro e crescimento

por Michael Roberts

Estou sempre lembrando a estreita ligação entre o movimento de investimentos (despesas com os meios de produção) e crescimento econômico. Em minha opinião, a evidência é esmagadora (O nexo lucros-investimento) de ser o investimento o principal fator de oscilação em booms e recessões, não o consumo pessoal como muitos keynesianos focam. E também é um fator chave para o crescimento de longo prazo da produtividade do trabalho.
Uma nova análise pelo Levy Forecasting Center, um instituto que segue de perto os pontos de vista de Keynes, Kalecki e Hyman Minsky, também confirma este ponto de vista. O relatório comenta que “sem surpresa, o investimento fixo líquido é fortemente relacionado com o crescimento.”

O abrandamento do crescimento real do PIB desde o fim da Grande Recessão está claramente ligado ao abrandamento do crescimento do investimento empresarial

O investimento das empresas nos EUA estão paralisados ​​e a idade dos meios de produção existentes aumentou pois equipamento envelhecido e a tecnologia não são substituídos.

Como Levy coloca: “Em 2009, o investimento líquido em percentagem do capital social caiu para seu nível mais baixo na era pós-Segunda Guerra Mundial e o capital nominal até diminuiu. Embora o investimento líquido tenha se recuperado um pouco na recuperação, seu nível como proporção do estoque de capital permanece bem abaixo da média histórica e diminuiu ligeiramente em 2015.”

Levy lembra que o crescimento do investimento contribui para o crescimento da produtividade do trabalho mais diretamente através de capital aprofundando o aumento de serviços de capital por hora trabalhada. "Isso tinha adicionado quase 1 ponto percentual por ano para o crescimento da produtividade do trabalho no período pós-guerra para 2010. Mas desde 2010, aprofundamento de capital tem subtraído do crescimento da produtividade e contribuiu um pouco mais para a desaceleração de 1948-2010 a 2010-15 de fez o abrandamento do crescimento da produtividade total dos fatores.” Em outras palavras, era apenas a desaceleração ou redução na enorme quantidade de investimento que fez o dano, ainda mais do que qualquer desaceleração no uso de novas técnicas.

No entanto, o Instituto Levy, em seguida, não consegue explicar este abrandamento do investimento. Ele argumenta que “este abrandamento do investimento de base ampla é amplamente associado com a baixa taxa de crescimento do produto, tanto nos Estados Unidos e no mundo”. Este é um argumento circular. O abrandamento do crescimento econômico é devido à desaceleração do investimento empresarial, e que por sua vez é devido à desaceleração do crescimento!
Este é próximo ao argumento da tese de Keynes-Kalecki (defendida pelo Instituto Levy), que é o investimento que cria o lucro, e não vice-versa. Esta visão absurda deve ser combatida com o realista que é o movimento da rentabilidade e os lucros que movem o investimento empresarial. E como eu e outros temos demonstrado empiricamente, isto é o que acontece em uma economia capitalista.
Por exemplo, Andrew Kliman e Shannon Williams mostraram que a queda na taxa de lucro (taxa de retorno sobre o investimento em ativos fixos) corporativos dos EUA contas totalmente para a queda em sua taxa de acumulação de capital. E concluem que“Desde a queda de longo prazo na lucratividade, não desviou, é o que levou à tendência de des-acumulação, é improvável que a tendência possa ser revertida na ausência de uma recuperação sustentada da rentabilidade”.
De fato, se delinear a taxa de lucro nos setores produtivos não financeiros da economia, nós achamos que a rentabilidade tem lutado para aumentar desde a década de 1980 e assim junto com ele, o crescimento do investimento empresarial abrandou. Anwar Shaikh, em seu último livro, Capitalismo, ajusta os dados oficiais para medir a taxa de lucro nos EUA e mostra que a rentabilidade estagnou em melhor desde o início de 1980, subindo para um pico modesto em 1997, antes de cair de volta para baixo do pós-guerra até 2008.

Da mesma forma, o economista marxista australiano Peter Jones mostrou que, se os componentes 'fictícios' da rentabilidade são removidos do cálculo da taxa corporativa de lucro dos EUA, então a taxa 'subjacente' de lucro nunca foi inferior (http://gesd.free.fr/jonesp13.pdf ). A rentabilidade do capital produtivo se consolidou durante os anos 1990, mas, em seguida, mergulhou a níveis baixos para o pós-guerra, pouco antes da Grande Recessão, com pouca recuperação desde então.
A taxa de lucro dos Estados Unidos (excluindo 'lucros fictícios')%

A análise de Levy também torna o argumento válido que a alta dívida corporativa está impedindo novos investimentos. No financeiro do setor corporativo a dívida em relação ao (ou seja, a receita de vendas) 'valor agregado' está em um nível historicamente elevado e isso está pesando sobre os gastos de capital.

O investimento das empresas dos EUA no primeiro trimestre de 2017 teve um ligeiro aumento, depois de cair por quatro trimestres. Que se seguiu um retorno ao território positivo para os lucros corporativos no segundo semestre de 2016 depois de passar negativo no início de 2016.

Será que isso significa que o investimento e o crescimento econômico estão definidos para pegar finalmente? Não de acordo com Levy. Levy  (em oposição à sua própria tese Kalecki) observa que “olhando para trás, o declínio capex em 2015-16 e no rebote posterior ficou para o declínio e recuperação de lucros.” Mas Levy avalia que o “os lucros das empresas de recuperação é provável que parem por meio do ano e os gastos de capital seguirão com um atraso”. Se isso acontecer, a economia dos EUA vai ser a posição para baixo, não para cima, até o final do ano.