"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Quatro obras-primas do regionalismo nordestino ambientadas na caatinga

Listarei quatro obras que se passam no sertão do Nordeste, 3 nordestinos e apenas um mineiro entre os autores selecionados. A ideia é apenas mencionar a obra e alguns detalhes para que o leitor possa fazer a leitura.


Vidas Secas:
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Obra mais reconhecida do alagoano Graciliano Ramos que tornou reconhecido como escritor depois dos 40 anos. Escritor que prezava por limitar em tamanho ao máximo o texto, enxugava seus rascunhos. Vidas Secas combina o ambiente com os personagens, o livro é um ciclo, inicia-se e termina com os personagens fugindo da estiagem. Obra magistral, focada numa família de retirantes, o autor destina capítulos do livro a cada um dos personagens inclusive à cachorra Baleia. Como primará o regionalismo o foco são os miseráveis.

O Quinze:

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Livro de estreia da cearense Rachel de Queiro apenas aos 20 anos de idade, recordações da grande seca vivida pelo Nordeste no ano de 1915. Rachel procura dar sentimentos aos personagens que não existem em Ramos. Há fuga como em Vidas Secas. A trama de um núcleo na capital cearense principalmente na parte que trata da migração dos retirantes para outras regiões do Brasil. Desperta comoção a parte em que um filho de família de retirantes morre envenenado ao se alimentar com mandioca.

Os Cangaceiros:

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Obra em que o paraibano José Lins do Rego dá uma descida ao sertão, fugindo um pouco do seu ambiente natural, a Zona da Mata. A trama se centra na vida de uma mãe de cangaceiros e o respeito que estes têm pela genitora. A obra também envolve beatos e coronéis.

Os Jagunços:

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Romance escrito pelo mineiro Afonso Arinos de Melo Franco apenas um ano após a Guerra de Canudos, tema do livro. Arinos romanceia a vivência no arraial além de noticiar fatos reais, do conflito amplamente divulgados na época. Dada a época de publicação, os Jagunços não pertence ao ciclo de 1930, como os citados anteriormente, na verdade pode ser enquadrado como uma obra pré-regionalista, como o romance O Cabeleira de Franklin Távora.

Éramos 10

Segundo a Folha de S. Paulo apenas 10 deputados estiveram presentes na leitura da denúncia contra Michel Temer, talvez presidente da República, apresentada pelo Ministério Público Federal. "Temer é Cunha", tem muitos aliados, mas são aliados de gaveta, aparecem apenas  naqueles momento em que se precisa de número.

Por falar em MPF, ontem mesmo, Temer escolheu para chefiar a função essencial à justiça a procuradora Raquel Dodge, que fora a segunda colocada na eleição interna entre os procuradores de justiça. Nada contra a senhora Raquel, que a maioria dos brasileiros passa a ouvir o nome apenas neste momento, mas é difícil para a nação engolir, em dias turbulentos, a escolha da segunda colocada na lista, e não do primeiro, como vinha ocorrendo. Mas é a Constituição. Vazaram áudios sobre uma suposta pressão de Janot, que apoiaria Nicolao Dino e, se falava do apoio de políticos como José Agripino Maia (DEM-RN) à Raquel. São tantos áudios vazados nos últimos tempos... Nesta crise atual segue a máxima dA Arte de Furtar, teme-se os que são responsáveis por punir.

Temer vai ser julgado previamente pelo plenário da Câmara, só com o aval da casa o Supremo passara a dar seguimento à denúncia oferecida pro Rodrigo Janot. Se obtiver 172 votos a denúncia para, somente retornando a tramitar após o desligamento do pmdbista da presidência.

Em julgamento político o teor da denúncia pouco serve, trata-se de apoio. Interessante o momento que vive o Brasil. Parece uma pequena amostragem do que ocorrera em 2016 com Dilma Rousseff, os processos são similares. Não é a primeira vez que se repete, mas em tão pouco tempo a população perceberá pela mídia como os discursos se invertem.

Temer é mais fraco em popularidade até do que Dilma, mas não sofreu ainda com manifestações de ruas que recebessem aparência de espontaneidade, apenas os movimentos das centrais sindicais ligadas ao PT. Com isso fica fácil montar estratégias de barganha.


Fim da recessão no Brasil

por Lauro Chaves Neto* na Página do Cofecon

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A economia brasileira está vivendo uma alternância entre a divulgação na melhora de alguns dos seus indicadores e a persistência da incerteza diante da instabilidade do quadro político. A questão dominante é se o Brasil já iniciou a retomada da sua Economia.

Agora, em 2017, persistem inúmeras dúvidas sobre o quadro recessivo no país, muitos querem saber se já o deixamos para trás; do mesmo modo, no ano eleitoral de 2014, havia dúvidas a respeito da recessão no Brasil, se ela existia e qual sua gravidade. Naquela época, o debate girava em torno da queda no Produto Interno Bruto como consequência da Nova Matriz Econômica do Governo Dilma/Mantega.

Existia um quadro de estagnação sem uma piora aguda, mesmo o desemprego mantinha-se em níveis considerados baixos. Apenas em agosto de 2015, o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE) da FGV, que tem como objetivo analisar os ciclos econômicos brasileiros, diagnosticou o ciclo recessivo com a intensidade da queda do PIB e com as demissões em massa em todos os setores.

Dependendo do risco de o Brasil permanecer em recessão e dos critérios de comparação, o quadro recessivo atual é um dos piores, senão o pior, da História Nacional.

Os dados referentes ao primeiro trimestre de 2017 mostram uma leve melhora, com um pequeno crescimento da produção industrial. O comércio e a atividade de serviços também apresentaram tímida reação. 

Nada suficiente para caracterizar uma saída consistente da recessão, já que o resultado positivo se deve, principalmente, ao comportamento excepcional da agricultura e ao crescimento das exportações. As elevações também ocorreram sobre uma base deprimida, após meses seguidos de deterioração econômica. Existe ainda o agravante de que esse quadro ocorreu antes da delação da JBS e da divulgação dos seus áudios e vídeos.

As incertezas quanto ao andamento das reformas e à sustentação do governo foram um duro golpe no leve otimismo que se iniciava entre investidores e empresários. A mudança nas expectativas já se materializou com revisões para baixo nas já reduzidas projeções do mercado para o crescimento econômico de 2017 e 2018. Não há ainda a perspectiva de novo encolhimento no PIB, porém a já lenta retomada pode seguir o ritmo de uma tartaruga grávida. 



*Lauro Chaves Neto – Presidente do Conselho Regional de Economia, Consultor, Professor da UECE e Doutor em Desenvolvimento Regional.

Refugiados – Filhos de um Deus menor


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Foto: Murad Sezer/Reuters 2015

A imagem do corpo de Aylan Kurdi, o pequeno sírio de três anos morto em naufrágio no Mediterrâneo, que as ondas depositaram numa praia da Turquia, em Setembro de 2015, ainda está viva na memória de todos.

A comoção foi mundial, contribuindo para chamar à atenção do problema dos refugiados, a chegar em ondas cada vez maiores às fronteiras europeias.

Feita em condições altamente precárias – pequenos barcos superlotados, sem um mínimo de condições de segurança – a travessia do Mediterrâneo já então se tinha tornado uma aventura muito perigosa para os migrantes e um negócio altamente lucrativo para as redes de traficantes que exploram o desespero alheio.

Segundo dados da ACNUR, a agência das Nações Unidas para os refugiados, só nesse ano de 2015, morreram nas diferentes rotas do norte de África para a Europa 3771 pessoas.

De então para cá, alguma coisa mudou, mas não o essencial, nem, infelizmente, para melhor. Em 2016, atingiu-se inclusive um número recorde de mortos em naufrágios de refugiados e migrantes – 4600!

UE impreparada e desunida

A União Europeia mostrou-se totalmente impreparada para enfrentar o problema, acabando cada país por decidir sozinho se queria ou não acolher essas pessoas em fuga e em que número.

“A desorganização e o sistema de asilo extremamente disfuncional da Europa contribuíram para agravar a crise dos refugiados”, afirmou o então dirigente da ACNUR, António Guterres, hoje secretário-geral das Nações Unidas.

A Alemanha de Merkel chegou a admitir 500.000 migrantes, dizendo que poderia receber anualmente outros tantos. Mas, pressionada interna e externamente, Berlim acabou por recuar, preferindo tentar coordenar esforços a nível europeu.

Sem grande resultado, já que vários países do centro e leste do continente – casos da Hungria e da Polónia, por exemplo – se opuseram a uma política unificada, opondo-se à entrada dos migrantes e recusando a atribuição de quotas nesta matéria.

Não espanta por isso que dos 160.000 refugiados propostos acolher pela Comissão Europeia, só uma parte tenha sido até agora efetivamente colocada.

Medidas restritivas

Perante a pouca vontade de vários dos países membros de abrir as portas ao acolhimento, medidas de carácter restritivo foram entretanto adoptadas.

Primeiro, a Europa fechou a rota dos Balcãs, provocando um refluxo da onda migratória para a Grécia, onde dezenas de milhar de pessoas ainda aguardam uma decisão sobre o seu destino.

Os europeus assinaram também um controverso acordo com a Turquia, pelo qual Ankara, em troca de ajuda financeira – 6 mil milhões de euros – se compromete a estancar o fluxo migratório que passa pelo país e a receber de volta os migrantes que lhe sejam devolvidos.

A partir daí, intensificou-se o tráfico a partir da Líbia, onde depois do derrube de Kadhafi – patrocinado pelos próprios europeus – ainda reina o caos, com dois governos a disputar supremacia.

Pior crise de sempre

Em termos globais, o problema dos refugiados e migrantes conheceu mesmo, de 2015 para cá, um agravamento.
A ACNUR fala de “pior crise de sempre”, com um total de 65,6 milhões de pessoas deslocadas (40,3 milhões de deslocados internos e 25,3 milhões de refugiados) – o número mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial.

Desses, mais de metade são crianças ou jovens com menos de 18 anos, muitos dos quais viajam sozinhos.

E quem mais ajuda é quem menos pode – os países perto das zonas de conflito como a Turquia e a Jordânia (vizinhos da Síria, cuja guerra “produz” o maior número de refugiados) ou o Paquistão (do lado do Afeganistão (outro centro de conflito permanente).

A Alemanha – que desde o início da crise deu asilo a 669.500 pessoas, é o único país desenvolvido que integra, em oitavo lugar, o top 10 dos países de acolhimento.

Este é o grande paradoxo da situação – 84 por cento dos refugiados encontram-se nos países em desenvolvimento, três dos quais – República Democrática do Congo, Etiópia e Uganda – são mesmo os que se encontram registados na ONU como tendo o menor índice de desenvolvimento humano!

Hostilidade crescente

Vários especialistas argumentam que os refugiados, sendo como são, na sua maioria, gente jovem e empreendedora, podem dar um impulso às economias dos países de acolhimento – contribuindo, além da demografia, para reforçar (e não enfraquecer) os respectivos sistemas fiscais e de segurança social.

Essas considerações não são todavia atendidas por grande parte da opinião pública, que prefere ver nos imigrantes um fator de concorrência no emprego e um perigo em termos culturais, além de poderem veicular apoio ao terrorismo de inspiração islâmica.

Assim, nada, para já – nem os apelos da ONU, nem as orações do Papa, nem os esforços abnegados das organizações não governamentais – parece poder deter o muro de hostilidade ditada pelo egoísmo que entretanto se levantou em vários países contra a corrente migratória.

A imagem de Aylan Kurdi ainda está na memória de todos. Mas em termos de centros decisórios e até de grande público, parece que já poucos comove.

De vários Estados europeus a alguns países africanos e asiáticos, passando pelos EUA, erguem-se novas barreiras e os migrantes são rejeitados como se fossem filhos de um Deus menor.

Tornaram-se afinal, neste início de novo milénio, um índice da nossa (des)humanidade.