"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Perspectivas para a economia da América Latina e Caribe em 2019

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A América Latina e Caribe (ALC) continua apresentando baixo crescimento econômico e deve enfrentar dificuldades ainda maiores em 2019


O relatório da CEPAL, “Balanço preliminar das economias da América Latina e do Caribe”, edição 2018, considera que a região enfrenta um cenário econômico global complexo, no qual se espera uma redução na dinâmica de crescimento, tanto nas economias desenvolvidas quanto nas emergentes, acompanhada de um aumento da volatilidade dos mercados financeiros internacionais. Soma-se a isso o enfraquecimento estrutural do comércio internacional, agravado pelas tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China.
Os dados trimestrais indicam que, no nível sub-regional, o desempenho se mantém diferenciado, conforme gráfico abaixo. Na América do Sul, o crescimento continua bem abaixo do desempenho do México e da América Central. Para o ano de 2018, o crescimento econômico da ALC é estimado em 1,2%, o que implica uma leve desaceleração ante 1,3% de 2017. O crescimento se reduziu na América do Sul (de 0,8% em 2017 para 0,6% em 2018) como na América Central, Cuba e Haiti (de 3,4% para 3,2%). Por outro lado, o México cresce a um ritmo ligeiramente superior, passando de 2,1% em 2017 para 2,2% em 2018. No Caribe a recuperação do impacto de desastres naturais de 2017 contribui para uma aceleração do crescimento (de 0,2% em 2017 para 1,9% em 2018).

taxa de crescimento da América Latina e Caribe

Na verdade o relatório da CEPAL vem confirmar a tendência de baixo crescimento da ALC, já mostrada pelos dados do FMI. O gráfico abaixo mostra que a ALC e o Brasil cresceram abaixo da média mundial nas últimas 4 décadas. E o mais grave é que a diferença, em relação à média mundial, nunca foi tão grande como na atual década. Isto quer dizer que a região está diminuindo o ritmo e se distanciando do que ocorre no resto do mundo.
Considerando a década 2010-19, o crescimento médio do mundo deve ficar em 3,85% ao ano, da ALC em 2,34% aa e do Brasil em 1,53% aa. Desta forma, a ALC deve crescer apenas 60,7% do que cresce o mundo e o Brasil cresce apenas 40%. Indubitavelmente, o desempenho do Brasil na atual década é tão ruim que puxa a média da ALC para baixo.

crescimento do PIB no mundo, América Latina e Caribe e Brasil

Isto fica claro no desempenho diferenciado da renda per capita (em termos constantes em poder de paridade de compra – ppp) nos diversos grupos de países. Nota-se que Brasil e ALC possuem renda per capita muito próximas, mas o Brasil que tinha uma renda per capita de US$ 11,2 mil acima dos US$ 10,7 mil da ALC, em 1980, ficou abaixo da média do continente desde 2014 e teve uma renda per capita de US$ 14,4 mil contra US$ 14,5 mil da ALC, em 2018.

crescimento da renda per capita América Latina e Caribe, Brasil e Ásia

Mas comparando com as economias avançadas, a ALC e o Brasil estão ficando cada vez mais distantes. Em 1980, as economias avançadas tinham uma renda per capita 2,2 vezes superior do que a renda da ALC e passou para 3 vezes em 2018. Já as economias emergentes da Ásia que tinham uma renda per capita de somente 12% da renda da ALC em 1980, passou para 76,3% em 2018.
Assim, fica claro que a ALC e o Brasil são economias submergentes e estão ficando para trás em relação ao desempenho médio do mundo. Para 2019, a estimativa do FMI é de uma renda per capita de US$ 14,7 mil para o Brasil, US$ 14,8 mil na ALC e de US$ 18,7 mil no mundo. Mas o que estava ruim tende a ficar pior, pois a perspectiva que a economia da ALC tenha um desempenho mais fraco em 2019 do que em 2018. Só com grandes transformações na região a ALC poderá romper com o ritmo de marcha lenta e passar a acompanhar o ritmo do resto do mundo, que também enfrentará dificuldades em 2019.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referência:
CEPAL. Balance Preliminar de las Economías de América Latina y el Caribe, 2018


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/01/2019

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Para além do PIB


por Joseph Stiglitz

Há pouco menos de dez anos, a Comissão sobre a Aferição do Desempenho Económico e do Progresso Social emitiu o relatório intitulado Mismeasuring nossas vidas: Por que o PIB não se somaO título resume muito bem a situação: O PIB não é uma medida de bem-estar adequada. O que medimos afecta o que fazemos e, se medirmos a coisa errada, faremos a coisa errada. Se nos concentrarmos apenas no bem-estar material - por exemplo, na produção de bens, e não na saúde, na educação e no ambiente - ficaremos distorcidos da mesma forma que essas medidas são distorcidas; tornamo-nos mais materialistas. Há pouco menos de dez anos, a Comissão sobre a Aferição do Desempenho Económico e do Progresso Social emitiu o relatório intitulado Mismeasuring nossas vidas: Por que o PIB não se soma.O título resume muito bem a situação: O PIB não é uma medida de bem-estar adequada. O que medimos afecta o que fazemos e, se medirmos a coisa errada, faremos a coisa errada. Se nos concentrarmos apenas no bem-estar material - por exemplo, na produção de bens, e não na saúde, na educação e no ambiente - ficaremos distorcidos da mesma forma que essas medidas são distorcidas; tornamo-nos mais materialistas.

Ficámos muito satisfeitos com a recepção do nosso relatório, que incentivou um movimento internacional de académicos, de membros da sociedade civil e de governos a construir e a empregar métricas que reflictam uma concepção mais ampla de bem-estar. A OCDE elaborou o documento Better Life Index, que inclui um conjunto de métricas que reflectem de forma mais adequada o que constitui o bem-estar e que que conduz ao bem-estar. Apoiou igualmente um sucessor da Comissão, o grupo de peritos de alto nível sobre a avaliação do desempenho económico e do progresso social. Na semana passada, no sexto Fórum Mundial sobre Estatística, Conhecimento e Políticas (da OCDE) realizado em Incheon, Coreia do Sul, o grupo divulgou seu relatório, Para além do PIB: Medir o que é importante para o desempenho económico e social.
O novo relatório destaca vários temas, como a confiança e insegurança, que apenas foram sucintamente abordadas pelo relatório Mismeasuring Our Lives e explora outros temas, como a desigualdade e a sustentabilidade, de forma mais aprofundada. Além disso, explica de que forma as métricas inadequadas conduzem a políticas deficientes em muitos domínios. Indicadores melhores teriam revelado os efeitos altamente negativos e possivelmente duradouros da profunda recessão pós-2008 na produtividade e no bem-estar, caso em que os decisores políticos talvez não estivessem tão “apaixonados” pela austeridade, que reduziu os défices fiscais, mas reduziu ainda mais riqueza nacional, devidamente aferida.
Os resultados políticos nos EUA e em muitos outros países nos últimos anos representam um reflexo do estado de insegurança em que muitos cidadãos comuns vivem e ao qual o PIB presta pouca atenção. Uma série de políticas focadas estritamente no PIB e na prudência orçamental alimentaram esta insegurança. Consideremos os efeitos das “reformas” dos regimes de pensões que forçam as pessoas a assumirem mais riscos, ou das “reformas” do mercado de trabalho que, em nome da “flexibilização”, enfraquecem a posição negocial dos trabalhadores, conferindo mais liberdade aos empregadores para os despedirem, o que, por sua vez, conduz à redução dos salários ao aumento da insegurança. A melhoria das métricas permitiria, no mínimo, avaliar estes custos em relação aos benefícios, forçando eventualmente os decisores políticos a acompanhar essas mudanças de outras destinadas a melhora a segurança e a igualdade.
Impulsionado pela Escócia, um pequeno grupo de países formou agora aWellbeing Economy Alliance. A esperança é que os governos que colocam o bem-estar no centro da sua agenda redireccionem os seus orçamentos em conformidade. Por exemplo, um governo da Nova Zelândia orientado para o bem-estar dedicaria mais atenção e mais recursos à pobreza infantil.
As métricas melhorada constituiriam também uma importante ferramenta de diagnóstico, ajudando os países a identificar os problemas antes que as situações se tornem incontroláveis e a selecionar os instrumentos certos para a resolução dos problemas. Se, por exemplo, os EUA se tivessem concentrado mais na saúde do que apenas no PIB, a redução da esperança de vida entre as pessoas sem estudos superiores, e especialmente entre as pessoas das regiões desindustrializadas dos EUA, teria sido aparente há anos.
Da mesma forma, as métricas relativas à igualdade de oportunidades só recentemente expuseram a hipocrisia da alegação norte-americana de ser uma terra de oportunidades: É verdade que qualquer pessoa pode progredir, desde que nasça numa família rica e tenha pais brancos. Os dados revelam que os EUA estão repletos das chamadas armadilhas da desigualdade: As pessoas nascidas na camada inferior irão provavelmente permanecer nesse nível. Se quisermos eliminar essas armadilhas da desigualdade, é necessário ter antes conhecimento da sua existência e, então, determinar o que as cria e mantém.
Há pouco mais de um quarto de século, o Presidente dos EUA, Bill Clinton, adoptou como base “colocar as pessoas em primeiro lugar”. É notável a dificuldade que existe em actuar neste sentido, mesmo numa democracia. Os interesses das empresas e outros interesses especiais procuram sempre garantir que os seus interesses venham em primeiro lugar. O substancial corte nos impostos dos EUA, promulgado pela administração Trump no ano passado, é um exemplo por excelência. As pessoas comuns — a classe média cada vez menos numerosa, mas ainda vasta — têm de suportar um aumento de impostos, e milhões delas perderão o seguro de saúde, a fim de financiar um corte de impostos para multimilionários e empresas
Se queremos colocar as pessoas em primeiro lugar, temos que saber o que é importante para elas, o que melhora o seu bem-estar e como poderemos proporcionar mais do que quer que seja. A agenda de medição Beyond GDPcontinuará a desempenhar um papel fundamental no sentido de ajudar-nos a alcançar estes objectivos fundamentais.

Joseph E. Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, é professor universitário na Universidade de Columbia e economista-chefe do Instituto Roosevelt. Seu livro mais recente é Globalização e seus descontentes revisitados: anti-globalização na era Trump.

Os caminhos invertidos das economias da Venezuela e do Vietnã

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

PIB da Venezuela e do Vietnã

A única coisa em comum entre a Venezuela e o Vietnã é a letra V. Mas, parece que no Vietnã o V significa vitória e na Venezuela atual o V significa vergonha. Não existe destino preestabelecido para as nações. Quem estava em cima pode cair e quem estava embaixo pode subir. Tudo depende do projeto nacional que é adotado e da capacidade de união do povo para conquistar uma boa qualidade de vida.
O Vietnã conviveu com um logo ciclo de guerras e pobreza. Em meados do século XIX, o Vietnã foi invadido e dominado pela França, dando início a quase um século de ocupação na chamada “União da Indochina” – Vietnã, Laos e Camboja. Em 1940, os alemães ocuparam a França, que perdeu controle sobre suas colônias da Indochina. Em 1941 os japoneses invadiram o Vietnã. Terminada a guerra, em agosto de 1945, o líder comunista Ho Chi Minh protestando contra os colonizadores levou avante a luta pela independência criando a República Democrática do Vietnã.
Porém, a França não desistiu de manter o poder colonial, provocando a Guerra da Indochina que durou quase uma década, terminando em 1954 com a divisão do Vietnã em dois países: o Vietnã do Norte, presidido por Ho Chi Minh e apoiado pela China e o Vietnã do Sul, anticomunista, apoiado pelos Estados Unidos. Em 1965, os primeiros soldados americanos desembarcaram no país ampliando a Guerra do Vietnã, que causou milhões de vítimas e durou até 1975. Com as derrotas da França e dos Estados Unidos, foi criada a República Socialista do Vietnã, em julho de 1976.
Todavia, nos dez anos seguintes, o país viveu o período da “economia subsidiada” (Bao Cap), marcado pela coletivização da agricultura, pelos campos de reeducação forçada, pelo aumento da pobreza e pela carestia generalizada. Houve a fuga de centenas de milhares de refugiados vietnamitas, conhecidos “boat people”. Em 1986, o país estava falido e com uma inflação de mais de três dígitos (700% ao ano).
O Vietnã estava ficando para trás não só em relação às economias mais avançadas (Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura), mas também em relação à Tailândia, Malásia e, especialmente a China que iniciou suas reformas em dezembro de 1978, conforme propostas por Deng Xiaoping. Para mudar este quadro, o partido comunista, em 1986, iniciou o período chamado de “renovação” (Doi Moi), permitindo a substituição da coletivização das terras e o controle estatal generalizado pela paulatina abertura econômica do país, com reformas liberalizantes, privatizações e atração de investimentos externos – uma economia de mercado com orientação socialista, seguindo o exemplo da China.
A partir destas mudanças, o Vietnã deu início a um período de crescimento acelerado da economia com redução da pobreza. O gráfico acima, com dados do FMI, mostra que, em 1980, o Produto Interno Bruto (em preços correntes, em poder de paridade de compra – ppp) do Vietnã, de US$ 23,6 bilhões, era 5 vezes menor do que o da Venezuela, de US$ 117,2 bilhões. Mas nas décadas seguintes esta diferença foi se reduzindo e houve praticamente empate em 2014, quando os dois países tiveram um PIB pouco acima de US$ 500 bilhões (mas ainda com uma ligeira vantagem da Venezuela). A partir de 2015 a economia do vietnamita superou a economia venezuelana. Em 2018, o PIB do Vietnã, de US$ 705,8 bilhões foi mais de 2 vezes superior ao PIB de US$ 331 bilhões da Venezuela. Para 2023, o FMI estima que o PIB do Vietnã, de US$ 1,1 trilhão, será mais de 3 vezes superior ao PIB de US$ 320 bilhões da Venezuela.
O gráfico abaixo, também com dados do FMI, mostra que a renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) da população vietnamita passou de US$ 1 mil em 1980 para US$ 6,6 mil em 2018. O crescimento médio da renda per capita foi de 5,1% ao ano, no período. Para 2023, o FMI estima que o Vietnã terá uma renda per capita de US$ 8,7 mil. Todos os indicadores demográficos e sociais melhoraram e o Vietnã deixou de ser um país em guerra e gerador de refugiados. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,475 em 1990 para 0,694 em 2017. A taxa de homicídios foi de 3,8 por 100 mil em 2016, segundo a OMS.

renda per capita da Venezuela e do Vietnã

Estas estatísticas do Vietnã contrastam fortemente com as estatísticas da Venezuela, pois o país latino-americano segue uma rota inversa ao do país asiático. Em 1980, a Venezuela tinha uma renda per capita de 18,3 mil, a maior renda entre os países da América Latina, sendo 18 vezes superior à renda per capita do Vietnã. Em 2018, a renda per capita da Venezuela tinha caído pela metade (US$ 9,3 mil), sendo pouco maior do que a do Vietnã. Mas a estimativa do FMI aponta que antes de 2023 a população vietnamita terá uma renda per capita superior à renda per capita venezuelana.
Embora a Venezuela tenha reservas petrolíferas equivalentes às da Arábia Saudita, a produção de petróleo vem caindo ano a ano e os danos ambientais são cada vez maiores, como mostra reportagem do site Bloomberg: “Os vazamentos são sinais visíveis do que deu tão horrivelmente errado com a toda poderosa PDVSA. A estatal não publica estatísticas, mas ambientalistas, analistas e trabalhadores mantêm listas aparentemente intermináveis de exemplos de vazamentos de petróleo – desencadeado por válvulas quebradas, juntas rasgadas, canos rachados e assim por diante – que, segundo eles, contaminaram cursos de água, terras agrícolas e infiltrações em aquíferos” (24/11/2018).
O jornal El País relata que a crise levou à criação de serviços de apoio para lidar com casos de depressão, suicídios e um desânimo generalizado: “Em pouco mais de uma década, o alto índice de bem-estar subjetivo que o instituto Gallup atribuía aos venezuelanos desapareceu. A Venezuela costumava estar entre os países mais felizes. Em 2006, quando foi feita a primeira medição, 59% da população considerava que sua situação era pujante — a percentagem mais alta na América Latina —, e apenas 4% indicavam que estavam em condição de sofrimento. Uma década depois, a situação se inverteu: os pujantes caíram para 13%, índice menor apenas que o do Haiti” (24/11/2018).
O contraste entre os dois Vs é realmente chocante. O país asiático, liderado pelo partido comunista, tem conseguido sucesso econômico e social, não tem mais problemas de inflação e de refugiados e tem um taxa de violência muito baixa. Já o país do socialismo bolivariano tem sido um fracasso total em termos econômicos e sociais, tem assistido ao aumento da pobreza e da fome, tem provocado a fuga de milhões de refugiados e deve bater o recorde de hiperinflação em 2019 com um valor superior a 10.000.000% (dez milhões), depois de ter uma hiperinflação de 2,5 milhões em 2018. A taxa de homicídios, uma das mais altas do mundo, foi de 49,2 por 100 mil em 2016, segundo a OMS.
O problema da Venezuela se comparado ao Vietnã, não é a ideologia socialista, pois os comunistas da nação asiática estão conseguindo gerenciar bem o país e elevar o padrão de vida da população vietnamita. Parece que o problema da Venezuela é a existência de uma cleptocracia autoritária e incompetente que está provocando uma mobilidade social descendente como nunca se viu na história. Até o final de 2019, estima-se que cerca de 5 milhões de venezuelanos terão abandonado o país natal.
Nicolás Maduro começa um segundo mandato de seis anos no dia 10 de janeiro de 2019, tendo sido reeleito em um pleito boicotado pela oposição e denunciado como fraudulento pelos EUA, pela União Europeia e por diversos países da América Latina. Os chanceleres do Grupo de Lima, reunidos no dia 04 de janeiro, assinaram um documento em que não reconhecem a “legitimidade do novo mandato do ditador venezuelano”, Nicolás Maduro, por considerar que as últimas eleições presidenciais, em maio, não contaram com as garantias necessárias de um pleito “livre, justo e transparente”. O México foi o único dos 14 países presentes que não assinou o documento, assinado por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. Também a Assembleia Nacional da Venezuela, que faz oposição ao executivo, declarou no dia 05/01, que o novo mandato de Nicolás Maduro é ilegítimo.
A Venezuela está caminhando para o colapso total e fica mais difícil desconsiderar os erros e as desculpas de Maduro e do sistema Chavista criado para manter o controle centralizado e com forte presença militar. Se o regime bolivariano não abrir mão do poder autocrático e ouvir a vontade da maioria dos habitantes, haverá a continuidade da destruição ampla, geral e irrestrita das mais elementares condições de vida da população venezuelana.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:
Fabiola Zerpa. Venezuela Is Leaking Oil Everywhere, Bloomberg, 24/11/2018

Florantonia Singer. Depressão e suicídios, os outros números vermelhos da Venezuela, El País, 24/11/2018https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/22/internacional/1542906296_805078.html

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 09/01/2019

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Ruínas e ideologia

Felipe Narita – Foto: Arquivo pessoal
Jeremiah Morelock – Foto: Arquivo pessoal


Felipe Ziotti Narita é pesquisador de pós-doutorado da USP
Jeremiah Morelock é sociólogo do Boston College (EUA)

1989 e as profundas rupturas socioeconômicas dos anos 1980 não são apenas momentos da queda – seja a implosão da sociedade industrial, o fim da modernidade, o fim da história e das ideologias ou o colapso dos conflitos sociais empoeirados da Guerra Fria com a derrubada do Muro de Berlim. Os eventos também trouxeram promessas associadas ao que o sociólogo Ralf Dahrendorf chamou de “sociedades abertas”, contando com formatos de democracias liberais (sistema de freios e contrapesos, falibilismo, representação, garantias constitucionais, direitos civis e políticos, pluralidade das formas de vida, etc.) e, devemos acrescentar, a correlata expansão das estruturas do mercado neoliberal com novas culturas de consumo.

Um momento globalista, então, parecia materializar os sonhos de uma comunidade cultural renovada. A historiadora Or Rosenboim demonstrou a complexa genealogia do globalismo, enfatizando seu desenho a partir da tênue fronteira entre aspectos pluralistas e universalistas, ou seja, entre a vigência de critérios normativos de reconhecimento da diversidade cultural e o risco de imposição de formas unilaterais de padrões políticos e socioeconômicos. Não obstante essa contradição imanente, houve esforços para que as decisões nacionais não pudessem ser separadas de suas implicações globais à luz da crescente interdependência entre os países. Essa conexão tensa marca o conteúdo básico do globalismo e, por isso, uma rede transnacional de associações, ONGs, fóruns mundiais e acordos foi desenvolvida, sob o pano de fundo das transformações nos meios de comunicação e de transporte, substituindo a lógica binária da Guerra Fria pelos novos horizontes inclusivos das “sociedades abertas”.

Os anos 1990 vincularam essas promissões ao credo de estabilidade a longo prazo das democracias liberais. Com reparos pontuais e incursões militares assépticas das potências ocidentais pelo planeta (sob a nova racionalidade das “intervenções humanitárias”), a democracia tendia a amansar os ímpetos políticos. Contudo, domar as paixões políticas não foi um processo linear. Conforme argumentamos em nosso capítulo intitulado “Esfera pública e sistema-mundo”, publicado no livro Critical Theory and Authoritarian Populism, a garantia da estabilidade democrática exigia o equacionamento das promessas de participação e representação política, bem como a capacidade de gerir a aceleração da modernização neoliberal (tecnologia, comunicação, consumo, costumes, etc.) e as oscilações do mercado financeiro. Esses dois movimentos (democracia liberal e neoliberalismo), ainda que carreguem conteúdos distintos, estão profundamente entrelaçados na experiência histórica aberta nas três décadas seguintes, construindo o mundo da vida de uma geração que nasceu e amadureceu em meio àquelas promessas ungidas sobre a carcaça das autocracias na periferia do capitalismo.

Se o governo chinês foi confrontado pelos protestos de massa de 1989, o desmantelamento dos coletivismos burocráticos no Leste europeu (o chamado “socialismo real”) em Praga, Budapeste, Berlim e Leipzig (onde uma onda de violência esteve perto de ocorrer) foi protagonizado pelas multidões e bandeiras nacionais que sagraram o ritual coletivo da queda. Esses eventos conferem à data boa parte do significado histórico presente no imaginário político, como uma espécie de emanação autêntica e em boa medida pacífica da sociedade civil (ainda que em Timișoara, Bucareste e Sibiu as mobilizações tenham implicado uma espiral de violência nas ruas). Além disso, junto à tradicional narrativa do protagonismo civil, certamente devemos observar a completa ineficiência do antigo establishment político, que Stephen Kotkin chama de “sociedade incivil”, realçando que a incapacidade econômica e política dos governos também desempenhou um papel importante no colapso daqueles regimes.

Em uma perspectiva mais ampla, a construção democrática também articulou na Coreia do Sul as campanhas de junho de 1987, que forçaram lideranças militares a concessões referentes a eleições presidenciais diretas, pavimentando o caminho da transição democrática. Na América Latina, com a dissolução das ditaduras militares, o período marcou os impasses da transição democrática em países como Bolívia, Argentina, Brasil, Chile e Paraguai. O quadro normativo pluralista e as expectativas ligadas ao horizonte da cidadania e à tolerância civil, então, formaram referências importantes na gramática moral das novas democracias políticas e seus horizontes inclusivos.

Esse cenário reforçou uma narrativa pedestre e estereotipada na ideologia do capitalismo contemporâneo. As iluminações da razão burguesa e do juste milieu liberal encarnado na nova cidadania passaram a contrastar com uma mistura de estagnação, atraso, ineficiência, pouca competitividade e despotismo do passado. No horizonte, ganhava forma uma espécie de limbo socioeconômico que deveria ser cruzado pelos países periféricos rumo à completa integração e redenção das “sociedades abertas” dos países centrais. Contudo, para além desse imaginário, contradições históricas matizaram e colocaram em movimento um drama dialético encenado sobre as ruínas. No poema Totul (“Tudo”) de 1984, a escritora romena Ana Blandiana expõe o leitor a um inventário de itens da sociedade de massas, em uma estranha simbiose entre o espetáculo (como objetos da Adidas e imagens na televisão) e a degradação (comidas estragadas, enlatados baratos, óleos de qualidade duvidosa, corrupção, mercado negro, etc.). Não se trata apenas da estilização, em registro irônico e crítico, do cotidiano no fim da Era Ceauşescu. Trata-se, também, de um enfoque sobre as contradições subjacentes às novas aspirações de consumo e de democratização durante a transição.

O teórico cultural croata Ozren Pupovac chama a transição de uma caricatura temporal, ou seja, um estado de suspensão que represa o presente em uma espécie de “começo sem fim”, entre a fuga dos velhos coletivismos burocráticos e as promessas de uma nunca terminada inclusão junto aos centros capitalistas

Nesse sentido, o teórico cultural croata Ozren Pupovac chama a transição de uma caricatura temporal, ou seja, um estado de suspensão que represa o presente em uma espécie de “começo sem fim”, entre a fuga dos velhos coletivismos burocráticos e as promessas de uma nunca terminada inclusão junto aos centros capitalistas. É como se a “condição pós-socialista” oscilasse entre um “não mais” (deixando o passado socialista) e um “não ainda” (ou seja, países ainda não plenamente integrados à democracia liberal e, no caso do antigo Leste, à imaginada Europa), carregando uma marca evidente do passado. As narrativas de Svetlana Aleksievitch vão ainda além, tematizando justamente as inseguranças diante da precariedade instalada nas antigas repúblicas soviéticas com o caos econômico de 1992 e a grave crise financeira e social russa de 1998. Então, em vez do “socialismo real”, o “neoliberalismo real”.

Na América Latina, privatizações e duros ajustes fiscais diante do déficit fiscal e do combate à inflação crônica marcaram quadros sociais especialmente graves no Brasil, Peru (“Fujishock”) e Argentina (na esteira da recessão e da hiperinflação entre 1988 e 1989 e das reformas neoliberais de Menem). Se o Plano Real brasileiro e as “reformas gerenciais” chegaram a pavimentar algum caminho na arquitetura socioeconômica depois dos desastres nas sucessivas crises do fim dos anos 1970 e 1980, a região não ficou imune a uma espécie de “déficit democrático” das transições. Em suas pesquisas dos anos 1990, o cientista político Guillermo O’Donnell caracterizava as novas democracias como regimes que atendiam a critérios normativos da democracia, como competição política, liberdades civis, participação, imprensa livre e contestação pública (basicamente, critérios da célebre poliarquia de Robert Dahl), mas evidenciavam processos precários de consolidação institucional na medida em que a verticalização produzida pelo poder majoritário e sobretudo a pouca transparência dos procedimentos de representação do sistema político podem se sobrepor à horizontalidade da rede de instituições relativamente autônomas dos poderes, minando a rotinização de procedimentos das “sociedades abertas” e tornando-as suscetíveis a uma combinação explosiva de crises institucionais e dificuldades socioeconômicas.

A sorte e os infortúnios da democratização política, mais do que um quadro confinado às periferias do capitalismo, ficam como legado das agendas dos anos 1980. Por isso, os espectros que rondam as “sociedades abertas” são inseparáveis do atual esfumaçamento das miragens de estabilidade democrática tão propagadas no período. A globalização neoliberal tem sido chacoalhada desde 2008 pela crescente precarização da vida contemporânea. Com ela, se a crise de representação e de confiança em relação ao establishment dos sistemas democráticos tem encontrado expressão difusa nas ruas de 2009-2013 e nos tumultos de 2018 (no Brasil e na França), surge um cenário alimentado por cantilenas anti-establishment apoiadas em ímpetos autoritários instalados no sistema pela sanção das urnas e/ou pela urdidura de decretos. Olhar para os processos sociais e a ciranda de promessas disparadas após 1989 à luz dos “deslizes autoritários”[1] construídos pela atual tensão gestada no interior das próprias democracias liberais é a oportunidade para discutir as realizações, os fiascos e, sobretudo, a irrealidade dos discursos triunfalistas que circunscreveram um período cujos significados parecem, agora, embaralhar as aspirações liberais diante de pesadelos iliberais.

[1] https://www.uwestminsterpress.co.uk/site/chapters/10.16997/book30.h/

Banco Mundial prevê baixa ligeira de crescimento da economia global para 2,9%

Abrandamento do comércio internacional e da atividade manufatureira pressionam economia; exportação de matérias-primas estagnou; crescimento per capita será insuficiente para reduzir diferença entre economias desenvolvidas e emergentes.

O crescimento económico global deverá cair de 3% em 2018 para 2,9% em 2019.
A previsão foi avançada esta terça-feira pelo Banco Mundial. A  revisão em baixa, ainda que ligeira, deve-se ao abrandamento do comércio internacional e da atividade manufatureira. A instituição justifica ainda esta decisão com as elevadas tensões comerciais e com as pressões substanciais que algumas economias emergentes vivem nas praças financeiras.
Olhando apenas para as economias avançadas, o crescimento  deverá cair para 2% este ano.

Mercados Emergentes

A revisão em baixa, ainda que ligeira, deve-se ao abrandamento do comércio internacional e da atividade manufatureira.​​​​​​​Banco Mundial/ Ivelina Taushanova













A desaceleração da procura externa, o aumento dos custos dos empréstimos e as persistentes incertezas políticas contribuem para as novas previsões económicas dos mercados emergentes e das economias em desenvolvimento.
A diretora executiva do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, afirmou que no início de 2018, a economia global estava a crescer mas “perdeu velocidade durante o ano” e a queda “pode ser ainda maior no próximo ano.”
A responsável avisa que “à medida que os obstáculos económicos e financeiros se intensificam para os países emergentes e em desenvolvimento, o progresso mundial na redução da pobreza extrema pode ser comprometido. Para manter o ímpeto, os países precisam investir em pessoas, fomentar o crescimento inclusivo e construir sociedades resilientes." 
A exportação de matérias-primas estagnou, enquanto que a sua importação está em desaceleração.

Riscos

O Banco Mundial identifica uma série de riscos que poderão travar a atividade económica. De acordo com a instituição, o agravamento do custo de empréstimos poderá reduzir os fluxos de capital e levar a um crescimento mais lento em muitos mercados emergentes e economias em desenvolvimento.
Por outro lado, o aumento ​​da dívida pública e privada poderão aumentar a vulnerabilidade e agravar as oscilações nas condições de financiamento e no sentimento do mercado. A intensificação das tensões comerciais pode resultar num crescimento global mais fraco e interromper as cadeias de valor interconectadas globalmente.