“O medo de perder o poder leva Erdogan a ignorar todos os valores humanos”

A polícia turca começou a prender médicos e estudantes de medicina depois de o primeiro-ministro Recep Erdogan e o seu ministro da Saúde terem ordenado ao presidente da câmara de Istambul para fazer “tudo o necessário” para acabar com os protestos. Entrevista a E.S., que trabalha no âmbito das políticas urbanas, publicada no blog “No Rhetorike”.
Erdogan deu ordens ao presidente da câmara da cidade para fazer tudo o que for “necessário” para reprimir os protestos. Foto de Alan Hilditch
Como se pode compreender ou explicar o facto de Erdogan e o seu ministro da Saúde terem dado a ordem de pôr sob custódia policial os médicos e enfermeiros que ajudem os manifestantes feridos?
Para responder apropriadamente a esta pergunta devo fazer referência aos factos da noite de 15 de junho, quando a polícia atacou os manifestantes pacíficos no Parque Gezi, pouco depois das ameaças do primeiro-ministro Erdogan de mandar evacuar o parque, na primeira das suas reuniões durante o fim de semana em Ankara.
Na terça-feira 11 de junho, quando o presidente da câmara de Istambul ordenou um ataque aos ocupantes da praça Taksim, disse que se justificava pela necessidade de desmontar as barricadas e permitir o acesso à praça. Desta forma, os manifestantes no Parque Gezi estavam autorizados a ficar lá pelo próprio presidente da câmara, e fizeram-no.
Quando na noite de 15 de junho a polícia atacou o Parque Gezi pela primeira vez, os manifestantes correram para o lado oposto, onde há três hotéis. Um deles abriu as portas e permitiu que fosse utilizado como enfermaria – e a maior parte dos feridos foram levados para lá. Mas nem isso deteve a polícia, que tentou entrar entrar no hotel. Os manifestantes interpunham-se entre a polícia e os feridos.
E assim chegamos ao dia 16 de junho: intervenções policiais não só no espaço público como também em espaços privados, e com muitas detenções. Hoje, no distrito de Sisli, onde se realizaram novos protestos, os médicos e estudantes de medicina que ajudavam os feridos num hotel também foram levados presos. Os factos são que a polícia começou a atacar os manifestantes em Sisli (entre 500 metros e um quilómetro do Parque Gezi) e invadiram propriedades privadas para deter médicos e feridos, o que demonstra que estão determinados a reprimir os protestos custe o que custar.
De facto, acho que o primeiro-ministro Erdogan e o seu ministro da Saúde não deram uma ordem específica de deter os médicos. Mas está claro que Erdogan deu ordens ao presidente da câmara da cidade para fazer tudo o que for “necessário” para reprimir os protestos. Como presidente da câmara, o senhor Mutlu disse à imprensa ontem (16 de junho) que os médicos foram tratados como manifestantes e que, independentemente da sua profissão, os manifestantes serão presos. Imagino que o medo de perder o poder os leva a pôr de lado e ignorar todos os valores humanos.
Que podes dizer da reunião de Erdogan no dia 16 de junho em Istambul?
Acho que o medo de perder o poder domina o seu discurso. Ele recordou o seu sucesso na gestão económica do país e acusou os média locais e internacionais, os capitais nacionais, o principal partido da oposição e até o Parlamento Europeu de conspirar contra a sua posição. Argumentou que protestos semelhantes, com intervenção policial, aconteceram na Grécia ou no Reino Unido e que a União Europeia e o Parlamento Europeu não tomaram nenhuma decisão contra estes países, o que é, na sua opinião, um sinal de hipocrisia. Disse que toda a gente com quem tem falado lhe dão razão, mas depois diante dos média ignoram-no e viram-lhe as costas.
Acho que a sua autoridade paternalista impede-o de ver que as centenas de milhares de pessoas em todo o país são parte da sociedade à qual ele serve e que, de facto, estas pessoas estão descontentes. Em vez disso, prefere pensar que faz tudo bem e olha para dentro do país para descobrir ameaças fictícias de inimigos fictícios que invejam o seu sucesso. Recordado Adnan Mederes (um antigo primeiro-ministro que foi condenado à morte depois de um golpe militar) e Turgut Özal (outro antigo primeiro-ministro que se pensa que foi envenenado pelos que não queriam que se resolvesse a questão curda), Erdogan está a fazer um apelo às pessoas que o apoiam para se unirem contra essas conspirações, e para evitar que experiências como essas se repitam. Isso leva-me a pensar que, segundo ele, a única forma de ser vencido seria através de uma intervenção estrangeira (quiçá militar) e pretende que a sociedade turca se convença de que isso realmente é possível. Os protestos populares não têm cabimento na sua forma de compreender as coisas.
Por outro lado, de acordo com diferentes fontes, entre 250 mil e um milhão de pessoas reuniram-se em apoio ao primeiro-ministro e aos seus seguidores, que são tantos como os manifestantes. O pior é que com os seus discursos, Erdogan, aponta para algumas empresas e companhias como, por exemplo, canais de televisão ou o grupo empresarial ao qual pertence o hotel que tem servido de enfermaria aos manifestantes, dando nome, ameaçando interrogar os manifestantes e os utentes das redes sociais. Polariza a sociedade, o que pode prejudicar muito a situação. Aos olhos dos seus seguidores, os manifestantes não passam de provocadores. Já se registaram ataques de seguidores de Erdogan a escritórios do principal partido da oposição, o CHP.
Hoje o governo de Erdogan deu ordens de “arranjar” o Parque Gezi, plantaram árvores e flores. Como explicas esta decisão? É para limpar a sua imagem? Para evitar que as pessoas ocupem de novo o parque?
O argumento de Erdogan é que o parque pertence à sociedade e que durante os protestos a sociedade “real” não podia usá-lo. Agora está a prepará-lo para o uso público. É claro que há algumas perguntas a fazer. Por exemplo, quem são os milhares de manifestantes que estavam no parque, se não são parte da sociedade? Ou: se o primeiro-ministro estava tão interessado no parque, por que motivo tinha decidido construir ali um centro comercial, num primeiro momento?
Olhando a questão mais em profundidade, encontramos de novo a sua arrogância e autoridade. Eu diria que a sua intenção é transmitir uma mensagem do tipo: “se algo deve ser feito, mesmo cuidar do parque, eu posso fazê-lo e melhor que vocês”. Rejeita o que os manifestantes fizeram no parque (a meu entender, deram-lhe um uso que mostra como um parque pode ser um lugar com vida), e oferece um protótipo de parque estéril.
17 de junho de 2013
Publicado em No Rhetorike
Tradução de Luis Leiria, para o Esquerda.net

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