A banca seguirá o exemplo de Chipre e confiscará depósitos para evitar colapso

O exemplo do Chipre, o laboratório do modelo de confisco de fundos privados, tornar-se-á cada vez mais prático para a banca como mecanismo de obtenção de recursos. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón.
A banca quer o teu dinheiro
Quando o ministro das Finanças holandês Jeroen Dijsselbloem disse à imprensa, há seis meses, que o regime de confisco de depósitos do Chipre seria o modelo para os futuros resgates dos bancos europeus, a declaração causou tanto furor que ele teve de retratar-se. Mas Dijsselbloem dizia a verdade: o confisco dos depósitos dos depositantes está a converter-se na política oficial da União Europeia, dado que a banca quer o teu dinheiro (I want your Money, como diz o Tio Sam). A Itália e a Polónia seguiram o exemplo cipriota e o plano vai prosseguir noutros países. Os ministros das Finanças da UE puseram-se de acordo em relação a este plano para deslocar a responsabilidade das perdas bancárias para os próprios investidores, credores e depositantes dos bancos. Está claro que os fundos públicos já não são suficientes para resgatar uma banca que está na falência e requer o confisco de parte importante das poupanças privadas.
Se o modelo de Chipre for seguido ao pé da letra, os depósitos inferiores a 100 mil euros estarão assegurados pelos governos, enquanto os montantes superiores a essa soma sofrerão cortes que podem chegar ao 40 ou 50 por cento. Esta nova prática de resgates à banca começou a ter seguidores e está a estender-se para além da Europa. Os bancos da Nova Zelândia e do Canadá também querem o dinheiro dos depositantes. Cedo esta prática estender-se-á aos Estados Unidos e os grandes depósitos sofrerão severos castigos. Quem se atreverá a ter dinheiro nos bancos no futuro?
A banca continua num processo de forte desalavancagem e por isso precisa de dinheiro real bem mais além do que oferecem os bancos centrais. Uma das razões do estancamento que sofre a economia e da falta de crédito que asfixia o sector produtivo é que todo o dinheiro que os bancos recebem com os planos de flexibilização quantitativa (a taxas de 0,25% ou 1%) é colocado em bónus soberanos dos governos, onde a taxa é de 4 ou 5 por cento, o que permite obter ganhos de 6 a 20 vezes só movendo o dinheiro do banco central para o Tesouro público. Apesar de a redução do prémio de risco ter sido significativa, bem mais o foi o ganho da banca que, com este método, consegue limpar os seus balanços dos ativos tóxicos.
O laboratório dos confiscos
Num esforço por salvar a economia cipriota da falência, o governo aprovou uma lei que confiscou 4.300 milhões de euros em depósitos pertencentes a cerca de 14.000 depositantes do Laiki Bank, deixando a cada depositante, com não mais de 100 mil euros, o limite de depósito assegurado sob as regulamentações da UE. Depois do fecho do Laiki, os ativos diminuídos dos depositantes foram transferidos para o Banco do Chipre. Como assinalámos em março, num esforço por recapitalizar o principal banco da ilha, as autoridades cipriotas impuseram uma perda de 47,5 por cento dos depósitos que excediam o limite de 100 mil euros. Com esta medida, os depositantes perderam um total estimado de 10.600 milhões de euros.
O exemplo do Chipre, tomado como laboratório deste modelo de confisco de fundos privados, tornar-se-á cada vez mais prático para a banca como mecanismo de obtenção de recursos. Este facto põe em perigo todas as contas bancárias privadas e as poupanças dos fundos de pensões que a banca usa para especular nos mercados. A Polónia conseguiu reduzir a sua dívida pública pela via do confisco dos fundos de pensões. Os ministros de Finanças da UE não só estão a patrocinar estas novas medidas da banca, como além disso estão a aprovar um plano para obrigar os detentores de bónus e acionistas a financiar as futuras falências bancárias com fundos privados, antes de continuar a fazê-lo com os fundos públicos que são dos contribuintes.
Este facto, que já está a acontecer na Itália, Polónia, Nova Zelândia e Canadá, cedo terá a sua estreia nos Estados Unidos e será o mecanismo que vai evitar a falência em massa do sistema bancário, desta vez com os depósitos e fundos de pensões das pessoas. Dado que muitos destes depósitos se encontram num complicado novelo de derivados financeiros, os depositantes não terão facilidade de retirar o seu dinheiro para o guardar debaixo do colchão. E de nada servirão os processos contra a banca contra estes confiscos, dado que contam com o apoio pleno dos governos. Mais uma demonstração da simbiose hegemónica que envolve o poder político com o poder económico.
27 de setembro de 2013
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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