Ariel Sharon: morte de um inimigo da paz

General e, durante a vida ativa, um dos expoentes da direita expansionista de Israel, Sharon foi responsável pelos massacres de Sabra e Chatila, no Líbano e, juntamente com o atual primeiro-ministro, o dirigente que inverteu o caminho da paz com os palestinianos na sequência do assassínio de Isaac Rabin.
Ariel Sharon no Vale do Jordão.
O ex-primeiro ministro e ex-chefe das Forças Armadas de Israel Ariel Sharon morreu sábado aos 85 anos depois de oito anos em coma. General e, durante a vida ativa, um dos expoentes da direita expansionista de Israel, Sharon foi responsável pelos massacres de Sabra e Chatila, no Líbano e, juntamente com o atual primeiro-ministro, o dirigente que inverteu o caminho da paz com os palestinianos na sequência do assassínio de Isaac Rabin.
Durante a sua carreira política como chefe da direita israelita, Ariel Sharon representou os interesses dos sectores expansionistas e anexionistas de Israel reunidos através do conceito do "Grande Israel", que exige a implantação de um estado judaico confessionalista não apenas na Palestina histórica mas em outras regiões anexas do Médio Oriente e, no limite, nega em absoluto os direitos dos palestinianos reconhecidos pela comunidade internacional. A mais permanente arma dessa política, juntamente com a estratégia de impedir o funcionamento de negociações de paz, diretas ou indiretas, é a colonização dos territórios ocupados de Jerusalém Leste e da Cisjordânia, de que Sharon foi um dos principais executantes. O falecido ex-primeiro ministro foi igualmente um dos responsáveis pela permanente ocupação dos Montes Golã à Síria.
No plano militar, além de ter participado nas principais campanhas de terror contra os palestinianos e nas ações militares de 1967 e 1973, Ariel Sharon foi o comandante da operação a que chamou "Bola de Neve" no Líbano, a invasão de 1982 para forçar a Organização de Libertação da Palestina (OLP) a abandonar o território libanês e para tentar liquidar Yasser Arafat, então o dirigente máximo palestiniano. Qualificada como uma "ação relâmpago" para durar 24 horas, depois 48 horas, a operação estendeu-se por mais de 80 dias sem que Sharon tenha atingido o seu principal objetivo militar, ocupar a totalidade de Beirute. Depois de ter arrasado esse sector da cidade, sem conseguir invadi-lo, e liquidado dezenas de milhar de vidas humanas, o exército israelita cancelou as operações na sequência de um acordo sob mediação norte-americana. Alguns dias depois, na segunda metade de Setembro, tropas israelitas violaram o acordo e patrocinaram - com o conhecimento de Ariel Sharon - o massacre nos campos de refugiados palestinianos de Sabra e Chatila, que culminou com a chacina de seis mil pessoas, na sua maioria velhos, mulheres e crianças. A ação foi cometida por milícias fascistas libanesas pró-israelitas, o "Exército do Sul do Líbano", com a proteção de tropas israelitas - que cercaram os campos de modo a que a matança durasse o tempo considerado necessário pelos carrascos.
Ariel Sharon foi considerado responsável pelo massacre, de acordo com um inquérito oficial israelita, retirou-se temporariamente da política mas regressou em força a tempo de ajudar a destruir a obra de paz desencadeada pelo primeiro-ministro Isaac Rabin, no início dos anos noventa, e de retomar a política expansionista e belicista liquidando o processo de negociações - substituindo-o por uma farsa aceite internacionalmente.
Juntamente com Benjamin Netanyahu, com quem chegou a rivalizar pelo comando da direita anexionista, Ariel Sharon foi um dos principais mobilizadores das grandes manifestações agressivas, envolvendo marchas de colonos sobre Jerusalém, que culminaram no assassínio de Isaac Rabin por um fundamentalista adepto do Grande Israel. A partir desse momento, quando a Autonomia Palestiniana dava apenas os primeiros passos que deveriam culminar, em 1998, na existência de dois Estados na Palestina, Ariel Sharon tornou-se uma figura de topo na política israelita para liquidação da herança de Rabin.
Os massacres contra Gaza, o reforço da colonização na Cisjordânia e em Jerusalém, a sabotagem das negociações com os palestinianos que conduziu, entre outras circunstâncias, ao chamado "segundo Intifada", no início do século, foram eixos fundamentais da política de Ariel Sharon até ao problema de saúde que o levou a entrar em coma. Hoje já é claro que a operação de extinção dos colonatos em Gaza, muito elogiada internacionalmente, foi a medida tomada por Sharon de modo a que Israel pudesse aplicar a política de cerco e flagelo do território, transformado na maior prisão a céu aberto do mundo.
Um Estado de Israel de cariz religioso cada vez mais fanático, expansionista, belicista, terrorista, racista e xenófobo como o que existe atualmente é o espelho da obra realizada em grande parte por Ariel Sharon. O secretário-geral das Nações Unidas, organização que as políticas aplicadas por Sharon desrespeitaram em contínuo, comentou que o ex-primeiro ministro israelita foi um "herói para o seu povo". Muitos "heróis para os seus povos", nos Balcãs, em África, na Ásia, foram chamados a prestar contas dos seus crimes de guerra e contra a humanidade perante a justiça internacional. Ariel Sharon morreu sem que isso acontecesse.

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