Democracia - Fabricando o consenso - Por Noam Chomsky

''Parece que a principal tarefa das grandes corporações e seus empregados, (jornalistas, acadêmicos, políticos etc.) é conter a democracia, impedir que haja democracia de fato. E usam a palavra democracia para acabar com ela. 

Afinal, já dizia Guizot que a força da palavra democracia é tal que nenhum partido, nenhum governo ousa viver sem inscrevê-la em sua bandeira. De fato o regime reinante é a plutocracia, o governo dos ricos. Na minha análise vivemos a ditadura do capital. Sob as mais variadas roupagens, seja no Brasil, no Iraque, nos EUA, ou na China.''  João Amado.



Entrevista com Noam Chomsky [fragmento] [IN "America", 1996]


A América foi criada para ser a terra onde o pensamento poderia se expandir ao seu limite máximo. Porém, por um processo sofisticado que o senhor chama de engineering of consent [produção do consentimento], a América parece ter criado uma moldura que impede as pessoas de formular certos pensamentos. O senhor poderia nos explicar como funciona esse sistema de censura?


Em meados do século XIX, quando Alexis de Tocqueville viajou pelos Estados Unidos, já assinalava que nunca vira um país onde o nível de doutrinação fosse tão intenso, onde a subordinação ao pensamento oficial fosse tão extrema e onde o pensamento independente fosse tão raro. Henry David Thoreau escreveu, na mesma época, que não lia os jornais porque não significavam nada. Dizia que não havia sequer uma pessoa em mil que se dispusesse a questionar a doutrina oficial e que o nível de independência era muito baixo. O começo disso é, na verdade, muito anterior à Revolução americana - remonta às origens do impulso democrático moderno, à grande Revolução inglesa do século XVII. Ela assustou terrivelmente as elites, porque continha elementos de democracia radical: a população em geral estava ficando com a impressão de que podia cuidar de seus próprios assuntos e de que era capaz de pensar por sua própria conta. Isso precisava ser combatido e, em torno de 1660, a revolução foi derrotada. Trinta e cinco anos mais tarde, em 1695, a censura governamental foi abandonada, pela simples razão de que não era mais necessária. Àquela altura, o controle sobre o pensamento e a expressão estava nas mãos de grupos da elite que, podia-se ter certeza, praticariam autocensura. John Locke, um dos grandes defensores do liberalismo moderno, escreveu em 1695 que era necessário dizer às pessoas comuns - diaristas, tecelões, artesãos, padeiros, etc. - em que coisas deviam acreditar. Não se pode deixar que resolvam por si mesmas no que vão acreditar, porque acabam cometendo erros. Assim é a democracia. Essa tradição de controle do pensamento se ampliou ao longo da época moderna. Durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, a população era muito pacifista - as pessoas em geral são pacifistas, não vêem razão para sair assassinando e morrendo. Assim, precisavam ser levadas a uma histeria guerreira. Woodrow Wilson venceu as eleições de 1916 com uma plataforma de "paz sem vitória". E, é claro, interpretou imediatamente que se tratava de um mandato para obter a vitória sem paz. Seu problema era como obter o apoio da população para a guerra. Nesse momento, os Estados Unidos criaram sua primeira agência de propaganda governamental. Acredito que foi a primeira agência de propaganda estatal de todo o mundo. Seu objetivo era criar um sentimento guerreiro numa população que, de modo geral, não queria guerra. Os intelectuais, especialmente os liberais, aderiram entusiasmados à causa - e na verdade ficaram com o crédito. Isso mostra como a orientação [management] social pode ser conduzida pelos intelectuais, pelas pessoas que chamamos de "comissários" quando falamos de nossos inimigos, embora o fenômeno aqui seja essencialmente o mesmo. Edward Guernays, uma das figuras mais importantes da indústria de relações públicas, talvez sua figura mais importante, fazia parte desse comitê de propaganda governamental e aprendeu bem suas lições. Foi ele que mais tarde criaria a expressão engineering of consent, afirmando que a produção do consentimento é a essência da democracia. A mesma idéia surgiu em meio à comunidade intelectual. Walter Lippmann, o decano dos jornalistas americanos, falou , em 1921, logo após a guerra, e à luz da experiência da guerra, do que chamava de manufacture of consent [fabricação do consentimento]*: a população em geral não entende o que é bom para ela, os únicos que entendem o que é bom para ela são os membros da elite, que, portanto, precisam fabricar o consentimento. A idéia que paira por trás disso, do século XVII aos nossos dias, é que, se o governo é capaz de controlar a população pela força, ele não se importa muito com o que ela venha a pensar, mas se não for capaz de controlá-la pela força, se a voz das pessoas puder se manifestar, é preciso certificar-se de que esta voz estará dizendo as coisas certas. Assim, quanto mais livre for uma sociedade, mais serão necessários a doutrinação e o controle do pensamento. Esta idéia, compreendida conscientemente, pode ser encontrada ao longo de toda a história americana. O fato de nosso sistema de doutrinação ser tão forte e poderoso se deve em grande parte ao fato de o país ser tão livre.


Como se dá isso, objetivamente?


Para dar um exemplo concreto, vamos comparar os Estados Unidos com o Japão, competidores no mercado mundial. Os dois países falam de livre-comércio, mas nenhum dos dois acredita nele - como, na verdade, ninguém jamais acreditou no livre comércio. Ambos contam com sistemas industriais que são coordenados por uma combinação entre o governo e as grandes empresas. Nos Estados Unidos, os únicos setores da economia que são competitivos no cenário internacional são aqueles que recebem subsídios do governo: a agricultura intensiva em capital é fortemente subsidiada pelo governo, e a indústria de alta tecnologia é, na verdade, um apêndice do governo, através do sistema militar, que fornece o mercado para seus produtos e força o público a subsidiar a pesquisa e desenvolvimento. Na indústria de alta tecnologia, os Estados Unidos e o Japão são competidores e obedecem a um planejamento muito semelhante, ou seja, o nexo empresarial do governo segue um planejamento muito semelhante. Eles decidem quais são as tecnologias emergentes, o que será vendável no futuro e dirigem a pesquisa para esses fins. Mas fazem-no de maneiras diferentes, que refletem por sua vez as diferenças que existem entre as duas sociedades. No Japão, o governo e as empresas se reúnem e decidem de que modo os gastos públicos serão dirigidos para a indústria no ano seguinte. Se ordenarem ao público que reduza o consumo em benefício dos investimentos, ele obedece. O Japão tem uma cultura submissa, baseada na obediência e na subordinação, e, na verdade, apresenta características bastante fascistas. Nos Estados Unidos, isto não é possível. Nenhum político pode vir a público e dizer: "Vocês precisam reduzir o seu nível de consumo, para que a IBM produza novos computadores e tenha lucros maiores, e talvez seu filho venha a ter um emprego dentro de vinte anos". O que se diz às pessoas, nos Estados Unidos, é: "Os russos estão chegando". Ou: "os líbios estão chegando". Ou ainda: "Granada vai nos invadir", e coisa assim. "E por isso precisamos ter um sistema militar monstruoso para nos defender da destruição". É claro que o Japão vence essa competição. O desenvolvimento indireto da tecnologia através dos militares implica um imenso desperdício. E por que os Estados Unidos precisam fazê-lo dessa maneira? Porque têm uma sociedade mais livre. As pessoas não concordariam em cortar voluntariamente seu consumo e em trabalhar mais para que a indústria possa ter lucros maiores. Assim, precisam ser forçadas a fazê-lo, o que se dá por meio da doutrinação. E isso requer a existência do sistema militar, da ameaça externa e assim por diante. O Japão pode fazê-lo de maneira direta: simplesmente produz para o mercado comercial, e as pessoas fazem o que lhes mandam.


Qual é o verdadeiro sentido, na América, de expressões como free choice [liberdade de escolha], free press [liberdade de imprensa] e free access to information [liberdade de acesso à informação]. Houve, por exemplo, alguma opção real entre Bush e Dukakis?


A liberdade de escolha existe na medida em que o governo não força ninguém a escolher. Por outro lado, todas as escolhas são restringidas por condições, impostas pela própria distribuição do poder. E sempre foi assim. O sistema constitucional americano não foi concebido para que houvesse participação da população. Era um sistema criado para os homens brancos que tivessem propriedades. E a premissa era de que aquela classe restrita tinha suficientes interesses em comum para lhes permitir administrar o país. Muita gente não se lembra, mas a Constituição americana continha ralmente um dispositivo afirmando que uma parte da humanidade só era 3/5 humana - no caso, os negros. Se algum país do Terceiro Mundo adotasse hoje a Constituição americana, diríamos que se trata de uma reversão ao nazismo, o que, de certa forma, é um sinal positivo, que indica que as coisas progrediram desde então. No sistema industrial moderno, o poder e os privilégios foram ficando cada vez mais concentrados à medida que se desenvolviam as empresas. E são elas que devem governar o país. A história política americana é , no fim das contas, a história de uma seleção entre vários setores da classe empresarial e proprietária. As últimas eleições são um bom exemplo. Faz anos que os Estados Unidos são, essencialmente, um Estado unipartidário. Há duas facções dos conservadores, duas facções da classe empresarial, e elas apresentam seus candidatos. E a população de fato tem a liberdade de escolher entre os dois representantes dos interesses da classe empresarial. Assim, todos compreendem que aquilo que os candidatos dizem não é para ser levado a sério. Os candidatos têm encarregados de fazer pesquisas. Esses pesquisadores determinam que tipo de declarações podem vir a ser populares, e então o candidato produz exatamente essas declarações. Desse modo, o candidato está na verdade respondendo ao que o instituto de pesquisa lhe diz ser capaz de aumentar seu número de votos. E todos aceitam isso. É a política. Ora, isso reflete um desprezo total e completo pela democracia. Significa que tudo o que um candidato diz não passa de uma técnica por meio da qual seus financiadores, um grupo da comunidade empresarial, pretendem assumir o controle do Estado. Nas eleições de 1980, as elites achavam que, para tornar competitivas as empresas americanas num mundo cada vez mais difícil, as margens da lucratividade precisavam ser aumentadas, a violência do Estado precisava crescer, o Estado tinha de se envolver mais fortemente na administração industrial e forçar o público a subsidiar a indústria de alta tecnologia. As poucas medidas de previdência social existentes deveriam ser cortadas. Foi o que aconteceu. O público só tinha uma escolha: entre duas maneiras de levar a efeito o consenso da elite, um consenso a que ele se opunha. Nas eleições de 1984, os republicanos eram o partido do crescimento keynesiano. Propunham despesas deficitárias e eram apoiados pelos segmentos do sistema industrial que queriam justamente isso - que o governo despejasse dinheiro na insdústria avançada, deixando parase preocupar com os efeitos mais tarde. Já os democratas eram o partido dos conservadores fiscais, apoiados pelos bancos e pelas empresas de investimento, e também pelos interesses imobiliários. Assim, o eleitor podia escolher entre o crescimento keynesiano acompanhado de uma retórica ultranacionalista - os republicanos - e o conservadorismo fiscal rabugento - os democratas. Elegeram os republicanos. Numa sociedade livre, não se pode impedir que as pessoas votem. Assim, o que se faz é assegurar que não haja nada em que elas possam votar. O análogo disso no sistema de informações é que não se pode evitar que as pessoas comprem o jornal que quiserem, e também não se pode proibir os jornais de publicarem o que quiserem; assim, é necessário asseguar-se de que os jornais vão publicar as coisas certas. E isso acontece automaticamente, devido à concentração do poder. Os meios de comunicação são grandes empresas. As três redes nacionais de televisão são grandes empresas, controladas por empresas ainda maiores, como a General Electric, a Westinghouse etc. Os grandes jornais são empresas ligadas a bancos e conglomerados financeiros. Nos Estados Unidos, os meios de comunicação são simplesmente empresas que vendem um produto para um mercado. O mercado são os anunciantes, que os sustentam. E o produto é a audiência.


Entrevista com Noam Chomsky [fragmento] [IN "America", 1996]

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