Umberto Eco – Mudando a nossa privacidade


Um dos grandes problemas do nosso tempo, que parece claramente  preocupar a todos hoje, é o crescente número de ameaças à nossa privacidade.
 

Umberto Eco

Em termos mais simples, vamos supor que a "privacidade" significa que todos nós temos o direito de prosseguir com nossos próprios assuntos, sem que outra pessoa - em particular unidades ligadas a centros de poderse intrometa a respeito. Nós valorizamos tanto nossa privacidade que temos estabelecido instituições e regulamentos para a proteger.


Ultimamente, nossas conversas muitas vezes tomam um rumo para a forma de como estamos preocupados que alguém poderia espionar nossos cartões de crédito e descobrir que bens temos comprado, em que hotéis temos nos hospedados ou onde jantamos. Não importa o medo de que os nossos telefones podiam ser operados sem justa causa: a Vodafone, a empresa de telecomunicações britânica, soou o alarme sobre agentes mais ou menos secretos em vários países obtendo acesso às pessoas com quem falamos e o que dizemos ao telefone. 


Da forma como falamos da privacidade, parece que a consideramos sagrada, como algo que deve ser defendido a qualquer custo, para que não terminemos vivendo em uma sociedade regida pelo proverbial Big Brother de George Orwell: uma entidade que tudo vê e monitora cada um de nossos atos e, talvez, até mesmo cada um de nossos pensamentos. 

Mas, a julgar pelo nosso comportamento, realmente nos preocupa muita a privacidade? Considerem o seguinte: houve um momento em que a maior ameaça para a privacidade de uma pessoa era a fofoca; as pessoas temiam que sua roupa suja fosse ao ar em público, temendo que isso poderia prejudicar sua reputação. No entanto, atualmente, à medida que tanto lutamos com a maneira de nos definirmos no mundo moderno, existe uma ameaça maior do que a perda de privacidade, a perda de visibilidade. Em nossa sociedade hiper-conectada, muitos de nós só queremos  que nos vejam. 

Assim, uma mulher que se prostitui (e que nos velhos tempos, tentava esconder seu ofício tanto para  a família como para  os vizinhos), se promove como uma "acompanhante" e adota um papel público, talvez até mesmo apareça até na televisão. Casais que em outra época poderiam ter mantido em privacidade as dificuldades da vida privada agora apresentam em programas de TV vulgares, provando ser adúlteros ou cornudos, e são recebidos com aplausos. O estranho sentado ao seu lado no trem grita ao telefone o que acha de sua irmã ou o que o seu consultor tributário deve fazer. E o sujeito de uma investigação policial de alto perfil - que, em outra época, poderia ter deixado a cidade ou ficado tranquilamente em casa, na esperança de passar a onda do escândalo - prefere aumentar suas aparições públicas e colocar um sorriso no seu rosto, já que é melhor ser um ladrão notório do que um homem honesto, mas anônimo. 

O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu recentemente no La Repubblica sobre o poder do Facebook e outras mídias sociais para que as pessoas se sintam interligadas. Isto evocou um artigo que Bauman escreveu para o Social Europe Journal, em 2012, em que fala de como as mídias sociais, como ferramentas para levar um registro dos pensamentos e das emoções das pessoas, pode ser controlado por várias potências interessadas em vigilância eletrônica . Bauman observa que, no final, esse tipo de violações de privacidade é possível graças à participação entusiástica das próprias pessoas cuja privacidade está sendo violada. Ele argumenta que "vivemos em uma sociedade confessional, promovendo a própria exposição em público na ordem da principal e mais fácil disponível e sem dúvida o mais poderoso e a único prova verdadeira apta da existência social." 

Em outras palavras, pela primeira vez na história da humanidade, os espionados estão colaborando com os espiões para simplificar a tarefa dos últimos. Além do mais, a pessoa média extrai satisfação ao entregar sua privacidade quando isso lhe permite sentir como se os outros realmente o "vejam". (Não importa se o que eles vêem é o seu comportamento tão estúpido ou mesmo delinqüente). 

Uma vez que sejamos capazes de saber absolutamente tudo de todos os demais, o excesso de informação só produzirá confusão e interferência. Isto deveria preocupar os espiões, mas não os espionados, que parecem confortáveis ​​com a ideia de que eles e os seus segredos mais íntimos sejam conhecidos por amigos, vizinhos e até mesmo inimigos. Ultimamente, quem sabe  estar sujeito a essa exposição é a única maneira de realmente se sentir vivo e conectado. 


Falamos muito da boca para fora sobre preocupação com a privacidade. Mas se as ações falam mais alto que palavras, então a nossa privacidade, aparentemente, não é tão importante para nós. Pelo menos, não tanto quanto o reconhecimento.


Artigo de Umberto Eco em elespectador.com

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