O impacto negativo da desigualdade no desenvolvimento econômico

Artigo de Vicenç Navarro publicado na coluna “Pensamiento Crítico” no diário PÚBLICO da Espanha, 9 de setembro de 2014.
Este artigo aponta que, ao contrário das alegações da tese neoliberal, as desigualdades, tanto de riqueza quanto de renda, são um impedimento para o crescimento econômico. A atual recessão, causada pelo grande aumento da desigualdade, assim o mostra.

Uma abordagem comum no dogma neoliberal é que as desigualdades de renda e riqueza em um país é um incentivo para o bom desempenho da economia. Ou seja, eles são necessários e bons para o desenvolvimento econômico. Esta posição salienta que, por exemplo, há uma minoria com um monte de dinheiro e riqueza, muito acima de todos os outros, incentiva aos demais - os demais- a tentar pertencer a essa minoria no topo. Outra forma de expressar esta opinião é salientando a necessidade de um gradiente acentuado de riqueza e renda, bem como, todas as pessoas a este nível quer atingir um nível mais elevado, motivando as pessoas a querer cada vez mais chegar a mais e muito mais. Note-se que esta é a forma como o sistema econômico e financeiro trabalha com o princípio de que cada indivíduo quer atingir aqueles que estão acima dele ou dela. Assim, considera-se que quanto maior a desigualdade em um país, maior será o incentivo para subir na escala social, trabalhando mais e mais, o que afeta ainda mais o crescimento econômico. Este pressuposto neoliberal concluí que qualquer intervenção pública voltada para a redistribuição da riqueza e da renda é negativo, ele diminui e reduz o crescimento econômico. 

Há um outro argumento na ideologia neoliberal que também tenta justificar a concentração de riqueza e renda, dizendo que é bom para o desenvolvimento econômico que tenha pessoas muito ricas, eles são os super-ricos que estão a poupar mais, tornando disponível mais dinheiro para investir e estimular o crescimento econômico. Isto estabelece um enredo que pressupõe que quanto maior a concentração de renda e riqueza, maior poupança, o que leva a um maior investimento e maior crescimento econômico. Este enredo conclui-se que políticas públicas que favoreçam essa concentração são necessários, uma vez que está promovendo assim o crescimento econômico. Todas as reformas fiscais atual Governo espanhol, liderado por Rajoy, para favorecer os rendimentos mais elevados, são justificados nestes termos. 

Que evidência existe para apoiar estas teses neoliberais? 

Vamos primeiro examinar a prova existente referente ao primeiro postulado, que afirma que as desigualdades incentivam as pessoas a trabalhar mais, aumentando assim a produtividade, como resultado do aumento do esforço de intensidade de trabalho. Bem, as evidências apontam exatamente na direção oposta. O trabalho dos professores William Easterly da Universidade de Nova York e Gary Campos na Universidade de Cornell mostram que, em geral, os países e regiões dentro dos países que têm menos desigualdade de renda crescem mais rapidamente do que aqueles com mais desigualdade. Igualmente importante é que, quando a qualidade do crescimento econômico é analisado (tendo em conta o tipo de crescimento e seu impacto sobre o meio ambiente), os países e regiões têm um crescimento menos desigual de qualidade superior aos mais desiguais. 

O mesmo é verdadeiro quando se considera a riqueza, ou seja, a propriedade dos meios que geram renda, como a terra. Já existem muitos estudos que mostram que, em países onde a terra é menos concentrada, a sua produtividade agrícola é maior do que nos países onde existem grandes propriedades. E o que é ainda mais importante é o aumento da produtividade que é alcançado quando os agricultores trabalham cooperativamente em tipos de parceria de trabalho em cooperativas agrícolas. Nos EUA, a maior produtividade agrícola não ocorre em grandes fazendas, mas nas pequenas, com relações de cooperação, como entre fazendas dos grupos religiosos Menonitas na Pensilvânia. Outro exemplo é o que aconteceu no Japão. O grande avivamento da economia japonesa após a Segunda Guerra Mundial foi um resultado da reforma agrária imposta pelos Aliados para o Japão, como um meio de quebrar a oligarquia japonesa baseada nas grandes famílias terratenentes. 

Por que os baixos salários não são bons para o desenvolvimento econômico 

Outra mostra de erra da teoria dos chamados incentivos é a baixa produtividade causada pelas desigualdades, a Espanha é um exemplo. Os baixos salários em Espanha são uma das causas da baixa produtividade. Se os salários fossem mais elevados, forçaria os empregadores a investir mais, a fim de aumentar a produtividade de cada trabalhador. Não é, como eles sempre dizem e escrevem, a baixa produtividade determina os salários baixos, mas, pelo contrário, os baixos salários são os fatores determinantes da baixa produtividade. Se o proprietário das vinhas de Tarragona tem uma abundância de pessoas para trabalhar nas vinhas, provavelmente  vai  pagar muito pouco. Se o fizesse, teria de investir mais para aumentar sua produtividade. Aumentar os salários em um país é uma ferramenta essencial para aumentar a produtividade, uma realidade ignorada, se não oculta, no nosso país, onde a empresa tem um enorme poder e os sindicatos têm pouca medida. De fato, a evidência mostra que quanto maior a força dos sindicatos de classe, os salários mais altos e maior produtividade de um país. Acrescento a classe dos sindicatos, como os sindicatos corporativos (que em Inglês é chamado business unions), com suas demandas, pode aumentar as desigualdades no local de trabalho. Até o New Deal, a sindicalização da força de trabalho nas indústrias americanas nos anos trinta e quarenta (estimulada: Como Chris Tilly aponta em seu excelente artigo  “Geese, Golden Eggs, and Traps: Why Inequality is Bad for the Economy”) desempenhou um papel fundamental no aumento da produtividade. 

Na verdade, as desigualdades têm sido a causa da crise 

Nos anos cinquenta havia uma teoria fortemente promovida pelos estamentos do grande poder econômico (que refletem o ponto de vista dos super-ricos), que postulou que a melhor maneira de reduzir as desigualdades era o crescimento econômico. O autor mais conhecido, promotor deste ponto de vista,  foi o economista ganhador do Prêmio Nobel Simon Kuznets. Seu argumento parecia lógico e razoável. À medida que a população ativa vai trabalhar na agricultura (que tem salários baixos) à indústria (que tem altos salários), há menos desigualdade. Na realidade, contudo, é diferente. As maiores disparidades não ocorrem na força de trabalho, mas entre aqueles que obtêm o seu rendimento de capital (capitalistas, um termo não utilizado agora acreditam erroneamente que é um termo ultrapassado), e que derivam do trabalho (trabalhadores, hoje que a grande maioria da população). A distribuição de renda é determinada principalmente pela política, não econômicas. Quanto maior o poder dos donos do capital (riqueza e renda concentradas) as desigualdades são maiores e quanto maior for a potência dos assalariados menor as desigualdades. E é aí que está a raiz do problema da desigualdade. A grande potência do mundo do trabalho que foi dada nos dois lados do Atlântico Norte no período 1945-1980 foi a principal causa do crescimento da economia e da queda na desigualdade. Essa queda foi revertida com a mudança política na década de oitenta, com as políticas públicas neoliberais do presidente Reagan e da senhora Thatcher, dase que mais tarde se apropriam as esquerdas governantes, que passaram de social-democracia para o socioliberalismo. Depois disso, os rendimentos do capital aumentaram enormemente, de modo que, em muitos países, como a Espanha, essas receitas representam uma percentagem do PIB ainda maior do que a renda do trabalho. Esta enorme concentração de renda e riqueza e empobrecimento dos trabalhadores causas (silenciadas e ignoradas) da grande recessão e do baixo crescimento, como demonstrei amplamente no meu trabalho. É interessante que até mesmo a OCDE acaba de reconhecer este fato. O maior problema da economia europeia, incluindo a espanhola, é a falta de demanda, o que está a prejudicar a economia desses países. Não é por acaso que, na UE-15 os países com uma grande recessão foram aqueles com as maiores desigualdades. A Espanha é um exemplo claro.

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