Ebola provoca crise alimentar na África ocidental

A epidemia de ebola na África ocidental, que oficialmente já matou mais de 4.500 pessoas, também ameaça desencadear uma crise alimentar nos países onde se concentra, por si só já assolados pela pobreza e pela fome. 

Por Thalif Deen da IPS

Unidade de Tratamento do vírus Ebola Ilha Clinic, em Monróvia na Libéria. Foto: Morgana Wingard/ USAID (22/09/2014)

A crise limitar-se-á, sobretudo, aos três países onde se concentra a ação do vírus, Guiné, Libéria e Serra Leoa, afirmou Shenggen Fan, diretor-geral do Instituto Internacional de Pesquisas sobre Políticas Alimentares (IFPRI), uma organização independente com sede em Washington.
O ebola está a provocar uma crise alimentar por uma série de fatores relacionados entre si, como a morte dos agricultores, a escassez de mão de obra, o aumento dos custos de transporte e dos preços dos alimentos, acrescentou Fan. “Dentro desses países, onde a desnutrição é um problema há muito tempo, a crise alimentar pode persistir durante décadas”, alertou.
Mas, como Guiné, Libéria e Serra Leoa são importadoras de alimentos, é pouco provável que a crise alimentar se propague a outros países, dentro ou fora da região, ressaltou Fan. Os preços mundiais tendem a ter efeitos de transmissão nos preços dos alimentos regionais ou nacionais, mas, para os pequenos mercados, como são esses três países, é pouco provável que esse efeito transcenda as suas próprias fronteiras, sempre e quando a enfermidade em si não for transmitida para outras áreas, afirmou.
Segundo os últimos dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), até agora foram registrados cerca de 9.200 casos de ebola, incluindo 4.262 na Libéria, 3.410 em Serra Leoa e 1.519 na Guiné. O número de mortos é maior na Libéria (2.484), seguido da Serra Leoa (1.200) e da Guiné (862). O porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU), Stephane Dujarric, disse à imprensa, no dia 20 de outubro, que a OMS declarou a Nigéria oficialmente livre da transmissão do vírus, depois de 42 dias sem um só caso.
É “um êxito espetacular que demonstra que o ebola pode ser contido”, segundo a OMS. Isso “pode ajudar muitos países em desenvolvimento que estão profundamente preocupados pela possibilidade de um caso importado de ebola e que estão ansiosos para melhorar os seus planos de preparação”, ressaltou Dujarric. O anúncio aconteceu poucos dias depois de o Senegal também ser declarado livre do ebola, acrescentou.
O fundo criado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para combater essa doença mortal agora tem cerca de 8,8 milhões de dólares em depósitos e 5 milhões de dólares prometidos, informou o porta-voz. No total foram prometidos 43,5 milhões de dólares, e Ban continua a pedir aos países que cumpram essas promessas o mais rápido possível. O secretário-geral expressou o seu pesar pela morte pelo ébola de um membro da ONU Mulheres na Serra Leoa. O seu marido está a receber tratamento, afirmou.
“Todas as medidas de proteção do pessoal na Serra Leoa estão a ser tomadas da melhor maneira possível nas circunstâncias atuais”, assegurou Dujarric, como a descontaminação da clínica da ONU no lugar, a eliminação da instalação de isolamento e a localização de possíveis contactos.
Em comunicado divulgado no dia 21, o IFPRI informa que a situação que os três países enfrentam é sombria. As escolas na Serra Leoa fecharam, o que implica o fim de programas de alimentação fundamentais para crianças que dependiam deles. E as restrições ao consumo da carne de animais selvagens, a suposta fonte do ebola, eliminaram uma fonte tradicional de proteínas e nutrientes da dieta local.
“Além disso, nas zonas afetadas está a aumentar vertiginosamente o preço dos alimentos básicos, como arroz e mandioca, na medida em que as culturas são abandonadas e escasseia a mão de obra”, destaca o comunicado. A comida que se exporta dessas zonas tampouco está a chegar a outras regiões.
“Enquanto avaliamos os perigos dessa terrível enfermidade, não devemos esquecer a autêntica ameaça que representa para a segurança alimentar”, afirma o IFPRI. “A comunidade internacional deve unir-se para garantir a existência de redes de segurança que protejam não só as pessoas infetadas com o ebola, mas também aqueles cujo acesso aos alimentos estiver gravemente afetado”, acrescenta.
Essas redes de segurança, que poderiam consistir na transferência de dinheiro vivo ou em alimentos, devem estar acompanhadas de intervenções nutricionais e de saúde, explicou Fan. Por exemplo, um programa de transferência condicional de dinheiro vinculado à saúde pode melhorar o acesso aos alimentos nutritivos, especialmente quando os preços são altos, e também fomentar o uso dos serviços de saúde, acrescentou.
“Isto é importante porque investir na nutrição e na saúde das populações vulneráveis pode reduzir a taxa de mortandade de doenças como o ebola, já que a situação nutricional e a infeção estão intimamente vinculadas”, afirmou Fan. Quando passar a epidemia, a proteção social e as intervenções de apoio à agricultura serão essenciais para aumentar a resistência a futuras crises de subsistência, acrescentou, lembrando que a crise alimentar acrescentará milhares de mortes às provocadas pelo ébola nos três países mais afetados.
Os esforços recentes do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para dar assistência alimentar a 1,3 milhões de pessoas nesses três países dão uma ideia da magnitude da crise atual. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) também dá assistência alimentar a cerca de 90 mil famílias rurais para mitigar a crise, pontuou Fan. Para ele, no começo da colheita, a escassez de mão de obra coloca em perigo a segurança alimentar de dezenas de milhares de pessoas nas zonas especialmente afetadas.
Artigo de Thalif Deen Envolverde/IPS

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