Petrolíferas vs. Países: Quem manda em quem?

A Forbes atualizou a lista das maiores companhias. Se fossem países, as petrolíferas estariam entre as principais economias do mundo. 

Artigo de Alexandre Costa.
Graffiti nas paredes de Londres. Foto Bob Bob/Flickr


A Forbes atualizou a lista das maiores companhias. E nenhuma surpresa. Das 11 maiores em faturação, 7 são do ramo petrolífero (Shell, Sinopec, Exxon, BP, Petrochina, Total e Chevron), 2 do ramo automobilístico (Volkswagen e Toyta), uma do comércio (Wal-Mart) e uma de mineração (Glencore). Das 6 maiores, 5 são petrolíferas.
As petrolíferas, ramo predominante nessa lista, são um caso a parte, pois está claro e evidente o quão destrutivo, danoso, nocivo, deletério é o seu negócio. Explorar petróleo, com derrames e outros acidentes devastadores e, principalmente, com a desestabilização do sistema climático terrestre é algo que já deveria fazer parte do passado da humanidade.
Mas pelo contrário, elas mostram-se muito poderosas, algumas mais poderosas do que nunca, como as empresas chinesas. Se fossem países, estariam entre as principais economias do mundo: Shellândia, Sinopécia, Exxon-Mobilândia, Bepéia, República PetroChinesa, Totália e Chevrônia...
Mesmo tendo a anglo-holandesa Shell perdido o 1° posto absoluto para o Wal-Mart, ela continua, sozinha, uma verdadeira potência mundial, ao movimentar mais de U$ 451 bilhões. Se fosse um país, a Shell ocuparia o 26° PIB do mundo, batendo a Áustria e seus U$ 415 bilhões de PIB em 2013.
O faturação da China Petroleum (Sinopec), de U$ 445 bilhões também ultrapassa o PIB austríaco. Ao aparecer como a terceira maior faturação mundial, ela demonstra a força do capitalismo de Estado chinês, havendo boas hipóteses de essa empresa se converter na maior petroquímica já no ano que vem.
Em seguida, aparece a sempre poderosa norte-americana Exxon-Mobil, com U$ 394 bilhões. Essa faturação é ligeiramente inferior ao PIB dos Emirados Árabes (U$ 396 bilhões) e colocaria a Exxon-Mobilândia na 28ª posição do PIB mundial.
A britânica BP, que cinicamente ostenta um logotipo insinuantemente pseudo-ecológico, responsável por um dos maiores acidentes de toda a indústria do mundo, sendo considerado um Chernobyl no Golfo do México, não parece ter sido afetada e segue, ao longo da década, como uma das mais fortes empresas a nível mundial. A sua faturação de mais de U$ 379 bilhões tornaria a Bepéia um país com economia das dimensões da Colômbia, cujo PIB ano passado foi de U$ 381 bilhões...
Outra gigante chinesa, a PetroChina (CPNC), que faturou quase U$ 329 bilhões nos últimos 12 meses, já aparece como a 6ª da lista. Juntamente com a Petrobrás, a Shell e a Total e outra companhia chinesa, especializada em exploração "off-shore", faz parte do consórcio vencedor (bem... o consórcio competiu sozinho...) do leilão do Campo de Libra, ou seja, o primeiro grande ato de privatização do petróleo do pré-sal. Juntas, Sinopec e PetroChina, somam uma faturação de U$ 774 bilhões. Se as duas fossem um País, ficariam com o 19º maior PIB, ironicamente arrancando desse posto a Arábia Saudita.
As 10 maiores empresas, segundo a Forbes.
Essas cinco maiores petrolíferas resultam numa faturação conjunta de quase U$ 2 trilhões de dólares ao ano, o que é maior do que os PIBs de Austrália, Canadá e Índia, este último um país de 1,252 bilhões de pessoas. Juntemos Total e Chevron e a soma dos valores movimentados por apenas 7 empresas é de nada menos que U$ 2,44 trilhões, algo muito próximo do PIB do Reino Unido, de U$ 2,54 trilhões e maior que o PIB do Brasil, de U$ 2,24 trilhões. Por fim, unindo as 16 empresas de petróleo e gás cujo faturação nos últimos 12 meses ultrapassou a casa de U$ 100 bilhões (incluindo a Petrobrás e a Gazprom russa), chega-se a U$ 3,79 trilhões, superando o PIB alemão e assegurando às gigantes fósseis o posto de 4ª maior economia do mundo.
Ao perceber o quanto essas companhias se impõem como centros de decisão capazes de influenciar governos nacionais, organismos, foros e convenções internacionais, percebe-se que por mais aparentes que sejam as liberdades democráticas no mais democrático dos países, globalmente vivemos sob uma plutocracia: uma plutocracia fóssil-financeira. Com tamanha soma de dinheiro concentrada em somente um punhado de empresas, controladas por meia dúzia de acionistas (muitas vezes, bancos!) e diretores multimilionários, a circulação atmosférica e a economia globalizada, a dinâmica biogeoquímica dos oceanos e os mecanismos de decisão e pressão políticas se entranharam de tal modo, que o destino da espécie humana e de grande parte da biota terrestre ficou com o pé preso à bola de chumbo do grande capital.
A solução é libertarmo-nos desse peso, ou melhor, vencer a "guerra entre mundos", como diz a filósofa e investigadora da PUC, Déborah Danowski. A limitação do aquecimento global, a contenção do desequilíbrio termodinâmico e biogeoquímico dos nossos mares, o restabelecimento a longo prazo de condições climáticas estáveis e as futuras gerações de seres humanos (e não-humanos) dependem de quão fortemente sejamos - cientistas, formuladores de políticas, ativistas sociais, indígenas, trabalhadores/as, jovens etc. - capazes de nos opor ao mundo fóssil.

Alexandre Costa é doutorado em Ciência Atmosférica e professor na Universidade Estadual do Ceará. Artigo publicado no blogue O que você faria se soubesse o que eu sei? 

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