Auschwitz, campo de concentração e de extermínio - Blog A CRÍTICA

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Auschwitz, campo de concentração e de extermínio

As cerimônias finais da celebração dos setenta anos da libertação dos prisioneiros dos campos de concentração e de extermínio nazis pelo exército vermelho, tiveram lugar em 27 de janeiro último - como foi amplamente divulgado - em Oswiecim na Polônia, a que os invasores alemães deram o nome de Auschwitz. 

Por Mário Tomé

Celebração dos setenta anos da libertação dos prisioneiros do campo de Auschwitz - Foto de Auschwitz-Birkenau Memorial and Museum - auschwitz.org

O campo de Auschwitz foi fundado em 1940 e em Junho do mesmo ano recebia os primeiros prisioneiros políticos, um grupo de 728 polacos.

Daí em diante, o número permanente de prisioneiros oscilava entre os 13 e os 16 mil, chegando a atingir em 1942 os 20 mil. O número crescente de prisioneiros levou á construção de um grupo de campos em torno de Auschwitz que passou a ser o centro de um grande combinado de campos. Logo em 1941 começou a construção do campo de Birkenau (Auschwitz II), a três quilômetros, na aldeia de Brzezinska e em 1042 nasce o campo Auschwitz III em Monowice, nos terrenos das fábricas IG Farbenindustrie.

À entrada de Asuschwitz I podia ler-se "Arbeit macht frei"- "o trabalho liberta".


Cyclon B

Cerca de 75% dos prisioneiros que desembarcavam em Auschwitz, depois de viagens que chegavam a durar dez dias por vezes ao longo de 2.400 quilômetros, em vagões de gado, selados - em que grande parte dos velhos e crianças morria - eram assassinados nas câmaras de gás para onde eram enviados no momento da chegada, feita a seleção dos que valia a pena pôr a trabalhar até à morte por exaustão poucos meses depois...

Na fase final entravam nas câmaras de gás perto de 2.000 prisioneiros de cada vez, numa área de 210 m2 Os outros eram forçados a trabalhar 10 horas por dia, num ritmo alucinante, movimentando-se sempre em acelerado, alimentados com cerca de 1300 calorias diárias, o que quer dizer uma água chilra de manhã, uma sopa de hortaliças, a maior parte das vezes deteriorada, um naco de pão de 300 gr com 20 gr de margarina e à noite uma pobre tisana. O gás com que eram chacinados os prisioneiros era o Cyclon B produzido pelas fábricas Degesch em Dessau.

De início (porque depois era tal a quantidade das vítimas que não havia tempo para muitas burocracias) os prisioneiros eram fotografados em três posições, como muito bem aprendeu a PIDE. Sendo-lhes tatuado no antebraço esquerdo o número de série.
De acordo com os vários motivos da prisão ostentavam triângulos de cores diferentes cosidos na roupa do campo. Os detidos por razões políticas tinham um triângulo vermelho. Aos judeus era imposta uma estrela constituída por um triângulo amarelo cruzado com um outro com a cor correspondente ao motivo da prisão; aos ciganos um triângulo preto, assim como, aos homossexuais cor-de- rosa e aos criminosos de delito comum triângulos verdes.
É interessante notar que todos os perseguidos pelos nazis (no seu mais oportuno do que real paganismo prático) eram também, para os padrões da época, réprobos aos olhos da Igreja de Pio XII.
Pelas condições de total ausência de higiene, as epidemias associavam-se ao Cyclon B, ao trabalho forçado e à fome para dizimar os prisioneiros.
Os caminhos da morte
Portão principal de Auschwitz I, onde se lê a frase "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta") - Foto wikipedia
Todos os dias eram marcados pela “chamada” que muitas vezes tinha características disciplinares, sendo os prisioneiros obrigados a passar tempos infindos de joelhos ou sentados sobre os calcanhares com os braços levantados por cima da cabeça.
Mas os prisioneiros organizavam-se na resistência para salvar a sua própria humanidade. E a fuga também foi possível, com o apoio dos camaradas que seriam fuzilados logo a seguir. Nos campos de concentração a humanidade não podia ir muito longe, mas mesmo assim sobreviveu como demonstra Primo Levi apesar da reticência do seu desabafo trágico "se isto é um homem"...
A Gestapo de Katowice manteve durante todo o período do campo de Auschwitz, à disposição do tribunal de processo sumário, cerca de 400 mil, homens, mulheres de diferentes nacionalidades, prisioneiros de guerra soviéticos e criminosos de delito comum, sendo muitas vezes fuzilados frente ao "Muro da Morte" que ligava os Blocos 11 e 12. O Bloco 11 era o bloco das torturas e dos julgamentos sumários com passagem direta para o fuzilamento no muro da morte.
Mas, como se sabe, uma indústria sedenta de mão de obra infindável e por isso destituída sequer da necessidade de ser alimentada para além da próxima fornada, utilizava os prisioneiros nas suas fábricas. A participação ativa do grande capital industrial no genocídio foi uma das características do holocausto. Os donos da Krupp, da Bayer, da AGFA, da BAS, da Hoecht, não estavam muito acima do mais hediondo capo do campo de Auschwitz, nem os seus estaleiros eram muito diferentes dos campos de morte, pelo trabalho, em redor de Auschwitz.
Mas foram eles os notáveis que deram o grande incremento à Alemanha, e receberam milhões do Plano Marshall e forjaram a nova Alemanha, com a proteção do ocidente e do Vaticano que, nos casos em que o Tribunal de Nuremberg cumpriu a sua missão, protegeu, apoiou na fuga e intercedeu por alguns dos maiores e mais responsáveis criminosos nazis.
O número de mortos em Auschwitz ainda não está devidamente assentado. A anotação burocrática cedo foi ultrapassada pelo número crescente de prisioneiros e com a pressa da solução final. Mas as estimativas andam por volta dos 2.500.000 gaseados e cremados, 500.000 mortos por doença e esgotamento, ou seja um total de 3 000 000 de vítimas. Este número representa 70 a 80% de todos os detidos em Auschwitz. No entanto trata-se de uma mera estimativa.
Ao fim de décadas de investigação apoiada em cruzamentos, o mais exaustivos possível, de elementos, testemunhos e dados, em que os números de matrícula dos últimos prisioneiros têm uma importância decisiva - pode concluir-se como bastante verosímil, que:
Pelo menos 1.100.000 judeus foram deportados para o campo de Auschwitz: 430.000 da Hungria, 300.000 da Polónia, 69.000 de França, 60.000 dos Países Baixos, 55.000 da Grécia, 46.000 da República Checa, e da Morávia, 23.000 da Alemanha e da Áustria, 27.000 da Eslováquia, 25.000 da Bélgica, 10.000 da Jugoslávia, 7.500 de Itália, 690 da Noruega e 34.000 judeus transferidos de outros campos de concentração e de outros lugares não referenciados.
À margem da "Solução Final", os prisioneiros de guerra soviéticos iam sendo fuzilados arbitrariamente em grupos. Tratava-se de uma das rotinas e, certamente, uma forma de distracção do pessoal orgânico do campo. Também os polacos estavam sujeitos a procedimento "especial" e eram aniquilados sem julgamento apenas por determinação da polícia alemã. Muitos dos fuzilados na área dos crematórios não pertenciam aos prisioneiros do campo, sendo trazidos de fora para serem executados.
Há que notar que a maioria dos judeus polacos foi exterminada nos campos de Treblinka, Sobibor, Belzec e Chelmno, num total de 1,6 a 1,95 milhões. Dos 2.700.000 de judeus polacos que morreram durante a guerra: cerca de 500.000 pereceram nos guetos, 200.000 em diversas formas de execução e cerca de 2.000.000 nos campos.
"Solução definitiva do problema"
Auschwitz foi o local escolhido por Himmler, de entre os vários campos de concentração, para levar a cabo a "Solução Final".
Rudolf Höss, o antigo comandante em chefe do campo de Aushwitz refere-se à atribuição da tarefa desta forma: "No verão de 1941, fui chamado à presença do Reichsführer SS. Himmler recebeu-me, contra o habitual, na ausência do seu ajudante de campo e disse-me: "o Führer decretou a "solução definitiva do problema judeu". Nós os SS fomos encarregados de executar esta ordem. Os locais de extermínio já existentes no leste não são suficientes para levar a cabo as grandes acções projectadas. Escolhi Auschwitz primeiro por causa da sua localização favorável do ponto de visto das comunicações e, em segundo lugar, por se tratar de uma zona que facilmente se pode isolar e camuflar.(...) Os pormenores ser-lhe-ão comunicados por Eichmann. Os Judeus são o inimigo eterno do povo alemão e por isso terão de ser exterminados. Todos os judeus que tivermos entre mãos devem ser aniquilados agora, durante a guerra, e sem qualquer excepção. Se não conseguirmos agora destruir a base biológica da judiaria, serão eles, os judeus que, um dia, aniquilarão o povo alemão".
Prisioneiros libertados pelos soviéticos em 27 de janeiro de 1945 - Foto wikipedia
Entre os muitos outros campos de extermínio, Auschwitz foi o escolhido porque dispunha duma estrutura administrativa e técnica adequada.
Mas até se chegar aí, que aconteceu? Por que razão os judeus tinham que ser aniquilados desde as suas "bases biológicas"?
A própria fala de Himmler mostra claramente que a decisão do extermínio não estava programada desde o início, como está confirmado pela investigação histórica.
Em primeiro lugar tenhamos em conta que, entre os cinquenta milhões de pessoas mortas na hecatombe da Segunda Guerra mundial, mais de 10 milhões foram vítimas da política de extermínio, sem precedentes, conduzida pelo Terceiro Reich, sem paralelo na história da humanidade, tal a forma como foi planificado e os métodos industriais usados para matar. Sem ironia alguma, não nos esqueçamos que a chacina, o massacre e o genocídio, na Europa - e a Inquisição como forma sistemática e duradoura foi a mais mortífera e eficaz - eram já uma prática notável desde há muito e que o desenvolvimento do capitalismo - técnico e organizativo - conferiu a essa forma específica de controlo político, de reforço do poder, de expansão, de extorsão e apropriação rápida da propriedade, uma nova qualidade.
O êxito econômico e o controlo das mentes
Hitler deu o salto que ainda não tinha sido dado e fê-lo criando as condições para a completa impunidade jurídica, política e moral. Pelo contrário, ganhou apoio popular para as medidas mais execráveis e extremas, pelo método do pseudo-sigilo desculpabilizante (ou seja, todos ignoramos aquilo que toda a gente sabe) em articulação com a retórica do mais refinado cinismo, a partir de um programa bem estruturado de orgulho nacional, transformado em orgulho racial. Com espantosas fraudes financeiras ao nível do Estado, jogando com a dívida pública a curto prazo - o que vier soará, e soou em 1939! - apoiando sem travão os grandes capitalistas em pânico com a depressão que desceu arrasadora de Wall Street, usou métodos draconianos e eficazes para acabar com o desemprego, na realização de obras estatais de grande envergadura e conseguindo um grande aumento da produção e do nível de vida do povo, tirando-o do charco da grande depressão que colocou a Europa capitalista perante o dilema: guerra ou revolução.
O imperialismo só podia ir para a guerra para impedir a revolução. Vinte anos antes a chacina da Primeira Guerra mundial, levara à revolução.
O programa do partido nacional socialista alemão já deixava claro, em 1920, para quem soubesse e quisesse ler: "Exigimos novos territórios para alimentar a nossa nação e instalar o excedente da nossa população". Este tema é desenvolvido no Mein Kampf, poucos anos depois, iniciada a segunda Guerra Mundial: "Devemos acabar de uma vez por todas com a política de entre guerras e passar à futura política territorial. Mas quando falamos hoje em novas terras no continente europeu,pensamos antes do mais na Rússia e países vizinhos dela dependentes".
Mas antes, em 1937, Hitler declarava numa conferência com Ribentrop e os altos comandos militares : "Para nós não se trata de conquistar povos mas apenas conquistar espaço para utilização agrícola". Em 1942 Heinrich Himmler acrescentava que não lhes interessava germanizar os povos do Leste mas sim que no "leste possa viver um povo de origem puramente alemã".
Para começar era preciso transformar o Terceiro Reich num país uninacional: "Uma só nação, um só Estado um só Chefe".
A primeira vítima foram os judeus da Polônia e a sua decorrente recolocação noutro qualquer lugar - lembremo-nos que o que os nazis queriam era raça pura e terra, e a Polónia era logo de início o território natural de expansão e o acesso ao Mar do Norte (não deixa de ser chocante a semelhança com o projecto sionista de Theodore Herzl que preconizava que a nova nação judia, na Palestina, deveria ter as suas próprias classes sociais, inclusive classe operária, pelo que os árabes não deviam ser explorados mas substituídos na sua totalidade. O que, aliás, disse Golda Meir no mesmo sentido e é o que está a fazer o poder sionista de Israel desde 1947).
A grande diferença é que os judeus que apoiaram Herzl e o continuaram, eram pobres e perseguidos. Por isso a Terra Prometida foi durante muitas dezenas de anos a Europa Ocidental e os Estados Unidos. A Palestina só passou da teoria à prática com o impulso da Grã-Bretanha que usou todos os métodos que ela bem sabia e sabe, nomeadamente o cerco e o boicote à fuga dos martirizados judeus para Inglaterra e os EUA durante a guerra, empurrando-os para a Palestina como parte da sua estratégia de domínio militar e colonial na zona.
A eterna luta de classes : "o taberneiro judeu do século XVI na Polônia pensava tanto no regresso à Palestina quanto pensa hoje o milionário judeu da América". Antes que começassem os pogroms na Europa, a ligação dos judeus à Palestina era puramente religiosa.
Há apoios que não se desdenham
Prisioneiros fabricando partes de aviões na fábrica da Siemens no subcampo de Bobrek - Foto de wikipedia
Parece que Hitler tinha uma aversão particular aos judeus. Nada de especial nem de novo. A guetização social e política dos judeus tinha sido uma prática europeia, não por qualquer razão de ordem escatológica ou teológica, embora bem firmada nessas bases, mas por puras razões económicas e demográficas, como é natural.
Mas Hitler andava enrolado com os "Protocolos dos Velhos do Sião", uma mistificação espalhada pela polícia secreta do Czar para "revelar" uma conspiração para governar o mundo. E para Hitler essa conspiração claro que era dirigida pelos judeus, ou seja, pelos bolcheviques que haviam tomado o poder na Rússia.
O sucesso da invasão da Polônia terá aguçado a política nazi de combate aos judeus, recolocando-os no leste da Polônia para depois avançar ao ataque à União Soviética.
Foi esta missão redentora do povo alemão que provocou a apatia das potências ocidentais face às provocações, primeiro, e acções depois de Hitler na preparação da conquista territorial e que entusiasmou o Papa Pio XII no seu heróico proselitismo, como se pode medir pela mensagem de Natal de 1942: "A hora não é de lamentações mas de actos... Possuídos pelo entusiasmo das Cruzadas unam-se os melhores da Cristandade... ao grito: 'É Deus que o quer'! prontos a servir e a sacrificar-se como os cruzados de antanho. Exortamo-vos e conjuramo-vos... a compreender intimamente a gravidade terrível das presentes circunstâncias. Quanto a vós, voluntários que participais nesta Santa Cruzada dos novos tempos, levantai o estandarte...declarai guerra à trevas de um mundo sem Deus".
De acordo com o Dr. Otto Dietrich, que viveu no círculo íntimo de Hitler, este nunca deixou a Igreja católica. Proibiu mesmo que na Alemanha se continuasse a chamar a Carlos Magno o "carniceiro dos Saxões", pois Carlos Magno cristianizou a Alemanha e Hitler queria, como ele, unir o alemães e criar o Império. Daí aprovar os terríveis massacres de Carlos Magno para unificar a Alemanha sob a égide do cristianismo.
Aliás o próprio Geral dos jesuítas, o Conde Halke von Ledochowsky, afirmou a sua disponibilidade para um certo entendimento e colaboração entre os serviços secretos alemães e a Ordem dos jesuítas. O jornal "Basler Nachrichten" de Bâle em 27 de março de 1942, escrvia." Uma das questões que coloca a acção alemã na Rússia e que interessa em supremo grau ao Vaticano, é a da evangelização da Rússia."
Ao contrário dos judeus, o catolicismo é uma religião de proselitismo essencial, e toda a sua acção foi e continua sendo, noutros moldes, claro, a da conversão dos pagãos. Por isso sempre se associou aos mais brutais crimes praticados em seu nome, na expansão e no genocídio, o mais recente dos quais terá sido a participação de padres e freiras católicos na preparação e na execução do genocídio do Ruanda.
A sua intimidade e apoio aos regimes de Salazar, Franco, Mussolini e Hitler não é, pois, de estranhar.
Talvez por isso Hitler, confidenciava a Hermann Rauschning, presidente do Senado de Dantzig, conforme o relato deste: "Os meus judeus, são os melhores reféns de que disponho... Se o Judeu não existisse era preciso inventá-lo".
A imprensa berlinense, a partir de setembro de 1942 anuncia aos seus leitores: "a Sérvia é a primeira região da Europa a ser limpa dos seus judeus". Mas também foram massacrados os sérvios e cristãos ortodoxos, no processo conduzido pelo novo Estado croata em 1941, de conversão forçada da população - só no campo de Jasenovac foram massacradas em poucos dias 200 000 pessoas com requintes da bestialidade mais atroz, sendo a degola o método por excelência para castigar o "crime da ortodoxia sérvia". Esta acção hedionda enquadra perfeitamente no espírito sustentado calmamente pela Igreja de Roma ciosa de converter, converter, converter.
A usura da memória relativiza o desastre
A terrível realidade do holocausto não pode ser vista, portanto, como uma questão privada dos judeus, um contencioso apocaliptico entre os judeus e os nazis como por vezes se pretende fazer.
Porque, como poderemos ver se nos debruçarmos sobre as páginas dessa terrível evidência do que as pessoas podem fazer a si próprias (enquanto outrém) nos processos desencadeados pelos poderes fácticos, reais e institucionalizados, mesmo quando e onde se pensava ter atingido graus de civilização irreversíveis, muitos e variados interesses e poderes se entrecruzaram .
Entrada para Auschwitz II-Birkenau, o campo de extermínio do complexo de Auschwitz. Patrimônio Mundial da UNESCO - Foto wikipedia
A escolha por Hitler dos judeus como primeiras vítimas no seu processo de mais território e território limpo de contaminados, sejam eles ciganos, "associais", deficientes, doentes, judeus, bolcheviques, pode talvez entender-se como resultado de dois vectores: primeiro as peculiaridades históricas e políticas dos judeus (que o próprio Marx analisou superiormente em "A questão judaica") e a sua "guetização" tradicional, que permite que "a partir de 1933, os judeus de Breslau - até aí, totalmente integrados na sociedade alemã - começaram a sentir na pele o ódio alimentado pela propaganda nazi." (testemunho no Público de 27 de janeiro).
De facto, na Europa ocidental os poucos grupos remanescentes de judeus estavam em franco processo de assimilação, depois de terem sido praticamente expulsos quando exerciam as funções de comerciantes e usurários, durante os séculos XIII, XIV e XV.
Na Europa oriental, quando em princípios do século XIX começa a desenvolver-se uma burguesia nacional e a nobreza em crise se empenha nos vários sectores da produção, a massa de judeus, na sua maioria pequenos comerciantes, publicanos e vendedores vê-se perante a necessidade de uma transformação social e da emigração.
Entalados entre o capitalismo e o feudalismo lutam por continuar as suas actividades decadentes. O capitalismo em crise dificulta a tomada de novos postos. A massa judaica do leste europeu vive praticamente na miséria.
A emigração dos judeus da Europa oriental dá-se para a Rússia, Alemanha, Áustria e, depois, sobretudo para os Estados Unidos da América. A emigração para a Europa ocidental faz renascer o anti-semitismo.
A pequena burguesia arruinada com o desenvolvimento do capitalismo monopolista volta todo o seu desespero contra os imigrantes judeus, facto aproveitado pelo grande capital.
Portanto o "Povo Eleito" apenas foi a vítima inicial, a mais fácil de circunscrever e de servir de engodo ao povo alemão, desde o operário ao intelectual, para o grande projecto racial e imperial de Hitler. Eles e os ciganos. Já estavam marcados pela história. A primeira ideia de limpeza étnica e primordial fundação genética "ariana", passava pelo estímulo mais ou menos violento à emigração e depois pela deportação dos judeus para Madagáscar! Enquanto os eslavos, à excepção de um pequeno número de pessoas de origem alemã, que enquanto tal podiam ser assimiladas, seriam deportados para a Sibéria, o que mostra, aliás, a pouca criatividade da história das sociedades e a sua dependência do território e dos interesses de classe. Em alternativa, em cima da mesa esteve um projecto de esterilização da população da Europa do Leste.
Parece que dos sucessos militares, e a real integração e participação, por vezes entusiástica, da Wermacht nos massacres, ao contrário do que se pretendeu fazer crer e ainda pretende, em defesa da superioridade moral das forças armadas de qualquer país (ajudemo-nos uns aos outros, nós os que fazemos as guerras, forma superior de fazer política sem sujar as mãos!!! - parece piada mas é exactamente assim que se pensa ainda hoje no mundo "civilizado") surgiu a ideia, tornada simples, afinal, pelo blitzkrieg, de avançar para uma solução radical: a liquidação de povos inteiros.
Shoah ou holocausto: a humanidade já deu provas de que nada a pára, de que é capaz de tudo. Só a superação das condições de alienação e do imperialismo, pode permitir a concretização dos anseios dessa mesma humanidade, expressem-se eles de forma laica, por ateus empedernidos,ou religiosa de budistas, judeus, muçulmanos, taoistas, animistas e cristãos. Não podemos cair, no entanto, na ingenuidade de colocar o catolicismo ao mesmo nível: o Vaticano enquanto Estado tem políticas de Estado e o seu império real não é de almas...
E todos eles são capazes do melhor e do pior, na sua fé sublime. Têm de reconhecer, aliás, que em nome dela ou contra ela se cometeram as maiores atrocidades. Talvez não reconheçam, mas o problema é deles, que o conflito real está noutro lado.
De novo, setenta anos depois, se coloca a questão candente: guerra ou revolução.
E o "Nunca Mais" que se ouviu nos sessenta anos do fim daquela brutal imolação num outro altar - porque assim aceite pelo povo - tão brutal que nem como pesadelo podia ser concebida, não passa em boa verdade de terno embalo quando vemos o que se está a passar hoje no mundo e as cumplicidades que sustentam esta nova barbárie ultra-civilizada.
E se o holocausto não tem comparação, ele tem distintos avoengos e não lhe faltam herdeiros.
Tratar o holocausto como aquilo depois do qual a poesia não é mais possível, dar-lhe o carácter de excepcionalidade absoluta, só nos pode impedir de impedir que volte a acontecer, e contribui para tapar olhos que gostam de estar fechados nas alturas próprias.
A poesia voltou a ser possível - o frágil broto surge no mais rigoroso deserto. É pois necessário tratar o holocausto como fenómeno histórico, da história das pessoas iguais às outras pessoas e não como algo que, por transcender a materialidade do efémero, afinal não pode ser evitado graças à vontade de Deus.
Bibliografia: 
Auschwitz, camp de concentration et d'extermination, obra colectiva sob redacção de Franciszek PIPER e de Teresa SWIEBOCKA, edições do Museu de Auschwitz-Birkenau, 1998 
O Vaticano contra a Europa, Edmond PARIS, livraria Fiscbacher, 1959 
Um olhar sobre o Holocausto, Inga CLENDINNEN, Prefácio editora, 2000 
Les grandes controverses du temps présent, Jacques de LAUNAY, Marabout Université, 1964 
História do Mundo, Jean DUCHÉ, 1971

Artigo de Mário Tomé. O título deste artigo está de acordo com anterior publicação na revista Perspectiva

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