O yuan, segunda moeda de comércio internacional

Nos últimos três anos, os créditos de comércio na moeda chinesa passaram do quarto lugar (depois de dólar, euro e iene) para segundo. O mais significativo deste auge é a velocidade com que o yuan passou de 1,89% para 9,43% do total do crédito de comércio no mundo. 

Por Oscar Ugarteche.

Em apenas três anos a participação do comércio com crédito em yuanes quadruplicou ao mesmo tempo que essa moeda se valorizou 10% em relação ao dólar

O comércio internacional no mundo opera através de crédito documentário. Historicamente as moedas líderes das cartas de créditos foram o dólar, o euro e o iene; e o yuan estava em quarto lugar até janeiro de 2012, quando começou a subir ultrapassando primeiro o iene e depois o euro como segunda moeda em que há mais cartas de crédito. O auge do yuan está longe de ser uma ameaça ao dólar mas foi-o para o iene e para o euro que verão no futuro comércio asiático mais volume em moeda chinesa.

Em janeiro do ano 2012, os créditos documentários em yuanes eram 1,89% do total emitido, medidos em valor. Os ienes eram 1,94% e os euros 7,87%. A moeda líder, o dólar representava 84,96%. Três anos mais tarde a descida do dólar para 79,23% teve como contrapartida o aumento do comércio internacional em créditos em yuanes para 9,43% deslocando o euro que baixou para 6,74% e o iene que desceu para 1,55% do total do valor de créditos documentários.

O mais significativo deste auge é a velocidade com que passou de 1,89% para 9,43% do total do crédito de comércio no mundo. Em apenas três anos a participação do comércio com crédito em yuanes quadruplicou ao mesmo tempo que essa moeda se valorizou 10% em relação ao dólar. Isto quer dizer que cresce o valor do yuan no mercado internacional em dólares e crescem as transações de comércio internacional efetuadas nessa moeda. Sem dúvida isto é uma forma de poupar nas transações comerciais com a China e sobretudo de poupar perante a volatilidade do dólar face ao yuan. A apreciação do dólar no período iniciado em junho do 2014 curiosamente não se refletiu numa depreciação do yuan.

O uso do yuan no mercado cambial já se tinha fortalecido por diversos acordos de pagamento de petróleo e pela introdução do yuan no mercado cambial de Londres e nos ecrãs da Reuters. Esse processo foi acentuado pelos acordos com a Rússia para a compra de gás, substituindo o mercado europeu e pagáveis em yuanes em vez de euros, o que reduz o peso de uma moeda e faz crescer o da outra. E finalmente pelas expectativas que o comércio crescente com a América latina igualmente se desloca para a utilização das cartas de crédito em yuanes. É possível que o comércio da nova União Euroasiática (UEA) com a China se faça integralmente em yuanes enquanto o comércio dentro da UEA se fará em rublos.
O Swift, o mecanismo de pagamentos internacional, promove desde o ano 2010 a utilização do reminbi como divisa e dá informação sobre isto e sobre o mercado cambial. Para o Swift a definição de divisa é igual à do FMI. Uma moeda é considerada tipicamente “internacional” quando é utilizada como unidade de conta (por exemplo para faturar), um meio de pagamento (para compensar o comércio transfronteiriço) e um depósito de valor (depósitos, moeda de reserva). O reminbi ou yuan está subutilizado segundo este intermediário financeiro no comércio internacional. Em junho de 2011, a China tinha 11,4% do comércio mundial mas somente 0,24% dos pagamentos eram efetuados nessa moeda. Isto mudou drasticamente tendo subido para 9,43% mas isto deve-se a que o comércio intrarregional entre a China, Hong Kong, Macau, Cingapura e Taiwan se efetuam integralmente nessa moeda. O outro grande comércio com Estados Unidos, Europa e América latina continua a efetuar-se em dólares ou euros. O comércio no resto do mundo não se efetua em yuanes ainda que começa a ser feito em euros.
No ano 2011, o peso do reminbi no mercado cambial internacional era de 0,9% enquanto o peso do PIB chinês era 11% do PIB mundial. Em janeiro de 2015 o PIB chinês pesa 17% do PIB mundial e é maior que o PIB dos Estados Unidos segundo o Financial Times mas a sua moeda pesa somente 2,06% do mercado cambial.
A China entrou na dinâmica de fazer valer a sua moeda e tem o suporte do mercado financeiro internacional que vê nela a moeda do futuro por estar sub-representada tanto no seu uso no comércio como no seu uso como moeda de reserva. Os novos convênios com a Rússia assim como o esforço por intensificar a sua relação econômica com o resto do mundo na sua própria moeda apontam nessa direção. O desafio para a China será se pode ultrapassar o peso simbólico do dólar (“um dólar é um dólar”) e a maneira como vai enfrentar a sua valorização perante a subida da taxa de juro dessa moeda. Se se desvalorizar, como todo o resto das moedas do mundo, não será um bom sinal. Se se mantiver ou continuar a valorizar, será o alvo da crítica americana mas o augúrio de que continua o curso de fortalecimento no sistema internacional. Ser a primeira economia do mundo, com as maiores reservas internacionais do mundo e a taxa de crescimento mais alta do mundo, mas não ter a primeira moeda do mundo é um sinal de debilidade sistêmica. É a segunda moeda do mundo, mas oito vezes menos importante que a primeira no comércio internacional. Clearstream antecipa que a conta de capitais da China abrir-se-á completamente em 2020 o que definirá o reminbi como moeda de reserva plena.
Artigo publicado em Observatório Econômico Latinoamericano, obela.org

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