Dez milhões em risco de fome devido a condições climáticas extremas

Pelo menos dez milhões das pessoas mais pobres do planeta poderão passar fome em 2015 e 2016 devido às condições climáticas extremas e ao fenômeno El Niño, segundo a organização humanitária Oxfam. 

Por Tharanga Yakupitiyage.

El Niño de 1997-98 observado pelo Topex/Poseidon. Foto: en.wikipédia.org
El Niño de 1997-98 observado pelo Topex/Poseidon. Foto: en.wikipédia.org
No informe Entrando em Águas Inexploradas, a Oxfam assinala a existência de padrões climáticos erráticos, incluindo altas temperaturas e secas, o que perturba as colheitas e a produção agrícola em todo o mundo.
Os países já enfrentam uma “emergência grave”, como é o caso da Etiópia, onde 4,5 milhões de pessoas necessitam de assistência alimentar devido à seca deste ano, indicou a organização. No Malawi, quase três milhões de habitantes poderão passar fome em consequência das chuvas irregulares, seguidas pela seca. Essas condições provocam a interrupção da produção de alimentos e o aumento dos preços. A organização Christian Aid informou que a produção de milho, alimento básico desse país, caiu 30% em 2014, enquanto os seus preços subiram entre 50% e 100%.
Os produtores agrícolas da América Central também sofrem uma seca há quase dois anos, que afetou a produção de milho e diminuiu o acesso a uma alimentação suficiente.
A Oxfam adverte que as condições se agravarão devido à chegada do fenómeno El Niño/Oscilação do Sul (Enos), cuja fase quente ganha corpo quando aumenta a temperatura superficial da água nas áreas oriental e central do Pacífico equatorial. Esse aquecimento das águas da maior bacia oceânica do planeta, somado a outros padrões de circulação atmosférica de grande escala, ocasiona significativos efeitos climáticos regionais, que são observados em grande parte do mundo.
O Enos pode durar entre nove meses e dois anos, produzindo chuvas inferiores à média, além de altas temperaturas. Segundo a Oxfam, o fenómeno deste ano poderá ser o “mais poderoso” desde 1997, e já reduziu as chuvas de monção na Índia, o que poderá desencadear uma prolongada seca, além de insegurança alimentar na região oriental do continente asiático.
O aquecimento dos oceanos, agravado pela mudança climática, poderá duplicar a frequência dos mais poderosos desses fenómenos, segundo a Oxfam. A organização exortou por uma ação preventiva e recordou as terríveis consequências da falta de resposta, como a morte de 260 mil pessoas provocada pela crise alimentar no Corno de África, em 2011.
A Christian Aid também destacou que o Malawi tem um défice superior a 130 milhões de dólares nas suas necessidades de financiamento, o que dificulta o apoio às comunidades mais afetadas. “Se os governos e as agências tomarem medidas imediatas, como fazem alguns, então poderiam ser evitadas as grandes emergências humanitárias do próximo ano. Vale mais prevenir do que remediar”, afirmou a Oxfam no seu informe.
Esse documento foi publicado no dia 1 deste mês, uma semana depois da adoção dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) numa cimeira por ocasião da 70ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que incluem compromissos para erradicar a fome e também a luta contra a mudança climática.
A Oxfam pontuou que a crise que está a desenvolver-se é o “primeiro teste” dos líderes mundiais que se reunirão em cimeira em Paris para participarem da 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática. A COP 21, que acontecerá de 30 de novembro a 11 de dezembro, deve forjar um acordo universal e vinculativo para evitar que a temperatura da Terra supere os dois graus Celsius.
“Isso deve servir para chamar atenção dos governantes para que cheguem a um consenso sobre um acordo mundial para combater a mudança climática”, afirmou o presidente-executivo da Oxfam Grã-Bretanha, Mark Goldring. Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional, dos Estados Unidos, 2014 foi o ano mais quente da história. Entretanto, os dados mundiais em curso revelam que 2015 poderão superar essas temperaturas recordes.
Artigo de Tharanga Yakupitiyage da IPS. Envolverde/IPS

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