O Carnaval aproxima-se e com ele o estudo da psicologia popular aplicada. Não há época melhor para medirmos a resistência individual e coletiva em face de virtudes ou vícios. E, etnograficamente, compararmos o desaparecimento ou persistência de tradições carnavalescas, uso ou esquecimentos de gestos, cantigas, palhas e hábitos velhos. O Carnaval é um documento irrespondível. Para a burguesia capitalista o Carnaval é uma escapação da sobrecarga. Uma evasão das preocupações trágicas do dia quotidiano. O valor da observação está em ver de como o homem se diverte ou julga divertir-se. O essencial, no domínio psicológico, é constatar como ele aplica o seu tempo e em que direção escolheu a técnica para esquecer-se do trabalho terrível dos outros dias.
Carnaval como sinônimo de licenciosidade, irresponsabilidade, garantia tradicional das loucuras, comprova sua duração no Tempo e o espírito de sua função sacra e orgiástica. Reparem, nessas horas de liberdade, como falam, cantam e gritam homens que passam o ano cheios de gravidade, porejando circunspeção, irradiando protocolo. Estudem no delírio do “Passo” a necessidade de movimento, de gesticulação, e trejeitos. Tudo aquilo estava comprimido, apertado, guardando nos refolhos da Vontade, aguardando a oportunidade para manifestar-se. Vejam também, pelas “fantasias” dos ricos e pelos disfarces improvisados pelos pobres, o senso da decoração, do colorido, da ornamentação de cada um. Vejam a predominância das cores primitivas, vermelho especialmente, vermelho sangue de boi. Vejam as facilidades com que os grupos, cordões, blocos se organizam na rua e escolhem chefes, no fenômeno natural da sociabilidade. E a parte da improvisação musical. De expressão mímica. As reações populares aos acontecimentos, cantigas, caricaturas, críticas. E os ditos, anedotas, reparas, respostas, perguntas “de achatar”. E anote-se a alimentação especial desses dias tanto nas residências como nas ruas. O que se come durante o Carnaval seria objeto de uma pesquisa sugestiva. E os homens que se vestem de mulher e as mulheres que se vestem de homem, abominação que Jeová condenou no Deuteronômio? Há no Carnaval todos os elementos para estudo, alegria, esquecimento e loucura. Dirá melhor Bauville:
- Le carnaval s’amuse!
Viens le chanter, ma Muse...
Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 22 de janeiro de 1948


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