Beleza Ameaçada

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

“Quando meus olhos estão sujos da civilização, cresce por dentro deles
um desejo de árvores e pássaros” Manoel de Barros

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A biodiversidade da Terra está sob ataque. É preciso voltar a 65 milhões de anos para encontrar taxas de extinção de espécies tão altas quanto ocorre atualmente.
O Índice do Planeta Vivo, da WWF, que mede as tendências de milhares de populações de vertebrados, diminuiu 52% entre 1970 e 2010. Em outras palavras, a quantidade de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes em todo o planeta se reduziu pela metade nos últimos 40 anos.
A jornalista e escritora Elisabeth Kolbert no livro “A sexta extinção: uma história não natural” chega à conclusão de que uma quantidade inigualável de animais está desaparecendo a uma taxa assustadora. A sexta extinção tem o potencial para ser a mais devastadora da história da Terra. Mas, dessa vez, a causa não será um asteroide ou algo semelhante. O crescimento da civilização, a ganância e o egoísmo humanos são os motivos principais.
Em geral, as pessoas preocupadas com a conservação das espécies dão ênfase à situação crítica que ameaça os grandes animais: tigres, ursos polares, baleias, gorilas, rinocerontes, etc. Também há grande temor com a Síndrome do Colapso das Colmeias, pois as abelhas são polinizadoras fundamentais para se garantir a produção agrícola essencial para a alimentação dos mais de 7 bilhões de habitantes do globo.
Mas o que acontece com a grande maioria da vida animal que os habitantes das cidades nem conhecem? O que dizer dos insetos e larvas que podem desaparecer dos ecossistemas sem qualquer impacto aparente? Qual a situação das aves canoras que alegram a sinfonia da vida selvagem? O que tem sucedido com o canarinho que é símbolo da seleção brasileira?
Um novo estudo publicado na revista Ecology, em agosto de 2016, demonstra que a biodiversidade tem um valor inestimável para os ecossistemas. Na verdade, a presença ou ausência de espécies raras podem fornecer pistas importantes se um bioma está próximo de um possível colapso. O uso exagerado e indiscriminado de fertilizantes e agrotóxicos tem um grande impacto ambiental e as aves raras são as primeiras a sofrer.
Mas existem iniciativas que tentam interromper o colapso. A animação “Rio”, trouxe, para os cinemas do globo, os dramas da ararinha-azul, do crime do desmatamento e do tráfico de animais silvestres. O diretor Carlos Saldanha deu vida a uma bela, inteligente e bonita ararinha, chamada Blu, que conquista o público e alerta o mundo para os riscos de extinção da flora e fauna tropical.
Felizmente, há outras importantes iniciativas. O “Projeto Beleza Ameaçada” é uma luz de esperança para as aves raras brasileiras. O fotógrafo Tony Genérico, perito e experto na técnica dos splashes, utilizou seus conhecimentos de fotografia de alta velocidade para registrar alguns pássaros símbolos alçando voo.
Não existem dois splashes idênticos. Usando a desconstrução das cores de forma dialética e dinâmica, os splashes parecem ameaçar e ao mesmo tempo realçar a beleza das aves. Cada foto é única e jamais poderá ser repetida. O resultado é belo, original, artístico, impactante e contribui para a preservação da rica biodiversidade das aves brasileiras.

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O trabalho inovador do fotógrafo Tony Genérico estará à disponível à visitação do público no Forte de Paraty. Evento promovido pelo Festival de Aves de Paraty em parceria com o Paraty em Foco, 12º Festival Internacional de Fotografia, que vai ocorrer na cidade de Paraty, RJ, entre os dias 14 e 18 de setembro de 2016.
A ave símbolo do festival Aves de Paraty (Paraty em Foco) será o Formigueiro-de-cabeça-negra. A espécie, endêmica do Sul Fluminense, foi descrita pela primeira vez em 1851, mas durante décadas foi considerada extinta. Todavia, felizmente, um casal de observadores de aves redescobriu a espécie em setembro de 1987 e estima-se atualmente a existência de 50 indivíduos.
A espécie Formigueiro-de-cabeça-negra vive na divisa de Paraty com Angra dos Reis e conta com a solidariedade das pessoas amigas da natureza para sobreviver e demonstrar que ainda existe alguma esperança para a manutenção da diversidade biológica e da vida em todas as suas manifestações.
A resiliência dos ecossistemas brasileiros depende de iniciativas como esta para mostrar que “nossos bosques têm mais vida” e para evitar que a beleza seja permanente e constantemente ameaçada.
Referências:


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
in EcoDebate, 02/09/2016

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