O triste legado Olímpico

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A realização da Copa do Mundo, das Olimpíadas e das Paraolimpíadas no Brasil foram vendidas como um sinal de prosperidade e de grandeza de um Brasil, potência emergente, que iria ensinar ao resto do mundo como fazer enormes megaeventos cheios de alegria e desconcentração, próprias de uma sociedade morena, tropical, cordial e em ascensão.
Mas a realidade é bem diferente e qualquer pessoa minimamente informada sabe que esses megaeventos são o sonho de ouro das megaempresas que buscam grandes lucros e dos políticos e cia que almejam o vil metal.
No caso da Copa do Mundo, os governos de plantão apelaram para a paixão brasileira pelo futebol e prometeram fazer a “Copa das Copas”. A FIFA – uma das entidades mais corruptas do mundo (como mostram as prisões já realizadas de alguns de seus dirigentes) – exigiu a remodelação de 8 estádios para as competições. O governo brasileiro, megalomaníaco, decidiu fazer 12 “arenas”, inclusive em Unidades da Federação, onde não existe nenhum time nem na série A ou B do campeonato nacional (como Manaus e Cuiabá).
O Maracanã que já recebeu um público de 140 mil pessoas no passado, ficou reduzido a cerca de 70 mil. Enquanto o espaço interno diminuiu o custo da reforma aumentou exponencialmente, pois a corrupção foi tão grande que é um dos motivos da prisão do ex-governador Sérgio Cabral e outros de seus asseclas. O legado é que o antigo “Maior estádio do mundo” está subutilizado e o custo de abertura para cada jogo de futebol é tão grande que os times do Rio preferem jogar em estádios menores, mas com maiores retornos financeiros. Recentemente, os ex-governadores José Roberto Arruda e Agnelo Queiroz foram presos por corrupção pelas obras do estádio Mané Garrincha que foram orçadas em R$ 600 milhões e custaram R$ 1,5 bilhão. O escândalo é geral e atinge das as arenas.
A atual e as próximas gerações de brasileiros vão pagar os custos da Copa do Mundo de futebol. Os propalados resultados na conta turismo do Brasil foram, evidentemente, os piores possíveis. Em 2014, a conta da balança de turismo do Brasil com o resto do mundo foi deficitária em US$ 20 bilhões.
O mesmo espírito corrupto e a mesma manipulação da paixão popular pelos esportes prevaleceram na preparação da Rio 2016. A abertura da Olimpíada ocorreu na “Cidade Maravilhosa” no dia 05 de agosto de 2016. O evento contou com mais de 11 mil atletas de todo o mundo e o encerramento ocorreu no dia 21 de agosto de 2016.
A promessa do saneamento básico foi pro ralo. O rio Carioca – que define o gentílico da cidade – está poluído e é melhor caracterizado como uma “língua negra” que carrega o esgoto para o mar e acumula superbactérias. A baia da Guanabara, que foi muito cantada em prosa e verso, já teve vários projetos de saneamento, mas continua fétida, suja e se tornou um grande pinico, uma área de descarte da sujeira de toda a região metropolitana do Rio de Janeiro. A baia, recebe em média 10 mil litros por segundo de esgoto sem tratamento. A situação não é diferente nas lagoas de Jacarepaguá.
O dinheiro dos royalties das jazidas maravilhosas do pré-sal – que seriam a redenção nacional e local – nunca chegaram na quantidade prometida e o pouco que chegou caiu nas malhas da corrupção, sendo que alguns dos corruptos estão presos em Bangu. Um incêndio atingiu o Velódromo do Parque Olímpico do Rio, na Barra da Tijuca, na véspera do aniversário de um ano. O Rio está pegando fogo e ficando sem gás e sem energia.
Em artigo de 09/02/2017, na Folha de São Paulo, Juca Kfouri reconhece que os críticos da Copa do Mundo e da Olimpíada acertaram no alvo. Ele diz: “Na era do tucanato, os críticos eram chamados de “fracassomaníacos”, neologismo da lavra de FHC. Na era do petismo adotou-se a criação de Nelson Rodrigues e os críticos padeceriam do famoso “complexo de vira-latas”. Lula não chegou a inventar uma palavra, limitou-se a falar dos que têm “desejo de fracasso”, mas Aldo Rebelo, o polivalente ministro do PCdoB, hoje sumido provavelmente para não ser cobrado, gostava de citar Rodrigues para responder a quem previa exatamente o que está acontecendo com os escandalosos legados da Copa do Mundo e da Olimpíada no Brasil. Não fosse o fato de o povo parecer outra vez anestesiado – em baixo calão, de saco cheio -, ondas de indignação varreriam o país com o que se sabe a cada dia do estado dos equipamentos dos dois megaeventos e do abandono completo do esporte, a atividade que seria premiada pós-Olimpíada do Brasil poliesportivo”.
O primeiro aniversário da abertura das Olimpíadas do Rio será no dia 05 de agosto de 2017. As instalações olímpicas estão ociosas e se desmanchando. A mobilidade urbana continua precária. O Maracanã ocioso e caro. O centenário e tradicional carnaval está ameaçado. A situação financeira é falimentar. As dívidas e o desemprego são astronômicos. A violência é desesperadora. Existe um clima latente de guerra civil. O exército está nas ruas. Os turistas fugiram. Obviamente, não haverá festa ou qualquer comemoração. O clima é de velório.
Referências:
ALVES, JED. Futebol: esporte ou ópio do povo na sociedade do espetáculo? Ecodebate, 31/01/2014 http://www.ecodebate.com.br/2014/01/31/futebol-esporte-ou-opio-do-povo-na-sociedade-do-espetaculo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. As Olim-piadas do Pinicão da Guanabara, Ecodebate, 25/04/2014
ALVES, JED. Cadê o legado esportivo da Olimpíada do Rio de Janeiro? Ecodebate, 16/03/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/08/2017

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