Norma entra em vigor no dia 26 de maio e é reflexo da crescente preocupação do impacto da saúde mental no bem-estar dos trabalhadores
Nos últimos anos, a saúde mental se consolidou como uma questão importante no ambiente de trabalho. Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a Síndrome de Burnout, distúrbio psíquico que causa esgotamento físico, emocional e mental, como doença ocupacional e estimou que 30% dos trabalhadores brasileiros sofriam com ela, o que reflete a um cenário de estresse e pressão crescente no mundo corporativo.
O tema ganhou ainda mais relevância com a recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, que obriga as empresas a gerenciarem, também, os riscos psicossociais. A mudança, que entra em vigor a partir de 26 de maio, traduz a crescente preocupação com o impacto da saúde mental na produtividade e no bem-estar dos trabalhadores.
Para debater o assunto, a Employer Recursos Humanos promoveu mais uma edição do Employer Live, com a participação dos especialistas Deiviti Caetano, diretor de desenvolvimento de negócios, e Francielli Vitali, consultora especialista em saúde ocupacional e corporativa.
A NR-1 e a inclusão dos riscos psicossociais
A NR-1, antes focada em aspectos como riscos físicos, químicos e biológicos, agora exige que as empresas integrem os riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Isso inclui a identificação e gestão de fatores como estresse, assédio moral, ambiente organizacional tóxico, e sobrecarga de trabalho, com objetivo de proteger os trabalhadores de condições que, muitas vezes, não são visíveis, mas que afetam gravemente a saúde mental e, consequentemente, a produtividade.
Deiviti Caetano explica que a preocupação com riscos psicossociais se mostra fundamental para uma gestão mais humanizada e eficaz. “Com o aumento de doenças como Burnout e depressão, ficou claro que a saúde mental deve ser prioridade nas empresas”, afirma.
Embora muitas empresas ainda se concentrem apenas em riscos físicos, os problemas relacionados à saúde mental já são responsáveis por uma parte significativa dos afastamentos no trabalho. Além do aumento de casos de burnout, estudos como o da MedPrev, que constatou um aumento de 37% na busca por informações sobre a síndrome de Burnout entre janeiro e julho de 2024, reforçam que a saúde mental é um fator determinante na produtividade dos colaboradores.
O aumento do absenteísmo, de afastamentos por doenças mentais e os custos com planos de saúde e rotatividade de funcionários são algumas das consequências econômicas da falta de atenção ao problema. Segundo especialistas, os efeitos para as empresas são preocupantes.
“A saúde mental de um colaborador impacta diretamente no seu desempenho, na equipe e, consequentemente, nos resultados financeiros da empresa”, alerta Francielli Vitali, consultora especialista em saúde corporativa.
Desafios para a gestão dos riscos psicossociais
A introdução dos riscos psicossociais na NR-1 coloca as empresas diante de um grande desafio: mensurar e gerenciar esses riscos de forma eficaz. Diferente dos riscos físicos e químicos, por exemplo, os psicossociais não são palpáveis e não podem ser medidos por instrumentos tradicionais de segurança do trabalho, exigindo uma abordagem que envolva o departamento de segurança do trabalho e áreas como recursos humanos, liderança e a alta gestão.
Francielli Vitali aponta que o primeiro passo é realizar um diagnóstico situacional nas organizações, identificando sinais de estresse e as causas subjacentes. “Não adianta apenas saber que o colaborador está estressado. Precisamos entender o que gera esse estresse para poder agir de forma preventiva e eficaz. Isso exige sensibilidade e um olhar atento da gestão organizacional”, diz.
A importância da cultura organizacional e o papel da liderança
De acordo com Caetano, a atualização da NR-1 também traz à tona a necessidade de revisar a cultura organizacional. A pressão por resultados, a falta de apoio psicológico e a escassez de espaços seguros para que os colaboradores compartilhem suas preocupações podem criar ambientes tóxicos.
Para ele, muitas vezes, os líderes não sabem que suas equipes estão adoecendo ou sobrecarregadas. Isso pode ser fruto de uma cultura organizacional que não prioriza o bem-estar dos colaboradores. Nesse sentido, a alta gestão tem papel fundamental.
Adotar uma postura mais empática e criar programas de apoio à saúde mental, como terapia ocupacional, coaching e programas de bem-estar, pode ser um diferencial para melhorar a qualidade de vida no trabalho.
Os benefícios de uma gestão proativa
Empresas que não adotam uma gestão eficaz dos riscos psicossociais correm o risco de sofrer com custos elevados e de enfrentar problemas relacionados à rotatividade de funcionários e à insatisfação no ambiente de trabalho. A nova NR-1 exige que as empresas adotem medidas de prevenção, incluindo a implementação de políticas de bem-estar, acompanhamento psicológico e mudanças no ambiente organizacional.
A consultora Francielli Vitali sugere também a sensibilização da alta gestão sobre a importância da saúde mental e que tratar de saúde mental não é um custo, mas um investimento. Ela afirma que a implementação de programas de apoio e a criação de ambientes de trabalho saudáveis podem reduzir os custos relacionados ao absenteísmo, às doenças e à rotatividade, além de melhorar o clima organizacional e desempenho da empresa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário