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| Foto: Reprodução Marcello Casal Jr Agência Brasil |
Eric Hatisuka, CIO do Mirabaud Brasil
MY WAY (FRANK SINATRA, PAUL ANKA)
“And now, the end is near, and so I face the final curtain.”
Sim, o fim do ciclo de alta da Taxa Selic chegou e o Banco Central fez do jeito que quis fazer. Do seu jeito.
Ao reiniciar a campanha de alta de juros, em setembro de 2024, e entregar uma alta de 425 pontos-base em apenas 8 meses, o Banco Central fez do seu jeito.
Em que pese o fato de que as expectativas de inflação realmente estavam (como ainda estão) desancoradas, e que a receita preconizada neste tipo de situação é a elevação preemptiva das taxas básicas de juros, ainda assim, é possível constatar com uma simples conferência no Relatório Focus do Banco Central da data de 30 de agosto de 2024, que a mediana de projeções de mercado para a Taxa Selic era de 10,50% para o final de 2024 e de 10,00% para o final de 2025.
Ou seja, ao verificarmos que 2024 se encerrou com a Taxa Selic em 12,25% e que na última reunião, em 07 de maio de 2025, o Copom elevou a Taxa Selic para 14,75%, sim, podemos concluir que o Banco Central fez do seu jeito.
Há que se lembrar, claro, que o IPCA acumulado em 12 meses está em 5,32% na data da última divulgação, em 09 de maio de 2025, certamente acima da meta, mas ainda assim, longe do valor em que se possa cravar que a economia brasileira sofre de uma patologia.
Não, a economia brasileira não sofre de uma patologia. Ela apenas responde às escolhas feitas pelos formuladores de sua política fiscal – e responde da forma esperada, em uma análise de livro-texto.
Mas o que diz a boa teoria econômica em relação à mecânica de funcionamento da política monetária? O diagrama abaixo mostra como é esperada a propagação dos efeitos da política monetária, segundo o livro-texto de Frederic Mishkin, Monetary Policy Strategy, de 2007.
Como se pode ver, não há a figura do ente “Governo” ou “Política Fiscal” no diagrama. Isto porque a política monetária não tem como objetivo afetar a política fiscal, que é autônoma e segue a decisão da administração pública em curso. Em economia, dizemos que a política fiscal é ortogonal à política monetária, pois suas funções de reação jazem em planos cartesianos diferentes.
“My friend, I'll say it clear, I'll state my case, of which I'm certain.”
Os juros básicos brasileiros já estão entre os mais voláteis do mundo. Basta ver no gráfico abaixo (Fonte: BCB) que os juros raramente ficam fixos por muito tempo, tanto ao final dos ciclos de alta quanto nos de baixa.
Porém, desta vez, em comparação aos ciclos anteriores (circulados em vermelho), os juros subiram bem mais do que o desvio do IPCA, mostrando exatamente que as expectativas estavam se deteriorando devido às projeções de desvio fiscal, e não monetário.
Dizer que a economia brasileira não sofre de uma patologia não equivale a dizer que esteja no caminho certo: a economia brasileira responde corretamente aos estímulos errados a que foi submetida.
O excesso de uso da política fiscal como indutor de crescimento tende a aprofundar nossos desequilíbrios, aumentando a carga tributária e os juros de mercado, agravando nosso processo de desindustrialização e de perda de competitividade externa, além de, obviamente, aumentar a dívida pública.
Por outro lado, a política monetária utilizada como panaceia não é menos perniciosa, encarecendo a vida financeira das empresas e aumentando o risco de inadimplência das famílias.
Mas, o pior mesmo é constatar que, por ser imune à política monetária, a política fiscal continuará expansionista, e, com o espectro da corrida eleitoral se aproximando, tende a se tornar mais populista e ‘curto-prazista’, com o governo de turno redobrando sua aposta em benesses sem qualquer lastro financeiro, e, portanto, com franco viés inflacionário.
Ou, como ecoaria na voz do grande Frank Sinatra:
“The record shows I took the blows and did it my waaaaay!!!”
Em tempo: nossa projeção para a Taxa Selic é de manutenção em 14,75% até o 4º trimestre de 2025, quando começará a ser reduzida gradualmente para o nível dos 12% a.a.
Por conta deste cenário e da manutenção do risco inflacionário, mantemos nossas alocações concentradas em renda fixa com proteção inflacionária até o horizonte de 2030. Por ora, com baixo risco em renda variável e multimercados.
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