Dizem que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. No interior do Brasil, porém, ela parece não se importar com essas categorias. A história por lá permanece firme, tranquila e rotineira, como um velho funcionário público que carimba papéis sem jamais lê-los.
Veja-se o caso do Seridó, essa porção cálida e telúrica do nosso mapa político, onde a oposição não é propriamente um partido, mas uma fila de espera para um emprego.
De resto, o cidadão — perdoe-me o uso indevido do termo — não milita, não discursa, não se indigna; ele calcula. Não lhe pergunte por Rousseau, nem por Constituição; fale-lhe antes de contrato temporário, DAS-1, rádio comunitária, ou quem sabe, uma portaria na escola. Ele entenderá.
A política, nesse ambiente, não se faz com ideologia, nem mesmo com programas de governo. Faz-se com alianças de ocasião, troca de gentilezas e emprego, sobretudo emprego. Os partidos existem, é verdade, mas funcionam como as placas nas fachadas das casas: muda-se por dentro, mas a pintura continua.
Há os que chamam isso de coronelismo, clientelismo, ou qualquer outro "ismo" da ciência política. Eu, que sou mais modesto, prefiro chamar de rotina nacional. O Seridó não é exceção; é apenas mais honesto em seu funcionamento.
Por cá, oposição é um estado transitório, uma espécie de purgatório onde se aguarda a bênção de um aliado que, chegando ao poder, distribua os cargos como quem reparte o pão. Rádio, câmara, assessoria — tudo serve. O que não se pode é ficar fora do banquete.
E quanto à cidadania? Ah, meu caro, essa palavra é de uso raro. Como aqueles termos gregos que enfeitam os livros mas não as conversas de botequim. O brasileiro — e isso não é culpa sua, talvez seja do clima — tem mais gosto pela novela que pela Constituição. Ele se comove com o último capítulo, mas não com o próximo pleito.
Talvez falte-lhe o que os antigos chamavam de civismo. Ou talvez ele apenas tenha aprendido, pela experiência, que em política o ideal é ser amigo do rei — ou ao menos do chefe de gabinete.
E assim seguimos, com a liberdade na boca e o favor no bolso. No Seridó, na Guanabara, em todo o vasto Brasil.



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