Por trás da euforia popular e da correria atrás de trios elétricos, uma cena emblemática do subdesenvolvimento cultural, político e institucional voltou a se repetir no Rio Grande do Norte. Durante a abertura do evento junino Pingo da Mei Dia, em Mossoró, um dos chamados "cantores" de forró eletrônico — produto direto da cultura de massas empobrecida e da negligência educacional — protagonizou mais do que um show musical: promoveu um verdadeiro comício informal em favor do prefeito Allyson Bezerra, possível pré-candidato ao Governo do Estado em 2026.
O "cantor" em questão, Xand Avião, conhecido mais por sua projeção midiática do que por talento musical, recebeu um cachê de R$ 700 mil pagos com verba pública. O valor integra um orçamento ainda maior, de cifras milionárias, que custeia palco, iluminação, som, estrutura e logística da festa. Tudo pago com dinheiro do contribuinte.
Enquanto isso, Mossoró e o restante do estado seguem convivendo com escolas públicas sucateadas, hospitais subfinanciados e índices alarmantes de analfabetismo e evasão escolar. Num cenário em que faltam livros e sobram paredões de som, é a cultura da alienação que avança.
Mais grave ainda é a possível infração eleitoral. O artigo 36 da Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) veda qualquer forma de campanha antecipada, e eventos como o de Mossoró frequentemente beiram — ou ultrapassam — essa linha tênue entre a festa popular e a promoção política irregular. Ao usar o microfone para enaltecer publicamente o gestor municipal em pleno palco de um evento custeado com verba pública, o "artista" — ou melhor, o animador de palanques — reforça a velha mistura entre entretenimento populista e projeto de poder.
Trata-se de uma estratégia política conhecida e antiga: utilizar a música — sobretudo a de apelo popular e pouco questionador — como instrumento de dominação simbólica. Substitui-se o debate público por refrões repetitivos; apaga-se a crítica em meio à euforia coletiva. A festa vira palanque, o palco vira curral eleitoral.
É também sintomático que a cultura musical do Nordeste, rica em compositores como Luiz Gonzaga, Elino Julião e Jackson do Pandeiro, tenha sido reduzida, em muitos desses eventos, a performances plastificadas, com letras vazias e ritmos pasteurizados. A arte vira mercadoria e, agora, também propaganda.
O que se viu em Mossoró não é apenas um espetáculo musical duvidoso, mas um retrato nítido do Brasil profundo onde ainda reina o coronelismo midiático, embalado por refrões e embalagens culturais produzidas em escala industrial. Tudo sob aplausos, claro, de uma população que — privada de educação crítica e oportunidades reais — corre atrás do caminhão como se ali estivesse a única promessa de alegria possível.
Mas não se trata de um problema meramente estético ou musical. É político. É estrutural. E é urgente que órgãos de fiscalização, como o Ministério Público Eleitoral, se debrucem sobre esse episódio — e sobre tantos outros que vêm transformando festas populares em máquinas de campanha financiadas com dinheiro do povo.



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