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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Documentário resgata a história de Júlia Medeiros, pioneira da política e do feminismo no Seridó

Reprodução


No último sábado (19), a Casa de Cultura Popular de Caicó foi palco da exibição do documentário A flor teimosa da algaroba, codirigido por Ana Karla Farias e Fátima Cabral. A produção é uma realização das iniciativas ComArte e Pelicano e foi contemplada pelo Edital de Projetos de Audiovisual da Lei Paulo Gustavo 03/2023, promovido pelo Governo do Rio Grande do Norte.


A ideia de contar a história de Júlia Medeiros surgiu, segundo Ana Karla, “de um sentimento de indignação por constatar que mulheres potiguares, tão notáveis na política, na emancipação feminina e no jornalismo, ficaram alijadas da historiografia canônica e sua memória, muitas vezes, reduzida a um rótulo estereotipado”.


O título do filme remete à resistência. “A algaroba é uma árvore muito presente no sertão nordestino e sempre sobrevive e floresce na aridez, apesar das intempéries. O que configura uma metáfora para a trajetória de Júlia Medeiros, que resistiu e floresceu apesar de todas as barreiras enfrentadas.”


Durante a produção, um dos principais desafios foi encontrar registros sobre a personagem. “Para contar uma história são necessários documentos, fontes, fotografias, arquivos, e essa é sempre uma dificuldade quando se trata da história das mulheres. Porque há um processo sistemático de apagamento da memória”, explica a pesquisadora.


Ana Karla relata que Júlia escrevia em jornais sob pseudônimos como “sertaneja”, “potyguara” e até nomes masculinos como “Ivo” e “Fábio”, o que dificultou o processo de identificação. “Foi um processo duro como desenterrar ruínas.”


A exibição em Caicó, durante a Festa de Sant’Ana, foi cercada de emoção. “As sessões têm sido de casas cheias, com um público atento, comovido, que não apenas assiste, mas acolhe Júlia como quem acolhe uma filha que retorna após longa ausência.”


Sobre o futuro do documentário, Ana Karla conta que a obra já foi exibida em Natal, no auditório do Ministério Público, e que há planos para novas exibições: “Entre agosto e setembro, iremos exibir na UFRN em Natal e na UERN em Mossoró. Estamos alinhando com uma produtora de distribuição que vai assumir a função de inscrição em festivais e mostras.”


Ao ser questionada sobre o impacto do filme, ela resume: “Espero que o filme reforce a mensagem de que nenhuma luta deve ser esquecida, visto que a luta pelos direitos das mulheres não é recente, vem de muito longe e vem de pessoas como Júlia Medeiros.”




Segue a entrevista completa com a co-diretora do documentário, Ana Karla Batista Farias:

Ana Karla Batista Farias


1. Como surgiu a ideia de contar a história de Júlia Medeiros por meio do documentário A flor teimosa da algaroba?


Surgiu de um sentimento de indignação por constatar que mulheres potiguares, tão notáveis na política, na emancipação feminina e no jornalismo, ficaram alijadas da historiografia canônica e sua memória, muitas vezes, reduzida a um rótulo estereotipado. O filme tem codireção da realizadora Fátima Cabral, natalense, que também tem vínculos afetivos com Caicó.


2. O título do filme é bastante poético. O que representa essa "flor teimosa" e por que a escolha da algaroba como símbolo?


A algaroba é uma árvore muito presente no sertão nordestino e sempre sobrevive e floresce na aridez, apesar das intempéries. O que configura uma metáfora para a trajetória de Júlia Medeiros, que resistiu e floresceu apesar de todas as barreiras enfrentadas. Nascida e criada no sertão potiguar, inserida em uma cultura patriarcal onde ser mulher já era um desafio, ainda mais para uma mulher atuante na política, nas letras, na luta pelo sufrágio feminino. 


3. Quais foram os principais desafios na pesquisa e produção do documentário?

Para além das dificuldades de financiamento da produção, visto que o cinema é uma arte coletiva e demanda investimento no que tange à viabilidade das etapas de pré-produção, produção e pós-produção, um dos gargalos foi encontrar registros familiares e públicos sobre a existência de Júlia Medeiros. Para contar uma história são necessários documentos, fontes, fotografias, arquivos e essa é sempre uma dificuldade quando se trata da história das mulheres. Porque há um processo sistemático de apagamento da memória. Agora com a circulação do filme, estão surgindo descendentes, ex-alunos de Júlia Medeiros, mas na etapa de pesquisa, era raro encontrar depoimentos e fontes disponíveis para participar das gravações.


4. Como foi o processo de reconstruir a trajetória de Júlia Medeiros, uma figura que ficou à margem da história oficial?


Foi um processo duro como desenterrar ruínas. Eu fiquei encarregada da pesquisa, então, precisei recorrer à hemeroteca e repositórios de bibliotecas de instituições de ensino para consultar periódicos do século XIX. Como à época, o espaço público dos jornais era uma atividade majoritariamente masculina, para se resguardar de exposições e críticas, as poucas mulheres letradas que escreviam em jornais, usavam pseudônimos. Júlia, a título de exemplo, usava pseudônimos como “sertaneja”, “potyguara” e até nomes masculinos como “Ivo” e “Fábio”. O que dificultava localizar e identificar seus escritos.


5. Qual é a importância de resgatar uma personagem como Júlia no contexto do Seridó e da história potiguar?


Restituir a trajetória e obra de Júlia Medeiros por meio do audiovisual significa um ato de justiça histórica com essa mulher que abriu caminhos em várias frentes, significa um esforço em devolver às mulheres, que resistiram no anonimato, o direito à memória. Júlia precisa ocupar o espaço que sempre lhe foi de direito e, não reduzida a rótulos, mas reconhecida por suas contribuições e legado.


6. Qual tem sido a repercussão do documentário até agora, especialmente no lançamento em Caicó?

A repercussão do documentário tem sido profundamente emocionante e simbólica, especialmente durante sua estreia em Caicó, durante a Festa de Sant’Ana. Escolhemos esse momento justamente por seu valor afetivo e cultural, como um gesto de devolução da memória de Júlia Medeiros ao seu povo, ao lugar onde ela nasceu e tanto lutou.


As sessões têm sido de casas cheias, com um público atento, comovido, que não apenas assiste, mas acolhe Júlia como quem acolhe uma filha que retorna após longa ausência. É como um reencontro com uma parte esquecida da própria história, um regresso à matriz — ao ventre da terra-mãe, que, mesmo depois de tanto tempo, permanece pronta a abraçar o que é seu. Essa recepção calorosa confirma a potência simbólica do gesto de memória: ao ser lembrada, Júlia volta a viver entre os seus.


7. Há planos para exibir o filme em outras cidades ou festivais?


Estreamos em Natal no auditório do Ministério Público, a convite da promotora de justiça Érica Canuto. Entre agosto e setembro, iremos exibir na UFRN em Natal e na UERN em Mossoró. Estamos alinhando com uma produtora de distribuição que vai assumir a função de inscrição em festivais e mostras, como forma de prolongar a vida do filme.


8. Por fim, o que você espera que o público leve consigo após assistir A flor teimosa da algaroba?


Espero que o filme reforce a mensagem de que nenhuma luta deve ser esquecida, visto que a luta pelos direitos das mulheres não é recente, vem de muito longe e vem de pessoas como Júlia Medeiros, que até para os dias atuais, segue como símbolo de resistência e pioneirismo feminino. 



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