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domingo, 6 de julho de 2025

Enquanto esgoto falta para 70% da população, RN gasta mais de R$ 109 milhões com shows em 2025



O Rio Grande do Norte, um dos estados com pior desempenho em saneamento básico no Brasil — menos de 30% da população tem acesso à rede de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil —, destinou mais de R$ 109 milhões apenas no primeiro semestre de 2025 para a contratação de artistas e realização de shows. Os dados são do Tribunal de Contas do Estado (TCE/RN) e mostram ainda que 99% dessas contratações foram feitas por inexigibilidade, ou seja, sem licitação.


Em um estado onde faltam escolas de qualidade, hospitais estruturados e empregos industriais, a aposta no turismo de eventos e no entretenimento financiado com dinheiro público virou estratégia recorrente de prefeitos e gestores. Para muitos, trata-se de uma espécie de “política do espetáculo”: quanto mais luzes, fogos e palcos, menos se fala de esgoto a céu aberto, analfabetismo funcional e evasão escolar.


Populismo, turismo e o colapso da gestão pública


A justificativa oficial costuma ser o “fomento ao turismo”, mas a ausência de planejamento, estudos de impacto e indicadores de retorno econômico levanta dúvidas sobre a real eficácia dessas iniciativas. Na prática, os recursos que deveriam fortalecer a infraestrutura urbana e a dignidade dos cidadãos acabam financiando festas efêmeras, muitas vezes com cachês milionários pagos geralmente a cantores de lambada cearense que são mancomunados com políticos corruptos.


O fenômeno não é isolado: erguer estátuas de santos, construir praças com wi-fi e promover festivais religiosos ou musicais tornaram-se práticas populares entre gestores de pequenas e médias cidades, como se fossem sinônimo de desenvolvimento. Trata-se de um populismo cultural de fachada que encobre o fracasso crônico da gestão pública em áreas essenciais como saúde, educação, habitação e mobilidade.


Um retrato do subdesenvolvimento institucional


O caso potiguar revela uma face inquietante do Brasil profundo: um Estado capturado por lógicas clientelistas e simbólicas, onde a ausência do Estado efetivo é preenchida com eventos festivos e discursos místicos. O atraso, aqui, não é apenas material — é também político, institucional e mental.


A insistência em investir pesadamente em festas, ignorando saneamento básico, alfabetização e geração de emprego de qualidade, reproduz um ciclo de miséria disfarçada de alegria, em que a população é mantida refém de migalhas culturais enquanto seus direitos fundamentais seguem ignorados.

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