Na grande república do Norte, onde os cidadãos tomam sorvete no inverno e vendem bombas no verão, surgiu certa feita um personagem digno da pena de Suetônio — se Suetônio escrevesse para jornais de província. Era um bufão, mas dos bufões que se levam a sério; tinha o topete de Apolo e a alma de Calígula. O mundo, que anda distraído desde a queda de Cartago, aplaudiu-lhe a entrada em cena como se fosse o próprio César redivivo. Eu, que nunca confiei em cabelos pintados, desde Sansão, olhei com cisma.
O dito cujo, que chamaremos aqui de Imperador Laranja, embora alguns prefiram nomes menos cítricos e mais cítricos (segundo o gosto de cada um), decidiu reinar sobre o planeta com um cetro feito de tarifas, ameaças e bilhetes malcriados. Ao invés de espadas, usava aduanas; em vez de escudos, notas diplomáticas escritas em maiúsculas — como quem grita em praça pública ou em rede social.
Recentemente, o Imperador, crente de que o mundo lhe pertence como as vinhas pertencem a Baco, resolveu escrever uma carta a um Presidente tropical. Na carta, entre uma saudação e um aviso de guerra, acusava o Brasil de praticar bruxarias jurídicas e feitiçarias contra as redes sociais americanas. Note-se bem: o país do habeas corpus universal agora se irrita com sentenças alheias, como se fosse crime decidir contra o algoritmo.
Mais espantoso é que, para punir tão grande insolência, o Imperador impôs uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras, declarando, sem rubor, que o déficit americano com bananas e minérios era ameaça à sua “segurança nacional”. Imaginem, leitores, que até a goiabada passou a ser tratada como arma letal!
Tudo isso se deu entre um chá gelado e uma jogada de golfe. O mundo, espantado, observava, sem saber se ria ou se chorava. No Senado romano de nossos tempos — que atende pelo nome de Organização Mundial do Comércio — houve quem protestasse, mas sem muito ardor, pois é difícil discutir com quem escreve decretos como quem joga pedras no lago: esperando ver apenas as ondas, mas matando os peixes.
Ah, tempos! Ah, costumes! Roma ensinou a governar com togas e retórica; Paris, com revoluções e cabeças cortadas; Londres, com pontualidade e ironia. Mas o Norte agora governa com tuítes, tarifas e teorias conspiratórias. O planeta, que já girou por Copérnico e dançou por Newton, agora tropeça por Trump.
Mas não vos aflijais, leitores. A História — essa senhora que borda com linha torta — há de dar conta do bufão coroado. Como já disse um certo Machado, “o tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto" e que roeu até as pirâmides. O tempo, pois, roerá também o Império Laranja. Basta esperar.



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