"Apesar do volume quantitativo expressivo, o impacto da produção científica brasileira ainda pode ser considerado modesto."
por Daniel Martins-de-Souza no Jornal da Unicamp
A ciência brasileira evoluiu nas últimas décadas. A partir dos anos 2000, o país se consolidou como uma das nações que mais aumentaram sua produção científica, figurando entre os 15 países que mais publicam artigos no mundo. Entre 1996 e 2021, o número de artigos indexados publicados aumentou quase dez vezes: saltou de cerca de 9 mil artigos por ano para mais de 80 mil em 20211. Em 2022, o Brasil ocupou a 14ª posição mundial em número de artigos publicados. Esse crescimento resulta de muitos fatores, entre os quais as políticas públicas de incentivo à pós- graduação, a ampliação de bolsas de pesquisa e a consolidação de sistemas de avaliação que priorizam o volume de publicações como principal indicador de desempenho acadêmico.
Apesar do volume quantitativo expressivo, o impacto da produção científica brasileira ainda pode ser considerado modesto. Ao passo que o Brasil figura entre os 14 países mais produtivos em termos quantitativos no mundo, nossos artigos não estão entre os mais citados do mundo (o número de citações de um artigo científico é um dos parâmetros considerados como medida de impacto da pesquisa). Em um estudo liderado pelo instituto holandês Rathenau, o Japão figura na 20ª colocação, tendo 0,49% de seus artigos publicados entre os artigos mais citados da literatura. Singapura, Reino Unido, Suiça, Holanda e Estados Unidos, com 1,84%, 1,73%, 1,69%, 1,54% e 1,5%, respectivamente, lideram essa lista2. O Brasil não figura nessa lista e, em um levantamento da Clarivate Analytics, feito em 2016, o impacto das citações de artigos brasileiros estavam abaixo da média mundial3. Tal discrepância sugere que, pelo menos quanto às citações, o aumento quantitativo da ciência brasileira não foi acompanhado por um salto qualitativo proporcional.
Um dos principais fatores responsáveis por esse desalinhamento é o modelo de avaliação adotado pelas agências de fomento brasileiras, que se baseia majoritariamente em métricas quantitativas: número de artigos publicados, fator de impacto dos periódicos, classificação Qualis, entre outros. Essa lógica induz uma cultura acadêmica voltada à sobrevivência institucional e à produtividade numérica. O sistema de avaliação da pós-graduação, por exemplo, ainda tende a recompensar a quantidade de artigos por docente e por discente, incentivando estratégias de publicação que nem sempre refletem uma pesquisa aprofundada ou de impacto real. Importante notar que, apesar do tom crítico, esse modelo, que necessita de reavaliação, foi um dos impulsionadores da ciência brasileira nas últimas décadas.
A pressão por produtividade, amplamente difundida sob a lógica do “publique ou pereça”, foi acentuada com a expansão dos programas de pós-graduação e o crescimento das bolsas de mestrado e doutorado. Entre 2010 e 2020, o número de bolsas passou de 55 mil para 99 mil, e os programas de pós-graduação cresceram de 3.128 para 4.6504*. Como consequência, cientistas são incentivados a fragmentar seus resultados em múltiplas publicações menores, prática conhecida como salami slicing. Esse comportamento é ainda mais agravado pelo fato de que grande parte da força de trabalho científica no Brasil é composta por alunos de pós-graduação, que são submetidos a exigências rígidas de produtividade para a obtenção de bolsas e a progressão acadêmica.
Mestrandos e doutorandos são, muitas vezes, os principais responsáveis pela execução de experimentos, análise de dados e redação de artigos. Embora esse protagonismo seja uma oportunidade formativa, ele também coloca sobre esses jovens pesquisadores uma carga desproporcional de exigências. A necessidade de publicar com regularidade, mesmo antes da consolidação de competências avançadas, promove a superficialidade e compromete o potencial de investigações mais complexas. Assim, o sistema acaba por induzir práticas voltadas à eficiência produtiva em detrimento da formação científica profunda, o que induz saltos indesejados nas etapas de maturação científica dos estudantes. Todo esse contexto pode, inclusive, causar a deterioração da saúde mental dessas pessoas.
A ciência brasileira também enfrenta desafios estruturais relevantes. O financiamento à ciência e tecnologia é instável e sujeito a cortes frequentes. Entre 2015 e 2022, o orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações sofreu uma redução superior a 70%, o que comprometeu a continuidade de projetos, a manutenção de infraestrutura laboratorial e a formação de recursos humanos qualificados5,6. Além disso, o país ainda apresenta uma baixa taxa de internacionalização, de acordo com dois levantamentos: em um deles, apurou-se que em 2016, aproximadamente 35% dos artigos brasileiros possuem coautoria estrangeira3; num segundo, entre 2010 e 2020, apurou-se que 29,5% dos artigos brasileiros possuíam coautoria estrangeira7, abaixo de vizinhos latino-americanos como Uruguai (64.4%), Chile (57.1%), Colombia (46.2%) e Argentina (42.8%). Barreiras linguísticas, investimentos orçamentários erráticos para mobilidade internacional e uma relativa baixa inserção em redes colaborativas limitam o alcance e a visibilidade da ciência brasileira no exterior.
Paralelamente, embora se reconheça atualmente a importância da ciência aplicada e do impacto social da pesquisa, é fundamental reafirmar o papel insubstituível da ciência básica. Pesquisas fundamentais, mesmo sem aplicação imediata, são a fonte do conhecimento que sustenta toda a cadeia de inovação científica e tecnológica. É na ciência básica que se formulam novas teorias, se compreendem fenômenos naturais e se constroem metodologias que permitem os avanços aplicados. Além disso, ela é o principal espaço de formação científica, oferecendo aos estudantes bases conceituais sólidas, habilidades analíticas e pensamento crítico, que são indispensáveis para qualquer atividade científica de excelência.
Diante desse panorama, o Brasil precisa reformular os critérios de avaliação da produção científica. Há importantes modelos internacionais que podem servir de inspiração. A Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (Dora, na sigla em inglês), publicada em 2012, propõe que a avaliação se baseie no mérito científico dos trabalhos, sua reprodutibilidade, abertura de dados e relevância social, não exclusivamente pautadas em métricas numéricas como o simples fator de impacto de periódicos. O modelo britânico conhecido como Research Excellence Framework (REF), por sua vez, combina a avaliação por pares com uma análise qualitativa de estudos de caso de impacto, reconhecendo a contribuição da pesquisa para a sociedade, economia e cultura.
A ciência brasileira tem contribuído significativamente para áreas como saúde, agricultura e meio ambiente. A pandemia de covid-19 evidenciou o papel estratégico da ciência na tomada de decisões e na formulação de políticas públicas baseadas em evidência. Iniciativas como o Observatório Covid-19 BR mostraram como é possível fazer ciência básica e aplicada de qualidade, com rigor técnico e impacto direto sobre a sociedade. Ainda, a pesquisa agrícola conduzida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) contribui para a liderança do Brasil, por exemplo, na produção de soja8. A ciência brasileira é crucial para a conservação ambiental, desenvolvendo soluções para biomas únicos como a Amazônia e o Cerrado. Ela gera conhecimento sobre biodiversidade, mudanças climáticas e uso sustentável de recursos naturais, orientando políticas públicas e promovendo o desenvolvimento com responsabilidade ecológica9. Tudo isso está alinhado a um levantamento recente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que confirma o papel da ciência financiada por essa agência na agricultura, no empreendedorismo e na saúde, além da contribuição em políticas públicas nacionais e internacionais10.
É importante observar, entretanto, que menos de 20% dos projetos de pesquisa no Brasil têm transferência efetiva para o setor produtivo, segundo reportagem da revista Pesquisa FAPESP11. Isso evidencia a necessidade de fortalecer a ponte entre a ciência e as soluções sociais e econômicas, o que pode passar pela qualidade e pelo impacto da ciência produzida no país.
Concluir que a ciência brasileira é produtiva em quantidade, mas ainda deficiente em qualidade e eventualmente em impacto (a depender da perspectiva), não é uma crítica à dedicação de seus pesquisadores, mas sim ao sistema que molda os incentivos. Os dados acima revelam nosso potencial. Portanto, reforçar um modelo de ciência que propicie o estabelecimento de um sistema mais equilibrado, que valorize a qualidade, a inovação e a relevância social, sempre de maneira ética, deve ser uma de nossas principais prioridades. É necessário continuar a reavaliação dos critérios de mérito adotados pelas agências de fomento, ampliar a valorização da ciência básica, garantir financiamento estável, promover a internacionalização e estimular a produção de conhecimento conectado aos desafios reais do país.
A ciência nacional deve continuar a crescer, mas não apenas em volume. Ela precisa crescer em profundidade, impacto e legitimidade social. Para isso, será necessário abandonar a lógica da produtividade a qualquer custo e investir na construção de um ecossistema científico mais plural, ético e transformador.
1 https://abori.com.br/relatorios/2022-um-ano-de-queda-na-producao-cientifica-para- 23-paises-inclusive-o-brasil/
2 https://www.rathenau.nl/en/science-figures/output/publications/top-1-and-top-10- cited-wos
3 Relatório da Clarivate Analytics da produtividade cientifica brasileira de 2010-2016.
4 Dados Abertos CAPES. (levantamento feito com auxílio de ferramenta de inteligência artificial e conferido manualmente)
5 Câmara dos Deputados. Orçamento da pesquisa científica perdeu mais de R$ 80 bilhões nos últimos sete anos. Agência Câmara de Notícias, 2022.
6 Revista Pesquisa FAPESP. Government imposes new science funding cuts in Brazil. 2022.
7 A bibliometric analysis of publication output in selected South American countries.
8 https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/81613580/brasil-e-referencia-no- desenvolvimento-de-tecnologias-sustentaveis-para-producao-de-soja
9 Joly et al. 2019. https://doi.org/10.1590/1676-0611-BN-2019-0865
10 https://agencia.fapesp.br/estudos-avaliam-impactos-economicos-e-sociais-de- pesquisas-apoiadas-pela-fapesp/55310
11 https://revistapesquisa.fapesp.br/o-desafio-de-levar-o-conhecimento-da-universidade- para-o-mercado/



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