Em cismar sozinho à noite... - Blog A CRÍTICA

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sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Em cismar sozinho à noite...

Divulgação


Chico Fonseca


Em cismar sozinho à noite, no meu exílio carioca, cidade de encantos mil, mesmo diante de tantos encantos, da minha velha São Luís se encanta mais meu pensamento.


Entre o desmaio da vigília e o mergulho no mundo dos sonhos, fecho os olhos e voo na memória até a casa da minha infância, na Rua do Passeio. E vejo o Sol se pondo em raios oblíquos, por cima do telhado do Consulado Americano, do outro lado da rua, reproduzindo no assoalho da sala os quadros coloridos dos vidros das janelas. Vidros belgas, dizia o meu avô. E vejo na porta Mister Thomas, o cônsul, com seus óculos peculiares, uma das lentes transparente e a outra opaca, encobrindo o olho que já não enxerga.


Em cismar sozinho à noite, como fazia o poeta, deitado na rede da memória, ouço o batuque do bumba meu boi, vindo do distante bairro do João Paulo, cruzando a Quinta do Barão e entrando pela porta do quintal para embalar o meu sono. Distingo apenas o som das matracas e dos pandeirões, se propagando em ondas, aumentando ou diminuindo de intensidade, de acordo com os humores do vento. Já o canto, sempre à capela, se esvai pelo caminho.


No crepúsculo da vigília, antes do mergulho no sono profundo, ouço o barulho da chuva torrencial, a lavar telhados e calçadas, escorrendo ladeira abaixo, em enxurrada pela sarjeta, rumo à Praça da Saudade. Sinto o cheiro do mato queimado, misturado ao doce das frutas do quintal. Ouço o canto trissílabo dos bem-te-vis, entre as folhas do abricozeiro, sacudindo as asas depois da chuva.


Vejo a minha tia sentada em sua cadeira de balanço, com seus bastidores, agulhas e novelos, em bordados intermináveis, tecendo com fios coloridos um retalho de alegria nas suas monótonas tardes de tédio.


Entre um cochilo e outro da minha avó, subo escondido a escada do sótão, que ela proibia, e vou explorar dois enormes baús de quinquilharias. Encontro relíquias empoeiradas, fotografias desbotadas de antepassados, cartas de Portugal a bico de pena. Descubro segredos de família, acho um gramofone, movido à manivela, ainda com cheiro de graxa nas engrenagens. E, a mais vibrante das descobertas, um caleidoscópio. Um pequeno cilindro de papelão, com um buraco em uma das extremidades, que eu não sabia o nome e nem para que servia. Grudei o olho no buraco, apontei para a claraboia, girei o tubo... e um mundo de fragmentos de vidros coloridos foi se sucedendo, criando desenhos simétricos, cada um mais lindo que o outro. Perdi a respiração, de tanto infantil encanto.


Em cismar sozinho à noite, como ainda hoje fazem os poetas, me vejo segurando na mão do meu avô, e caminhando com ele pelas ruas centenárias, que ele amava mais que a sua própria terrinha, português que era. Íamos de casa em casa, no seu ofício de enfermeiro, aplicando injeções, fazendo ventosas, sangrias e outros procedimentos paramédicos, que hoje já não se usam mais. Acompanho, com curiosidade de criança, o ritual de ferver a seringa na própria caixinha de metal, quebrar a ampola e puxar o êmbolo, para então espetar no braço (ou em outra parte mais recatada da anatomia do cliente). Ouço as conversas dos adultos, sem prestar muita atenção, enquanto observo os pomares e quintais, que mais me despertavam interesse.


Em cismar madrugada adentro, sou despertado pela alvorada do Colégio Marista, minha “alma mater”, comemorando algum dia cívico, com seus alto-falantes a todo volume. Como sempre, abrindo o repertório com “A Marselhesa”, em homenagem à sua congregação religiosa, de origem francesa, e que passou a ser o meu segundo hino pela vida afora.


Na vertigem da vigília, vejo a minha mãe preparando o bolo do meu aniversário. Encantada com o Rio de Janeiro, que ela ainda não conhecia, tentou reproduzir, confiando na memória, as formas dos morros do Pão de Açúcar e da Urca, com bondinho e tudo. Esquecendo-se de que entre um e outro havia uma imensa massa de granito, fez os morros separados. deixando banguela a Baía de Guanabara, como descrito, muitos anos depois, na música do Caetano.


Em cismar durante à noite, como aprendiz de poeta, me imagino caminhando sozinho, ainda criança, por aquelas ruas de paralelepípedos. Passo em frente à casa do professor Araújo, guardião do vernáculo lusitano, e o vejo ajeitando os óculos de lentes espessas, em seu passo apressado. Vejo Dr. Carlos Macieira entrando em casa, com seu impecável paletó de linho branco e sua maletinha de médico. Atravesso a rua e me encanto com o bangalô de Dr. Quadros, com suas paredes brancas inundadas de sol.


Sinto a brisa fazendo a curva no Canto da Viração e tomo um sorvete de bacuri na Rosa de Maio (só em São Luís poderia haver uma sorveteria com nome tão poético). Cruzo em diagonal a Praça Deodoro, sob a sombra dos oitizeiros, e me encanto com as moças de uniforme cinza e branco do Colégio Rosa Castro (de tão encantado, acabei casando, anos mais tarde, com uma delas).


Cismando de olhos abertos, coração apertado de saudade, desembarco na minha terra. Espio do outro lado da ponte e vejo uma cidade pujante, moderna, passada a limpo. Do lado de cá, nas ruas e becos históricos, procuro pelos paralelepípedos, que tão bem refletiam o calor, mas vejo que foram enterrados junto com os trilhos do bonde. Olho para os sobrados em ruínas e lembro-me, com melancolia, das famílias que ali viveram. Mas hoje só restam esqueletos insepultos de paredes nuas e sem teto, com o mato crescendo nas eiras e beiras, e os carros estacionados sobre os ladrilhos onde antes pulsavam vidas, vozes, afetos.


Suando em bicas, procuro pelas pessoas nas janelas, mas as janelas estão lacradas com tijolos, como túmulos. Para que não sejam invadidas? Seriam? Quem ainda iria querer viver em uma cidade que morre todos os dias ao final da tarde, quando o comércio fecha as suas portas? De dia, a balbúrdia de gente se esbarrando nas ruas estreitas, buzinas de carros, berros de pregoeiros de lojas de quinquilharias chinesas. De noite, silêncio de cemitério.


Teimando em cismar sobre o passado, ainda ouço passar o bonde, na porta da minha casa, em sua última viagem. Rodando devagar, sem tocar o sino para não incomodar o repouso dos moradores que já não vivem mais ali, ele vai se recolher na Estação.


Acho que, nessa derradeira viagem, levou consigo também a alma da minha antiga cidade.


*Chico Fonseca é escritor e arquiteto maranhense, autor do livro “Amores, Marias, Marés”.

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