Por Ricardo Queiroz Pinheiro, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Política e Ação Cultural da Escola de Comunicações e Artes da USP
- Escrevi este texto para não esquecer e não deixar morrer o bibliotecário de biblioteca pública que sou.
Há quanto tempo você não entra numa biblioteca?
Talvez faça anos. Talvez nem se lembre da última vez. Ou talvez nunca tenha tido uma por perto. Para alguns, a palavra ainda desperta a imagem de um prédio silencioso, estantes altas, o cheiro bom do papel. Para outros, é uma lembrança escolar, meio apagada, de um lugar que parecia distante.
Há também quem nunca tenha cruzado aquela porta, mas guarde uma ideia vaga — de que ali dentro mora algo que o País deixou de cuidar.
A verdade é que cada um de nós tem uma biblioteca na memória, mesmo que imaginária. E talvez seja justamente essa lembrança difusa, esse eco de um espaço comum, que nos ajude a entender o que estamos perdendo quando elas desaparecem. O Brasil vive um apagamento que não se resume a estatísticas: é o esvaziamento de um vínculo cultural.
Em pouco mais de uma década, o País viu fechar centenas de bibliotecas públicas e minguar o número de leitores. A perda é silenciosa, mas corrosiva. Quando uma sociedade desmonta os lugares que garantem o direito à palavra, ela não apenas empobrece intelectualmente — ela desarma a si mesma. O que está em jogo não é o futuro do livro, mas o da própria ideia de cidadania.
Por trás desse esvaziamento há algo mais profundo do que desinteresse. Há uma falha de continuidade. O Brasil sempre reconheceu a importância das bibliotecas, mas de modo intermitente — um reconhecimento que se renova a cada governo e se desfaz logo depois. São políticas que começam com entusiasmo e terminam em silêncio e sucateamento.
A Promessa da Porta Aberta foi repetida em planos, discursos e leis, mas raramente transformada em compromisso duradouro. O resultado é uma história marcada pela descontinuidade: cada avanço é seguido de um esquecimento, cada inauguração, de um abandono e portas que se fecham mesmo quando supostamente abertas.
Chamo de Promessa da Porta Aberta essa ideia que atravessa gerações: a biblioteca como espaço de todos, livre, acessível, um território onde o conhecimento circula sem barreiras. Mas a realidade sempre foi menos generosa. Em torno dessa promessa formou-se um paradoxo que nunca deixou de nos acompanhar — portas abertas, usos limitados.
No Brasil, essa contradição ganhou forma própria: bibliotecas que sobrevivem entre o reconhecimento simbólico e o desamparo material, sustentadas mais por continuidades afetivas do que por políticas públicas consistentes. Vivem de atos heroicos e evocações vazias. Mesmo assim, há algo nelas que resiste: um modo de estar junto, de partilhar o tempo, de inventar sociabilidades. Um público teimoso e renitente — é o que penso como lugar de leituras, não o prédio, mas a experiência viva que acontece quando alguém, qualquer um, atravessa a porta e decide ficar.
Mas esse modo de resistência, feito de brechas e persistências, começa a ser engolido por uma maré mais ampla. O esvaziamento das bibliotecas já não se expressa apenas na precariedade dos prédios ou na falta de verbas, mas na erosão simbólica da leitura como valor público. O que antes era uma falha institucional tornou-se um fenômeno social.
A erosão não é mais percebida apenas por quem vive o cotidiano das bibliotecas. Ela já chegou ao discurso público, atravessou o noticiário e entrou nas estatísticas oficiais. O Senado divulgou, em outubro, um levantamento alarmante sobre o estado da leitura no País: mais da metade dos brasileiros — 53% — já não se considera leitor. E entre os que ainda leem, cresce o analfabetismo funcional — gente que reconhece as palavras, mas não alcança o sentido. O País que um dia associou leitura à emancipação agora convive com uma geração que lê sem compreender, informada por telas e desamparada de mediação.
O dado mais simbólico, talvez, seja outro: apenas 5% dos entrevistados afirmaram ter na biblioteca pública sua principal forma de acesso a livros. O restante busca alternativas pagas, digitais ou simplesmente se afastou do hábito. É o retrato perfeito da Promessa da Porta Aberta transformada em ficção institucional — as portas seguem abertas, mas quase ninguém entra. A biblioteca, que deveria ser o lugar mais comum da cidade, tornou-se um território de exceção, um espaço sobrevivente num País que desaprendeu a reconhecer o público como valor.
E, como em toda crise cultural, proliferam as explicações fáceis. Há quem diga que “ninguém precisa mais de biblioteca na era da internet”, que “tudo está on-line”, que “a biblioteca pública é coisa do século 20”. São frases de conforto para quem confunde acesso com compreensão e informação com conhecimento.
A rede pode conter todos os livros do mundo, mas nenhum deles se abre sozinho. O que está desaparecendo não é o suporte, é o espaço social que praticava a mediação da leitura — mesmo corroído por ausências, improvisos e uma crônica falta de investimento. A biblioteca nunca foi perfeita, mas era uma tentativa teimosa de criar mediação pública num País que delegava a educação ao acaso e entregava a cultura ao mercado.
Essa é a falha que o discurso tecnocrático jamais reconhece: educação sem o cruzamento com a cultura não existe. A mediação da leitura — aquilo que a biblioteca pública fazia de modo silencioso e persistente — é o elo que a escola sozinha não alcança. Ler, no sentido pleno, nunca foi apenas decodificar letras; é participar de uma experiência coletiva, um gesto de partilha simbólica. É por isso que o desaparecimento das bibliotecas fere algo mais fundo do que o hábito: corrói o espaço onde a educação encontrava o mundo, onde o conhecimento se tornava vida comum.
E, apesar dos pesares, ainda há quem sustente esse fio. Bibliotecários, professores, mediadores e leitores anônimos seguem tentando manter viva a ideia de espaço público, mesmo quando tudo conspira para sua extinção. Fazem isso sem holofotes, quase sempre sem orçamento, carregando sobre os ombros uma tarefa que o Estado abandonou: criar vínculos num País que desaprendeu a ler junto. A ausência dessas mediações — do encontro entre educação e cultura — abre espaço para o vazio onde hoje prosperam o autoritarismo, a desinformação e a solidão digital. É nesse vácuo que se decide o futuro: entre o país que lê para compreender e o país que apenas consome palavras.
Há um consenso perverso que atravessa classes e discursos: a ideia de que “o brasileiro não lê”. Tanto a fala reacionária, erodida pelo preconceito, quanto a elitista, nutrida pelo desejo de distinção cultural, adoram repeti-la. Uma para justificar o desprezo; a outra, para exibir superioridade. No fundo, ambas convergem no mesmo ponto: culpam o não leitor. Fingem ignorar que a leitura não é virtude individual, mas prática social sustentada por tempo, silêncio, mediação e acesso — tudo o que o País sistematicamente nega. Dizer que o povo não lê é mais fácil do que admitir que o poder não quer que ele tenha onde ler.
A biblioteca é um corpo estranho na cidade contemporânea — e, por isso mesmo, um dos últimos lugares de comum. Ali ainda se pode entrar sem dever explicações: sem consumo, sem senha, sem justificativa. É um espaço onde o tempo não precisa provar utilidade e a presença não exige finalidade. Tudo o que a cidade tornou exceção — a gratuidade, o silêncio, o convívio entre desconhecidos — ali persiste como lembrança de que o comum ainda é possível. Cada biblioteca, por mais precária que seja, encarna essa anomalia: a de um espaço público que insiste em existir quando o comum se tornou o que há de mais raro.
Quem sustenta essa anomalia são pessoas quase invisíveis. Bibliotecários, mediadores, funcionários, leitores errantes. Servidores públicos que, mesmo sem condições, mantêm de pé um serviço que o Estado tem a obrigação de garantir, mas trata como favor. Em torno deles formam-se pequenas comunidades — vínculos frágeis e teimosos — que preservam a biblioteca como espaço público no sentido mais pleno: lugar de acesso, permanência e encontro.
E o público que a frequenta, que reinventa seus usos e transforma o cotidiano em convivência, também faz parte dessa resistência. Cada pessoa que atravessa a porta e permanece ali, lendo, descansando, se abrigando, estudando, prova que a biblioteca pública ainda cumpre sua função mais essencial: sustentar o comum quando o poder se ausenta.
Essa vitalidade cotidiana convive com uma contradição que atravessa toda a história do País. A biblioteca pública brasileira sobrevive porque é necessária, mas permanece precária porque nunca foi tratada como tal. É o coração do Paradoxo da Porta Aberta: uma instituição concebida para garantir acesso universal e, ao mesmo tempo, condenada à descontinuidade. O Estado a proclama como direito, mas a administra como exceção — com aparições bissextas e políticas descontinuadas, que começam com entusiasmo e terminam em esquecimento.
Nesse vai e vem, multiplicam-se os públicos invisíveis: os negligenciados, que nunca foram alcançados, e os apagados, que chegaram a existir nas estatísticas e depois sumiram delas. O resultado é um sistema que depende da devoção dos que o sustentam e da resistência dos que o frequentam. A promessa republicana de uma cultura comum se cumpre apenas de forma intermitente, sempre à beira do colapso, sempre recomeçando do zero.
Esses públicos invisíveis têm rosto, endereço e história. São os moradores das periferias urbanas sem biblioteca no bairro; as pessoas em situação de rua que ocupam as salas de leitura em busca de abrigo e reconhecimento; os jovens negros e pobres que não se veem representados no acervo; os idosos, marginais nas políticas de cultura, que desapareceram das prioridades públicas; as mulheres sobrecarregadas que já não encontram tempo nem oferta de espaços de convivência. Invisíveis não por ausência, mas por desatenção.
O sistema os trata como exceção quando são a regra. E é justamente nessa franja social — onde o acesso se mistura à sobrevivência — que a biblioteca pública revela seu verdadeiro sentido político: não o de templo do saber, mas o de espaço de reparação simbólica, onde o direito à palavra volta a ser negociado todos os dias.
A presença desses públicos transforma a biblioteca em espelho das contradições do País. Ali se cruzam as promessas civilizatórias e as ruínas sociais que o Estado produz e tenta esconder. O que muitos veem como “incômodo” — a diversidade de corpos, de cheiros, de usos — é, na verdade, o sinal de que a biblioteca ainda cumpre sua função pública: acolher o que o resto da cidade expulsa.
É nesse encontro entre a solenidade da instituição e a precariedade da vida que o Paradoxo da Porta Aberta se revela em sua forma mais crua. A biblioteca promete acesso universal, mas o universal, no Brasil, é sempre um campo de disputa. Cada presença indesejada lembra o poder público daquilo que ele insiste em negar: que o direito à cultura é inseparável do direito à dignidade.
É nesse convívio imperfeito que a biblioteca se torna algo maior do que o edifício que a contém. Entre a norma e o improviso, o estudo e o descanso, o silêncio e o murmúrio, forma-se um espaço de coexistência que escapa a qualquer planejamento. O lugar de leituras nasce daí: do uso múltiplo, da disputa de sentidos, das presenças que se encontram sem precisar se justificar. É a biblioteca como prática, não como ideal — onde ler pode significar estudar, abrigar-se, conversar, dormir, observar o outro. Um espaço que continua público justamente porque não impõe o que deve ser feito nele. E talvez seja essa liberdade modesta, esse comum construído na fricção, que a torne um dos últimos lugares realmente democráticos da cidade.
Chegamos a um ponto em que já não basta repetir o refrão da “biblioteca para todos”. O País precisa de políticas públicas consistentes, com financiamento estável, continuidade administrativa e compromisso social real. A intermitência é a doença crônica da cultura brasileira: cada gestão inaugura e desmonta, anuncia e esquece. É preciso romper esse ciclo de promessas vazias e reconhecer a biblioteca pública como serviço essencial, tão necessário quanto saúde e transporte. Investir nelas não é benevolência, é reparação histórica. O direito à leitura, à informação e à convivência cultural precisa deixar de ser tratado como luxo de época e passar a ser garantido como condição básica de cidadania.
A Promessa da Porta Aberta sobrevive, mas cada vez mais entre escombros. O paradoxo se aprofundou: multiplicam-se as campanhas que exaltam a leitura enquanto diminuem os leitores. O País celebra a Semana do Livro com a mesma solenidade com que fecha bibliotecas.
Enquanto o analfabetismo funcional cresce, repete-se o mantra de que “os livros podem mudar a vida das pessoas” — frase que funciona bem em propaganda institucional, mas não resiste ao chão da realidade. Livros não mudam vidas sem tempo, sem mediação, sem espaço. É por isso que a biblioteca pública continua sendo mais do que um depósito de papel: é o território material onde essa promessa ainda pode se cumprir, se houver política que a sustente.
A biblioteca pública, como lugar de leituras, é a forma concreta do comum — o ponto em que o espaço deixa de ser mera arquitetura e se converte em vida partilhada. É ali que a palavra deixa de ser mercadoria e volta a ser bem comum. Cada biblioteca, por mais frágil que pareça, é um laboratório silencioso de convivência, de escuta e de imaginação compartilhada.
Ali, o comum se pratica em gestos mínimos: um livro aberto, uma conversa breve, um tempo que se restitui ao coletivo. Em tempos de pressa e desinformação, a biblioteca é a política pública mais simples e mais radical que um país pode ter — uma porta entreaberta por onde a vida ainda insiste em entrar.


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