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domingo, 28 de dezembro de 2025

A III Guerra começa a se definir



O mundo tornou-se melhor depois da Segunda Guerra Mundial em vários aspectos, sobretudo pela vergonha do que foi feito e pelo medo do poder das novas armas. Melhor em estatísticas, em índices, em promessas de conforto e longevidade. Melhor naquilo que pode ser medido. No entanto, essa melhoria exigiu uma pedagogia cruel: cidades vaporizadas, milhões de corpos transformados em números e uma fé quase religiosa na ideia de que a destruição extrema produziria, por milagre, uma ordem mais sensata. Oito décadas depois, descobrimos que a lição foi mal aprendida — ou talvez aprendida demais.


A Terceira Guerra Mundial não se anuncia com clarins nem com declarações solenes. Ela se delineia com a discrição burocrática dos relatórios estratégicos, com tarifas alfandegárias, com sanções econômicas, com discursos inflamados que substituem as bombas enquanto as preparam. Não haverá, ao menos por ora, o espetáculo do confronto direto entre potências nucleares. A prudência do medo impede o gesto final. Em seu lugar, guerras regionais por influência, território e prestígio redesenham o planeta segundo uma lógica antiga, agora vestida com a linguagem da modernidade.


Forma-se, assim, uma nova geometria do poder: três grandes blocos, suficientemente coesos para impor obediência e suficientemente rivais para justificar o permanente estado de alerta. O mundo retorna, com verniz tecnológico, à velha divisão imperial — americana, europeia e asiática — como se a história fosse incapaz de produzir algo além de variações do mesmo erro.


As tarifas de Donald Trump espalham-se como um contágio ideológico. Não são apenas instrumentos econômicos; são sintomas. Revelam um mundo que substituiu a cooperação pelo ressentimento organizado. O centralismo ressurge como virtude, o militarismo reaparece como necessidade moral. O raro desfile militar promovido nos Estados Unidos não foi um capricho estético, mas um gesto simbólico: a encenação do poder como espetáculo, a disciplina transformada em entretenimento patriótico.


O Japão, que após a Segunda Guerra fez do pacifismo uma identidade quase metafísica, começa a reaprender a linguagem das armas. O discurso belicista retorna, agora legitimado pela ameaça chinesa. A Alemanha, por sua vez, vê-se novamente empurrada à necessidade do rearmamento diante da sombra russa, enquanto flerta perigosamente com forças políticas que tratam o passado não como advertência, mas como inspiração. A história, que deveria servir como antídoto, é manipulada como narcótico.


No continente americano, a lógica não é menos inquietante. Um possível ataque à Venezuela surge no horizonte das hipóteses estratégicas, enquanto a própria Venezuela ensaia ambições bélicas contra a Guiana. No Oriente Médio, Irã e Israel, após décadas de hostilidade indireta e calculada, finalmente encontram coragem — ou desespero — para se agredirem de forma aberta. A contenção cede espaço à tentação do confronto.


Celebraram-se os oitenta anos do fim da Segunda Guerra como um marco de superação. Mas não houve ali verdadeiro júbilo. Houve, antes, um retorno silencioso. Não do homem específico, grotesco e caricatural, mas do arquétipo. Os Hitlers do mundo não usam necessariamente bigodes nem gritam em palanques enfurecidos. Vestem ternos bem cortados, falam em segurança nacional, em prosperidade, em defesa da civilização. Governam com gráficos, algoritmos e narrativas cuidadosamente calibradas.


A distopia não chega com correntes e campos de concentração à primeira vista. Chega com normalidade, com a sensação de que tudo é inevitável. E é nesse clima de anestesia moral que a Terceira Guerra Mundial começa a se definir: não como um evento súbito, mas como um processo — racional, administrado e, acima de tudo, aceito.

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