Sempre intrigou os intérpretes da política moderna o fato de que a barbárie não nasce, necessariamente, da ignorância. O século XX ofereceu um exemplo desconcertante: Adolf Hitler não sequestrou uma nação inculta ou marginal, mas uma das sociedades mais sofisticadas do Ocidente, herdeira de Kant, Goethe e Beethoven. O totalitarismo não brotou das sombras, mas do interior de uma civilização que acreditava ter superado a irracionalidade.
Hannah Arendt insistiu nesse ponto: o mal político não precisa de monstros excepcionais; ele prospera quando homens comuns renunciam ao exercício do juízo. A adesão de intelectuais como Martin Heidegger ao nazismo não se explica por perversidade individual, mas por uma suspensão deliberada da responsabilidade de pensar. O filósofo, seduzido pela promessa de um “destino histórico”, preferiu o mito à crítica, a pertença ao julgamento.
Esse mecanismo não pertence ao passado europeu. Ele se repete, com variações locais, sempre que a política deixa de ser espaço de deliberação e se transforma em religião secular. No Brasil, país que nunca construiu plenamente uma tradição republicana sólida, assistimos ao fenômeno de uma figura politicamente medíocre, intelectualmente indigente e moralmente autoritária converter-se em objeto de devoção fanática. Jair Bolsonaro não mobilizou massas por ideias complexas ou projetos consistentes, mas por afetos primários: medo, ressentimento, ódio e nostalgia de uma ordem imaginária.
Como em toda experiência fanática, a razão torna-se suspeita. O mundo deixa de ser interpretado a partir de fatos e passa a ser filtrado por intuições morais absolutas. O seguidor não argumenta; reconhece sinais. Inimigos são onipresentes, conspirações são permanentes, e somente o líder — essa figura grotescamente elevada à condição de salvador — parece capaz de nomear o perigo e oferecer redenção. Não é a verdade que importa, mas a fidelidade.
Arendt observou que o totalitarismo exige a destruição do espaço intermediário entre o indivíduo e o poder: ali onde surgem a pluralidade, o dissenso e o diálogo. O fanático não suporta a ambiguidade. Por isso, o mundo precisa ser reduzido a campos morais estanques: patriotas e traidores, povo e inimigos, bem e mal. Nesse cenário, a liberdade não é um valor, mas um slogan — frequentemente brandido por aqueles que nutrem explícita admiração por golpes, ditaduras e práticas de tortura.
A crença de que “o Estado é essencialmente mau” e de que toda forma de poder é, por definição, ilegítima não conduz à emancipação, mas ao seu oposto. A recusa em pensar instituições abre espaço para líderes personalistas que prometem destruir o sistema enquanto o colonizam. Onde não há compromisso com limites, surgem os Hitlers, Trumps e Bolsonaros de cada época, sempre apresentados como antídotos contra um mal difuso que eles próprios ajudam a fabricar.
É nesse ponto que a política degenera em farsa. No Brasil recente, assistimos a um episódio quase alegórico: pessoas destruindo chinelos da Havaianas em reação a uma campanha publicitária que sugeria começar o ano “com os dois pés”. O gesto banal foi interpretado como conspiração ideológica; a marca, convertida em inimiga; o objeto cotidiano, em ameaça comunista. O pensamento crítico cede lugar à superstição política.
Voltaire advertia que, quando o fanatismo gangrena o cérebro, a doença torna-se incurável. Arendt, menos pessimista, acreditava que o pensamento — esse diálogo silencioso consigo mesmo — ainda poderia funcionar como barreira contra o colapso moral. Mas ambos concordariam num ponto: quando a política passa a operar por símbolos vazios e inimigos imaginários, o risco não é apenas institucional, é civilizacional.
E talvez a melhor imagem desse estado de coisas não esteja nos grandes discursos, mas nos pequenos gestos. O fanático que quebra um chinelo para afirmar sua fé política lembra o velho símbolo da ferradura: um objeto destinado a proteger, mas usado como amuleto. Não importa se funciona; o essencial é acreditar. Afinal, quando o pensamento abandona o caminho, qualquer ferradura serve como bússola.


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