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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Artistas que recebem cachês milionários de cidades miseráveis são tão criminosos quanto os prefeitos



"Artistas" que recebem cachês milionários pagos por cidades miseráveis não cometem apenas um exagero financeiro — participam de um desequilíbrio moral. A arte nunca foi uma atividade isolada da vida social. Desde a Grécia antiga, o artista ocupa um lugar simbólico na formação do imaginário coletivo, influenciando valores, sensibilidades e modos de ver o mundo. Por isso, não há como dissociar a condição de artista de uma responsabilidade pública.


A arte é liberdade criativa, mas também é função social. Aristóteles via na arte uma forma de educação das emoções; Hannah Arendt compreendia a obra artística como parte do mundo comum que partilhamos; e mesmo pensadores liberais admitem que figuras públicas exercem influência moral objetiva sobre a sociedade. Quando um artista aceita que sua apresentação custe o equivalente ao orçamento anual de políticas básicas de um município pobre, a questão deixa de ser contratual e passa a ser ética.


Não se trata de negar o valor da cultura, do lazer ou da celebração popular. Festas têm importância simbólica e econômica. O problema surge quando a lógica do espetáculo se impõe sobre a lógica da dignidade humana. Uma cidade com escolas precárias, postos de saúde sem medicamentos e população vivendo sob insegurança alimentar não pode justificar moralmente a transferência de milhões de reais para enriquecer ainda mais alguém que já possui patrimônio suficiente para jamais trabalhar novamente.


Sob a ótica da ética da responsabilidade, conceito desenvolvido por Max Weber, agentes com grande poder social devem considerar os efeitos concretos de seus atos. Um artista milionário tem poder de escolha. Pode reduzir cachês para cidades vulneráveis, pode se recusar a participar de contratos desproporcionais, pode condicionar apresentações a investimentos sociais. Quando não o faz, exerce apenas a ética da convicção individual (“me pagaram, aceitei”), ignorando as consequências coletivas.


Também sob a perspectiva da justiça distributiva, discutida por John Rawls, a organização social justa deve beneficiar prioritariamente os menos favorecidos. Embora Rawls trate de instituições, o princípio moral se irradia para condutas individuais com impacto público. Aceitar um cachê milionário vindo de uma cidade onde faltam políticas básicas é colaborar com uma distribuição de recursos que agrava desigualdades já extremas.


Há ainda um elemento simbólico: a arte que se apresenta como voz do povo, mas se financia drenando recursos desse mesmo povo, incorre numa contradição ética profunda. O artista deixa de ser expressão cultural e se torna instrumento de reprodução de desigualdades, funcionando como parte de um circuito político-eleitoral em que entretenimento substitui cidadania. Não é casual que, historicamente, shows públicos no interior tenham sido acompanhados de proximidade entre artistas e lideranças políticas locais. O palco vira palanque, e a cultura vira moeda.


A responsabilidade primeira pelos gastos públicos é, evidentemente, dos gestores. Mas isso não absolve quem se beneficia de contratos moralmente questionáveis. Ética não é apenas cumprir a lei; é recusar vantagens que nascem da carência alheia. Há lucros que a legalidade permite, mas a consciência deveria vetar.


Um verdadeiro artista amplia horizontes humanos. Não reduz sua arte a cifras pagas por quem mal tem o básico para viver. Quando o cachê ignora a fome ao redor do palco, o espetáculo pode até lotar a praça — mas esvazia o sentido moral da própria arte.

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