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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Banco Master X Banco Central - Não se constrói estabilidade enfraquecendo o Banco Central

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil


Luiz Lemos Leite*


Com a serenidade de quem dedicou a vida ao sistema financeiro brasileiro, manifesto publicamente meu repúdio às práticas fraudulentas apontadas em documentos divulgados pela imprensa nacional. As reportagens revelam o uso indevido de estruturas empresariais e do discurso de inovação para gerar prejuízos a empresas, investidores e ao crédito produtivo. Aos 96 anos, com 75 anos de atuação profissional, sigo atento e preocupado com movimentos que colocam em risco pilares institucionais fundamentais para a vida nacional.

À luz desse material jornalístico e das narrativas que surgiram após a liquidação extrajudicial do Banco Master, considero indispensável me posicionar. Decisões prudenciais adotadas pelo Banco Central não podem ser tratadas como objeto de disputa política nem reduzidas a interpretações tendenciosas. São atos voltados à preservação do Sistema Financeiro Nacional, à proteção da economia real e ao resguardo dos fundamentos do regime democrático. Por sua natureza, exigem elevado grau de qualificação técnica e jurídica.

Falo a partir da experiência de quem acompanhou, ao longo de décadas, a consolidação das instituições responsáveis pela estabilidade do sistema financeiro brasileiro. Participei diretamente de processos decisórios, atravessei ciclos econômicos distintos e vivi momentos de crise que exigiram rigor técnico, independência institucional e estrita observância às normas. Essa trajetória permite afirmar, com segurança, que as decisões prudenciais do Banco Central têm natureza essencialmente técnica e constituem instrumento indispensável à preservação da confiança, da moeda e do crédito produtivo.

Registro, ainda, que sou o diretor mais antigo em atividade do Banco Central, condição que me confere a posição de decano de sua Diretoria. Essa circunstância, somada a uma vida dedicada ao serviço público e ao compromisso institucional, confere-me autoridade moral para me manifestar em defesa da autonomia, da credibilidade e do papel institucional da autoridade monetária.

Ao longo desse percurso, atuei tanto na esfera pública quanto na iniciativa privada. Em 1982, fundei a Associação Nacional de Fomento Comercial, a ANFAC, entidade que presido há 44 anos e que teve papel relevante na consolidação do mercado de recebíveis e no desenvolvimento de modalidades de crédito empresarial não bancárias. Essa vivência reforça minha convicção quanto à centralidade da estabilidade regulatória e da atuação técnica do Banco Central para o funcionamento do crédito e da economia real.

Em nenhuma das inúmeras liquidações e processos de reorganização do sistema financeiro dos quais participei presenciei algo semelhante ao que se observa no presente. Há uma campanha aberta destinada a fragilizar a imagem do Banco Central por meio de pressões políticas, ruídos institucionais e ações de desinformação. Movimentos dessa natureza não contribuem para a solidez do mercado nem para o fortalecimento da democracia.

O debate sobre eventuais irregularidades deve ocorrer com maturidade, responsabilidade e competência, nos foros adequados. Precisa estar baseado em fatos, informações técnicas consistentes e pleno respeito ao devido processo legal. Não se pode admitir que setores inteiros sejam colocados sob suspeita por meio de generalizações ou construções narrativas que desconsiderem a diversidade das atividades econômicas e os avanços regulatórios alcançados.

Em 1º de abril de 2025, a convite do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tive a honra de participar das comemorações pelos 60 anos da instituição. Constatar que o Banco Central do Brasil se consolidou como uma das autoridades monetárias mais respeitadas do mundo é motivo de legítimo orgulho para todos os brasileiros. Diante disso, não poderia me calar frente às aleivosias dirigidas à instituição, muitas vezes utilizadas na defesa de interesses escusos, em detrimento do rigor técnico que sempre orientou sua atuação.




*Luiz Lemos Leite é presidente e fundador da Associação Nacional de Fomento Comercial (ANFAC), função que exerce desde 1982, sendo uma das principais referências do fomento comercial no Brasil. Formado em Direito pela Universidade Federal Fluminense, construiu uma trajetória sólida no sistema financeiro nacional, com passagens pelo Banco do Brasil, pela Presidência da República e pelo Banco Central do Brasil.

Sua carreira teve início em 1951 na Superintendência da Moeda e do Crédito, a SUMOC, autarquia responsável pela organização do mercado monetário brasileiro e pela preparação institucional para a criação do Banco Central. Participou diretamente do processo técnico e estrutural que permitiu ao Banco Central assumir plenamente o papel de autoridade monetária, acompanhando essa evolução até 1981, quando encerrou sua atuação no órgão após exercer o cargo de diretor e atravessar diferentes ciclos econômicos, crises e transformações institucionais.

Especialista em Direito Econômico, fomento comercial, riscos de crédito, tributação, securitização e fundos de recebíveis, fundou a ANFAC ao ingressar na iniciativa privada, com o propósito de estruturar, representar e desenvolver o fomento comercial no país. É autor do livro “Factoring no Brasil”, que alcançou 12 edições hoje esgotadas, e idealizador do curso de Agente de Fomento Comercial, lançado em 1983, com 198 edições realizadas e 8.788 profissionais formados. Também é fundador do Instituto Brasileiro de Fomento Mercantil, dedicado à capacitação profissional e à disseminação do conhecimento sobre o setor.

 

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