Por Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP
No dia seguinte ao sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nas redes sociais uma foto do presidente Donald Trump apontando para uma mapa onde se vê o hemisfério ocidental do Canadá ao Cabo Horn, na Patagônia, e logo abaixo a frase: “Este é o nosso hemisfério”. Em seguida, o secretário de Estado Marco Rubio, comentando a foto, mencionou que seu país não vai permitir que o continente seja uma base para adversários do regime norte-americano.
Conhecemos essa história. Recentemente, e graças à divulgação dos documentos secretos do governo dos Estados Unidos, após terem completados os 50 anos de confidencialidade obrigatória, ficamos sabendo que, entre 1963 e 1964, o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, foi um dos principais arquitetos do golpe militar que aconteceu em 1964 e que resultou na deposição do presidente brasileiro, João Goulart.
O golpe só foi possível porque militares e navios norte-americanos estavam ancorados na nossa costa, entre Santos e Rio de Janeiro, para proteger os generais brasileiros corresponsáveis pela derrubada da democracia. Na época, a justificativa era a ameaça comunista que, para as lideranças norte-americanas, tinha que ser varrida do continente após a Revolução Cubana de 1959.
Não há como defender o presidente Nicolás Maduro, mas temos que ter clareza para entender que o golpe na Venezuela no dia 3 de janeiro não foi para defender a democracia, mas para garantir aos Estados Unidos o pleno acesso às maiores reservas de petróleo do mundo.
Com o passar dos dias, também foi ficando mais claro que Trump se inspirava em James Monroe, presidente dos Estados Unidos no início do século 19, que dizia que o mundo daquele período deveria ser dividido em esferas de influência regionais, e que o seu país deveria ser o grande líder do hemisfério ocidental. Monroe estava preocupado com a chegada de colonizadores europeus.
Interessante que hoje, duzentos anos após Monroe, o mundo é outro, no entanto a América do Sul continua muito rica e atraente por conta de seus recursos naturais. Em termos relativos, até mais rica que no século 19. O ouro e o diamante talvez tenham perdido importância, mas agora temos o lítio, o nióbio, o cobre e o manganês, sem contar as terras raras. Todos importantíssimos para a transição energética, para os carros elétricos e para a fabricação de semicondutores que são o principal componente de computadores e equipamentos eletrônicos em geral.
Infelizmente, o problema da América do Sul é que, apesar de toda essa riqueza enterrada em nosso subsolo, somos fracos na nossa capacidade de extração desses minerais. Mas somos ainda mais fracos na nossa capacidade de, após extraí-los, transformá-los em produtos essenciais para utilizá-los nas áreas acima mencionadas.
O atual caso da Venezuela é bem emblemático do que acontece com a maioria dos nossos minerais: a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, mas é uma produtora de pequena importância por falta de capacidade tecnológica e industrial. Por isso precisa que empresas internacionais atuem em seu território fazendo a extração e o refino.
Voltando ao caso dos minerais, o Brasil, em especial, tem toda condição de tirar enorme proveito de suas imensas reservas. Mas precisa desenvolver uma capacidade industrial que hoje não possui. Com essa capacidade, nosso país deixaria de ser apenas o dono das reservas e passaria a extraí-las – e assim agregaria valor para poder atuar no mercado internacional com produtos altamente valiosos.
O que falta é um plano detalhado – uma política industrial – para chegarmos a essa nova situação. Sem isso, o problema será resolvido pelo mercado ou por uma intervenção, como fizeram na Venezuela; mas dessa forma nunca será algo que nos favoreça como nação soberana, que é o que sempre devemos buscar.


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