Hitler não morre - Blog A CRÍTICA

"Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados." (Millôr Fernandes)

Últimas

Post Top Ad

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Hitler não morre

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

(Camões)



Agora que o criminoso nazista Donald Trump espalha o medo da guerra e o terror pelo planeta cabe refletir de forma mística por que triunfam os maus na terra. Hitler exerceu a função de mensageiro  durante a I Guerra necessitando transferir mensagens entre batalhões, uma bucha humana, entretanto, não morreu, não perdeu as pernas, perdeu sim toda a sensibilidade de conviver no inferno, com milhões de cadáveres, partes humanas e cidades queimadas, isso tudo aliado às suas confusões mentais estava formado o monstro.


A permanência do mal na história não se explica apenas pela brutalidade dos agentes que o encarnam, mas sobretudo pela incapacidade recorrente das sociedades de reconhecê-lo a tempo. O verso de Camões não descreve um desvio moral episódico, mas uma estrutura histórica persistente: a assimetria entre sofrimento e recompensa, entre virtude e êxito, entre justiça e poder.


Dizer que Hitler não morre não significa afirmar sua sobrevivência literal, mas reconhecer que ele subsiste como forma histórica, como possibilidade latente inscrita nas fraturas das democracias modernas. O nazismo não foi um acidente metafísico nem um delírio coletivo inexplicável; foi o produto de condições sociais, políticas e psíquicas concretas — e, por isso mesmo, passíveis de repetição.


A Primeira Guerra Mundial não foi apenas um conflito militar; foi uma ruptura civilizatória. Pela primeira vez, a morte foi produzida em escala industrial, com métodos racionais, burocráticos e tecnologicamente otimizados. O soldado deixou de ser um combatente individual para tornar-se um elemento substituível de uma engrenagem letal.


Não se trata de psicologizar o nazismo, mas de reconhecer que a guerra moderna produziu subjetividades profundamente marcadas pela normalização da violência. O monstro não emerge do nada: ele se forma quando a brutalidade deixa de ser exceção e se torna método.


Às vésperas da Primeira Guerra, muitos intelectuais acreditavam que o conflito seria breve. Havia a convicção de que a racionalidade técnica e o progresso científico tornariam a guerra mais eficiente — e, paradoxalmente, mais curta. A ilusão era a de que a modernidade havia domado a barbárie.


O resultado foi oposto. A razão instrumental não eliminou a violência; apenas a tornou mais sistemática. Matar milhares para avançar alguns metros tornou-se rotina. A civilização técnica revelou sua face sombria: a capacidade de organizar a destruição com precisão administrativa.


A Primeira Guerra matou milhões — e ainda assim não foi suficiente para imunizar a humanidade contra o mal. Ao contrário: produziu as condições históricas, econômicas e simbólicas para o nazismo.


A indulgência como erro estrutural


Hitler poderia ter sido contido. Não foi.


Após o fracasso do Putsch de Munique, foi condenado a uma pena branda, escreveu Mein Kampf na prisão e saiu politicamente fortalecido. A República de Weimar — fragilizada, humilhada pelo Tratado de Versalhes e atravessada por crises econômicas — optou pela conciliação com o extremismo.


A capitulação das elites conservadoras, simbolizada pela aliança com Franz von Papen, não foi um equívoco ingênuo, mas uma decisão estratégica: preferiu-se o autoritarismo à democracia social, o nacionalismo agressivo à igualdade política. O fascismo foi tolerado porque parecia funcional.


Essa é uma das lições mais duras do século XX: o mal raramente triunfa apenas pela força; ele triunfa porque é aceito, relativizado, normalizado.


A banalidade da repetição


Hannah Arendt mostrou que o mal moderno não precisa ser demoníaco; basta ser burocrático, rotineiro, juridicamente tolerado. O perigo não está apenas nos líderes carismáticos, mas na disposição coletiva de tratar a violência como opinião, a mentira como estratégia legítima e o ataque às instituições como excesso retórico.


Quando democracias contemporâneas minimizam tentativas de ruptura constitucional, incitações à violência política ou ataques sistemáticos à verdade factual, reproduzem — em novos contextos — a mesma lógica que permitiu a ascensão do fascismo no século XX.


A história não se repete mecanicamente, mas rima. E suas rimas costumam ser reconhecidas apenas quando já é tarde.


Por que os maus prosperam?


A pergunta de Camões permanece aberta. Talvez porque os maus não hesitem. Talvez porque os bons confiem excessivamente na força das instituições mesmo quando elas já estão corroídas. Talvez porque a civilização moderna, ao absolutizar a eficiência, tenha enfraquecido seus critérios éticos.


O fato é que o triunfo recorrente do mal não é uma fatalidade metafísica, mas um fracasso político e moral. Hitler não morre porque as condições que o geraram continuam a existir: medo, ressentimento, desigualdade, culto à força e desprezo pela verdade.


A história ensina, com clareza suficiente, que toda vez que os maus nadam em mar de contentamentos, a barbárie já atravessou o limiar do aceitável. O preço, invariavelmente, é pago pelos mesmos de sempre.


Trump intentou um golpe nos Estados Unidos e ao invés de puserem o marginal atrás das grades resolveram brincar, assim como fora feito na Alemanha.


Na América atiraram em Trump e a bala não pegou, ontem sua Gestapo assassinou uma mulher em Minneapólis.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages