O ataque à Venezuela e o esgotamento do sistema-mundo - Blog A CRÍTICA

"Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados." (Millôr Fernandes)

Últimas

Post Top Ad

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O ataque à Venezuela e o esgotamento do sistema-mundo



O anúncio de um ataque militar dos Estados Unidos em território venezuelano, acompanhado da captura do presidente Nicolás Maduro, não deve ser lido como um episódio isolado nem como simples excesso retórico de um governo específico. Trata-se, antes, de mais um sintoma do colapso progressivo do sistema-mundo moderno, tal como estruturado no pós-Segunda Guerra Mundial.


Desde a década de 1970, o sistema interestatal que sustentou a hegemonia norte-americana entrou numa fase prolongada de declínio. A crise não é apenas econômica, mas política, militar e simbólica. Quando a hegemonia já não consegue assegurar consenso, ela passa a depender crescentemente da coerção. É nesse contexto que se insere a política externa do governo Trump: não como uma anomalia, mas como expressão tardia de um centro em decadência que recorre à força para preservar posições estratégicas.


A Venezuela ocupa um lugar estruturalmente central nessa equação. Detentora da maior reserva comprovada de petróleo do planeta, o país sempre foi uma zona estratégica do sistema-mundo. O conflito em torno do seu controle não diz respeito à democracia, aos direitos humanos ou à estabilidade regional, mas à disputa por recursos em um momento de escassez relativa e de perda de capacidade regulatória do centro hegemônico.


A rapidez com que se teria dado a captura de Maduro, caso confirmada, sugere menos uma vitória militar clássica e mais um rearranjo interno típico de períodos de transição sistêmica. Em fases de crise estrutural, alianças se tornam fluidas, elites periféricas negociam sobrevivência e a soberania nacional passa a ser moeda de troca. Não é por acaso que relatos anteriores já indicavam fissuras no interior do regime venezuelano e canais de negociação com Washington.


Esse movimento não inaugura uma nova ordem; ao contrário, evidencia a falência da antiga. O ataque à Venezuela se soma à guerra na Ucrânia, onde o território agrícola e os recursos naturais também ocupam papel central. O padrão se repete: enfraquecimento das normas do direito internacional, erosão da soberania estatal e substituição da diplomacia pela força direta ou indireta.


Em períodos de declínio hegemônico, o sistema-mundo tende à multipolaridade caótica. Não se trata ainda de uma Terceira Guerra Mundial nos moldes clássicos do século XX, mas de uma guerra fragmentada, regionalizada, travada por zonas de influência e por recursos estratégicos. Nesse cenário, cada precedente importa. Se a Venezuela pode ser atacada, Taiwan torna-se uma variável aberta; se a soberania ucraniana é relativizada, a estabilidade europeia deixa de ser garantida.


A lógica é sistêmica: quando o centro já não consegue organizar o mundo, o mundo entra em disputa aberta. O ataque à Venezuela, longe de ser um gesto de força, revela fragilidade. É o comportamento típico de uma hegemonia que já não consegue liderar, apenas impor — e mesmo essa imposição se torna cada vez mais custosa e instável.


O sistema-mundo do pós-guerra está sendo sepultado não por uma potência rival isolada, mas pelo esgotamento de suas próprias contradições internas. O que emerge em seu lugar ainda não está claro. O que se pode afirmar, com alguma segurança, é que o mundo entrou numa fase estruturalmente mais perigosa, marcada por incerteza, violência difusa e ausência de regras compartilhadas.


É nesse terreno instável que a história volta a acelerar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages