Sacrifício de Isaac (Caravaggio)
Ao longo da história das religiões monoteístas, um dos movimentos mais recorrentes — e mais perigosos — é o retorno a formas antigas de fé como se fossem expressões puras e intocadas da vontade divina. No Brasil contemporâneo, parte expressiva do movimento evangélico repete um erro já amplamente documentado na história do cristianismo europeu: a tentativa de reorganizar a vida religiosa, política e moral a partir de categorias teológicas próprias do Antigo Testamento, ignorando a ruptura profunda inaugurada pelo cristianismo primitivo.
Esse movimento não é novo. Durante a Idade Média e, mais tarde, nas guerras religiosas da Europa moderna, setores do cristianismo recorreram à imagem de um Deus legislador, punitivo e exclusivista para legitimar violência, perseguições e projetos de poder. O que se observa hoje é a reedição dessa lógica em um novo contexto cultural, político e midiático.
Do ponto de vista teológico, o Novo Testamento nasce precisamente como uma crítica radical ao modelo religioso do templo, da lei e da exclusividade étnica. Nos evangelhos, Jesus anuncia não a reforma do antigo sistema, mas sua superação simbólica. Quando afirma que o templo será destruído e reconstruído em três dias, o texto não fala de arquitetura, mas de uma transformação espiritual profunda: o sagrado deixa de estar localizado em instituições, territórios ou códigos legais e passa a habitar a experiência ética, relacional e universal do amor.
O Deus que emerge da tradição cristã primitiva é profundamente influenciado pela filosofia helenística, especialmente pelo platonismo tardio. Trata-se de um Deus que não pertence a um povo específico, não se define por fronteiras territoriais e não se manifesta pela força. Ao contrário do Deus tribal das primeiras narrativas hebraicas — compreensível em um contexto de sobrevivência de pequenos grupos em um ambiente hostil — o Deus cristão é pensado como princípio universal do bem, da justiça e da compaixão.
A própria história do povo hebreu confirma essa evolução. Até o exílio da Babilônia, a religião israelita não era estritamente monoteísta no sentido filosófico moderno. Tratava-se, antes, de uma forma de henoteísmo: a crença de que cada povo possuía seu próprio deus, sendo o Deus de Abraão exclusivo de Israel. Esse Deus exigia lealdade absoluta e, em muitos textos, ordenava a eliminação de povos rivais que ameaçavam a identidade e a sobrevivência da comunidade. Essas narrativas refletem uma lógica histórica e cultural específica, não um modelo ético universal.
Foi somente após o trauma do exílio, quando os hebreus perderam terra, templo e soberania política, que sua teologia começou a se universalizar. A ideia de um Deus único, criador de toda a humanidade, nasce do sofrimento e da reflexão, não da vitória militar. O cristianismo herda essa intuição e a leva às últimas consequências: o “povo escolhido” deixa de ser uma etnia e passa a ser a própria humanidade.
O problema surge quando cristãos modernos — especialmente em contextos marcados por insegurança social e crise identitária — escolhem ignorar essa trajetória histórica. Ao absolutizar o Antigo Testamento como código moral e político, setores do evangelicalismo brasileiro recuperam uma imagem de Deus que o próprio cristianismo buscou transcender. Um Deus que divide o mundo entre puros e impuros, amigos e inimigos, escolhidos e descartáveis.
Karen Armstrong lembra que a maturidade religiosa não consiste em retornar às origens de forma literal, mas em compreender o processo de transformação ética que cada tradição carrega em si. O erro, portanto, não está no Antigo Testamento — um conjunto de textos fundamentais para a compreensão da experiência religiosa humana —, mas em sua leitura descontextualizada, utilizada como instrumento de poder, exclusão e legitimação da violência simbólica ou real.
Quando o cristianismo abandona sua vocação universal e compassiva para adotar uma teologia de guerra cultural, ele deixa de ser cristão no sentido histórico do termo. Torna-se, paradoxalmente, aquilo que o próprio Jesus combateu: um sistema religioso fechado, legalista e incapaz de reconhecer o outro como portador do divino.
A história demonstra que toda vez que isso ocorre, o resultado não é fé mais profunda, mas intolerância, empobrecimento espiritual e erosão do próprio sentido do sagrado.


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