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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O NOBEL DA PAZ É CONTRA POLÍTICAS PÚBLICAS



Renato Janine Ribeiro


Cansei da defesa automática da chamada democracia liberal contra a chamada democracia iliberal, como se, nesse teste de pressão, o elemento decisivo fosse o adjetivo “liberal” e não o substantivo “democracia”. A democracia não liberal passou a ser acusada de todos os males, encarnando-se exemplarmente em figuras como Orbán, na Hungria. Ele, claro, é indefensável. Ainda assim, a pergunta que me parece incontornável é outra: e se o grande problema do nosso tempo não for a democracia iliberal, mas o liberalismo antidemocrático?


Refiro-me a uma visão de liberalismo reduzida aos seus aspectos mais individualistas e egocêntricos, próprios da ideologia capitalista, completamente dissociada do bem comum e indiferente aos interesses, necessidades e desejos efetivos do povo. Um liberalismo que se diz democrático, mas que esvazia a própria ideia de democracia ao tratá-la como mero procedimento formal, blindado contra decisões substantivas que contrariem os interesses dos de cima.


Para mim, a gota d’água foi a premiação de Corina Machado. Até pouco tempo atrás, eu ainda me alinhava à ideia de uma democracia liberal “expandida”, puxada à esquerda, com forte ênfase nos direitos humanos e na atuação de organizações não governamentais empenhadas em melhorar condições de vida, sobretudo por meio da educação. A premiação da golpista de 2002 tornou explícita a burla contida nesse discurso: uma gigantesca mentira. O que se propõe, no Nobel da Paz, é enfrentar, no varejo, problemas que são de atacado; fingir que questões estruturais, macroeconômicas e políticas podem ser resolvidas por microintervenções pontuais. Não há a menor chance de isso funcionar — e essa ineficácia não é acidental.


Não é por acaso que o Prêmio Nobel da Paz jamais foi concedido a quem promoveu políticas públicas estruturais. Não foi entregue a Fidel Castro pelas grandes reformas posteriores à Revolução Cubana; não foi entregue a Lula pelo combate sistêmico à fome; nem, em geral, a líderes de esquerda ou progressistas que buscaram atacar as causas materiais dos problemas. A quem ele é concedido, então? Na melhor das hipóteses, a figuras até admiráveis, mas que não oferecem ameaça real aos poderes estabelecidos. O prêmio consagra símbolos inofensivos, não transformações concretas.


O Nobel da Paz torna-se, assim, um poderoso instrumento ideológico: difunde a ideia de que governantes do chamado Terceiro Mundo são intrinsecamente incapazes ou perigosos e que a única via legítima de “ajuda” passa pela caridade ocasional dos ricos, pelas boas intenções de elites ilustradas em seu tempo livre. Se a questão fosse premiar jovens mulheres engajadas, como a querida Malala, por que então Greta Thunberg jamais foi considerada? Por que uma militante que enfrenta diretamente a indústria armamentista, o colapso climático e, mais recentemente, denuncia o genocídio em Gaza é absolutamente inconcebível para esse prêmio?


Enquanto isso, o Nobel foi concedido a Barack Obama sem que ele tivesse realizado qualquer ação concreta em favor da paz. O prêmio, aliás, carrega muito sangue em sua história. A tentativa de dourar a pílula premiando Henry Kissinger é simplesmente odiosa. Tampouco a concessão ao líder vietnamita que venceu os Estados Unidos em uma guerra colonial serviu para redimir o processo. Nada disso resolveu coisa alguma. Há algo de desprezível nesse mecanismo.


Essa lógica se articula com uma visão geopolítica profundamente distorcida. Condena-se, com razão, a invasão da Ucrânia e o autoritarismo de Putin, mas daí se dá um salto delirante para apresentar a Rússia como a principal ameaça à paz mundial. A maior ameaça continua sendo os Estados Unidos, potência que historicamente patrocinou golpes, derrubou governos democraticamente eleitos e sustentou ditaduras ao redor do mundo, da América Latina ao Oriente Médio.


Choca ver setores que se dizem progressistas tratarem os EUA como baluarte da democracia apenas porque, no pós-guerra, ajudaram a elevar o padrão de vida da Europa Ocidental — precisamente para neutralizar a ascensão de governos mais à esquerda. A submissão acrítica de parte da imprensa europeia e da União Europeia a essa narrativa é um vexame histórico.


Tudo isso produz uma pauta que, na melhor das hipóteses, é a pauta das ONGs internacionais: bem-intencionada, moralmente confortável, politicamente inócua. Na pior, é a pauta de quem tenta encobrir o sol com a peneira e preservar intacta uma ordem global profundamente injusta, enquanto proclama, com ar virtuoso, a defesa abstrata da democracia. E no fundo, mesmo de um ponto de vista modesto, a diferença entre melhorar o mundo e mantê-lo como está consiste em haver, ou não, políticas públicas.

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