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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Os conflituosos tentáculos das políticas de Trump



Por Luiz Roberto Serrano, jornalista e coordenador editorial da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP



O ano de 2026 começa com um horizonte preocupante. No centro das tensões reina a postura do presidente Donald Trump, a caminho do seu segundo ano, deste também segundo mandato, pontuando ações internas e externas ao seu país, todas com enorme potencial para aumentar ou gerar conflitos seja com os cidadãos dos EUA ou no exterior.


Não à toa, os analistas diziam, após sua reeleição, que ele estava se sentindo mais à vontade para impor suas políticas do que na primeira vez que ocupara a Casa Branca. Isso ficou expresso, logo após a sua posse, pela escolha de seu secretariado (o equivalente ao ministério no Brasil), formado por uma equipe mais afeita às suas ideias e propostas do que a da primeira vez em que ocupara a cadeira de Abraham Lincoln.


No que tange ao nosso hemisfério, a ação mais espetaculosa foi o rapto do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, carregados aos EUA para serem julgados por narcoterrorismo, tráfico de cocaína e posse de armas, uma ação evidentemente ilegal sob a legislação internacional. Foi a primeira ação militar desse tipo dos EUA na América do Sul, que não ousou tanto nem nas suas interferências sobre o Brasil no golpe militar de 1964 e na derrubada do presidente chileno Salvador Allende, no Chile, em 1973, em que predominaram as ações políticas estadunidenses nos dois países em combinação com forças locais.


De olho no petróleo venezuelano


Maduro e Cilia aguardam julgamento nos EUA, e Trump se entende com a equipe restante de governo, principalmente Delcy Rodrigues, atual presidenta interina, que era vice do titular deposto. O alvo da ação trumpiana é o petróleo venezuelano, combustível que o presidente dos EUA defende na contramão das campanhas antipoluição lideradas pelos países participantes das COPs, que debatem bianualmente soluções para abrandar a poluição provocada pelo ouro negro no mundo – a última, de número 30, foi realizada em Belém do Pará, no Brasil, no ano passado.


Excetuado o caso da Venezuela, na América do Sul, Brasil, Colômbia e Uruguai têm governos à esquerda que, apesar disso, procuram construir boas relações com o atual mandatário norte-americano, visando especialmente às suas exportações para os EUA.


O Brasil conseguiu liberar uma extensa lista de produtos cujas exportações para os EUA haviam sido sobretaxadas – uns mais, outros menos –, e os presidentes Lula e Trump têm entabulado conversas aparentemente produtivas. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, se entendeu com Trump em uma conversa telefônica, depois de fazer vários discursos altamente críticos ao mandatário norte-americano e este tê-lo classificado como traficante de drogas com destino aos EUA.


Ainda na América, o outro front de atritos gerados por Trump é a Groenlândia, a maior ilha do mundo, com mais de dois milhões de metros quadrados de área, que fica ao largo do Canadá e perto dos EUA, e é rica em petróleo, gás natural e minérios.


A Groenlândia, historicamente, pertence à Dinamarca, da qual é um território autônomo com autogoverno. O degelo na região da ilha facilita a navegação de embarcações russas e chinesas pela região, e suas riquezas minerais atiçaram o interesse de Trump, que tem evocado o desejo de comprá-la ou, simplesmente, anexá-la. Dessa forma, além de se apoderar das riquezas minerais, protegeria a ilha de eventuais interesses de russos e chineses por suas matérias-primas.


A Dinamarca e os groenlandeses não concordam com as duas alternativas, nem os países da Comunidade Europeia – da qual os dinamarqueses fazem parte –, que enviaram, em solidariedade, forças militares para a ilha. Registre-se que , em função de sua posição estratégica, a Groenlândia já abriga bases militares norte-americanas. Conviverão bem?


Doutrina Donroe, inspirada na Monroe


Apesar da Doutrina Monroe se referir especifìcamente às Américas e ter sido rebatizada de Donroe, depois que Donald Trump a ressuscitou, o governo norte-americano não abandou seu interesse, nem seu intervencionismo, em outras partes do mundo. O Irã não tem sido deixado de lado, como mostrou, recentemente, o bombardeio das instalações nucleares em Fordow, Natanz e Isfahan naquele país, impactando as atividades de enriquecimento nuclear para a utilização em bombas atômicas.


Trump também se dedicou a estimular as recentes revoltas populares contra o regime dos aiatolás, motivadas por uma crise econômica que tem prejudicado o acesso da população a itens básicos de alimentação e saúde. Até esta sexta-feira, 16 de janeiro, o ímpeto do governo norte-americano que se dispunha a apoiar a revolta da população contra o regime dos aiatolás, que conta com simpatias russas e chinesas, foi abrandado pelos países árabes da região, aliados dos EUA, e por Israel. Estes países temem que o governo do Irã dispare bombas contra seus territórios como tática reativa aos seus problemas internos. Os próximos capítulos ainda estão indefinidos.


Trump não é nada modesto a respeito de suas atuações ao redor do mundo tendo como alvo a busca da paz em conflitos regionais. Publicamente, ele contabiliza que apaziguou oito guerras ao redor do mundo, a saber: Israel x Irã, Paquistão x Índia, Ruanda x República Democrática do Congo, Tailândia x Camboja, Armênia x Azerbaijão, Egito x Etiópia, Sérvia x Kosovo e Israel x Hamas. Trata-se de uma contabilidade considerada fantasiosa pela imprensa mundial, pois à exceção de suas intervenções no conflito Israel x Hamas, nos demais citados a participação norte-americana não foi além dos acompanhamentos diplomáticos naturais em casos de conflitos internacionais.


Renee Good, uma vítima norte-americana


No front interno, Trump continua sua guerra contra a imigração clandestina, caçando estrangeiros, especialmente latinos, coincidentemente em estados e cidades governados pelos seus adversários democratas. O último episódio rumoroso resultou na morte, não de um mais um latino, mas da norte-americana Renee Nicole Good, de 37 anos, como resultado de uma ação do ICE – Serviço de Imigração e Alfândega, em Minneapolis, no estado de Minnesota. Renee Good estava em conflito com policiais do ICE que realizavam apreensão de imigrantes em uma rua de Minneapolis e foi baleada quando fugiu com seu carro quando os policiais tentaram detê-la. Para o presidente Trump, o policial que disparou contra Renee agiu em legítima defesa e a vítima era uma “desordeira”. Não foi essa a interpretação dos milhares que participaram de manifestações de protesto em várias cidades norte-americanas.


Nota final: Trump propôs ao Congresso norte-americano um orçamento militar para 2027 na casa dos US$ 1,5 trilhão de dólares, aumento de US$ 500 milhões em relação ao deste ano de 2026, que seria em parte custeado pelas tarifas de importação dos EUA. Recentemente, o presidente dos EUA havia criticado a “estética” dos navios de guerra norte-americanos, sugerindo que novos deveriam ser desenvolvidos. O principal alvo dessa modernização seria a competição com a frota militar da China.

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