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| Michelle Kondrich/The Washington Post; photo by Jabin Botsford/The Washington Post; AP |
Há um erro recorrente quando se fala de Hitler e do nazismo: tratá-los como uma irrupção monstruosa, exterior à condição humana, como se fossem fruto de uma possessão demoníaca ou de uma exceção histórica irrepetível. Essa recusa em “humanizar” Hitler — no sentido rigoroso e inquietante do termo — não nos protege; ao contrário, nos desarma. Pois, se Hitler não era humano como nós, então nada do que aconteceu poderia voltar a acontecer. A história, no entanto, insiste em nos desmentir.
O mal político, como ensinou Hannah Arendt, não precisa de profundidade metafísica. Ele pode ser banal. Pode nascer da recusa em pensar, do abandono da responsabilidade individual, da adesão acrítica a slogans, líderes e identidades coletivas. Hitler não foi um mito; foi um homem comum que encontrou massas dispostas a abrir mão do julgamento, da pluralidade e da verdade factual em troca de pertencimento, ressentimento e promessa de grandeza.
Umberto Eco compreendeu isso ao falar de um “fascismo eterno”: não um regime fixo, mas uma tentação permanente do mundo humano. O fascismo reaparece sempre que o pensamento é substituído por crença, o debate por lealdade, e a política por guerra cultural. No Brasil, ele se manifesta no bolsonarismo, com sua aversão ao racionalismo, seu culto à força e seu desprezo pelas instituições. Mas também pode surgir à esquerda quando a política degenera em moralismo punitivo, como na chamada cultura woke, que muitas vezes abandona princípios universais dos direitos humanos em nome de uma justiça simbólica e retroativa.
O episódio em que uma descendente do rei Leopoldo foi impedida de participar de um evento ilustra bem esse perigo. Uma das maiores conquistas civilizatórias do direito moderno foi a não transmissão da culpa: ninguém responde pelo crime de outro. Leopoldo não foi condenado pela justiça, mas pela história — e isso é correto. O problema começa quando a história é usada como tribunal penal hereditário, dissolvendo a distinção entre responsabilidade política, memória histórica e vingança moral. Aí, o solo do direito começa a ceder.
Donald Trump e Adolf Hitler não são idênticos em contexto ou escala, mas são rigorosamente semelhantes em um ponto decisivo: o desprezo pelos valores civilizatórios que sustentam o direito internacional, a legalidade e a ideia de soberania limitada por normas. Ambos rejeitam a noção de que a força deva ser contida pelo direito. Para eles, soberania não é convivência entre iguais, mas dominação; não é limite, mas licença. Onde há obstáculo jurídico, veem fraqueza; onde há pluralidade, veem inimigos.
Quem apoia esse tipo de líder costuma dizer que “é diferente”, que “agora é outro tempo”. Também foi isso que muitos disseram nos anos 1930. O totalitarismo não se anuncia como barbárie; ele chega prometendo ordem, identidade e redenção nacional. Ele se alimenta da descrença nas instituições, da hostilidade à verdade factual e da ideia de que a política é um jogo de vencedores e derrotados absolutos.
Hitler, agora na cor laranja, circula livremente entre aqueles que acreditavam que a história havia nos vacinado. Não vacinou. A história não impede a repetição; ela apenas adverte. E só escuta o aviso quem ainda é capaz de pensar.



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