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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Trump, o “Luís XIV” da era digital



Por Gaudêncio Torquato, escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político


Há quem enxergue em Donald Trump um presidente; outros, um personagem. Nos últimos dias, ele parece querer ser as duas coisas ao mesmo tempo: governante e espetáculo. Ao rebatizar a velha Doutrina Monroe como “Doutrina Donroe” — um trocadilho que carimba no próprio nome a ideia de que o hemisfério ocidental teria um dono —, Trump não apenas provoca. Ele assina em letras garrafais uma concepção de poder: personalista, performática e transacional.

A comparação com Luís XIV (“o Estado sou eu”) funciona menos como diagnóstico psicológico e mais como metáfora política. O rei-sol governava com rituais e corte; Trump governa com slogans, vídeos curtos e frases de efeito. O que era Versalhes vira redes sociais — posts, fotos, vídeos, notícias, sites e aplicativos. A bravata, aqui, não é acessória: é método. Ao elevar a si mesmo a “marca” do Estado, ele desloca o debate das instituições para o ego — e isso tem consequências.

O trocadilho “Donroe” nasce em um contexto em que ele procura influenciar outros através de meios coercitivos, como força militar, sanções econômicas ou ameaças, forçando-os a agir de uma maneira que não fariam voluntariamente. Basta ver os rompantes de Trump alardeando o poderio militar dos EUA. No seu segundo mandato, ele tem sido o porta-voz de uma nova Guerra Fria. Como se sabe, a Guerra Fria foi o período de tensão geopolítica entre a União Soviética e os Estados Unidos e seus respectivos aliados, o Bloco Oriental e o Bloco Ocidental. Foi uma luta político-militar entre o socialismo e o capitalismo liderada pela União Soviética e Estados Unidos, entre entre 1947 e 1991.

Trump contrasta com o soft power (o poder brando), que usa atração cultural, ideológica e diplomacia para persuadir sem coerção. A operação dos EUA na Venezuela, com a captura de Nicolás Maduro, poder ser considerada como o ato inaugural de uma “nova Doutrina Monroe”, agora turbinada por um “corolário Trump”: hegemonia no hemisfério e expulsão de potências extrarregionais, sobretudo China e Rússia. No discurso, chama atenção o que falta: Trump fala pouco de democracia, e avisa que vai “administrar” o país e recuperar ativos e recursos, com o petróleo no centro da narrativa. Se a Doutrina Monroe dizia “a América para os americanos”, a versão Donroe soa como “o quintal tem dono — e é Donald”.

O fenômeno tem ao menos quatro camadas.

A primeira é comunicacional. Trump opera na lógica do choque: cria frases que dividem, saturam e obrigam adversários e imprensa a reagir. Ao nomear, ele enquadra. “Donroe” é uma peça de propaganda: simples, repetível, com humor agressivo e mensagem de mando. Ao mesmo tempo em que arranca risos, naturaliza a hierarquia. Quem aceita o apelido, aceita o pressuposto.

A segunda é psicológica no sentido político — não clínico. Sua autoestima no “cume de montanha” faz parte do roteiro populista: quer se apresentar como gigante e reunir a comunidade política em torno da bandeira Make America Great Again. A hipérbole (“senhor do mundo”) mobiliza identidades e funciona como anestesia para um desconforto real: a sensação de perda de controle num planeta multipolar, com guerras, migrações, competição tecnológica e ansiedade econômica. O ego do líder vira remédio simbólico para a insegurança coletiva.

A terceira é de gestão. A política externa aparece como negociação de CEO: tarifas como ameaça, soberania como variável e recursos estratégicos (petróleo e terras raras) como ativo. O Estado vira empresa, a diplomacia vira contrato; aliados viram “clientes”. Nessa lógica, a força militar é o “departamento jurídico” que garante a cobrança. O resultado é um estilo transacional que trata princípios como custo e reputação como moeda de curto prazo.

A quarta camada é sistêmica. A retórica de “esferas de influência” volta ao centro, lembrando o século 19. Ao reivindicar o hemisfério como quintal, Trump sinaliza ao mundo uma troca perigosa: menos regras e mais força; menos mediação e mais imposição. O recado não é apenas para Caracas: é para México, Colômbia, Brasil — e para Moscou e Pequim. Se cada potência obtiver “carta branca” no seu entorno, a ONU vira decoração e o Direito Internacional, conselho opcional. E, quando o comando vem em forma de meme, o risco é que decisões de guerra sejam tomadas na velocidade do aplauso e não do cálculo.

Para a América Latina, o perigo imediato é duplo. De um lado, governos podem cair na tentação de “torcer pelo xerife” só porque ele derruba um inimigo ideológico. De outro, setores antiamericanos podem converter toda crítica a Trump em indulgência com autocratas locais. Ambas as reações entregam ao líder estrangeiro o privilégio de pautar o debate interno.

O ponto central é soberania. A Doutrina Monroe, formulada em 1823, começou como alerta contra ingerências europeias, mas virou, muitas vezes, senha para tutela e intervenção. Ao “personalizá-la” como Donroe, Trump troca o verniz doutrinário por uma assinatura ególatra, como se dissesse que a região é extensão de sua vontade.

Para o Brasil, isso exige três atitudes: firmeza na defesa da não intervenção; pragmatismo para manter canais com Washington; e coordenação regional —porque países isolados viram presa fácil de chantagens tarifárias e “ofertas” de tutela.

Há, claro, um limite entre retórica e capacidade. Mesmo superpotências tropeçam quando tentam “governar” de fora: o Iraque continua como advertência. Mas a política é feita também de precedentes. Quando um presidente testa a fronteira do aceitável e não paga preço, a fronteira se move.

A pergunta, portanto, não é se Trump é megalomaníaco. A pergunta é que tipo de mundo nasce quando a megalomania vira estilo de governo e quando o “eu” se confunde com o “nós”. A “Doutrina Donroe” é, antes de tudo, uma doutrina de comunicação do poder: ela normaliza a ideia de que o destino de países pode ser decidido por quem tem músculo militar, por quem tem megafone midiático e apetite por recursos. Em tempos de líderes que confundem poder e espelho, a resposta não pode ser submissão ou bravata.

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