Vanessa da Mata provocou um verdadeiro alumbramento em Caicó. E não foi por acaso. Depois de décadas de contaminação auditiva pela lambada nefasta de bandas que jamais foram forró — como o fenômeno industrializado do Aviões — e pelo carnaval das micaretas de trio elétrico, a presença de uma artista com densidade estética expôs uma verdade incômoda: o público sabe reconhecer qualidade quando ela é oferecida.
A cena confirmou, com precisão quase pedagógica, a famosa tese do “bife” de Ariano Suassuna. “Dizem que cachorro gosta de osso. Ofereça-lhe um bife e um osso para ver qual ele escolhe”, ensinava o mestre. O problema nunca foi o gosto popular; o problema sempre foi a oferta deliberadamente ruim, repetida à exaustão, como projeto político de embrutecimento cultural.
No Rio Grande do Norte, as prefeituras gastaram, apenas em 2025, milhões de reais em shows. Não em cultura, mas em entretenimento de baixa qualidade, musicalmente pobre e socialmente nocivo. Trata-se de uma política pública às avessas: não educa, não eleva, não forma — apenas anestesia. É a demagogia sonora custeada com dinheiro público, um barulho caro que emburrece e ainda se vende como “evento”.
Em Caicó, a situação beira o patético. A prefeitura conseguiu errar até no que poderia ser um acerto. Trouxe Vanessa da Mata pagando praticamente o dobro do cachê habitual, para apresentá-la em um palco precário, com estrutura frágil e som ruim — uma violência estética contra a própria artista e contra o público. Quando havia a alternativa óbvia, racional e econômica: contratá-la para a Festa de Sant’Ana, evento que tradicionalmente dispõe de palco e estrutura grandiosos, compatíveis com o nível da artista.
Mas não. Preferiu-se o improviso caro e a má gestão. Em 2025 pagou-se R$ 600 mil por Henry Freitas — um produto descartável da indústria musical, artisticamente irrelevante, que não vale cinquenta centavos do ponto de vista cultural, mas custa uma fortuna aos cofres públicos.
O contraste é gritante e revelador. Quando se oferece o “bife”, o povo escolhe o bife. O que falta não é público qualificado, nem identidade cultural, nem capacidade de apreciação. O que sobra é gestão medíocre, populismo rasteiro e uma política cultural que trata o cidadão como alguém incapaz de distinguir valor de lixo.
No fim, Vanessa da Mata não apenas cantou em Caicó. Ela escancarou, sem querer, o fracasso de um modelo de gestão que confunde cultura com barulho, festa com política pública e gasto com investimento. E mostrou que o problema nunca foi o gosto do povo — foi sempre o desprezo de quem governa por ele.



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